NOVAS TECNOLOGIAS, ANTIGAS OPRESSÕES (?): REFLEXÕES SOBRE AS INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS E AS QUESTÕES DE GÊNERO NA PROFISSÃO DE PEDAGOGA EM FACE AO NEOLIBERALISMO
197Resumo: As inovações tecnológicas e digitais, desenvolvidas no atual contexto neoliberal, têm produzido impactos no mundo do trabalho, bem como no campo da educação e na profissão das pedagogas. Em termos de retrocessos, destacam-se o uso das tecnologias para maximizar as estratégias da mercantilização da educação, da precarização do trabalho docente e dos currículos. Reconhecendo que há uma maciça atuação de mulheres na área da pedagogia, e que as questões de gênero permeiam o mundo do trabalho, a presente produção acadêmica, de cunho qualitativo e desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica, objetiva suscitar reflexões sobre quais desafios as inovações tecnológicas e digitais podem representar na atuação profissional das pedagogas, a partir das perspectivas feministas. As investigações elucidam que as novas tecnologias não são fundamentalmente opressoras, mas podem ser usadas como tal quando aplicadas aos interesses neoliberais, incorporadas para acelerar processos de maximização de produtividade e lucros, como na educação (Freitas, 2018). Desta feita, observa-se que já estão em curso processos de precarização dos trabalhos das pedagogas, o que indica um potencial aumento de assimetrias sociais e econômicas. Sendo assim, considerar as inovações tecnológicas na educação e as questões de gênero e trabalho na contemporaneidade trata-se de uma reflexão urgente, sendo relevante investigar como tais avanços podem tanto perpetuar quanto desafiar estruturas de opressão, analisando as potenciais implicações sociais no mundo do trabalho, especialmente nas escolas e na profissão das pedagogas.
Palavras-chave: Novas Tecnologias. Educação. Gênero. Trabalho. Neoliberalismo.
1 INTRODUÇÃO
As inovações tecnológicas e digitais na contemporaneidade, tais como as redes sociais, o armazenamento e o compartilhamento de dados em nuvem e a inteligência artificial, como exemplos, têm produzido impactos no mundo do trabalho, bem como no campo da educação e nas profissões ligadas à pedagogia. Neste contexto, as tecnologias podem ter múltiplas aplicações, desde a utilização como recurso pedagógico, ou ainda para organizar e monitorar atividades profissionais, até o seu uso em disputas políticas e sociais que podem influenciar nas práticas profissionais dos professores, com possibilidades de avanços e retrocessos em diferentes níveis.
Em termos de retrocessos, destacam-se o uso das tecnologias para maximizar as estratégias da mercantilização da educação, da precarização do trabalho docente e dos currículos. Afinal, em face ao neoliberalismo, conforme são desenvolvidos novos meios de tratar as informações e métodos de ensino, as dinâmicas das relações interpessoais são diretamente afetadas (Freitas, 2018), o que nos implica a urgente reflexão e organização social a respeito de diretrizes éticas e políticas que protejam trabalhadores da educação, nessas realidades em implantação.
Também é sabido que as desigualdades produzidas no contexto neoliberal permeiam o avanço das tecnologias e da digitalização no mundo do trabalho, representando um risco real para a ampliação de assimetrias sociais, seja de classe, de raça e também de gênero. A graduação em pedagogia é ocupada majoritariamente por mulheres e, segundo dados do Censo Escolar de 2021, as mulheres compõem 96,3% do quadro de professores da educação infantil, 88,1% do ensino fundamental 1, e 66,5% do ensino fundamental 2 (Brasil, 2021). Logo, reconhecer que há uma maciça atuação de mulheres em uma área profissional é relevante para delimitar que as questões de gênero permeiam o mundo do trabalho. Sendo assim, quais são os desafios que as inovações tecnológicas e digitais podem representar na atuação profissional das pedagogas? É a esta reflexão que o presente trabalho se dedica.
2 METODOLOGIA
198Este trabalho é norteado pelos estudos feministas, posto que as “éticas feministas têm como propósito principal repudiar e por fim à opressão sofrida pelas mulheres e outros grupos historicamente oprimidos, estando, portanto, muito mais preocupadas [...] em provocar transformações político-sociais” (Zoboli, 2004, p. 27).
A presente produção, desenvolvida na vertente da pesquisa social, possui abordagem qualitativa, “ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes”. (Minayo, 2002, p. 21). Foi realizada uma pesquisa bibliográfica, com o levantamento de autores/as de referência, sobre os conceitos sobre trabalho, educação, neoliberalismo e inovações tecnológicas, de forma a “estabelecer um diálogo reflexivo entre as teorias e outros estudos com o objeto de investigação por nós escolhido” (Deslandes, 2002, p. 36).
3 DISCUSSÃO TEÓRICA
No contexto neoliberal, as influências das inovações tecnológicas e digitais se fazem cada vez mais presentes, no que alguns estudiosos denominam como “[...] ‘Revolução 4.0’ ou ‘Quarta Revolução Industrial’, sendo caracterizada pela ‘ultra aceleração’ na geração e difusão de novas tecnologias” (Vian, 2019). Perante as novas interações estabelecidas no cotidiano, cada vez mais vinculadas ao uso da tecnologia, torna-se crucial estudos que embasem práticas coletivas para o desenvolvimento de melhores futuros em meio a tantas transformações sociais, especialmente as que acontecem no mundo do trabalho.
Considerando que “as tecnologias digitais surgiram, então, como a infraestrutura do ciberespaço, novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas também novo mercado da informação e do conhecimento” (Lévy, 1999, p. 30), ao passo que nos deparamos com novas formas de conexão interpessoal e com a facilitação de alguns processos, também presenciamos a precarização dos empregos, o acirramento da competição de mercados e a rápida defasagem profissional diante das frequentes atualizações tecnológicas (Vian, 2019), o que aumenta o senso de vulnerabilidade às novas configurações sociais e econômicas.
No entanto, essa percepção de vulnerabilidade não é novidade para as mulheres, especialmente quando se trata de direitos e das relações sociais, pois como Simone de Beauvoir afirmou: “nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados” (Beauvoir, 1975). Ao atrelarmos tais reflexões ao contexto da tecnologia, é ainda mais importante reconhecermos o quanto os estereótipos de gênero expõem as mulheres aos preconceitos e à exclusão (Harding, 2008), ressaltando a relevância de examinarmos, tais desdobramentos no trabalho no campo da educação. Na perspectiva de gênero, o aligeiramento da incorporação das novas tecnologias no mundo do trabalho pode representar diversos riscos no que se refere à atuação das mulheres no campo profissional e que podem, sim, ser transpostos para a profissão de pedagoga, ainda que a tecnologia não seja requisitada como um trabalho fim para atuação em sala de aula ou com as crianças, por exemplo. Porém, alguns desafios podem ser elencados, tais como à imposição do uso das novas tecnologias para a realização das atividades burocráticas, como a criação e o compartilhamento de planos de aula e de portfólios, sem a
199capacitação nem a garantia de equipamentos adequados para tal, restando às educadoras à disposição pessoal e os custos de adquirirem o conhecimento e também os aparatos tecnológicos para desempenharem o que agora lhes é requisitado. Além disso, as profissionais se vêem expostas às constantes possibilidades de exposição e da violência online, ou seja, ameaças à privacidade dos sujeitos (Haraway, 2019), já que o uso das tecnologias muitas vezes amplifica discursos que afetam o trabalho pedagógico.
Outra coisa que também não é novidade no campo do trabalho da educação são os processos de vulnerabilização dos profissionais educadores diante dos interesses econômicos, considerando que “do ponto de vista pedagógico, estamos retornando ao que Saviani (1983) definiu como ‘tecnicismo’, no início dos anos 1980: [...] o tecnicismo volta completamente reformulado, ainda que conceitualmente seja o mesmo. Podemos chamá-lo de neotecnicismo” (Freitas, 2018, p. 104 apud Freitas, 1992).
Ou seja, novas tecnologias, antigas opressões! Logo, a importância em nos debruçarmos sobre os desafios da Revolução Empresarial 4.0 sobre a atuação profissional das mulheres pedagogas justifica-se em buscarmos compreender como, enquanto educadoras, podemos ser afetadas pelas mudanças em curso nas relações econômicas e de trabalho devido a incorporação das inovações tecnológicas e digitais nas relações sociais, inclusive nas relações escolares em tempos de neoliberalismo, posto que:
como trabalhador desqualificado e mais dependente de tecnologia, o magistério é mais descartável e torna-se um apêndice das plataformas interativas. Há ainda um terceiro elemento: os critérios de seleção dos estudantes em sala de aula, sendo mais facilmente adaptável aos planos de gestão de resultados e à flexibilização da força de trabalho. (Freitas, 2018, p. 107 e 108)
Além de todos os desafios apresentados, devemos ainda apontar a incorporação de plataformas virtuais visando o aumento de produtividade e de responsabilidades sobre o profissional de educação (Freitas, 2018), o que para as mulheres pode representar ainda mais sobrecarga de trabalho sob a ideia de que a tecnologia permite fazer mais, em menos tempo; e também o aumento de competitividade e da precarização das relações de trabalho, que impactam na atuação das pedagogas que precisam desenvolver habilidades e competências requisitadas para lidar com a tecnologia cada vez mais presente na rotina de trabalho escolar, como por exemplo, criar layouts em softwares de edição que, no senso comum amplificando pelas perspectivas neoliberais, seriam gratuitos, de simples acesso e manuseio para todos.
Observarmos que é imposto a cada professora a responsabilidade individual de lidar com tais desafios, sendo possível depreender que tudo isso é potencial para agigantar a desigualdade salarial e promover o aumento da feminização da pobreza, processos observados por Harding (2008) e Haraway (2019) em sociedades que passaram pela franca incorporação das tecnologias em áreas que se valem da mão de obra feminina.
200Faz-se mister reconhecer que as tecnologias não são, fundamentalmente, opressoras, mas podem ser usadas como tal quando incorporadas para acelerar processos de maximização de produtividade e lucros, como na educação (Freitas, 2018). É importante ainda ressaltar que, como agentes da sociedade, não estamos lidando com determinismos tecnológicos, posto que também podemos atuar, em alguma medida, sobre tais cenários e construir redes de colaboração e resistência a partir das tecnologias (Haraway, 2019).
Tendo em vista que “a libertação depende da construção da consciência da opressão, depende de sua imaginativa apreensão e, portanto, da consciência e da apreensão da possibilidade” (Haraway, 2019, p. 158), ao considerar as inovações tecnológicas na educação e as questões de gênero e trabalho na contemporaneidade, este trabalho reafirma a relevância de se investigar como tais avanços podem tanto perpetuar quanto desafiar estruturas de opressão, analisando as potenciais implicações sociais no campo do trabalho das pedagogas.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como trabalhadores e trabalhadoras em atuação no presente período histórico em que é produzida a revolução 4.0, temos enfrentado uma série de desafios, tanto no que tange nossa permanência no mundo do trabalho, quanto sobre a incidência das inovações tecnológicas sobre toda a nossa vida profissional. Nunca esteve tão presente o sentimento de que é preciso desenvolver habilidades tecnológicas e possuir equipamentos compatíveis com as inovações para ter acesso às melhores oportunidades, especialmente as trabalhistas. E engana-se quem pensa que na atuação das pedagogas, essas demandas não se fazem presentes.
Desde a educação infantil até os cargos de gestão escolar, o uso das tecnologias tem sido requisitadas às profissionais, ainda que não como trabalho fim no processo ensino-aprendizagem, porém segue produzindo impactos no cotidianos das trabalhadoras a nível material, requisitando a aquisição de equipamentos compatíveis; no nível formativo, já que trabalhadoras e trabalhadores precisam aprender e se adaptar aos novos conhecimentos tecnológicos; e, também, no nível das relações de trabalho, amplificando competitividades e precarizando os processos de trabalho.
Sabemos que enquanto humanidade, não iremos regredir quanto ao uso das tecnologias, no entanto, precisamos estar atentas e atentos aos desdobramentos que indicam um potencial aumento de assimetrias sociais e econômicas. Sendo assim, considerar as inovações tecnológicas na educação, e as questões de gênero e trabalho na contemporaneidade trata-se de uma reflexão urgente, sendo relevante investigar como tais avanços podem tanto perpetuar quanto desafiar estruturas de opressão, analisando as potenciais implicações sociais no mundo do trabalho, especialmente nas escolas e na profissão das pedagogas.
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
201BEAUVOIR, Simone de: depoimento [1975]. Por que sou feminista? Programa “Questionnaire”. Paris: Radio-Canadá, 1975. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YxUKvtW-8Ww. Acesso em: 12 Jan. 2024.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Resumo Técnico: Censo Escolar da Educação Básica 2021. Brasília, DF: Inep, 2021.
DESLANDES, Suely Ferreira. A Construção do Projeto de Pesquisa. In.: MINAYO, Maria Cecília de Souza (org). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2021.
FREITAS, Luiz Carlos de. A Reforma Empresarial da Educação: Nova Direita, Velhas Ideias. 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2018.
HARAWAY, Donna, Manifesto Ciborgue: Ciência, Tecnologia e Feminismo-socialista no final do século XX. In.: HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Pensamento Feminista: Conceitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.
HARDING, Sandra. Sciences from below: Feminisms, postcolonialities, and modernities, Raleigh, Duke University Press, 2008.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O Desafio da Pesquisa Social. In.: MINAYO, Maria Cecília de Souza (org). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2021.
VIAN, Carlos Eduardo de Freitas. O Brasil Na Revolução 4.0. Cepea Esalq/USP. Publicado em 10 Abril de 2019. [online] Disponível em: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/opiniao-cepea/o-brasil-na-revolucao-4-0.aspx. Acesso em: 12 Jan. 2024.
ZOBOLI, Elma Lourdes Campos Pavone. A redescoberta da ética do cuidado: o foco e a ênfase nas relações. Revista da Escola de Enfermagem da USP. v. 38, n. 1, p.21-27, 2004.
Notas
1. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação, na Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás.
2. Professora Orientadora no Programa de Pós-Graduação em Educação, na área de Educação, Trabalho e Movimentos Sociais, na Faculdade de Educação.