DISCURSO DE ÓDIO CONTRA PROFESSORES: ABORDAGEM SÓCIO-HISTÓRICO-IDEOLÓGICA
179Resumo: Com base em pesquisas desenvolvidas no âmbito do Programa de Bolsas de Iniciação à Pesquisa nas Licenciaturas (Prolicen), esta proposta de trabalho busca realizar uma análise dos discursos de ódio proferidos e disseminados contra professores no Brasil contemporâneo. O cenário atual, marcado por uma agenda ultraliberal com princípios de extrema direita e uma ideologia conservadora ultrarreacionária, consolidou-se especialmente durante o governo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Esse governo, juntamente com outros políticos aliados, propagou discursos violentos e infundados, realizando ataques à categoria dos professores, o que gerou nos educadores sentimentos de medo, pânico, impotência e vulnerabilidade em relação à sua prática docente, além de ameaças à estabilidade de seus empregos. Com base em uma metodologia de pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo, o estudo discute casos públicos de deputados que realizaram ataques de ódio contra professores, disseminando informações falsas, perseguindo e prejudicando educadores no Brasil. A fundamentação teórica da análise sócio-histórica e ideológica utilizou autores da Análise do Discurso, dos Direitos Humanos e da Educação Libertadora, visando refletir sobre as consequências sociais e individuais da disseminação desses discursos na vida dos professores. Assim, buscamos compreender a necessidade de uma postura crítica e de resistência diante de atos e políticas que violam a dignidade humana dos educadores, fundamentando-nos na perspectiva de uma educação voltada para a formação humana.
Palavras-chave: Discurso de ódio contra professores. Educação Libertadora. Direitos Humanos.
1 INTRODUÇÃO
A análise dos discursos de ódio direcionados a professores no Brasil contemporâneo revela um fenômeno preocupante, que se insere em um contexto mais amplo de polarização política e ideológica. A ascensão de uma agenda ultraliberal e de extrema direita, especialmente durante o governo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, estabeleceu um cenário em que a educação e os educadores tornaram-se alvos de ataques sistemáticos e infundados. Este ambiente hostil tem gerado nos profissionais da educação sentimentos de medo, impotência e vulnerabilidade, comprometendo não apenas a sua prática docente, mas também a estabilidade de suas carreiras.
Com base em pesquisas desenvolvidas no âmbito do Programa de Bolsas de Iniciação à Pesquisa nas Licenciaturas (Prolicen), o presente trabalho propõe-se a investigar as dinâmicas dessas agressões verbais e a disseminação de informações falsas perpetradas por políticos, com foco em casos emblemáticos que evidenciam a perseguição aos educadores. Por meio de uma metodologia de pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo, o estudo permite uma reflexão crítica sobre as consequências sociais e individuais desses discursos de ódio. Nesse sentido, a análise busca ressaltar a urgência de uma postura crítica e de resistência diante de políticas que atentam contra a dignidade humana dos educadores, reforçando a importância de uma educação voltada para a formação integral e emancipadora dos indivíduos.
2 METODOLOGIA
180Este trabalho tem como base uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa. Estudos qualitativos visam enfatizar o conhecimento de uma determinada área que não pode ser quantificado, ou seja, não é representado numericamente. Esses estudos estão voltados para crenças, valores e ações, e se concentram na natureza do objeto de estudo, sendo realizados a partir das interpretações do pesquisador. A pesquisa bibliográfica, por sua vez, fundamenta-se em materiais já produzidos em uma área específica e aborda o tema trabalhado por meio de obras teóricas, como livros, artigos, periódicos, sites, entre outros, de forma a orientar o desenvolvimento do trabalho acadêmico.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para uma análise dos discursos de ódio contra os professores no cenário brasileiro, precisamos entender o conceito de discurso e seus componentes. Para tanto, com base na perspectiva de Cleudemar Alves Fernandes (2008), compreendemos como fundamental a percepção ideológica, histórica e social dos aspectos discursivos da linguagem. Nesse sentido, o discurso não é apenas uma parte da linguagem, mas está relacionado a um sujeito ou grupo com uma posição ideológica e social específica, ocupando um determinado espaço histórico. Compreender esses aspectos é imprescindível para a formação do discurso.
Outro ponto importante é a interação entre o eu e o outro na formação da linguagem e na atribuição do discurso, que é sempre mutável e depende de uma relação de comunicação. Para isso, uma análise do discurso aborda conceitos como ideologia e identidade. Assim, a composição e identificação do sujeito do discurso são aspectos complexos, mas necessários para a análise, visto que a linguagem não é algo final em si, mas perpassa elementos sociais.
Diante disso, é necessário identificar quem é o grupo que dispara discursos contra os professores, qual a ideologia e a posição social e histórica desses sujeitos, considerando o contexto brasileiro. Também é importante entendermos quem são os professores que estão sendo atacados, quais posições e condições sociais ocupam e, principalmente, adotarmos uma compreensão mais ampla sobre educação e educadores.
3.1 ESTUDO DE CASO
Em 10 de julho de 2023, o Portal G1 publicou uma nota intitulada “Eduardo Bolsonaro compara professor a traficante de drogas em evento pró-armas em Brasília”. De acordo com a matéria, a declaração foi feita pelo Deputado Federal Eduardo Bolsonaro, filiado ao Partido Liberal (PL) e filho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, durante um ato na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
Durante sua participação, o deputado proferiu o seguinte discurso:
Se nós, por exemplo, tivermos uma geração em que os pais prestem atenção na educação dos filhos, tirem um tempo para ver o que eles estão aprendendo nas escolas, não vai ter espaço para professor doutrinador tentar sequestrar as nossas crianças. Não há diferença entre um professor doutrinador e um traficante de drogas que tenta sequestrar os nossos filhos para o mundo do crime. Talvez até o professor doutrinador seja ainda pior, porque ele vai causar discórdia dentro da sua casa, enxergando opressão em todo tipo de relação.
A notícia também relata que a fala do deputado repercutiu e que o ministro da Justiça, Flávio Dino, determinou que a Polícia Federal analisasse o discurso de Eduardo Bolsonaro, a fim de “identificar indícios de eventuais crimes, notadamente incitações ou apologias a atos criminosos". Além disso, foram apresentadas as críticas de outros parlamentares.
Entretanto, o que a reportagem não aborda é como esses discursos afetam a construção de um pensamento social carregado de desrespeito, culminando na desvalorização dos professores por parte da sociedade. Declarações como as do deputado são incoerentes e, como já apontado em nossas discussões, carecem de fundamentação, apresentando um teor violento e desqualificador da ação docente.
Para corroborar essa afirmação, Indursky (2018) reflete sobre o discurso de ódio, definindo-o como uma formação discursiva que exclui, denigre, distorce, desqualifica e nega o outro, com a intenção de aniquilá-lo. Esses discursos, portanto, desumanizam, descredibilizam, inferiorizam e menosprezam a imagem do outro como sujeito. Discursos como os do deputado atingem esses objetivos em relação aos professores.
181Além disso, eles validam atitudes invasivas de responsáveis diante dos educadores nas instituições escolares. Nesse contexto, para os adeptos da extrema direita e das vertentes neoconservadoras, ouvir falas como essas é algo a ser celebrado, como demonstram os aplausos do público enquanto o deputado dispara seu discurso.
Ter representantes políticos descredibilizando os educadores, legitima a desvalorização da profissão na sociedade como um todo. É com base nisso que professores são agredidos verbalmente e até fisicamente por alunos e responsáveis, pois suas práticas não são consideradas relevantes. Além disso, esses profissionais enfrentam intimidações em seus posicionamentos e atuações, com ameaças e riscos de demissão e perda de seus empregos.
Um exemplo recente ocorreu, conforme noticiado pelo Portal G1, em 6 de maio de 2023, em Goiás, onde uma professora de História da Arte, que lecionava no Colégio Expressão na região de Aparecida de Goiânia, foi demitida após uma foto sua ser divulgada pelo deputado federal Gustavo Gayer, também do Partido Liberal, o mesmo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e do deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Sobre o ocorrido, a professora afirmou em uma entrevista que costumava usar camisetas relacionadas às obras de arte que discutia em sala de aula. Nessa ocasião, ela vestia uma camiseta com a frase “Seja marginal, seja herói”, do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), e publicou uma foto em sua conta no Instagram, marcando a loja do amigo que produziu a camiseta.
Na publicação do deputado federal, foi divulgada uma postagem com a foto da professora, acompanhada de uma montagem e uma legenda falsa que dizia: “professora de história com look petista em sala de aula”. A postagem repercutiu nas redes sociais, levando os adeptos do deputado a pressionarem a escola onde a professora trabalhava por meio de mensagens no Instagram.
Diante dessa repercussão, os donos da escola se pronunciaram, culpabilizando a professora e alegando que a postagem de sua foto havia gerado “dor de cabeça” para eles. No dia seguinte, a professora foi demitida por telefone. Ela informou que a notícia de sua demissão foi anunciada pelo deputado em suas redes sociais antes mesmo que ela recebesse a ligação para ser informada.
Observa-se uma articulação por parte desses políticos para atacar e descredibilizar os educadores, pois acreditam que eles não refletem suas vertentes morais, ideológicas e políticas. A principal estratégia utilizada é a divulgação de notícias falsas nas redes sociais, que se tornou um espaço para disseminar discursos de maneira violenta e intolerante, conquistando mais adeptos e fortalecendo suas posições partidárias.
182É notável que a atitude do deputado fortalece e valida novos ataques aos professores, uma vez que, após sua postagem, seus seguidores foram intencionalmente ao Instagram da instituição para pressionar, por meio de comentários, o posicionamento da escola, a fim de prejudicar a professora.
Ademais, o caso demonstra que os professores no Brasil não estão sendo adequadamente respaldados e amparados pelas instituições escolares. O colégio em que a professora atuava não se posicionou para averiguar as informações e defender a docente, cedendo à pressão dos comentários na internet e à postura do deputado. Em menos de três dias, a escola decidiu demitir a professora.
Apesar de a educadora afirmar sua intenção pedagógica e formativa, sua posição não foi validada nem considerada. Como mencionado, ela relatou ter ficado abalada psicologicamente e temerosa sobre como isso afetaria sua carreira profissional. Assim, é possível concluir que essa ocorrência prejudicou diretamente a professora em seu estado psicológico, gerando medo e insegurança em relação ao seu futuro, especialmente agora que se encontra desempregada, o que pode dificultar sua reinserção no mercado de trabalho.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em “Contra a barbárie, o direito à educação”, Daniel Cara (2019) conclui que, para enfrentar a barbárie promovida pelo cenário ultraliberal e ultrarreacionário, é fundamental a união política para a consagração do direito à educação, conforme instituído na Constituição Federal de 1988.
Os discursos emitidos contra os educadores são alicerçados em tamanha intolerância e inflexibilidade que não conseguem conviver com pensamentos divergentes. Assim, esses discursos revelam uma prepotência nas relações, emanando de sujeitos que se consideram superiores e, portanto, buscam exercer uma posição autoritária contra os professores.
Diante disso, concluímos que os discursos de ódio proferidos contra os professores atacam a dignidade humana dos educadores, afetando a democracia ao promover ações autoritárias, além de se opor à educação democrática, que tem como foco a formação humana dos indivíduos. Em seu artigo sobre educação democrática, a autora e professora bell hooks ressalta que práticas autoritárias promovidas e encorajadas por muitas instituições minam a educação democrática na sala de aula (hooks, 2019).
5 REFERÊNCIAS
183CARA, Daniel. “Contra a barbárie, o direito à educação”, in Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar. Fernando Cássio (org.) 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2019.
CASEMIRO, Poliana; CAMARGO, Isabela. Eduardo Bolsonaro compara professor a traficante de drogas em evento pró-armas em Brasília. Portal Globo de Notícias (G1) [Online], Goiás, 10 de Julho.2023.Política. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2023/07/10/eduardo-bolsonaro-compara-professor-a-traficante-de-drogas-em-evento-pro-armas-no-brasilia.ghtml Acesso em: 23/05/2024
CRUZ, Gustavo; MACÊDO, Gabriela. Professora é demitida após deputado critica-lá por usar camiseta com frase de Hélio Oiticica: ‘Seja marginal, seja herói’.Portal Globo de Notícias (G1) [Online], Goías, 06 de Maio.2023. Disponível em: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2023/05/06/professora-e-demitida-apos-deputado-critica-la-por-usar-camiseta-com-frase-de-artista-plastico-renomado-seja-marginal-seja-heroi.ghtml>. Acesso em: 23/05/2024.
FERNANDES, Cleudemar Alves. Análise do Discurso - reflexões introdutórias. 3. ed. São Carlos: Claraluz, 2008.
HOOKS, bell. “Educação democrática”. in Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar. Fernando Cássio (org.) 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2019.
INDURSKY, F. (2018, 28 de agosto). O mal-estar na política e na cultura. [Vídeo]. YouTube, Canal Unisul Digital. https://www.youtube.com/watch?v=VSEYDhIJl4U&t=558
Notas
1. Graduanda em Pedagogia. Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás.
2. Doutor em Literatura. Faculdade de Educação e Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística, Universidade Federal de Goiás.