Kayla Deusa Lopes de Sousa Morais
kayla@discente.ufg.br

Cinthia Alencar Pacheco
cinthia.pacheco@discente.ufg.br

Rosemara Perpetua Lopes
rosemaralopes@ufg.br

EIXO
Educação, tecnologia e linguagem

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E SEUS DESDOBRAMENTOS NA EDUCAÇÃO: PRIMEIRAS APROXIMAÇÕES

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Resumo: Este trabalho contém resultados parciais de uma pesquisa de iniciação científica em andamento, que tem o objetivo de contribuir para o aprofundamento do arcabouço teórico de análise de uma pesquisa mais ampla sobre a apropriação crítica de meios digitais na educação básica de Goiás, voltada a investigar interfaces entre Inteligência Artificial (IA) e educação, com foco na formação inicial de professores. Os resultados apresentados são fruto de uma leitura orientada sobre a obra “Inteligência Artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos”, os procedimentos metodológicos incluem leitura, fichamento de texto e relatório crítico. Dos achados, destacamos a origem do termo “inteligência artificial”, criado em 1956, sendo a primeira menção à capacidade de pensar das máquinas feita por Alan Turing, no artigo “Computing Machinery and Intelligence”. Decorridas algumas décadas, a OpenAI desenvolveu e divulgou o Chat GPT 3.5, evento que intensificou o debate acerca das possibilidades e dos riscos que as IA representam à educação. A preocupação se estende ao potencial criativo e à formação da capacidade crítica dos seres humanos, trazendo o questionamento de que estes atributos poderiam ser substituídos pelas máquinas e que a inteligência humana cairia em desuso. O estudo empreendido permite concluir que é possível que pessoas e máquinas possam coexistir, sem que umas anulem os potenciais das outras, desde que seja feito um uso crítico e consciente das IA pelos seres humanos. Neste caso, diferentemente de um cenário apocalíptico, em que as máquinas são inimigas da humanidade, prevalece a perspectiva de apropriação a partir de uma visão crítica sobre as potencialidades que as IA possuem e como elas podem contribuir em processos de ensino e aprendizagem, ao invés de reconfigurá-los radicalmente, pela via da substituição tecnológica.

Palavras-chave: Tecnologia. Inteligência Artificial. Educação.

1 INTRODUÇÃO

Ao abordar a criação da Inteligência Artificial (IA), Freire e Santos (2023, p. 123) retomam as palavras de Virilio (1993), assim enunciadas: “A invenção do navio é a invenção do naufrágio”. Tal citação exorta a refletir sobre os avanços tecnológicos, suas possibilidades e seus riscos. A discussão em torno dessa temática abrange questões éticas e sociais, que buscam compreender contextos e condições sob as quais o advento da IA pode beneficiar ou prejudicar a humanidade.

Diante de um cenário contemporâneo marcado por práticas sociais e culturais enredadas em torno de tecnologias digitais móveis, as quais têm como traço definidor a ubiquidade, este trabalho convida a refletir sobre a relação homem-máquina e seus desdobramentos, na perspectiva da educação, com enfoque nas redes públicas. Para tanto, apresentam-se resultados parciais de uma pesquisa de iniciação científica em desenvolvimento, vinculada a outra mais ampla, que investiga a apropriação crítica de meios digitais na educação básica de Goiás, com foco em IA e formação inicial de professores, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), via Pró-Licenciatura. Com o objetivo geral de contribuir para o aprofundamento do arcabouço teórico de análise dessa pesquisa mais ampla, busca-se identificar interfaces entre IA e educação, a partir de estudos científicos sobre o tema, um deles é a obra “Inteligência Artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos” (Alves, 2023), aqui abordada.

2 METODOLOGIA

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Tendo como fundamento teórico-metodológico Marconi e Lakatos (2015), procedeu-se a uma leitura orientada da obra “Inteligência artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos” (Alves, 2023), destacando pontos relevantes e/ou passíveis de discussão. Na perspectiva de um estudo exploratório sobre IA e educação, este trabalho se propõe a apontar e problematizar, brevemente, alguns pontos extraídos de Alves (2023), os quais compõem a complexa trama da relação homem-máquina, tendo como pano de fundo a formação e o trabalho do professor que atua na educação básica.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

De acordo com Boratto (2023), na década de 1950, Alan Turing foi o primeiro a mencionar a possibilidade de uma máquina ser capaz de pensar, no artigo “Computing Machinery and Intelligence”, nessa mesma década, surgiu o termo “inteligência artificial”. Decorridas algumas décadas, em 2022, a OpenAI divulgou o Chat Generative Pré-Trained Transformer (Chat GPT) 3.5, um chatbot capaz de simular o pensamento humano, baseado em conhecimento adquirido artificialmente, por meio do aprendizado de máquina.

Em uma época de popularização da IA, professores e pesquisadores devem ter a possibilidade de conhecer artefatos, como o Chat GPT e similares, e dispor de conhecimentos sobre o que essa nova tecnologia representa para as suas aulas e como a sua utilização pelos alunos afeta o trabalho em sala de aula. Conforme apontam Lopes, Moura e Lima (2023), esta tecnologia pode ser usada como assistente, em atividades de busca, seleção e leitura de artigos, apresentação e análise de dados, ou para consulta, opção que requer conhecimento específico que permita avaliar se as informações dadas pelo chatbot são confiáveis.

A suposta neutralidade da IA é questionada por Silva (2023), uma vez que ela pode veicular um viés colonialista e reprodutor das injustiças sociais e raciais existentes, reforçando estereótipos e contribuindo para a sua perpetuação, pois quem determina o que é “ensinado” para a IA seleciona qual história é “digna” de ser contada, o que conduz, por exemplo, ao racismo algorítmico, entre outras formas de preconceito.

Além disso, as interações humanas com os algoritmos possibilitam que eles coletem dados de quem navega na internet, acessada por dispositivos móveis ou não, inclusive, dados pessoais, que podem servir para o aprimoramento de produtos e serviços de empresas privadas. Segundo Barbosa et al. (2023), a plataformização, agregada ao capitalismo de vigilância, viabiliza o fornecimento de informações colaterais, ao fazer uso das IA em plataformas, por meio de excedentes comportamentais. Disso decorre a criação de perfis do consumidor, que poderão ser usados para a produção de anúncios e conteúdos personalizados, além de moldar opiniões e comportamentos, incidindo em questões éticas, políticas e também educacionais.

Esse movimento traz à tona a Inteligência Artificial Generativa (IAG), utilizada para criação e propagação de imagens e notícias falsas e violação de direitos autorais, conforme salientam Moura e Carvalho (2023). Alcançar um uso sustentável e crítico dessas tecnologias pela população, em geral, e alunos e professores, em particular, é ainda um desafio.

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O letramento digital é apontado por Barbosa, Bassani e Morelli (2023) como uma necessidade contemporânea, os autores resgatam o termo “literacia digital”, evidenciado pela primeira vez por Paul Gilster, em 1997, na obra “Literacia digital”, e apontam uma necessidade premente de formar pessoas letradas digitalmente, capazes de fazer uso autônomo das variadas tecnologias digitais existentes, entre elas, as de inteligência artificial, que tanto podem ser instrumentos de liberdade, quanto de servidão, a depender de como são utilizadas em tempos de mobilidade (Lemos, 2009).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa de iniciação científica aqui abordada perscruta e problematiza IA e educação, por meio de um estudo exploratório sobre a obra “Inteligência Artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos”. Atualmente em desenvolvimento, prevê continuidade do estudo a partir de outras obras científicas sobre o tema.

Resgatando o exposto, a possibilidade de uma máquina pensar foi cogitada pela primeira vez na década de 1950, por Alan Turing, no artigo “Computing Machinery and Intelligence”, sendo o termo “inteligência artificial” datado de 1956. O debate acerca das possibilidades e dos riscos da IA vem ganhando espaço no cenário global, após a OpenAI divulgar ao público, em 2022, o Chat GPT 3.5, uma inteligência artificial generativa capaz de simular uma conversa humana, a partir de comandos prévios, denominados prompts, e desenvolver textos baseados em conhecimentos adquiridos artificialmente, pelo aprendizado de máquina.

Esse contexto reforça a importância do letramento digital, para que o uso das IA seja feito de forma consciente e crítica, evitando o consumo e a propagação de informações enganosas, pois as IA podem apresentar erros, além de conteúdo enviesado, e levar, por exemplo, ao racismo algorítmico. Instaura-se, assim, um debate ético acerca do tema, que indaga sobre as fontes utilizadas para o aprendizado de máquina e a forma com que os dados da população se transformam em conteúdo para manipular opiniões e decisões. No bojo desse cenário, algumas perguntas insistem em se pronunciar: o que a educação tem a ver com isso? Indo além, um dia a dia com IA afeta o trabalho do professor e a formação do aluno? Serão as tecnologias da IA tratadas pela educação como mais uma tecnologia a ser ignorada ou subutilizada? Quais os rumos da educação pública brasileira à luz de investimentos como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) (Brasil, 2024)?

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Não se pretende responder a essas questões inquietantes, apenas convidar a refletir a partir delas, e, à guisa de conclusão, considerar que os elementos apontados neste trabalho emolduram um cenário marcado pela necessidade de debater os usos e as expectativas sobre IA na educação, na perspectiva de uma apropriação consciente e crítica de tais dispositivos tecnológicos, que podem se tornar aliados de estudantes e professores, refutando o argumento da substituição do trabalho intelectual e criativo do ser humano pela máquina.

REFERÊNCIAS

ALVES, Lynn (org.). Inteligência Artificial e educação: refletindo sobre os desafios contemporâneos. Salvador, Feira de Santana: Edufba, UEFS Editora, 2023.

BARBOSA, Débora Nice Ferrari; BASSANI, Patrícia Scherer; MIORELLI, Sandra Teresinha. Literacia digital para uma interação tecno-humana: experiências com o ChatGPT no ensino superior. In: Inteligência artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos. Salvador, Feira de Santana: Edufba, UEFS Editora, 2023. p. 205-217.

BORATTO, Murilo do Carmo. Inteligência artificial: breve histórico, conceito e reflexões. In: ALVES, Lynn (org.). Inteligência artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos. Salvador, Feira de Santana: Edufba, UEFS Editora, 2023. p. 21-31.

BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. IA para o bem de todos: proposta de plano brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028. Brasília: Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, 29 jul. 2024.

BRASIL. Plano Brasileiro de Inteligência Artificial: IA para o bem de todos. Brasília, DF: MCTI, 2024.

FREIRE, Wendel. Inteligência artificial generativa e os saberes científicos. In: Inteligência artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos. Salvador, Feira de Santana: Edufba, UEFS Editora, 2023. p. 123-135.

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodologia científica. São Paulo: Editora Atlas, 2003.

LEMOS, André. Cultura da mobilidade. Revista Famecos, Porto Alegre, n. 40, p. 28-35, dez. 2009.

LOPES, David Santana; MOURA, Juliana Santana; LIMA, Beatriz Oliveira de Almeida. Tensionamento do ChatGPT em práticas de ensino: possíveis diálogos com as Ciências da Natureza e a Matemática. In: Inteligência artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos. Salvador, Feira de Santana: Edufba, UEFS Editora, 2023. p. 91-105.

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MOURA, Adelina; CARVALHO, Ana Amélia A. Inteligência artificial para ensinar e aprender.  In: Inteligência artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos. Salvador, Feira de Santana: Edufba, UEFS Editora, 2023. p. 155-168.

SILVA, Jamile Borges da. As ciências sociais e o anjo da história: o racismo nas ruínas da inteligência artificial. In: Inteligência artificial e educação: refletindo sobre os saberes contemporâneos. Salvador, Feira de Santana: Edufba, UEFS Editora, 2023. p. 107-121.

Notas

1. Graduanda de Licenciatura em Pedagogia, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás (UFG), bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica (Pibic) da UFG.

2.Doutoranda em Educação, Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás (UFG).

3. Doutora em Educação, docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG) e professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UFG.

4. Fundada em 2015, por Elon Musk, a OpenAI é uma organização sem fins lucrativos, que tem como objetivo principal desenvolver IA que beneficiem a humanidade. Disponível em: https://openai.com/index/introducing-openai/. Acesso em 18 nov. 2024.