ENSINO DE HISTÓRIA E FERRAMENTAS DIGITAIS PARA APARELHOS CELULARES
237Resumo: A disseminação dos aparelhos celulares conectados à internet alterou, significativamente, a educação e o ensino de história. Dessa forma, é necessário que o meio acadêmico reflita sobre as dimensões práticas do conhecimento histórico, com o intuito de incrementar a aprendizagem dos estudantes. Este projeto procurou discutir as possibilidades e os desafios do uso das ferramentas digitais para dispositivos móveis nas aulas de história, enfatizando os recursos de Realidade Aumentada (RA) e Realidade Virtual (RV). Para tanto, a pesquisa objetivou elaborar um referencial teórico-conceitual sobre as tecnologias mobile no ensino de história, identificar as ferramentas de RA e RV adequadas e, por fim, produzir sequências didáticas que as utilizassem. A metodologia consistiu na pesquisa bibliográfica nos repositórios de artigos científicos, a fim de constituir o referencial teórico-conceitual. As obras encontradas foram submetidas à tabulação - o que permitiu a identificação das ferramentas de RA e RV viáveis em sala de aula e das possibilidades de sequências didáticas. O levantamento bibliográfico encontrou 37 trabalhos acadêmicos nacionais, porém poucas produções realizavam discussões do campo da história. Em geral, as pesquisas apontam que o uso consciente dos dispositivos móveis aproxima os indivíduos dos conteúdos estudados. Persistem, porém, entraves à implementação dessas tecnologias. Dentre as tecnologias de RA e RV mapeadas, destacam-se: BBC Civilizations AR, Google Arts & Culture, VrTimePlace e Android Sites in VR. Alguns exemplos de sequências didáticas encontrados são: materiais com marcadores de RA, modelagem de locais em 3D e jogos. Portanto, os estudos apontam que o uso responsável dessas tecnologias pode contribuir com a Aprendizagem Histórica. Cabe ressaltar que esse Resumo é a adaptação de um trabalho apresentado no 21º Conpeex.
Palavras-chave: Dispositivos Móveis. Ensino de História. Realidade Virtual.
INTRODUÇÃO
No século XXI, a Revolução Digital permitiu a disseminação massiva de aparelhos celulares conectados à internet – o que transformou a sociedade em seus diversos aspectos. Nesse contexto, a educação e, em especial, o ensino de história foram, severamente, impactados. Diariamente, são publicados diversos conteúdos de cunho histórico nas mídias digitais, no entanto muitos materiais são manipulados com o intuito de disseminar o radicalismo político e o negacionismo. Essas versões do passado na internet alcançam os estudantes. Por isso, torna-se fundamental o debate sobre as dimensões práticas do conhecimento histórico, de jeito que a formação discente se aproxime dos padrões de cientificidade universitários. Dessa forma, ao invés de decorarem um “bloco de conhecimentos positivos”, espera-se que os alunos desenvolvam uma aprendizagem histórica crítica à sua relação com o tempo e seus discursos (RÜSEN, 2011, p. 44-45).
Atualmente, os conteúdos educacionais da História e de outros campos do saber são, responsavelmente, difundidos, por meio das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC). Dentre elas, pode-se destacar os recursos de Realidade Aumentada (RA) e de Realidade Virtual (RV). A RA compõe um conjunto de ferramentas que mesclam o mundo real e objetos renderizados no computador (DE CASTRO; KAMPFF, 2021, p. 117). Já a RV aborda as tecnologias que, por meio de um visor de RV, permitem a exploração em 360º de ambientes virtuais (GALVÁN MALAGÓN; MORENO MARTÍNEZ, 2020, p. 2).
Assim, a pesquisa Ensino de História e Ferramentas Digitais para Aparelhos Celulares procurou discutir as potencialidades e os desafios relacionados à utilização das ferramentas digitais para dispositivos móveis nas aulas de história, enfatizando as tecnologias de RA e de RV. Para tanto, esse projeto orientou-se conforme os seguintes objetivos específicos: constituir um referencial teórico-conceitual sobre a temática, identificar as ferramentas mobile de RA e de RV adequadas à utilização em sala de aula e reconhecer possibilidades de sequências didáticas que empreguem-nas.
METODOLOGIA
238Inicialmente, buscou-se elaborar um referencial teórico-conceitual com textos nacionais relacionados ao uso das tecnologias mobile de RA e de RV nas aulas de história. Nessa etapa, houve uma pesquisa bibliográfica nos principais repositórios de artigos científicos (Google Acadêmico e Scielo). Contudo, a falta de produções nacionais específicas sobre a temática acarretou no desenvolvimento de um material complementar com textos em inglês e espanhol. Efetuou-se a tabulação das obras encontradas, de modo que se pôde destacar as informações importantes dos textos. Isso permitiu o registro das principais ferramentas virtuais de RA e de RV que poderiam ser empregadas em sala de aula, bem como das possibilidades de sequências didáticas com elas. Cabe apontar que, ao longo dos anos de 2023 e 2024, o trabalho foi apresentado em eventos, como no V ELEB e no 21º Conpeex.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante o levantamento bibliográfico, foram encontrados 37 textos acadêmicos em língua portuguesa que, ao menos, tangenciam o uso das tecnologias mobile na educação. A discussão sobre o uso dessas ferramentas no ensino de conteúdos históricos é realizada por diferentes áreas do conhecimento, como ciências da computação e museologia. Há, contudo, poucas obras que analisam essa temática, partindo das discussões do campo da História. No Brasil, destacam-se os trabalhos do professor Thomas Selau de Castro. Diante disso, elaborou-se um referencial complementar com 15 textos em inglês e 14 em espanhol.
A principal discussão proposta pelos estudos refere-se à tridimensionalidade no ensino de História. Frequentemente, os conteúdos abordados em sala de aula são muito abstratos para os estudantes, dificultando sua compreensão (BERNARDO; GORGULHO, 2017). Nesse contexto, as tecnologias de RA e RV aparecem como instrumentos tridimensionais que podem aproximar os discentes das temáticas estudadas, ao proporcionar maior concretude na representação dos conceitos históricos. Pesquisas empíricas apontam que os índices de aprendizagem e de motivação são maiores entre os alunos que exploraram tais tecnologias virtuais (CÓRCOLES-CHARCOS et al., 2023, p. 7-9; FERNÁNDEZ-MOYANO; REBOLLO; REMOLAR, 2021, p. 14-16). Ademais, foram verificadas outras benesses do uso desses dispositivos: a possibilidade de aprender por experiência própria (FERNÁNDEZ-MOYANO; REBOLLO; REMOLAR, 2021, p. 12), a democratização de espaços inacessíveis (DA SILVA; RUFINO, 2021, p. 147; ) e o desenvolvimento de um pensamento computacional (DE CASTRO; KAMPFF, 2021b, p. 115).
Esta pesquisa verificou, no entanto, que existem alguns entraves que dificultam a disseminação das ferramentas mobile de RA e de RV no ensino de história. Por mais que o interesse nessas tecnologias tenha crescido nos últimos anos, ainda compõem um nicho de mercado que foi pouco explorado e estudado (BERNARDO; GORGULHO, 2017). Essa conjuntura é potencializada no Brasil, que possui poucos aplicativos que abordem os interesses nacionais ou que estejam localizados em língua portuguesa. Outras dificuldades à disseminação dessas tecnologias no país são o despreparo profissional (CÓRCOLES-CHARCOS et al., 2023, p. 3; DE CASTRO; KAMPFF, 2021b, p. 115) e os custos da produção dos aplicativos.
239A partir do referencial teórico-conceitual, foram encontradas as seguintes ferramentas para smartphones: BBC Civilisations AR (RA), Google Arts & Culture (RA), VrTimePlace (RV), Rome Reborn (RV), Android Sites in VR (RV), CoSpaces Edu (RA\RV) e a Plataforma Eon-XR (RA\RV). Também, foi possível observar exemplos de sequências didáticas com tais tecnologias, como: a distribuição de marcadores de RA com informações adicionais em livros didáticos, mapas e museus, a modelagem de espaços e objetos em 3D e os jogos didáticos (gamificação).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A popularização dos smartphones permitiu a veiculação de diferentes conteúdos históricos na internet, afetando a educação e o ensino de História, de modo que a análise dessas ferramentas torna-se urgente. Este projeto procurou analisar as possibilidades e as dificuldades relacionadas à utilização das ferramentas digitais nos dispositivos celulares, destacando os recursos de RA e RV. A partir de um referencial teórico-conceitual, constatou-se que, no Brasil, há uma carência de discussões de historiadores sobre essas tecnologias. Apesar disso, a maioria das pesquisas aponta que o emprego consciente desses dispositivos pode incrementar a aprendizagem dos estudantes, aproximando-os dos conteúdos históricos. Persistem, porém, alguns desafios à implementação desses aparelhos, especialmente no Brasil. Portanto, este trabalho espera instigar a comunidade acadêmica a construir aulas com as ferramentas móveis de RA e de RV, a fim de que os alunos desenvolvam uma efetiva Aprendizagem Histórica.
REFERÊNCIAS
BARROS, José. O Projeto de Pesquisa em História: da escolha do tema ao quadro teórico. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
BERNARDO, Fabiana de Oliveira; GORGULHO, Talítha Maria Brandão. Objetos tridimensionais no ensino de história: concretude desnecessária?. Revista Brasileira de Educação Básica, nº 5, 2017. Disponível em: https://rbeducacaobasica.com.br/2017/08/21/objetos-tridimensionais-no-ensino-de-historia-concretude-necessaria/. Acesso em: 28 de agosto de 2024.
CÓRCOLES-CHARCOS, Mónica. et al. Uso de entornos de realidad virtual para la enseñanza de la Historia en educación primaria. Education in the Knowledge Society (EKS), Salamanca (Espanha), v. 24, 2023. ISSN: 2444-8729. DOI: https://doi.org/10.14201/eks.28382
DA SILVA, Luiz Gustavo Pereira; RUFINO, Hugo Leonardo Pereira. O ensino de história e o uso de realidade aumentada. REVISTA INTERSABERES, [S. l.], v. 16, n. 37, 2021, p. 138 - 159. DOI: 10.22169/revint.v16i37.2118. Disponível em: https://www.revistasuninter.com/intersaberes/index.php/revista/article/view/2118. Acesso em: 28 ago. 2024.
DE CASTRO, Thomas Selau de; KAMPFF, Adriana Justin Cerveira. Realidade Aumentada Na Educação: Algumas Reflexões. In: GIRAFFA, Lucia (Org.). Recursos digitais na escola: volume 1. Joaçaba: Editora Unoesc, 2021b. p. 111–127.
240FERNÁNDEZ-MOYANO, Jon A; REBOLLO, Cristina; REMOLAR, Immaculada. Learning History Using Virtual and Augmented Reality. Computers, vol. 10, n. 146, 2021. DOI: https://doi.org/10.3390/computers10110146
GALVÁN MALAGÓN, María Carmen; MORENO MARTÍNEZ, Noella Margarita. Realidad aumentada y realidad virtual para la la creación de escenarios de aprendizaje de la lengua inglesa desde un enfoque comunicativo. Revista DIM: Didáctica, Innovación y Multimedia, Barcelona (Comunidade Autônoma da Catalunha, Espanha), n° 38, 2020.
RÜSEN, Jörn. Aprendizado Histórico. In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora.; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão de Rezende (org). Jörn Rüsen E O Ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2011, p. 41 - 49.
Notas
1. Licenciando em História, Faculdade de História (FH), Universidade Federal de Goiás (UFG).
2. Doutor em História, Faculdade de História (FH), Universidade Federal de Goiás (UFG).