LITERATURA E EDUCAÇÃO CONTRACOLONIAL: IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO
187Resumo: Esta proposta de trabalho tem como objetivo refletir sobre a inter-relação entre literatura (em específico, a obra Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak), Educação em/para Direitos Humanos, Educação Contracolonial e Educação Antirracista. Durante o período de colonização no Brasil, entre os séculos XVI e XIX, ocorreu um etnogenocídio das comunidades indígenas, uma vez que o colonizador português — branco, cristão e heteronormativo — tinha como princípio a crença de que sua cultura e costumes eram superiores e corretos, devendo, portanto, ser impostos aos povos subjugados em suas colônias. Refletir sobre essa visão colonialista, que promoveu e ainda promove diversas formas de silenciamento e outras violências contra grupos considerados subalternizados, como as comunidades indígenas, torna-se imprescindível para que ações de Educação em/para os Direitos Humanos sejam pensadas, elaboradas e efetivadas, com o objetivo de estabelecer a dignidade e o respeito à vida dessas populações. A Educação em/para Direitos Humanos é um processo contínuo e multidimensional que visa promover o entendimento, respeito, proteção e promoção dos Direitos Humanos em todos os níveis da sociedade. Partindo de pressupostos teóricos sobre Educação em/para Direitos Humanos, Educação Contracolonial e Educação Antirracista, e metodologicamente embasada em pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo, demonstraremos que a literatura é uma ferramenta que permite variadas reflexões sobre a sociedade. Enquanto elemento artístico com papel humanizador, o trabalho com textos literários que abordem temáticas indígenas, como a obra Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak (2020), pode contribuir para a construção de uma sociedade mais equânime, antirracista e democrática. Desenvolver uma educação antirracista indígena, proposta por uma pedagogia contracolonial e democrática que valorize as histórias, costumes, culturas e tradições das pluralidades e diversidades dos povos indígenas, é fundamental para romper com a concepção eurocêntrica e construir uma sociedade que respeite a diversidade, valorize a pluralidade e promova a dignidade das comunidades originárias do território brasileiro.
Palavras-chave: Educação Contracolonial. Direitos Humanos. Literatura.
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como tema a reflexão sobre práticas contracoloniais e contra-hegemônicas, com o intuito de desenvolver uma educação que rompa com princípios racistas e discriminatórios direcionados aos povos indígenas. Desde o período da colonização, a sociedade brasileira é marcada por ações baseadas na ideia de superioridade e na imposição de uma cultura única e verdadeira, o que perpetua, ainda hoje, inúmeras situações de violência contra populações que não se enquadram no modelo do colonizador. Assim, torna-se imprescindível promover uma educação voltada para a democracia, liberdade, criticidade, respeito e para a valorização e identificação de todos.
Com o objetivo de analisar a literatura como uma ferramenta humanizadora e essencial para a promoção de uma educação antirracista indígena, a partir da obra Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2020), de Ailton Krenak, e de outros estudos relacionados à temática, busca-se compreender a importância de uma perspectiva contra-hegemônica. Essa abordagem é fundamental para lidar com o processo histórico da sociedade brasileira e, assim, desenvolver uma educação verdadeiramente democrática, libertadora, crítica e comprometida com os Direitos Humanos.
2 METODOLOGIA
188Este trabalho tem como base uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa. Estudos qualitativos visam enfatizar o conhecimento de uma determinada área que não pode ser quantificado, ou seja, não é representado numericamente. Esses estudos estão voltados para crenças, valores e ações, e se concentram na natureza do objeto de estudo, sendo realizados a partir das interpretações do pesquisador. A pesquisa bibliográfica, por sua vez, fundamenta-se em materiais já produzidos em uma área específica e aborda o tema trabalhado por meio de obras teóricas, como livros, artigos, periódicos, sites, entre outros, de forma a orientar o desenvolvimento do trabalho acadêmico (Brito; Oliveira; Silva, 2021).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Entre os séculos XIV e XIX, ocorreu o processo de colonização, não apenas no Brasil, mas em diversas regiões do mundo, caracterizado por explorações, violências e inúmeras formas de desrespeito às populações não europeias, especialmente da África e das Américas. Esse processo de invasão de territórios foi fundamentado em uma perspectiva colonialista que impunha a superioridade do colonizador. Em outras palavras, a história, cultura e costumes do colonizador eram considerados o único modo de vida verdadeiro e correto, enquanto todos os outros povos que não se encaixavam nesse modelo deveriam se submeter a essas imposições de conduta, o que resultou no etnogenocídio dessas populações.
Esse movimento colonialista foi sustentado, principalmente, pela noção de raça, promovendo a ideia do europeu – homem, branco, heteronormativo, de classe socioeconômica favorecida, cristão e patriarca – como superior.
Diante do ideal de que outras populações deveriam ser compreendidas como raças distintas, o racismo passou a ser legitimado como uma forma de ciência, ou seja, as pessoas que se diferenciavam do padrão europeu eram consideradas comprovadamente inferiores e irracionais. Portanto, caberia à raça tida como superior se impor entre essas populações, a fim de que elas se tornassem, ao menos, semelhantes ao que era considerado o padrão. Dessa forma, as discriminações passaram a ser justificadas pela ciência, e os povos não europeus, com todas as suas tradições, costumes, histórias e modos de vida, foram anulados e marginalizados, sofrendo diversas formas de violência e desrespeito. Esse processo fomentou, inclusive, a aversão que muitos desenvolveram por sua própria identidade, motivada pelo receio de serem eles mesmos. Assim, a partir da visão eurocêntrica, o racismo tornou-se estrutural, sendo produzido e reproduzido por meio de uma perspectiva que perpetuava o sentimento de desvalorização dos outros em busca de uma suposta superioridade.
189Compreender essa questão histórica permite desconstruir a perspectiva de "descobrimento" do Brasil, já que, antes da chegada dos colonizadores, diversas populações indígenas já habitavam a região, cada uma com seus próprios costumes, histórias, culturas, hábitos, rituais, linguagens e tradições. Essas populações não eram "primitivas", "irracionais" ou "descivilizadas", mas, pelo contrário, possuíam e ainda possuem riquezas culturais únicas. O colonizador, no entanto, buscou dizimar essas culturas para garantir a dominação, criando percepções distorcidas que impuseram o silenciamento e a subalternização dessas populações, processo que ficou conhecido como civilizatório.
Considerando que o movimento colonialista buscou destruir culturas, populações, histórias, línguas e costumes de outros povos para se impor como superior, e que essa lógica ainda é reproduzida na sociedade brasileira, é essencial consolidar uma Educação em/para Direitos Humanos com uma perspectiva contracolonial e antirracista. Essa abordagem permite romper com concepções eurocêntricas e promover a valorização, o respeito, a dignidade, os direitos, a democracia e a equidade para as pluralidades e diversidades das comunidades originárias.
O líder indígena, filósofo e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ailton Krenak, é um dos principais ativistas na luta pelos direitos dos povos indígenas. Um de seus feitos mais memoráveis foi o discurso na Assembleia Constituinte em 1987, no Congresso Nacional, onde pintou o rosto com tinta preta de jenipapo como forma de protesto contra os direitos violados dos povos originários.
O livro Ideias para adiar o fim do mundo (2020), de Krenak, é uma obra de extrema importância para a promoção de uma educação antirracista indígena em/para direitos humanos, especialmente por meio da literatura. A obra aborda temas como ancestralidade, pertencimento e identificação, destacando a importância da escuta das vozes das populações indígenas.
Krenak destaca o fenômeno ancestral e os impactos e memórias do movimento colonialista, evidenciando como essa experiência influenciou a noção de humanidade ao longo de mais de dois mil anos:
A primeira vez que desembarquei no aeroporto de Lisboa, tive uma sensação estranha. Por mais de cinquenta anos, evitei atravessar o oceano por razões afetivas e históricas… Quando se completaram quinhentos anos da travessia de Cabral e companhia, recusei um convite para vir a Portugal. Eu disse: “Essa é uma típica festa portuguesa, vocês vão celebrar a invasão do meu canto do mundo. Não vou, não” (Krenak, 2020, p. 09-10).
Krenak também aborda a ideia de que os europeus justificavam suas ações colonizadoras com base na premissa de uma humanidade esclarecida que deveria levar luz a uma humanidade obscurecida:
190A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível. Esse chamado para o seio da civilização sempre foi justificado pela noção de que existe um jeito de estar aqui na Terra, uma certa verdade, ou uma concepção de verdade, que guiou muitas das escolhas feitas em diferentes períodos da história (Krenak, 2020, p. 11).
Esses trechos permitem compreender que o colonialismo europeu foi motivado pela crença de que apenas o homem branco, heteronormativo, patriarcal e economicamente favorecido poderia promover a vida aos demais povos. Essa ideologia acarretou o etnogenocídio, sobretudo das comunidades indígenas, e continua presente na sociedade contemporânea. Krenak enfatiza que essa visão promove o alheamento da relação do ser humano com a natureza e busca homogeneizar culturas e modos de vida, negando a diversidade e a liberdade de diferentes povos.
A humanidade é, então, percebida a partir da perspectiva eurocêntrica, onde o colonizador se considera o guia dos outros povos, impondo uma padronização cultural e suprimindo a diversidade. Esse processo promove a alienação e transforma as pessoas em consumidores, e não cidadãos.
Krenak ressalta a relação dos povos indígenas com a natureza, entendida como seus ancestrais, sua família, e entes queridos, constituindo fenômenos de suma importância para a vida e sobrevivência. A natureza está em todo lugar, é essencial para a vida em todas as suas dimensões. Quando esses elementos se encontram em desequilíbrio e desarmonia, o resultado é a destruição da vida e do mundo.
Ademais, o imortal reforça a ideia de uma humanidade desintegrada da Terra e de uma visão do ser humano como algo único e verdadeiro a ser seguido, que, na realidade, reflete uma concepção capitalista e mercadológica. Assim, a terra deixa de ser compreendida como fonte de vida em conjunto e passa a ser dominada pela exploração humana, diferente da cultura dos povos considerados "sub-humanidade", que veem a natureza como parte de sua identidade coletiva.
Outra visão importante a ser destacada na obra é a apresentação da Terra como uma figura divina, que determina e sustenta a vida, em contraste com a visão da humanidade que a percebe apenas como um objeto gerador de mercadorias. A Terra é vista como uma figura materna que promove a vida. O autor salienta a indissociabilidade entre ser humano e natureza, destacando que tudo o que existe é natureza, incluindo os seres humanos e todos os elementos de que necessitamos para viver.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do que foi exposto, podemos concluir a urgência de promover um ensino contracolonial e uma educação antirracista. Isso se torna ainda mais evidente ao considerar que inúmeras populações, especialmente os povos indígenas, continuam a sofrer diversas formas de violência e silenciamento devido ao pensamento colonial, que ainda persiste na sociedade.
191Nesse contexto, a análise da obra Ideias para adiar o fim do mundo (2020), de Ailton Krenak, se revela fundamental. Essa obra utiliza a literatura como um instrumento humanizador, essencial para uma educação antirracista indígena, valorizando as culturas, histórias e ancestralidades dos povos originários.
5 REFERÊNCIAS
BRITO, A. P. G.; OLIVEIRA, G.S.; SILVA, B. A., 2021. A importância da pesquisa bibliográfica no desenvolvimento de pesquisas qualitativas na área da educação. Cadernos da Fucamp, v. 20, n. 44, p. 1-15/ 2021.
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
Notas
1. Graduanda em Pedagogia. Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás.
2. Doutor em Literatura. Faculdade de Educação e Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística, Universidade Federal de Goiás.