EVASÃO: UM FENÔMENO A DESVENDAR
159Resumo: O fenômeno da evasão nos cursos de graduação das Universidades Públicas Federais brasileiras é preocupação recorrente. Em função disso, este trabalho visa apresentar o resultado parcial da pesquisa intitulada “Evasão nos cursos de graduação da Universidade Federal de Goiás”, desenvolvido na Pró-reitora de Graduação (Prograd) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Tal pesquisa se caracteriza como Estado da Arte e mapeia estudos sobre evasão nas Universidades Federais públicas, tendo como recorte temporal os anos de 2017 a 2023. Todavia, serão apresentados, neste momento, somente dados de 2020 e 2021. De sete trabalhos defendidos nesses anos, apenas seis deles foram localizados. Como resultado, as pesquisas apontam preocupação geral com a evasão, a retenção e o fracasso escolar e explicitam olhares específicos sobre áreas, cursos e/ou disciplinas. As políticas de democratização e acesso ao ensino superior também são abordadas e caminhos de enfrentamento, como elaboração de Plano de Ação Educacional, já abarcando monitoria e tutoria, são citados como ações voltadas ao combate ou à diminuição da evasão.
Palavras-chave: Evasão. Universidades Públicas Federais. Estado da Arte.
1 INTRODUÇÃO
O fenômeno da evasão nos cursos de graduação das Universidades Públicas Federais brasileiras é uma preocupação recorrente. Em função disso, este trabalho visa apresentar o resultado parcial da pesquisa intitulada “Evasão nos cursos de graduação da Universidade Federal de Goiás”, desenvolvida na Pró-reitora de Graduação (Prograd) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Uma das etapas dessa pesquisa, é o mapeamento de teses e dissertações sobre evasão nas Universidades Públicas Federais defendidas no período de 2017 a 2023, presentes na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Capes. Um mapeamento parcial já foi apresentado no Encontro de Jovens Pesquisadores do Centro-Oeste, Nordeste e Norte do Brasil e da América Latina (Jopeqal), que ocorreu em outubro em Buenos Aires, na Argentina. Como a pesquisa mencionada teve início no segundo semestre deste ano, o recorte da exposição feita no Jopeqal foi de trabalhos cuja defesa ocorreu nos anos de 2022 e 2023. Ao todo, seis. Esta exposição irá discorrer sobre os trabalhos defendidos em 2020 e 2021.
2 METODOLOGIA
A pesquisa que subsidia esta apresentação se intitula Estado da Arte ou do Conhecimento e teve como recorte temporal o período de 2017 a 2023. Essa delimitação ocorreu em função de um outro trabalho – o de Paula (2021) – ter abordado essa mesma temática no período compreendido de 1995 a 2016. Neste sentido, houve o interesse em dar continuidade ao estudo de Paula (2021) a fim de compreender como as pesquisas têm abordado o fenômeno da evasão e quais caminhos elas têm sugerido para esse enfrentamento. De 2019 a 2023, foram encontrados 40 (quarenta) trabalhos, o descritor da evasão foi buscado, inicialmente, no título e nas palavras-chave. Contudo, alguns estudos, apesar de não terem explicitados neste termo, foram selecionados em função da leitura do resumo. Foi critério de seleção: a pesquisa ser voltada à Universidades Federais públicas brasileiras e direcionada aos cursos de graduação presenciais. Desse modo, foram excluídas pesquisas que tiveram como foco de atenção discutir a evasão nos Institutos Federais, nas Instituições de Ensino Superior Estaduais, nas Instituições de Ensino Superior privadas, na Educação Básica, bem como nos cursos de graduação na modalidade de Educação a Distância (EAD). O estudo ora apresentado se baseou na análise dos resumos.
3 ESTUDOS SOBRE A EVASÃO
160Ao todo, sete trabalhos sobre evasão nas Universidade Públicas Federais foram defendidos nos anos de 2020 e 2021. Em 2020, foram quatro: dois decorrentes de mestrado profissional e dois de mestrado acadêmico. Em 2021, três: um de mestrado profissional, um acadêmico e um de doutorado acadêmico. Estiveram envolvidas as seguintes instituições: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). As áreas de estudo formam: educação; políticas públicas, gestão e avaliação do ensino superior; gestão e avaliação da educação pública.
A pesquisa de Borges (2020), analisa as políticas de expansão e acesso à educação superior e o processo de implementação do Sisu, sobretudo na UFU. O recorte temporal da pesquisa foi de 2010 a 2019 e envolveu análise de documentos e entrevistas. As políticas discutidas formam o Fies, o Prouni, a UAB, o Reuni, a lei de cotas, o Enem e o Sisu. Em relação à evasão, o estudo aponta que, apesar de essas políticas terem contribuído com a expansão e a democratização do ensino superior no Brasil, a permanência não foi garantida na mesma proporção. O Sisu, por exemplo, apesar de ter alterado o perfil dos estudantes, ampliou a evasão na Instituição.
A pesquisa de Caetano (2020), investiga a retenção e evasão nos cursos de bacharelado em Ciências Exatas na UFJF. Como percurso metodológico, houve análise de documentos e questionários. De 2014 a 2019, 52,32 % de matrículas foram canceladas, o índice de retenção foi de 27,97% e de evasão 14,24%. O estudo ainda mostrou que em disciplinas como Cálculo I houve estudantes que reprovaram até oito vezes. Situações assim têm gerado prejuízos não apenas para os estudantes, mas para a sociedade em geral. Silva (2020), a partir de estudo de caso, se debruça sobre a retenção e evasão decorrente das disciplinas introdutórias do Departamento de Matemática da UFJF. Questionários com professores e estudantes foram utilizados para coleta de dados e como resultado foi proposto um Plano de Ação Educacional com ações de intervenção, dentre elas a monitoria e a tutoria.
Cirne (2021) reflete sobre evasão e retenção nos cursos de Engenharia e de Ciências Exatas da UFCG, abrangendo o período de 2002 a 2019, antes e após o Reuni, a lei de cotas e o Sisu. Para coleta de dados, foram usados dados estatísticos descritivos e estudos não parametrizados. Os cursos analisados foram: matemática, estatística, meteorologia, ciência da computação, física, engenharias de petróleo, agrícola, mecânica, elétrica, civil, química, de produção, de alimentos, e de minas. Para o autor, esse impacto não é homogêneo, uma vez que sofrem mais os cursos com menor legitimidade social, ou seja, a evasão acomete, de modo mais acentuado, cursos com menor prestígio social. Ele sugere a importância de a Universidade repensar as práticas curriculares para atender às novas especificidades dos alunos e a formação continuada dos professores.
161Lucena (2021), busca entender a relação entre assistência estudantil e trajetória acadêmica na Universidade Federal Rural de Pernambuco, mas a pesquisa foi desenvolvida na UFPB. Para tanto, foram analisadas a situação de 55 (cinquenta e cinco) estudantes desligados do programa de assistência estudantil por reprovação em todas as disciplinas de 2019. Em termos de perfil desses estudantes, a pesquisa concluiu que são estudantes com dificuldade de acesso a bens e serviços, em função da própria situação de vulnerabilidade social. Sobre o itinerário formativo, a maioria advém de escola pública no ensino médio e estavam matriculados em cursos da área de engenharia. Um dado constatado, é que a maioria dos desligamentos ocorreu por reprovação por falta, apesar de os estudantes serem beneficiados com auxílio transporte.
O estudo de Pereira (2021), reflete sobre a Universidade do Estado da Bahia, mas foi desenvolvido na UFRJ. A pesquisa versa sobre as formas de ingresso – Sisu e vestibular – e as influências econômicas, acadêmicas, pessoas e sociais na permanência, evasão e mobilidade dos estudantes em quatro cursos de graduação da UNEB, sendo eles pedagogia, educação física, enfermagem e administração. O recorte temporal foi de 2005 a 2018. Houve análise de documentos e questionários com 43 (quarenta e três) estudantes. Como resultado, constatou-se que mais da metade dos estudantes que evadiram não desejam voltar ao curso de origem; 36% deles já concluíram e estão frequentando outro curso. Condições pessoais, financeiras, de trabalho foram razões para o novo curso, mas também foram citados problemas de saúde, greve e distanciamento do campus. O abandono do curso teve como causas trabalho, questões financeiras e falta de identificação.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dos sete estudos defendidos no período de 2020 e 2021, apenas um deles não foi localizado, o de Vânia (2020). Os demais explicitaram a questão da evasão e também da retenção partindo de panorama geral por áreas como Ciências Exatas e Engenharias, pressuposto ainda o acompanhamento de disciplinas por curso, como as introdutórias de matemática ou mesmo cálculo, em que o estudante chega a cursá-las várias vezes. Os estudos também versaram sobre as políticas de democratização e acesso ao ensino superior, como Enem, Sisu, Reuni, Fies, Prouni, lei de cotas e programas de assistência estudantil, buscando respostas sobre o fato de essas políticas garantirem ou não a permanência do estudante na Universidade, diminuindo, assim, a evasão. As pesquisas procuram não apenas conhecer melhor a realidade que acometem cursos/Instituições, mas também, e sobretudo, acompanhar as políticas cujo impacto é acadêmico e social. Nesse sentido, recuperar tais pesquisas, mais do que explicitar rotas, exige analisar os resultados que evidenciam situações similares no sentido de encontrar saídas para o enfrentamento do fenômeno da evasão, que, como o próprio nome sugere, não é simples e sobre ele recaem inúmeros fatores. No caso da UFG, como também ocorreu na pesquisa de Silva (2020), projetos como de monitoria e tutoria têm sido desenvolvidos de modo a melhor amparar o estudante que ingressa na Universidade, ajudando-o a obter sucesso na conclusão do curso escolhido.
5 REFERÊNCIAS
162BORGES, Raquel Silva. Políticas públicas de acesso à educação superior: o Sistema de Seleção Unificada na Universidade Federal de Uberlândia (2010-2019). 27/02/2020 140 f. Mestrado em Educação. Instituição de Ensino: Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia Biblioteca Depositária: Repositório UFU.
CAETANO, Fernanda de Oliveira Souza. A evasão no primeiro ciclo do Bacharelado em Ciências Exatas da UFJF. 05/11/2020 259 f. Mestrado Profissional em Gestão e Avaliação da Educação Pública Instituição de Ensino: Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora Biblioteca Depositária: Biblioteca Central da UFJF
CIRNE, Gilton Nunes. Reprovação e evasão nos cursos de engenharias e exatas do campus Campina Grande da UFCG. 01/06/2021, 117 f. Mestrado em Educação. Instituição de Ensino: Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande Biblioteca Depositária: Biblioteca central da UFCG.
LUCENA, Camila Lais Gonzala. Itinerários acadêmicos na assistência estudantil: um estudo sobre a Universidade Federal Rural de Pernambuco. 03/03/2021 111 f. Mestrado Profissional em Políticas Públicas, Gestão e Avaliação da Educação Superior. Instituição de Ensino: Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa), João Pessoa Biblioteca Depositária: Biblioteca Central da UFPB.
PAULA, Gustavo Bruno de. Desigualdades sociais e evasão no ensino superior [manuscrito]: uma análise em diferentes níveis do setor federal brasileiro. 2021, 208f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2021.
PEREIRA, José Aparecido Alves. Permanência, evasão e titulação estudantil na Universidade do Estado da Bahia (UNEB): o caso do Campus XII – Guanambi. 16/12/2021 .199 f. Doutorado em Educação. Instituição de Ensino: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro Biblioteca Depositária: biblioteca do cfch.
SILVA, Roberta Oliveira Mattos da. Retenção e evasão nas disciplinas iniciais ofertadas pelo Departamento de Matemática da UFJF. 20/01/2020 135 f. Mestrado Profissional em Gestão e Avaliação da Educação Pública Instituição de Ensino: Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora Biblioteca Depositária: Biblioteca Central da UFJF.
VIANA, Mariana Marilack Gomes. Trajetória acadêmica de estudantes cotistas negros(as): o que há para saber para além do desempenho e da evasão? 03/03/2020 102 f. Mestrado em Educação. Instituição de Ensino: Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte Biblioteca Depositária: Biblioteca da FaE/UFMG
Notas
1. Doutora em Educação. Faculdade de Educação. Diretoria de Gestão Curricular-Prograd UFG.
2. Doutora em Educação. Faculdade de Educação. Diretoria de Acompanhamento e Desenvolvimento da Docência (DADD). Prograd-UFG.
3. Graduada em Comunicação Social - Relações Públicas pela Universidade Federal de Goiás. Coordenadora de Dados e Normas (PROGRAD - UFG).
4. Especialista em Educação. Técnica em Assuntos Educacionais (PROGRAD - UFG).