Soraya Vieira Santos
soraya_vieira_santos@ufg.br

Sheila Daniela Medeiros dos Santos
sheila_santos@ufg.br

Maraiza Oliveira Costa
maraiza@ufg.br

Millena Borges Rodrigues
millena.borges@discente.ufg.br

EIXO
Educação, tecnologia e linguagem

LITERAR COM A INFÂNCIA: POSSIBILIDADES DE ENFRENTAMENTO ÀS TELAS DIGITAIS

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Resumo: Este trabalho refere-se a uma ação de extensão desenvolvida no ano de 2024 como continuidade de dois projetos anteriores intitulados: "Literar com a infância no enfrentamento do (des)conhecido", realizado durante o período de isolamento social em decorrência da pandemia de COVID-19 nos anos de 2020 e 2021, e do projeto "Literar com a infância: tempo de ler", realizado no ano de 2023. Com o êxito das duas propostas mencionadas e a ampla participação da comunidade interna e externa à UFG nas edições precedentes, buscou-se enfatizar, na edição atual, a formação cultural por meio de leituras literárias com maior abrangência de temáticas. Neste contexto, a presente ação de extensão objetivou proporcionar o “literar” com e na(s) infância(s), promovendo a leitura literária para estudantes, professores e futuros professores, e para a comunidade em geral, com a sugestão de leituras de diferentes gêneros e propostas de diálogo que pudessem possibilitar a reflexão contínua entre os participantes, considerando os impasses e entraves da cultura digital na atualidade. Com base no referencial teórico de Britto (2012), Chambers (2023), Desmurget (2023) e Machado (2009), selecionou-se livros literários infantis para as sessões coletivas de leitura que ocorreram de junho a novembro de 2024. Como resultados, observou-se que a referida ação de extensão, a partir da provocação de que a literatura infantil deve ser enfatizada em detrimento das telas digitais, estimulou a formação de clubes de leitura, a visitação de bibliotecas e livrarias, além da criação de momentos compartilhados de contação de histórias. Por fim, a partir da ação de extensão realizada concluiu-se que “literar” é ler priorizando a criação do novo, com base na apresentação de diferentes perspectivas sobre determinado assunto e no levantamento de problematizações e questionamentos críticos com vistas à formação cultural e humana.

Palavras-chave: Literatura Infantil. Leitura. Cultura digital.

1 INTRODUÇÃO

Saldanha e Amarilha (2016), fundamentadas em Candido (2011), afirmam que a literatura é um direito humano e é cultura. Britto (2012), por sua vez, assevera que é preciso valorizar a literatura não apenas como possibilidade de realização da liberdade e do autoconhecimento, mas também como prática social circunstanciada que favorece os processos de atuação e intervenção na sociedade de modo crítico.

Ao ter em vista a complexidade do processo de ler como uma prática que possibilita a construção humana e a interação entre povos de diferentes origens (Saldanha & Amarilha, 2016), a leitura de livros de literatura infantil para futuros professores contribui com a formação cultural e política (Freire, 1989), com a formação dos gostos (Britto, 2012) e com a formação crítica para as futuras escolhas das leituras que os professores farão (Dalla-Bona & Fonseca, 2018). Daí a necessidade de envolver estudantes de licenciatura em projetos que incentivam e possibilitam a leitura de narrativas literárias.

É importante lembrar que uma obra literária não é um mero reflexo das palavras do autor reproduzidas ao leitor, mas é o resultado de uma interação ao mesmo tempo receptiva e criadora, e profundamente dependente da mediação da escola para auxiliar o leitor a preencher as lacunas deixadas pelo autor, no sentido de auxiliá-lo a entrar no jogo do texto, a mergulhar no mundo da imaginação e da ficção, e a dominar a linguagem literária para reconstruir o universo simbólico contido nas palavras (Dalla Bona & Fonseca, 2018).

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Com base nesses pressupostos, desenvolveu-se anteriormente dois projetos de extensão, nomeados: “Literar com a infância no enfrentamento do (des)conhecido” (em 2020 e 2021) e "Literar com a infância: tempo de ler" (em 2023). Ambos os projetos obtiveram excelentes resultados, uma vez que não apenas facilitaram o acesso a acervos de livros e contação de histórias, como também funcionaram como notáveis disseminadores da literatura infantil. Ademais, estes projetos favoreceram experiências de leitura estimulando a criação de espaços para (re)pensar as narrativas e aprender com o novo.

Em termos quantitativos, estes dois projetos alcançaram aproximadamente: 1.076 seguidores no Instagram, 135 seguidores no Facebook e 790 inscritos no Youtube. Dentro das temáticas propostas foram elaboradas mais de 100 postagens, sendo 37 vídeos para o Youtube, que juntos somaram quase 15.909 visualizações (Instagram: @literarcomainfancia; Facebook: /literarcomainfancia; e Youtube: Canal Literar com a Infância).

Desse modo, tendo em vista o êxito dos dois projetos mencionados e o contínuo desejo expresso dos participantes e novos interessados em sua retomada e continuidade, procurou-se reeditá-los em uma única proposta, sob o título: “Literar com a infância: experiências e desafios à leitura na cultura digital”, desta vez, com o objetivo de promover a leitura literária para estudantes, professores e futuros professores, e comunidade em geral, com a sugestão de leituras de diferentes gêneros e propostas de diálogo que pudessem permitir a reflexão contínua entre os participantes, considerando os impasses e entraves da cultura digital na atualidade.

2 METODOLOGIA

O Projeto de Extensão “Literar com a infância: experiências e desafios à leitura na cultura digital” realizou-se coletivamente, com a participação de estudantes e docentes dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG) e estudantes e docentes do Instituto Federal de Goiás (IFG). A partir de reuniões que ocorreram no mês de março de 2024, restritas à coordenação e membros da equipe executora, elaborou-se um cronograma de atividades para o referido ano e promoveu-se a divulgação do projeto nas redes sociais.

Deste modo, o projeto de extensão desenvolveu atividades de março a dezembro de 2024. As sessões de leitura, com duração de 45 minutos, ocorreram às quintas-feiras, das 18h15min às 19h. Participaram do projeto de extensão como membros efetivos da equipe executora: uma coordenadora, uma vice-coordenadora, seis colaboradores, sendo três externos e três internos, quatro participantes externos e nove discentes integrantes da equipe. Dentre estes membros, dois deles eram intérpretes em LIBRAS.

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A necessidade de contar com a presença de intérpretes em LIBRAS durante as sessões de leitura ocorreu em decorrência não apenas do fato de o projeto de extensão ter como perspectiva uma educação para a inclusão, mas sobretudo pelo fato de estudantes com deficiência auditiva, visual e com baixa visão estarem participando com frequência das sessões.

Em um primeiro momento, realizaram-se as seguintes atividades: socialização do texto que constituiu o projeto de extensão “Literar com a infância: experiências e desafios à leitura na cultura digital” para os membros da equipe executora inteirarem-se do conteúdo da proposta a ser viabilizada; socialização dos links de todo o material produzido nas edições anteriores do projeto de extensão “Literar com a infância”, incluindo o e-book e os vídeos (Santos et al, 2021), a fim de que todos os membros da equipe executora realizassem a leitura e a apropriação do referido material; apresentação prévia à equipe executora, de diversos livros literários para crianças, seguida de discussão e seleção para compor as sessões coletivas de leitura; participação do “Literar com a infância” em: lançamentos de livros, feiras literárias, fóruns de alfabetização e eventos acadêmico-científicos diversos com a apresentação de comunicações orais, palestras, minicursos e oficinas.

De modo simultâneo à concretização destas atividades, as sessōes literárias intituladas: “Fim de Tarde Literar”, ocorreram conforme tabela a seguir:

DATA LIVRO APRESENTAÇÃO MEDIAÇÃO
14/06/2024 A menina da cabeça quadrada – Emilia Nuñez Profa. Soraya Vieira Santos (FE/UFG) Tradução/Interpretação m LIBRAS: Profa. Edna Misseno (FE/UFG)
27/06/2024 Abrindo Caminho – Ana Maria Machado Profa. Sheila Daniela Medeiros dos Santos (FE/UFG) Intervenção: Hugo Vinícius Ferreira Silva (FE/UFG)
12/09/2024 A pele que eu tenho - Bell Hooks Profa. Rachel Benta Messias Bastos (IFG) Tradução/Interpretação em LIBRAS: Prof. Francisco Marcelo Bessa (IFG)
31/10/2024 O menino que queria ir – Blandina Franco e José Carlos Lollo Profa. Ana Beatriz Machado (IFG) Tradução/Interpretação em LIBRAS: Prof. Francisco Marcelo Bessa (IFG)
14/11/2024 Lá fora – André Neves Profa. Maraiza Oliveira Costa (FE/UFG) Intervenção: Profa. Ana Flavia T. Mendonça (FE/UFG)

Fonte: Relatório Parcial Projeto de Extensão: “Literar com a infância: experiências e desafios à leitura na cultura digital.

Em cada uma das sessões que ocorreram pela plataforma Google Meet, fez-se a leitura em tempo real de um livro de literatura infantil selecionado previamente pelos membros da equipe executora sem que houvesse a necessidade de um conhecimento anterior da obra pelos participantes. A leitura pública, seguida de diálogo e análise, possibilitou além da divulgação dos livros literários e de seus respectivos autores, a formação cultural e o desenvolvimento de um olhar crítico dos participantes, de modo a promover o “literar”. A equipe executora determinou que seriam emitidos certificados com carga horária de uma hora aos participantes de cada encontro específico. Definiu-se também que não seria exigido regularidade nos encontros para a obtenção do certificado, uma vez que o intuito era dar oportunidade a todos os interessados de participarem na medida em que tivessem disponibilidade.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

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De acordo com Meirelles (1984), a literatura não é um passatempo, mas é uma ferramenta para nutrir a capacidade imagética. Nesta mesma direção, Vigotski (2001) afirma que a literatura é um instrumento ímpar que proporciona a expressão das emoções e a descoberta de vivências na esfera da linguagem, assim como a ressignificação de conceitos.

Por conseguinte, na experiência com a literatura direcionada à infância, salienta-se o papel dos agentes mediadores (adultos ou outras crianças mais velhas) ao ofertarem material simbólico para que a criança descubra aspectos de sua identidade, assim como o sentido de pertencimento no mundo em que vive. Em outros termos, conforme Reyes (2010) enfatizou, descobrir que a imaginação nos dá a possibilidade de ser outra pessoa, descobrir que podemos sonhar, nomear, contemplar, comover e desvendar o novo em uma produção escrita por uma multiplicidade de autores ao longo da história, é o que dá sentido à experiência literária como expressão da humanidade.

Nessa perspectiva, o presente projeto de extensão mobilizou professores, em formação e em atuação, no ato de “literar” para e com as crianças. A partir da premissa de que a literatura infantil está sempre posta como possibilidade, seja como ferramenta ou como fim em si mesma, nos mais diversos contextos, este projeto evidenciou que os livros literários infantis não são pertinentes apenas para as crianças, mas fazem sentido sobretudo para os adultos.

Ademais, o projeto de extensão mostrou que uma experiência de leitura potente se revela na partilha entre o ouvinte e o contador da história, por exemplo, entre o professor e o aluno, ou entre familiares e crianças, em uma experiência singular de mediação, de interação com o texto, de reconstrução da narrativa. Esta assertiva merece destaque, pois é fundamental que os mediadores da leitura desenvolvam a noção de que sempre é preciso interrogar o texto, “analisar todos os aspectos da configuração textual” (Mortatti, 2001), para que a leitura seja crítica e não instrumental. Ainda que o livro não trate diretamente de um determinado assunto, ainda que não apresente abertamente um conteúdo, a leitura pode permitir a reflexão sobre o tema proposto se for conduzida nesse sentido.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente projeto de extensão, indubitavelmente, mobilizou professores em formação e em atuação, no ato de “literar” para e com as crianças. A partir da provocação de que a literatura infantil deve ser enfatizada em detrimento das telas digitais (Desmurget, 2023), este projeto, assim como em edições anteriores, incentivou a formação de clubes de leitura, a visitação de bibliotecas e livrarias e a criação de momentos compartilhados de contação de histórias. É importante salientar, conforme Desmurget (2023) que a literatura infantil coloca a criança em um “círculo virtuoso, pois quanto mais ela se dedica à atividade de leitura, melhor ela lê; e quanto melhor ela lê, mais prazer ela terá durante o ato de ler; e quanto mais prazer ela tem em ler, mais ela se sentirá instigada a buscar a leitura.

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Assim, na perspectiva de Britto (2012, p. 28), o ato de literar compreende uma visão ampla de leitura e de promoção de ações de leitura que se referem à inclusão dos sujeitos em um cenário em que haja práticas de leitura de forma mais densa, elaborada e inspiradora.

O conceito de “literar” que fundamenta o presente projeto se distancia, portanto, de uma concepção instrumental, bem como de uma ideia de autoajuda. Entende-se que: Literar é um ato de criação. É ler com novos olhos, é apresentar diferentes perspectivas sobre um mesmo assunto e levantar um questionamento crítico sobre determinado aspecto. Literar é ser neologismo: reagrupar partes e dar nova identidade ao todo. É estimular a leitura a partir do próprio ato de ler. É mostrar que a literatura nunca cai em desuso, e que há sempre algo inédito a ser descoberto e explorado.

REFERÊNCIAS

BRITTO, L. P. Leitura: acepções, sentidos e valor. Nuances, Presidente Prudente/SP, v. 21, n. 22, 2012, p. 18-31.

CANDIDO, A. O direito à literatura. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

CHAMBERS, A. Diga-me: as crianças, a leitura e a conversa. São Paulo: Cortez, 2023.

DALLA-BONA, E. M.; FONSECA, J. T. Análise de obras da literatura infantil como estratégia de formação do pedagogo/professor: saber ler, saber escolher. Educar em Revista, v. 34, n. 72, 2018, p. 39-56.

DESMURGET, M. Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais. São Paulo: Vestígio Editora 2023.

FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

MACHADO, A. M. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

MEIRELLES, C. Problemas da literatura infantil. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

MORTATTI, M. R. Leitura crítica da Literatura Infantil. Itinerários, Araraquara, v. 17, 2011, p. 179-187.

REYES, Y. A casa imaginária: leitura e literatura na primeira infância. São Paulo: Global, 2010.

SALDANHA, AMARILHA, 201. Literatura e formação do pedagogo: caminhos que (ainda) não se cruzam. Desenredo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo, v. 12, n. 2, 2016, p. 376-396.

SANTOS, S. V. [et al]. Literar com a infância no enfrentamento do (des)conhecido [E-book] Goiânia: Cegraf UFG, 2021. 125 p. : il

VIGOTSKI, L. V. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Notas

1. Doutora em Educação (FE/UFG), Docente adjunta na FE/UFG.

2. Doutora em Educação (UNICAMP), Docente adjunta na FE/UFG.

3. Doutora em Educação (USP), Docente assistente na FE/UFG.

4. Discente do curso de Pedagogia na FE/UFG, Bolsista PROLICEN/UFG.