Elisabeth Maria de Fátima Borges
elisabeth.borges@discente.ufg.br

Amone Inácia Alves
amone_alves@ufg.br

EIXO
Educação, tecnologia e linguagem

O TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO E AS INTER-RELAÇÕES ENTRE TRABALHO, EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL: A MOBILIZAÇÃO DOS SABERES PELOS CAMPONESES EM ITAUÇU-GO

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Resumo: Esta pesquisa objetiva analisar o trabalho como princípio educativo e a as inter-relações entre a educação formal e não formal, relacionando-as ao Projeto de Pesquisa “Saberes do campesinato - da cultura tradicional ao saber associativo: a luta por direitos, produzindo resistência em Itauçu- Go  (1960-2000)”. A metodologia utilizada foi a revisão bibliográfica narrativa. Os resultados apontam aproximações, mas também alguns distanciamentos entre Saviani (2007) e Brandão (2017), em suas análises do trabalho como princípio educativo. O mesmo ocorre nas análises sobre as inter-relações entre trabalho e educação formal e não formal entre Gohn (2011), Brandão (2017) e Kuenzer (2006). Conclui-se, pela pertinência de pesquisar a prática do trabalho como princípio educativo, bem como as inter-relações entre a educação formal e não formal na pesquisa sobre o campesinato itauçuense.

Palavras-chave: Trabalho. Educação não formal. Camponeses.

INTRODUÇÃO

A concepção ampliada de educação tem instigado os pesquisadores a se voltarem para as práticas educativas que ocorrem fora dos ambientes escolares. Partindo dessa perspectiva, essa comunicação visa analisar os conceitos de trabalho como princípio educativo e as inter-relações entre a educação formal e não formal, objetivando observar as convergências e divergências entre seus autores (Brandão, 1985, 2007, 2017; Gohn, 2011; Kuenzer, 2016; Saviani, 2007).

Objetiva-se analisar a aplicabilidade desses conceitos na Pesquisa “Saberes do campesinato - da cultura tradicional ao saber associativo: a luta por direitos, produzindo resistência em Itauçu- Go (1960-2000)”, verificando se eles podem ser utilizadas para compreender a realidade desse grupo.

METODOLOGIA

A metodologia consiste em uma pesquisa de revisão bibliográfica narrativa, na qual mostra-se os pontos convergentes e divergentes entre os autores, analisando a viabilidade de aplicação desses conceitos na pesquisa “Saberes do campesinato - da cultura tradicional ao saber associativo: a luta por direitos, produzindo resistência em Itauçu- Go  (1960-2000)”.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO

Saviani (2007),mostra que o trabalho é a essência do homem, ou seja, são os próprios homens que produzem a essência humana através do trabalho. Define trabalho como “o ato de agir sobre a natureza transformando-a em função das necessidades humanas” (Saviani, 2007, p. 15). É a partir desta perspectiva que o autor inicia a sua discussão sobre trabalho e educação, enfatizando que o homem “não nasce sabendo produzir-se como homem". Ele necessita “aprender” e que essa produção humana é um processo educativo.

Brandão (2017), também aborda a relação entre trabalho e educação, apresentando a produção humana como princípio educativo. Ao definir o que é educação ele reafirma o conceito ampliado de educação, também critica os formalistas pedagógicos que veem a educação apenas nos sistemas restritos da pedagogia. Pontua que as classes subalternas (dentre as quais ele cita os camponeses) nem sempre têm acesso ao saber formal, “mas são cheios do saber que existe na prática, criam e recriam a sua própria educação” (Brandão, 2007, p. 106). E que é esse saber que eles usam para resistir. Quais saberes os camponeses de Itauçu utilizaram na luta contra a expropriação causada pelo avanço do capitalismo no campo? Quais saberes tradicionais foram utilizados na suas lutas e na formação de sua identidade de resistência?

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 Brandão (2007), aponta que as classes subalternas são capazes de redescobrir velhas e novas formas de atualizar o seu saber, tornando-o orgânico, possibilitando a criação de outras formas de organização (sindicatos associações). Para ele, esses movimentos geram outras formas de aprendizagem popular, formam outros mestres entre os sujeitos, criando outras situações de aprendizagem popular. Defende a necessidade de se pesquisar a mobilização desses saberes, afirmando que são nestes contextos que surgem as experiências mais inovadoras de educação no Brasil. Quais saberes tradicionais os camponeses de Itauçu mobilizaram nas lutas por seus direitos? Seria correto afirmar que ali houve uma experiência inovadora de educação? 

Analisando as duas obras fica nítido que os dois autores têm aproximações, mas também alguns distanciamentos. As aproximações ficam nítidas na concepção de trabalho como princípio educativo, na defesa da relação entre trabalho e educação e na sua indissociabilidade, bem como na concepção ampliada da educação. 

Alguns distanciamentos entre os autores são nítidos, por exemplo, enquanto Saviani (2007), apresenta o trabalho enquanto categoria ontológica (razão de ser das coisas), que já vem constituído pronto, natural e alienado, Brandão (2007; 2017), analisa o trabalho enquanto libertação. Enquanto para Saviani (2007), o homem se desumaniza no processo de trabalho, Brandão (2017), defende que o trabalho, na educação popular, é de fato formativo, transforma as pessoas em ser humano, enfim humaniza. Talvez essa diferença resida no fato de que enquanto Saviani (2007), está pensando em uma educação institucional, formal, Brandão (2007; 2017), está pensando na educação desenvolvida na cultura popular, enfim, seus objetos são diferentes. A seguir serão apresentadas as inter-relações entre trabalho, educação formal e não formal.

AS INTER-RELAÇÕES ENTRE TRABALHO, EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL

Ao analisar as inter-relações entre trabalho e educação, Brandão (2017, p. 385) cita a fala de Antônio Cícero de Souza, popular Ciço, um camponês mineiro. Ciço, narra como o camponês é imbuído de educação não formal: “O meu saberzinho que já é muito pouco, veio de aprender com os antigos, mais que da escola. Veio a poder de assunto, mais do que de estudo regular”, a fala mostra que no mundo do trabalho do campo a produção humana exerce um significativo princípio educativo, pois ali a educação não formal é mais presente e mais útil no mundo do trabalho que a educação formal. 

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A fala de Ciço trazida por Brandão (2017), também apresenta uma crítica e educação formal escolar oferecida nas escolas do campo, que não leva em conta o contexto do campo, uma educação na perspectiva urbana, e que não lhes é útil no trabalho. Ele evidencia o paradoxo que existe entre o saber formal com o cotidiano dos camponeses, além de mostrar a importância da educação não formal no campo. Ciço denomina o conjunto de saberes não formal dos camponeses como o “saber do roceiro”, ele diferencia o saber formal de saber informal dizendo que o primeiro tem estudo, e o segundo não tem, “mas tem um saber” (Brandão, 2017, p. 384).  A sabedoria de Ciço, oriunda do mundo do trabalho no campo, comprova o princípio educativo do mundo do trabalho. A pesquisa “Saberes do campesinato - da cultura tradicional ao saber associativo: a luta por direitos, produzindo resistência em Itauçu- Go  (1960-2000)” pretende analisar quais saberes não formais foram mobilizados pelos camponeses itauçuenses nos movimentos sociais do campo.

Nesta perspectiva Gohn (2011), converge com Brandão (2007; 2017) e Saviani (2007), ao defender a concepção ampliada de educação, bem como a existência de outros espaços educativos. Analisando a relação entre os movimentos sociais e educação, a autora também refuta a tese de que a educação se resume à educação escolar, e defende que existem aprendizagens e produção de saberes em outros espaços, aos quais ela denomina de educação não formal. 

Tal como Brandão (2007; 2017), Gohn analisa os movimentos sociais como espaços educativos, mostrando que a participação em movimentos e ações coletivas produz aprendizagens e saberes, a educação não-formal. Defende que existe um caráter educativo nos movimentos sociais, que alcança tanto os membros da sociedade civil e até órgãos públicos, quando esses são envolvidos em suas negociações.  Para a autora, “uma das premissas básicas a respeito dos movimentos sociais é: são fontes de inovação e matrizes geradoras de saberes” (Gohn 2011, p. 333).

Gohn (2011), mostra que os pesquisadores que se debruçam sobre esses saberes devem também analisar as redes de articulações que os movimentos sociais tecem em suas práticas, apresentando também o contexto econômico, político e social nos quais estão inseridos. Quais são as redes de articulações que os camponeses de Itauçu teceram no processo de organização dos movimentos sociais do campo na região? Que saberes essas articulações trouxeram aos sujeitos envolvidos?  Essas são algumas das indagações que se pretende responder ao longo da pesquisa.

Gohn (2011), inova ao apresentar uma tipologia das múltiplas aprendizagens que emergem da participação dos sujeitos nos movimentos sociais, seja durante ou depois de uma luta: Aprendizagem prática; Aprendizagem teórica; Aprendizagem técnica instrumental; Aprendizagem política; Aprendizagem cultural; Aprendizagem linguística; Aprendizagem sobre a economia; Aprendizagem simbólica; Aprendizagem social; Aprendizagem cognitiva; Aprendizagem reflexiva; e Aprendizagem ética. Pretende-se analisar quais dessas aprendizagens os camponeses itauçuenses adquiriram ao participar dos movimentos sociais do campo.

Nesta perspectiva Kuenzer (2016) converge com Gohn (2011), Brandão (2007; 2017) e Saviani (2007) na defesa de uma concepção ampliada de educação, bem como a existência de outros espaços educativos. A autora analisa a formação dos trabalhadores no espaço de trabalho, partindo do pressuposto de que o conhecimento não se restringe às aprendizagens formais.

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Analisando as três obras fica evidenciados aproximações e distanciamentos entre Zuenzer (2016), Gohn (2011) e Brandão (2007; 2017). As aproximações ficam nítidas no reconhecimento das inter-relações entre trabalho, educação formal e não-formal, bem como da concepção ampliada da educação. Todavia, alguns distanciamentos entre os autores é promovido pelo próprio objeto da pesquisa. Brandão e Gohn se aproximam na análise das articulações dos movimentos sociais como a educação. Brandão (2007), mostra que quando os setores populares começam a empreender novas formas de luta e resistência, eles redescobrem velhas e novas formas de “atualizar” o seu saber não-formal, tornando-o orgânico. Destacando que neste processo eles criam outras formas de associação, como os sindicatos e as associações, gerando neste processo outros tipos de mestres e outras formas de aprendizagem popular entre o grupo.  Brandão traz a educação no plural, fala em educações. Nesta perspectiva Gohn (2011) defende que a educação abrange várias áreas: formal (nas escolas), não formal (através das práticas educativas de formação em prol da construção da cidadania) e informal (através da socialização dos indivíduos no ambiente familiar de origem). 

Tanto Gohn (2011) quanto Brandão (2007; 2017) demonstram a importância histórica dos movimentos sociais e suas práticas educativas. Ambos destacam que os movimentos sociais representam aos sujeitos empobrecidos forças sociais, pois se tornam um espaço de experimentação social, nos quais seus saberes da experiência são retomados, recriados dia-a-dia nas adversidades das situações que enfrentam. Já Kuenzer (2016) nos apresenta a importância da questão dos espaços formativos comprometidos com a crítica visando a construção de um projeto contra-hegemônico, que colabore para a emancipação dos trabalhadores.

Brandão (2007) e Gohn (2011), se aproximam ao abordarem os espaços onde se desenvolve a educação não formal, mostrando que são variados, desde o cotidiano da casa e do trabalho até as associações, igrejas, sindicatos, partidos políticos e espaços culturais. Ambos defendem que nos movimentos sociais existe um intrínseco processo de inter-relações entre trabalho, educação formal e não formal. Todavia Kuenzer (2011), se aproxima também de Brandão (2007) e Gohn (2011) ao mostrar as aprendizagens que ocorrem no ambiente de trabalho. As três obras acima citadas evidenciam as inter-relações entre trabalho e educação formal e não-formal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto fica nítido a importância da implementação de pesquisas que partam do princípio do trabalho como princípio educativo, bem como das inter-relações entre a educação formal e não formal.

Este é um movimento que se pretende realizar na execução da Pesquisa “Saberes do campesinato - da cultura tradicional ao saber associativo: a luta por direitos, produzindo resistência em Itauçu- Go (1960-2000)”, na qual pretende-se indagar quais saberes tradicionais os camponeses  itauçuenses mobilizaram nas lutas por seus direitos, no âmbito do trabalho no campo, bem como os novos saberes que adquiriram, ao se organizarem em uma associação, ou seja, quais saberes associativos foram adquiridos neste processo. Portanto, conclui-se que as as categorias de análise identificadas aliadas a uma análise documental e a entrevistas com os camponeses, possibilitará aprofundar a compreensão da realidade estudada.

REFERÊNCIAS

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BRANDÃO, C. R. A educação como cultura - Memórias dos anos sessenta. In: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 23, n. 49, p. 377-407. Set/dez/2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ha/a/JXKXLMzzHtJCsDBJ74gqndF/?format=pdf. Acesso em: 02 out. 2024

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Coleção Primeiros Passos).

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Lutar com a palavra - escritos sobre o trabalho do educador. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais na contemporaneidade. in Revista Brasileira de Educação. V. 16. n. 47, maio-ago 2011. Acesso em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/vXJKXcs7cybL3YNbDCkCRVp/?format=pdf. Acesso em: 02 out. 2024

KUENZER, Acácia Zeneida. A formação de trabalhadores no espaço de trabalho. Trabalho Necessário, v.14, n.25. Niterói, 2006. Acesso em: http://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/about/contact . Acesso em: 02 out. 2024

SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: Fundamentos ontológicos e históricos. In Revista Brasileira de Educação. V. 12, n. 34, jan/abr. 2007. Disponível em: 1-4_iniciais.p65 (scielo.br). Acesso em: 02 out. 2024

Notas

1. Graduação e Mestrado em História UFG. Doutoranda em Educação pelo PPGE FE UFG. Professora no Centro Universitário Mais . UNIMAIS.

2. Graduação em História (UESB), Mestrado em Sociologia (UFPR) e doutorado em Educação (UFG). Professora no PPGE FE-UFG.