DESEJOS E ESPERANÇA EM PROL DA CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO LIBERTADORA
232Resumo: Este estudo qualitativo apresenta resultados de uma pesquisa realizada com jovens, dentre 14 a 19 anos de idade, matriculados nos Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio do Instituto Federal de Goiás com o propósito de verificar e analisar seus desejos e esperança no que diz respeito à educação. Para tal foram aplicados questionários com o intuito de traçar o perfil dos discentes bem como levantar informações sobre as reais necessidades dos discentes considerando que, na perspectiva freiriana, a educação deve ser libertadora, ou seja, capaz de proporcionar condições que contribuam para a construção de indivíduos críticos, transformadores da sociedade na qual estão inseridos e, principalmente, de suas próprias histórias de vida. A análise dos dados foi feita à luz dos estudos freirianos por acreditar que a educação deve ser um processo de libertação e não meramente uma transmissão mecanizada de conteúdos desconectados da realidade dos discentes. Espera-se que com este estudo professores e gestores educacionais possam refletir e fazer uma reelaboração de suas próprias ações em seus contextos escolares. Espera-se também que a prática de ouvir as reais necessidades dos discentes seja uma ação decorrente nas escolas brasileiras. Espera-se que a luta por mudanças na concepção do que é ensinar esteja sempre travada no âmbito escolar brasileiro.
Palavras-chave: Educação libertadora. Práticas pedagógicas. Sentimentos.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta resultados de uma pesquisa realizada com jovens matriculados nos Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio do Instituto Federal de Goiás com o propósito de verificar e analisar seus desejos e esperanças no que diz respeito à educação. Acreditando-se que cabe à escola ofertar aos alunos muito mais do que é proposto nos currículos escolares, foi que este estudo teve como norte as teorias freirianas. De acordo com Freire (2020), deve-se lutar por uma pedagogia libertadora, isto é, por uma educação que vise conscientizar os discentes de sua condição sócio-política a fim de que busquem mudanças em seus contextos sociais minimizando ao máximo possível as desigualdades existentes na sociedade. Em suma, o patrono da educação brasileira sustenta que a prática educativa precisa ser a junção da afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço da mudança. Ensinar exige querer bem aos educandos, conforme afirma Freire (2021, p. 141),
[n]ão importa com que faixa etária trabalhe o educador ou a educadora. O nosso é um trabalho realizado com gente, miúda, jovem ou adulta, mas gente em permanente processo de busca. Gente formando-se, mudando, crescendo, reorientando-se, melhorando, mas, porque gente, capaz de negar os valores, de distorcer-se, de recuar, de transgredir. Não sendo superior nem inferior a outra prática profissional, a minha, que é prática docente, exige de mim um alto nível de responsabilidade ética de que a minha própria capacitação científica faz parte. É que lido com gente. Lido, por isso mesmo, independentemente do discurso ideológico negador dos sonhos e das utopias, com os sonhos, as utopias e os desejos, as frustrações, as intenções, as esperanças tímidas, às vezes, mas às vezes, fortes, dos educandos. Se não posso, de um lado, estimular os sonhos impossíveis, não devo, de outro, negar a quem sonha o direito de sonhar. Lido com gente e não com coisas. E porque lido com gente, não posso, por mais que inclusive me dê prazer entregar-me à reflexão teórica e crítica em torno da própria prática docente e discente, recusar a minha atenção dedicada e amorosa à problemática o mais pessoal deste ou daquele aluno ou aluna.
Baseando-se em Freire (2021), a escola é construída por seres humanos e não por objetos, sendo assim, torna-se responsabilidade da escola cuidar dos sonhos, utopias, desejos, frustrações, intenções, esperanças dos educandos e não somente na transmissão de conhecimentos acadêmicos focando unicamente na obtenção de ascensão no mercado de trabalho, deixando de lado todos os sentimentos que compõem a magnitude do ser humano e todas as mudanças que o mundo vem passando com o fortalecimento da tecnologia.
Diante do exposto, surge o objetivo principal da pesquisa em tela: repensar as práticas escolares. Conforme afirma Falcão (2020), precisaremos “repensar a mochila do aluno” (p. 115). Não há como continuar com as antigas práticas pedagógicas sem ouvir as atuais necessidades dos discentes, ignorando todas suas experiências de vida com o emprego das tecnologias nas mais variadas atividades e interações sociais cotidianas. Faz necessário, portanto, que haja a junção das antigas e novas práticas, sendo necessário repensar a escola como um espaço de escuta, ambiente no qual se é permitido falar de sentimentos.
233“Sem saúde mental, é impossível aprender” (FALCÃO, 2020, p. 115). As escolas precisam ter como foco a saúde física e mental da comunidade como principal pilar em seus planos de trabalho.
2 METODOLOGIA
Conforme sabido, este estudo apresenta resultados parciais de uma pesquisa realizada com jovens matriculados nos Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio do Instituto Federal de Goiás com o propósito de verificar e analisar seus desejos e esperanças no que diz respeito à educação. Manter-se-á em anonimato os nomes dos noventa (90) discentes-participantes da pesquisa. Suas idades variam de 14 a 19 anos.
Os dados gerados foram providos de questionários com o objetivo de traçar o perfil dos discentes bem como levantar informações sobre as reais necessidades dos discentes considerando que, na perspectiva freiriana, a educação deve ser libertadora, ou seja, capaz de proporcionar condições que contribuam para a construção de indivíduos críticos, transformadores da sociedade na qual estão inseridos e, principalmente, de suas próprias histórias de vida. Para tal, foram elaboradas as seguintes perguntas:
Quais atividades lúdicas e de entretenimento você gostaria que a escola desenvolvesse?
Quais atividades artísticas e culturais você gostaria que a escola desenvolvesse?
Quais atividades esportivas e voltadas à saúde do corpo você gostaria que a escola desenvolvesse?
De tudo que você faz na escola, o que mais lhe proporciona bem-estar?
Qual o lugar mais acolher da escola?
Que ações a escola poderia ajudar a construir uma trajetória com mais saúde mental?
Que ações na escola poderiam ajudar a somar para seu bem-estar?
Instigados por essas perguntas, espera-se que gestores, professores e demais pesquisadores interessados por essa temática possam repensar sobre a realidade de suas escolas e comunidades surgindo novas práticas pedagógicas em prol da construção de uma educação libertadora. Estudos freirianos foram empregados na análise dos dados visto que o autor corrobora a ideia que ensinar não é transferir conhecimento, ensinar é ter esperança de que professores e alunos aprendam, ensinem, inquietam-se, produzam juntos e, assim, ambos igualmente se tornem capazes de resistir aos obstáculos. Freire (2021) afirma que a esperança faz parte da natureza humana, é uma espécie de ímpeto natural. Sob essa perspectiva, a escola deve ser um espaço que promova ações que despertem nos alunos esperança e alegria visto que, de acordo com o autor, não há ensino sem esses dois sentimentos.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
234Conforme mencionado anteriormente, os dados gerados para este estudo foram providos de questionários com o objetivo principal de levantar informações sobre as reais necessidades (desejos e esperança) dos discentes em se tratando de seu processo de ensino-aprendizagem. As perguntas, em geral, foram elaboradas tendo como foco o levantamento de atividades culturais, artísticas, esportivas, lúdicas e de entretenimento que poderiam ser desenvolvidas na escola com o intuito de proporcionar o aprendizado estimulando o bem-estar dos discentes. Para Freire (2021), ensinar exige reflexão crítica sobre a prática docente que envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer.
É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática. (...) quanto mais me assumo como estou sendo e percebo a ou as razões de ser de por que estou sendo assim, mais me torno capaz de mudar, de promover-me, no caso, do estado de curiosidade ingênua para o de curiosidade epistemológica (FREIRE, 2021, p. 40).
Ensinar, contudo, exige consciência do inacabamento, ou seja, o ser humano não tem seu destino predeterminado. Cada indivíduo é um ser único, responsável por traçar seus caminhos e segui-los. A arte de ensinar envolve perceber e escutar a singularidade do aprendiz.
A priori, sobre o que se ensinar, os discentes mencionaram que as escolas poderiam ofertar terapia, palestras, yoga, pilates, corrida, ciclismo, artes marciais, capoeira, dança, teatro, cinema, dentre várias outras atividades que pudessem promover interação entre eles. Segundo Hoff (2020), o contato entre as pessoas é um fator indispensável para a saúde mental dos discentes, proporciona-lhes bem-estar. Os relatos dos discentes corroboram a afirmação de Hoff (2020) visto que eles sentem necessidade de estar com os amigos e professores, sentem falta da liberdade que têm na escola, das atividades ao ar livre, dos eventos acadêmicos e das práticas esportivas bem como sentem falta de atividades que promovam a escuta ativa e momentos de relaxamento.
Freire (2021) sempre acreditou em uma educação que ensina a enfrentar riscos com amor. Educar é ensinar a aceitação do novo sem qualquer forma de discriminação. Segundo o autor, o amor pedagógico transforma e o mundo está precisando aprender sobre e com o amor. “O amor é um ato de compromisso com a libertação dos oprimidos, pois não é possível o amor quando há opressão” (FREIRE, 2022, p. 129).
235Ao serem questionados sobre o lugar mais acolhedor na escola, os discentes responderam: biblioteca, sala de aula, sala de artes, sala dos professores, sala do grêmio, teatro, quadra esportiva, banco do jardim, debaixo da árvore, o gramado, pátio. Pode-se perceber a partir destes relatos que embora foram citados ambientes fechados, os alunos relatam sentir prazer em estar ao ar livre em contato com a natureza. Paulo Freire foi alfabetizado por seus pais no quintal de sua casa escrevendo com gravetos no chão e, desta forma, defende que a educação somente ocorrerá de fato se estiver conectada ao cotidiano dos estudantes e às experiências emocionais que eles têm (FREIRE, 2020). Retorna-se ao princípio de que não há como ensinar a ciência sem ter ciência das necessidades físico-emocionais vivenciadas pelos alunos em seus lares (BARBOSA, 2020).
Em suma, para que haja mudanças na educação, ensinar precisa ser concebido como ato político que deve considerar essa situação de inconclusão como questão vital. Sempre há melhorias a serem feitas. Nas palavras de Kohan (2019, p. 154), “o mundo é excessivamente desigual para não fazer nada”. Como educador, Freire (2021) sempre acreditou na educação e em seu importante papel na sociedade. Ensinar exige a convicção de que a mudança é necessária e possível. O mundo é dinâmico, as situações se fazem novas a cada momento, e sendo assim, ninguém pode estar inserido neste contexto interagindo com outras pessoas, permanecer neutro, estático e, principalmente, exercendo as mesmas práticas pedagógicas ao longo dos anos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Baseando-se nos princípios freirianos discutidos ao longo deste estudo, pode-se concluir que o educador precisa ter apreensão da realidade que o cerca, ele precisa se mover com clareza em suas práticas docentes, conhecer as diferentes dimensões que caracterizam tais práticas, a fim de que se torne mais seguro em seu próprio desempenho. O educador acrescenta que ensinar exige reflexão crítica sobre a prática docente que envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer. A escola, portanto, deve desenvolver um papel de ato político cujo objetivo seja libertar os alunos por meio da consciência crítica, transformadora e diferencial, que emerge da educação como uma prática de liberdade. Desta forma, o discente terá condições de expor seus desejos e reeditar sua história com esperança, geralmente, marcada pela submissão de um sistema capitalista. Segundo Kohan (2019, p. 160), essa é a força motriz do pensamento educacional freiriano: “a história não está terminada; percebendo o mundo como é, percebe-se, também, que o mundo poderia ser de muitas outras maneiras”. Sendo assim, cada um – gestores, professores, alunos, comunidade – tem um papel fundamental no processo de ensino-aprendizagem do qual não se podem eximir.
REFERÊNCIAS
236BARBOSA, A. L. Nossa gente. In: O mundo pós-pandemia: reflexões sobre uma nova vida. (p. 366-376). 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Frontera, 2020.
FALCÃO, D. Educação básica privada e COVID-19. In: O mundo pós-pandemia: reflexões sobre uma nova vida. (p. 112-119). 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Frontera, 2020.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 75ª ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2020.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 67ª ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2021.
FREIRE, P. Ato de ler: em três artigos que se completam. 52ª Ed. São Paulo: Cortez, 2021.
HOFF, P. M. Saúde – saúde no mundo pós COVID-19: quo vadis? (p. 326-338). In: O mundo pós-pandemia: reflexões sobre uma nova vida. (p. 112-119). 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Frontera, 2020.
KOHAN, W. Paulo Freire mais que nunca: uma biografia filosófica. 1ª ed. Belo Horizonte: Vestígio, 2019.
Notas
1. Possui graduação em Licenciatura Plena em Letras pela Universidade Estadual de Goiás (2003); especialização em Gestão Educacional pela Universidade Estadual de Goiás (2005), em Língua Inglesa pela UniEvangélica (2005) e em Neurociência, Comportamento e Desempenho pela IPOG (2024); mestrado em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás (2010); e, doutorado em Letras e Liguística pela Universidade Federal de Goiás (2016). Atualmente é professora de Línguas portuguesa e Língua inglesa do Ensino básico, técnico e tecnológico mo Instituto Federal de Goiás (IFG) - Câmpus de Anápolis. Participa dos grupos de estudos "Panecástica" (IFG) e "NECULT (IFG)". Linha de pesquisa: língua, sociedade, cultura e educação.