O TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO E SUAS INTER-RELAÇÕES COM A EDUCAÇÃO DO CAMPO
138Resumo: Esse texto visa apresentar perspectivas teóricas do trabalho como princípio educativo, a partir de autores que discutem a temática e compreendem a sua articulação para a formação humana. Como metodologia utilizamos o estudo bibliográfico baseado nos teóricos Saviani (2007) e Brandão (2017), estudados, tendo como campo específico o materialismo histórico dialético que tem o trabalho como produtor dos meios de vida, tanto nos aspectos materiais como culturais, ou seja, de conhecimento, de criação material e simbólica, e de formas de sociabilidade Marx (1979). Discutir a relação entre formação e trabalho é uma forma de pensar em alguns princípios e orientações que certamente trarão contribuições para a formação inicial de educadores do/no campo. Ao mencionarmos os povos do campo devemos ter em mente que estes sujeitos advêm de um contexto dotado de conhecimentos próprios, com vivências e experiências adquiridas em seu entorno ao longo de suas vidas, e esses princípios de vida são pontos de partida para o processo de ensino e aprendizagem, e o mundo do trabalho em que estarão inseridos, como forma de garantia e valorização de seus valores, costumes e tradições, e principalmente terem a possibilidade de se reconhecerem como seres humanos e cidadãos em seu trabalho docente.
Palavras-chave: Educação do Campo. Formação Docente. Trabalho Educativo
INTRODUÇÃO
A dimensão do trabalho como princípio educativo remete à ação humanizadora do indivíduo. A relação entre trabalho e educação nos remete à formação do homem em sua totalidade, a própria forma de ser dos seres humanos. A partir de estudos dos artigos de Saviani (2007) e Brandão (2017), buscou-se entender o trabalho como princípio educativo e suas inter-relações com a Educação do Campo.
Neste sentido, Saviani (2007), em sua obra “Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos”, com uma linguagem acadêmica e de forma conceitual, reconhece e busca compreender como se produziu, historicamente, a separação entre trabalho e educação e procura indicar os fundamentos histórico-ontológicos desta relação.
Na obra de Brandão (2017), “A Educação como cultura - Memórias dos anos sessenta”, o autor referencia comprometimento político, pedagógico e, sobretudo, ético com o povo, na construção de uma sociedade onde não mais exista a contradição social da exploração do homem pelo homem. Como Brandão estudou as comunidades tradicionais e manifestações populares, neste memorial ele descreve o seu conhecimento sobre e a relação de educação e trabalho. Segundo Brandão, o “mundo da cultura” antecede o ser humano e necessita dele para ser criado. Nesta relação dialética faz com que existam culturas ao invés de uma única cultura. Menciona que frente a uma cultura dominante, a cultura popular é uma cultura subalterna. Analisa o trabalho que não é desumanizante, citando o trabalho dos movimentos sociais. Menciona como a cultura é construída pelos sujeitos e no coletivo sem as relações capitalistas organizando e controlando estas relações sociais. Ele considera o trabalho da cultura popular como formativo que transforma as pessoas e as humaniza.
138Saviani também trabalha com o conceito de educação popular, mas ele pensa a educação no campo institucional, ou seja, traz a educação formal, a institucionalização dos saberes. Diz ainda como acontecia a educação nas comunidades primitivas, em que os homens apropriavam-se coletivamente dos meios de produção da existência, e neste processo, educavam-se e educavam as novas gerações. Prevalecia, aí, o modo de produção comunal, também chamado de “comunismo primitivo”. Não havia divisão em classes. Tudo era feito em comum. A educação identificava-se com a vida.
Por sua vez, Saviani descreve a história da separação entre trabalho e educação que aconteceu com o desenvolvimento da produção e, daí, à apropriação privada da terra, provocando a ruptura nas comunidades primitivas, gerando a divisão dos homens em classes (dos proprietários e a dos não-proprietários). Essa divisão dos homens em classes provocou uma divisão também na educação. Desta forma, surgem duas modalidades de educação: uma para a classe proprietária, identificada como a educação dos homens livres, e outra para a classe não proprietária, identificada como a educação dos escravos e serviçais. A primeira, centrada nas atividades intelectuais, na arte da palavra e nos exercícios físicos de caráter lúdico ou militar. E a segunda, assimilada ao próprio processo de trabalho. A primeira modalidade de educação deu origem à escola.
No momento em que inicia o processo de industrialização e urbanização no Brasil, a educação assume o papel de preparar as populações rurais para adaptarem-se ao processo de subordinação ao modo de produção capitalista que expulsa o homem do campo da sua terra e força-o a ter uma formação de mão-de-obra para as novas indústrias. Nesse sentido, a expulsão de trabalhadores do campo reconfigurou as relações entre o rural e urbano, alterando o modo de ser e criando espaços de subalternização e precarização do trabalho.
Os movimentos sociais populares nas suas lutas, propõem-se a romper com séculos de políticas de expropriação, proletarização e dominação do campesinato brasileiro. Por isso, é importante entender o significado entre os termos Educação Rural e Educação do Campo em que suas diferenças advêm das políticas educacionais, gestão educacional e práticas pedagógicas.
139A Educação Rural objetivava ensinar o agricultor a trabalhar com a terra como se ele não soubesse fazê-lo; precisava aprender o manejo das técnicas, instrumentos e insumos agrícolas, além de relacionar-se com o mercado onde venderia a sua produção para adquirir os novos produtos, sendo esta a forma do capitalismo agrário, em que os trabalhadores do campo são subalternos do modo de produção capitalista, deixando de ser os protagonistas da sua própria história e da vida. No sentido de reafirmar o exposto, Magalhães e Alves (2022), dizem que
a educação sempre será assumida como principal estratégia da propagação e consolidação do consenso nos moldes da hegemonia, mas sobretudo, terá função alienadora, o que inviabiliza a compreensão da luta de classes e da divisão social. Dessa forma, associada aos motivos políticos, sociais, históricos e culturais, que reverberam na estrutura de classes da sociedade, a Educação do Campo recebe forte retaguarda ideológica, uma vez que a própria história brasileira mostra a constante manutenção da oligarquia agrária, para que se mantenha o controle dos povos do campo – via educação conformadora. (MAGALHÃES; ALVES, 2022, p. 1218)
O conceito de Educação do Campo vem sendo construído nos movimentos sociais, da luta dos trabalhadores do campo que lutam pela terra para o seu trabalho. Esses movimentos sociais têm uma conotação política de continuidade das lutas camponesas.
Assim, a Educação do Campo surge em contraposição ao que preconizava a Educação Rural, e vem romper com a visão preconceituosa em relação ao homem do campo. Dessa maneira, a educação vem sendo reivindicada para se ter um currículo que valorize e esteja voltado ao contexto campesino, que busque os direitos, a valorização, o desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida dos camponeses. A luta também é para que o ensino nas escolas do campo seja educativo e não de treinamento, objetivando o bem comum das populações campesinas.
Com efeito, é o modo como se organiza o processo de produção, a maneira como os homens produzem os seus meios de vida que permitiu a organização da escola como um espaço separado da produção. Logo, a separação também é uma forma de relação, ou seja: nas sociedades de classes a relação entre trabalho e educação tende a manifestar-se na forma da separação entre escola e produção.
METODOLOGIA
140Este estudo apresenta uma abordagem qualitativa, compreendida por Bodgan e Biklen (1982, p. 14), “envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes”. É também, um estudo bibliográfico que como menciona Gil (2008, p. 50), “a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Assim, a análise aconteceu, a partir da investigação de dados encontrados no referencial teórico de Saviani (2007) e Brandão (2017), estudados na Unidade I da disciplina Educação, Trabalho e Formação Humana, na linha de pesquisa Formação, Profissionalização Docente e Trabalho Educativo, do Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal de Goiás, como requisito para obtenção de créditos do doutorado.Tem como campo específico o materialismo histórico-dialético. Assim, esse estudo dialeticamente discute numa perspectiva crítica, a relação trabalho-educação e seus sentidos ontológico e histórico/mercadológico.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Analisando a relação entre trabalho e educação nos dois textos, o que vem primeiramente à mente é o termo educação. Os dois autores trazem conceitos amplos sobre educação. De acordo com Brandão, ninguém escapa do termo educação.
Brandão traz a educação com uma perspectiva indissociável da cultura. A educação se produz nas relações sociais, em coletividade. Como diz (FREIRE, 1987, p. 68), “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Fica explícito que não se educa ninguém se não há educação nesse processo.
Para Saviani, educação e trabalho somente se tornarão possíveis de serem emancipatórias e libertadoras, se for numa sociedade sem divisão de classes, sem exploração e alienação, sem educação bancária, sem uma reprodução da sociedade. Na visão Marxista, a cultura deve ser sempre aquela que modifica o indivíduo. Assim, a educação também somente será possível se de fato ela for transformadora.
Estes autores vêem a escola como princípio educativo e formativo. Os dois autores discutem como a categoria trabalho constitui a educação e a cultura, e como a educação e a cultura também participam do trabalho. Para eles, o trabalho não se constitui na natureza humana, mas nas relações sociais ele desumaniza e se torna um trabalho alienado.
141Os objetos de estudo nos dois textos são diferentes. Enquanto Brandão estuda as comunidades em que não existe um saber institucionalizado, mais popular, Saviani estuda as sociedades mais divididas, as sociedades de classes em que a escola passa a ter um papel importante nestes saberes institucionalizados.
Assim, Saviani se aproxima de Brandão quando descreve que a cultura forma o sujeito histórico e social, tornando-o sujeito cultural, e é por meio do trabalho que se transforma algo na natureza em objeto. Nesse processo de transformação, o indivíduo torna-se humano. Nesse caso, o ser humano dentro do conceito das ciências humanas é feito por meio da transformação de trabalho.
Saviani, traz uma origem mais voltada a uma perspectiva do materialismo histórico-dialético em que o trabalho como algo possuído pelo homem e seu processo de construção será diversificado porque depende da forma de construção desse trabalho. Se for um trabalho de forma desigual, a relação será sempre de exploração entre os sujeitos, mas se for uma relação de igualdade, em que há partilha de saberes, esse trabalho será associativo e não será alienante, quando o trabalho se torna separado da natureza humana e acaba por deformar e desumanizar o sujeito trabalhador.
Brandão, discute a educação por meio dos estudos da antropologia, que embora não distancie dessa perspectiva, apresenta mais elementos sobre o peso que a cultura tem na construção das subjetividades, sobretudo, do campo. Para Brandão, o trabalho de transformar e significar o mundo equivale à vocação cultural que transforma e significa o próprio homem. Assim, a consciência humana, produto do trabalho, é também construída no processo da história e, como um pensar coletivo sobre o mundo através do trabalho, torna-se um pensar social na e sobre a história, produto e palco do trabalho e da cultura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
142Percebe-se que os benefícios do capitalismo são segregadores, não são para todos, mas sim para uma determinada classe que consegue se adaptar. Desta forma, a categoria de trabalhadores são os mais afetados e prejudicados, pois eles não participam do processo formativo, e sim de exclusão. Assim, a educação sempre será tributária desses processos econômicos. Formam-se pessoas para serem cada dia mais individuais, competitivas e meritocráticas, que acreditam que o esforço individual é mais importante que o coletivo. Assim, o caráter formativo da relação entre trabalho e educação como ação humanizadora deve acontecer por meio do desenvolvimento das potencialidades, como um ato de resistência que acontece por meio da cultura.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Educação como cultura - Memórias dos anos sessenta. In: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 23, n. 49, p. 377-407. Set/dez/2017. Acesso em: https://www.scielo.br/j/ha/a/JXKXLMzzHtJCsDBJ74gqndF/?format=pdf.
BODGAN, R.; BIKLEN, S. K. Qualitative research for education. Boston: Allyn and Bacon, 1982.
FREIRE, P. R. N. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. (6a ed.). São Paulo: Atlas, 2008.
MAGALHÃES, Solange Martins Oliveira; ALVES, Amone Inácia. A produção do conhecimento sobre a Educação do Campo: Opção epistemológica e aporte político ideológico. RIAEE – Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação. Araraquara, v. 17, n. 2, p. 1215-1230, abr./jun. 2022.
MARX; ENGELS. A ideologia alemã (Feurbach). São Paulo: Ciências Humanas, 1979.
SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: Fundamentos ontológicos e históricos. In: Revista Brasileira de Educação. V. 12, n. 34, jan/abr. 2007. Acesso em: 1-4_iniciais. p. 65 (scielo.br).
Notas
1. Doutoranda em Educação, Universidade Federal de Goiás.
2. Professora Doutora de Ensino Superior, Universidade Federal de Goiás.
3. Professor Doutor de Ensino Superior, Universidade Federal do Tocantins - Campus Arraias.