Rafael Eduardo de Borba Moreira
rafael_eduardo@discente.ufg.br

Alba Cristhiane Santana
alba_mata@ufg.br

EIXO
Educação Básica, trabalho pedagógico e formação continuada

PERCEPÇÃO DA COMUNIDADE ESCOLAR SOBRE AS VIOLÊNCIAS NAS INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO BÁSICA

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Resumo: Introduz-se o fenômeno da violência na escola é discutido na sociedade como um todo e, principalmente, em estudos acadêmicos, com vistas a compreender sua constituição e a pensar formas de prevenir e lidar com as situações que ocorrem. O referencial teórico da pesquisa parte de estudos que abordam três formas principais de violência escolar: a violência na escola, aquela que se produz dentro do espaço escolar, sem estar ligada à natureza e às atividades da instituição escolar; a violência à escola, ligada à natureza e às atividades da instituição escolar; e a violência da escola, uma violência institucional, simbólica, que os estudantes vivenciam através da maneira como a instituição e seus agentes os tratam. O objetivo do estudo foi identificar a percepção de estudantes e professores sobre as situações de violência na escola e como têm afetado as relações afetivas e o processo de ensino-aprendizagem. Como metodologia foi realizada uma pesquisa de base qualitativa, com ênfase na percepção dos sujeitos em relação aos diferentes fatores e contextos que constituem a violência escolar. A análise da percepção dos participantes se baseia nos estudos de Vigotski sobre os processos de significação. Participaram do estudo 29 alunos e 11 professores de duas escolas públicas estaduais da cidade de Goiânia-GO. O contexto da pesquisa foram duas escolas estaduais que atendem alunos da UFG em situação de estágio nas licenciaturas, portanto, já mantém um convênio com a instituição e aceitaram participar da pesquisa. O procedimento de pesquisa foi um questionário, aplicado via google forms. A análise dos dados abrangeu estatística simples das questões fechadas e análise temática das questões abertas com base no referencial teórico adotado. As informações foram organizadas em dois eixos temáticos: percepção dos estudantes sobre as situações de violência na escola; e percepção dos professores sobre a temática. Os resultados indicaram que embora a percepção da violência esteja presente em todos os grupos, marcadores sociais como gênero e raça dos estudantes, influenciam nos resultados dessas percepções. Finalmente, considera-se que a pesquisa possibilitou a aproximação do pesquisador com a realidade escolar, contribuiu com as discussões na área de formação de professores para educação básica e ampliou a compreensão sobre as situações de violência na escola, considerando as percepções de estudantes e professores.

Palavras-chave: Violência. Escola. Aluno.

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem o objetivo de investigar as percepções de estudantes e professores de duas escolas públicas no estado de Goiás sobre as situações de violência no ambiente escolar.

Nos últimos anos, notícias sobre diversos tipos de violência no ambiente escolar tem ocorrido no Brasil, diversas escolas sofreram ataques no país, tanto por membros das comunidades escolares, quanto por agentes externos. A problemática da violência em contextos escolares provoca preocupação na sociedade, uma vez que a expectativa em relação à escola é que seja um espaço de proteção e tranquilidade para o desenvolvimento de crianças e jovens.

É importante destacar que a violência é um fenômeno social e complexo e sua compreensão demanda uma visão ampla sobre seus aspectos constituintes, de ordem social, cultural, econômica e política. Como diz Silva e Salles (2010, p.229), “os determinantes da violência vão além as características individuais e grupais dos indivíduos envolvidos e não se restringem às vivências do contexto escolar”, ou seja, as causas de situações de violência na escola envolvem uma complexa teia de fatores oriundos nas instituições de ensino, mas principalmente, na sociedade brasileira. Charlot (2002), discute que existem diferentes formas de manifestação de violência no contexto escolar, que podem ocorrer na escola, por agentes externos, contra a escola, direcionada à instituição e seus membros e da escola, caracterizada por aspectos simbólicos.

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A violência no ambiente escolar não é um fenômeno recente, desde a década de 1980 existem estudos que visam investigar tal temática no Brasil (Abramovay 2012). Porém, segundo Santana (2019), quando ocorrem episódios de violência física em escolas e que geram homicídios o assunto se evidencia e tem ampla divulgação nas mídias. Neste momento, com base em episódios de violência ocorridos em contextos escolares em março e abril de 2023, muitas discussões estão ocorrendo com vistas a compreender este fenômeno e buscar alternativas de enfrentamento.

Assim, vale investir em um estudo que possibilite a compreensão sobre as percepções das pessoas sobre as situações de violência na escola, com vistas a contribuir com as discussões sobre tal fenômeno e os efeitos que podem gerar nas relações afetivas no contexto escolar e no processo de ensino-aprendizagem.

Esta pesquisa se fundamenta nos estudos de Vigotski (2003, 2010) sobre o processo de desenvolvimento humano. Nessa perspectiva, as dimensões cognitiva e afetiva são vistas de forma indissociável nos processos de aprendizagem e de desenvolvimento, especialmente nas interações do ambiente escolar, e podem gerar motivação, interesse e necessidades em relação aos processos escolares.

METODOLOGIA

A metodologia desta pesquisa qualitativa busca entender a percepção de estudantes e professores sobre a violência nas escolas. A investigação foi realizada em duas escolas estaduais de Goiás, em parceria com a UFG, com estudantes das séries finais do ensino fundamental e médio e seus professores.

Os participantes foram selecionados conforme disponibilidade e assinatura dos termos éticos (Termo de Assentimento e Consentimento Livre e Esclarecido e Termo de Assentimento e Assentimento Livre e Esclarecido), garantindo sigilo e proteção de identidade. A coleta de dados incluiu um estudo bibliográfico e a aplicação de um questionário composto por perguntas fechadas sobre o perfil dos participantes, percepções sobre violência escolar, e impactos nas relações e no processo de ensino-aprendizagem. O questionário foi aplicado presencialmente, conforme a disponibilidade das escolas participantes.

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A análise dos dados seguiu uma abordagem mista: estatística simples para questões fechadas e análise temática para as abertas, fundamentada nas teorias de significados e sentidos de Vigotski (2003, 2010) e nos conceitos de violência escolar. O estudo foi conduzido em etapas interdependentes, permitindo um processo flexível e interativo para compreensão aprofundada do fenômeno.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O estudo analisou a percepção de violência na escola por estudantes e professores, dividindo a análise em três eixos: as percepções dos alunos, professores e do pesquisador sobre as situações de violência.

Percepção dos Estudantes:

Percepção dos Professores:

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Tabela 1 – Percepções dos tipos de violência mais comuns e seus principais impactos

ASPECTO PERCEPÇÃO DOS ALUNOS PERCEPÇÃO DOS PROFESSORES
Problemas de violência mais comuns
Violência entre alunos 96,60% 45,50%
Vandalismo/Danos às instalações físicas 50,00% 63,60%
Violência do aluno contra o professor 20,70% 54,50%
Impactos da violência no processo educativo
Prejuízo ao bem-estar emocional 82,80% 81,80%
Aumento de estresse e ansiedade 96,60% 72,70%
Prejuízo nas relações interpessoais 69,00% 72,70%

Fonte: Elaborado pelo autor, 2024

Percepção do Pesquisador:

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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A análise dos dados revela diferenças significativas nas percepções desses dois grupos, destacando a necessidade de uma abordagem mais integrada para compreender o problema estudado.

As percepções dos alunos e professores sobre a violência escolar revelam tanto semelhanças quanto diferenças importantes. Enquanto ambos os grupos identificam a violência entre alunos e o vandalismo como problemas recorrentes, os alunos apontam a violência entre si como a mais comum (96,6%), enquanto os professores percebem como mais recorrentes os danos às instalações físicas da escola (63,6%) e a violência do aluno contra o professor (54,5%).

Em relação aos impactos da violência no processo educativo, a percepção dos alunos destaca o prejuízo da violência ao bem-estar emocional (82,8%), nos níveis de estresse e ansiedade (96,6%), bem como o prejuízo nas relações interpessoais (69%), ressaltando ainda as faltas às aulas para evitar a escola (65,5%) como consequência. Já os professores, também percebem os prejuízos ao bem estar emocional (81,8%) e na possibilidade de estabelecer relações positivas (72,7%).

Uma diferença significativa nas percepções dos participantes se refere à violência de professores contra alunos, enquanto 41,4% dos estudantes perceberam essa situação, apenas 9,1% dos professores indicaram essa percepção. Tais dados geram reflexões sobre quais situações os estudantes estão percebendo como violência, na relação com os professores.

Enfim, os resultados indicaram que a percepção da violência na escola está presente em todos os grupos, e os marcadores sociais de gênero, raça e posição hierárquica, influenciam nessas percepções.

REFERÊNCIAS

ABRAMOVAY, Miriam. Conversando sobre violência e convivência nas escolas. Flacso, Brasil, OEI, MEC, Rio de Janeiro, 2012.

BELTRAME, M. B.; MOURA, G. R. S. Edificações escolares: infra-estrutura necessária ao processo de ensino e aprendizagem escolar. Travessias, v. 3, n. 2, 2009.

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CHARLOT, B. A violência na escola: como os sociólogos franceses abordam essa questão. Sociologias, Porto Alegre, Ano 4, n° 8, p. 432-443, jul. / dez. 2002. Disponível em:< https://www.scielo.br/j/soc/a/fDDGcftS4kF3Y6jfxZt5M5K/?format=pdf&lang=pt > Acesso em: 03 de Jul. de 2024.

LEITE, S.A.S. Afetividade nas práticas pedagógicas. Temas em Psicologia, v.20, n.2, p.355-368, 2012. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/tp/v20n2/v20n2a06.pdf. Acesso em: 15 abr. 2024.

SANTANA, A. C. Enfrentamento da violência na escola: reflexões a partir da Psicologia Escolar. Revista Diálogos, Ano 15, n.11, p.65-71, ago. 2019. Disponível em: https://site.cfp.org.br/publicacao/revista-dialogos-no11/ . Acesso em: 18 dez. 2023.

SILVA, J.M.A.P; SALLES, L.M.F. A violência na escola: abordagens teóricas e propostas de prevenção. Educar em Revista, Curitiba, n. especial 2, p. 217-232, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-40602010000500013 . Acesso em: 19 de abril de 2024.

VIGOTSKI, L.S. A construção do pensamento e da linguagem. 2. ed. Trad. P. Bezerra. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010. (Textos originais de 1934).

Notas

1. Graduando, Faculdade de Letras, Universidade Federal de Goiás.

2. Docente, Faculdade de Letras, Universidade Federal de Goiás.