AS PESQUISAS ACADÊMICAS E O TRABALHO PEDAGÓGICO COM TECNOLOGIAS: UM OLHAR PARA O CONTEXTO DA PANDEMIA
110Resumo: O objetivo deste trabalho foi o de explicar as concepções de trabalho pedagógico com tecnologias na educação básica durante a pandemia, com foco nas pesquisas acadêmicas da área de Ciências da Natureza. A pesquisa utilizou uma abordagem qualitativa, baseada em uma revisão sistemática da literatura das produções sobre a temática na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), por meio do uso de descritores, como: ‘Ensino’, ‘Tecnologias’, ‘Pandemia’, ‘Educação Básica’ e ‘Ensino de Ciências e Ciências da Natureza’, para as produções publicadas entre os anos de 2020 e 2022. As catorze dissertações analisadas foram lidas na íntegra e revelaram abordagens e perspectivas sobre o uso de tecnologias na educação básica, quais sejam: 1. Tecnologias digitais e metodologias de ensino (D2, D4, D7, D8, D12, D13); 2. Cultura digital na EJA (D3); 4. inovação tecnológica (D5, D6, D11), 5. Tecnologia e inclusão (D1, D9, D14) e 6. Políticas Educacionais e Tecnologia (D10). A concepção de tecnologia que predominou foi o tecnocentrada, sendo o smartphone o dispositivo mais utilizado. Já a concepção de trabalho pedagógico foi a de educação híbrida adaptada ao ensino emergencial remoto, com José Manuel Moran. A pandemia evidenciou a necessidade inclusiva de muitos discentes, destacando a importância das tecnologias digitais na educação para todos e todas. No entanto, a implementação eficaz dessas tecnologias nos processos educativos requer intencionalidade pedagógica, planejamento adequado e suporte contínuo para garantir a acessibilidade e o engajamento de todos os estudantes.
Palavras-chave: Ensino. Tecnologias. COVID-19.
INTRODUÇÃO
A COVID-19 teve um impacto significativo nas sociedades globais sendo o impacto mais profundo nos aspectos sociais, culturais, educacionais, políticos e históricos. No Brasil o Ensino Remoto Emergencial (ERE) desvelou desigualdades anteriormente negligenciadas e forçou as instituições de ensino a rever seus currículos e métodos devido ao distanciamento social. A adoção de tecnologias e/ou instrumentos digitais tornou-se indispensável para prevenir perdas no período letivo e minimizar a evasão escolar. É necessário conceber o entendimento que instrumentos, vão além dos digitais, como segue:
Nesta vertente, minha pesquisa parte dos conceitos de artefato, instrumentos, atividade mediada, ato instrumental e mediação. Os estudos indicam a necessidade de apreender, em um movimento dialético, os artefatos em sua natureza material ou simbólica, interna ou externa ao indivíduo, individual ou coletiva. Quanto aos instrumentos, é preciso considerar que estes podem ser engendrados a partir de um mesmo tipo de artefato, em função do tipo de relação mediadora que prevalece (Peixoto, 2012, p. 285).
Diante do que foi apresentado, verificamos que, no ERE, as apostilas foram utilizadas como uma alternativa instrumental para estudantes que não tinham acesso à internet ou ao celular. Professores, estudantes e instituições adaptaram-se às necessidades do ERE, enquanto que os governos priorizaram as emergências sanitárias em detrimento das políticas educacionais.
111METODOLOGIA
Esta pesquisa, de abordagem qualitativa, conduziu uma revisão sistemática de literatura, utilizando descritores relacionados ao ensino, tecnologias, pandemia, educação básica e ciências. Após uma análise inicial, foram excluídos trabalhos que não estivessem relacionados à educação básica, à formação docente contínua ou à temática relacionada às ciências. Foi criada uma nuvem de palavras com a aplicação IRAMUTEQ® para identificar as palavras/temas mais significativos. Este resumo apresenta os dados coletados e uma análise de 14 dissertações lidas integralmente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A pesquisa abrange 14 dissertações publicadas entre 2020 e 2022, com uma maior concentração de trabalhos na (PPG) mais antigos. A região Norte não apresentou pesquisas a respeito, conforme o Quadro 1 abaixo:
Quadro 1 - Dissertações que discutem o trabalho pedagógico na pandemia no contexto da Educação Básica.
| Cod | Ano | Título | Autor | IES | Região |
|---|---|---|---|---|---|
| D1 | 2020 | O uso do Google sala de aula como ferramenta de mediação pedagógica | OLIVEIRA, Márcia Daiana Soares de | UFJF | Sudeste |
| D2 | 2021 | Construcionismo de Papert e o ensino-aprendizagem do efeito doppler: um kit didático de robótica com a utilização de um laboratório portátil | SILVA, Valdeci Teles da | UFMA | Nordeste |
| D3 | 2021 | Alfabetização de jovens e adultos: investigando a Jornada de Alfabetização do Maranhão: “Sim, eu Posso!” - Círculo de Cultura no Município de Governador Newton Bello | ARAÚJO, Simone Costa Miranda | UFMA | Nordeste |
| D4 | 2021 | Educação e contemporaneidade – práticas docentes mediadas por novas tecnologias de informação e comunicação | MORENO, Thalita Souza | PCAM | Sudeste |
| D5 | 2021 | A percepção de professores de Ciências de escolas estaduais de Cascavel/PR a respeito do uso de tecnologias digitais no contexto da pandemia da Covid-19 | OLIVEIRA, Eduarda Rodrigues Grunevald de | UNIOESTE | Sul |
| D6 | 2021 | O estudo exploratório do uso da realidade aumentada no período de pandemia da Covid-19 nos ensinos fundamental e médio | GARCIA, Rodrigo Guerra | UFSC | Sul |
| D7 | 2021 | Uma proposta didática para o ensino de termologia com uso de tecnologias | JANKOWSKI, Rosane | UTFPR | Sul |
| D8 | 2022 | A videoaula como metodologia de ensino para aulas de língua inglesa em uma escola pública estadual na Paraíba a partir da experiência em um programa bilíngue em construção (CRIA) | COUTINHO, Elielma Carneiro | UFP | Nordeste |
| D9 | 2022 | A utilização de tecnologias móveis no contexto escolar inclusivo de estudantes com deficiência intelectual do ensino fundamental | REIS, Wladimir Ferreira dos | UnB | Centro- Oeste |
| D10 | 2022 | Trabalho docente, ensino remoto emergencial e políticas educacionais no município de Três Lagoas/MS | SILVA, Marize Aparecida Leite Siqueira | UFMS | Centro- Oeste |
| D11 | 2022 | A mediação da informação no contexto escolar e a tecnologia digital de informação e comunicação (TDIC) | WATARI, Angela Vicente Alonso | UNSP | Sudeste |
| D12 | 2022 | Um estudo sobre as contribuições das metodologias ativas e da personalização no ensino de ciências | COSTA, Maria Magali Borges | UFEI | Sudeste |
| D13 | 2022 | Biotecnologia e vacinas: uma sequência didática, em ambientes virtuais, no processo de ensino e aprendizagem de Biologia | LIMA, Angela Aparecida Soares de | UFJF | Sudeste |
| D14 | 2022 | Educação inclusiva, ensino remoto e Covid-19: possibilidades e limites de práticas pedagógicas humanizadoras | CALISTRO, Edinéia Aparecida | UEPG | Sul |
Fonte: Dados da pesquisa.
As pesquisas puderam ser organizadas em unidades, a partir de seus objetos de estudos, quais sejam: tecnologias digitais e metodologias de ensino (D2, D4, D7, D8, D12, D13), tecnologia e inclusão (D1, D9, D14), inovação tecnológica (D5, D6, D11), cultura digital na EJA (D3) e políticas educacionais e tecnologias (D10).
112As dissertações analisaram diversas ferramentas tecnológicas, como plataformas de web conferência, gamificação, simuladores e recursos de mediação pedagógica. Verificamos, também, que as pesquisas se centraram entre as etapas do Ensino Fundamental (D5, D6, D8, D9, D10, D11, D12 e D14) e Ensino Médio (D1, D2, D4, D6, D7, D13), com oito e seis trabalhos, respectivamente. O restante das pesquisas ficaram na etapa EJA (D3), com uma produção. Observamos uma atenção na pesquisa (D9) vinculada à etapa do ensino fundamental, sendo direcionada aos estudantes com deficiências. O ensino fundamental e médio são as etapas escolares onde os educandos permanecem maior tempo no trajeto estudantil e que tem sido alvo de muitas políticas públicas. Em contrapartida, sofreram os maiores impactos na pandemia, o que demandou um trabalho árduo dos docentes e instituições.
No levantamento das 14 dissertações analisamos o uso de tecnologias na educação básica e foram identificadas pesquisas com as três possibilidades explicativas: determinista, instrumental e crítico/dialética. Com a utilização do aplicativo IRAMUTEQ®, foi implementada uma nuvem de palavras, com a análise dos resumos de cada dissertação (Figura 1).
Fonte: Dados da pesquisa com o uso do IRAMUTEQ®
Podemos observar na (Figura 1) o adjunto adverbial “como”, deixado propositalmente a fim de revelar a principal intencionalidade apresentada nos problemas de pesquisa de cada dissertação. Com a leitura na íntegra das pesquisas, foi observado que 78% delas apresentavam uma visão tecnocentrada, alinhada às perspectivas determinista e instrumental, ou seja, possuem a tecnologia como atividade central para mudanças educacionais, muitas vezes desconsiderando aspectos sociais e pedagógicos mais amplos.
Na perspectiva determinista, as tecnologias se impõem aos sujeitos e evoluem naturalmente (Peixoto, 2012), destacamos os seguintes trechos dos trabalhos, nessa visão:
Os ambientes de aprendizagem tradicionais necessitam de adequações para tornarem-se atrativos para os alunos que já nasceram em meio a uma revolução tecnológica e faz parte de uma sociedade absolutamente dinâmica em termos de acesso à informação. (D1, p. 31, grifo nosso).113
Partindo dos estudos de Prensky (2001) podemos verificar que as gerações que nasceram ou cresceram vivenciando as tecnologias, principalmente as digitais, foram fortemente impactadas e afetadas por elas, e é a partir delas que passaram a se desenvolver de forma muito distinta das gerações anteriores. (D4, p. 13, grifo nosso)
Antes da pandemia, de acordo com o relato das professoras, alunos das escolas urbanas centrais valorizavam mais o ensino do que alunos de escolas urbanas periféricas, além de a estrutura escolar também ser melhor em escolas centrais. Porém, durante a pandemia, um frequente baixo rendimento dos alunos de forma geral foi verificado, o que se deu por vários motivos que independem da região em que moram e estudam, sendo estes a falta de acesso às TDIC, as dificuldades técnicas para utilizar os recursos, a falta de apoio e de organização familiar e, principalmente, as dificuldades de ultrapassar o uso das TDIC como forma de lazer para usá-las como meio de estudo. (D5, p. 227, grifo nosso)
Destacamos sobre o determinismo tecnológico, é que reconhecemos a importância da utilização das tecnologias, mas tê-las como uma solução central para a educação pode causar o isolamento social, pois está sempre descontextualizada dessa realidade. Embora o fundamento instrumental esteja presente nos contextos sociais, tem limitações: separa os meios técnicos dos fins educacionais, tem uma visão reducionista onde considera os instrumentos técnicos como neutros, deslocando-os para a margem e, por isso, concentra-se excessivamente nos sujeitos, os quais serão os responsáveis pelo sucesso ou fracasso escolar (Peixoto, 2012).
As abordagens determinista e instrumental promovem, em alguma medida, uma visão mercadológica da educação, que alinhada ao protagonismo estudantil e à flexibilidade, fica completamente voltada para atender às demandas do mercado de trabalho.
Já o fundamento crítico/dialético, apresenta a tecnologia como constructo social, onde seres humanos e tecnologias fazem parte do processo de vida em sociedade, logo busca-se explicar o fenômeno e não o fetiche ou a aversão a ele.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O período da pandemia revelou diversas fragilidades no sistema educacional, como o mercado de tecnologias, mesmo em condições de crise sanitária e necessidade de suporte básico, como a alimentação escolar, ao povo brasileiro.
Embora as tecnologias digitais permeiem todas as atividades humanas, sua implementação na educação exige contextualização aos contextos e condições dos discentes, docentes e instituições, além de intencionalidade para promover a construção ativa e crítica do conhecimento, voltada à transformação social. Essa integração deve ser considerada em planejamentos curriculares, políticas educacionais e diretrizes.
Durante a pandemia, destacaram-se a criatividade dos docentes em fortalecer as relações entre professor, estudante e conhecimento, e o esforço de estudantes que, mesmo sem vivência na chamada “cultura digital”, superaram limitações tecnológicas. Nos chama a atenção, a dedicação de professores para atender estudantes sem acesso às tecnologias, por meio de trilhas de aprendizagem impressas, de modo fundamental no combate à evasão escolar.
REFERÊNCIAS
114BRASIL. Ministério de Educação e Cultura. LDB - Lei nº 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm.
PEIXOTO, J. Tecnologias e práticas pedagógicas: as TIC como instrumentos de mediação In: LIBÂNEO, J. C.; SUANNO, M. V. R. (Orgs.). Didática e escola em uma sociedade complexa. 1 ed. CEPED: Goiânia. 2011, p. 97-111.
PEIXOTO, J. Tecnologia e mediação pedagógica: perspectivas investigativas. In: KASSAR, M. C. M.; SILVA, F. C. T. (Orgs.). Educação e pesquisa no Centro-Oeste: políticas públicas e formação humana. Campo Grande - MS: UFMS. 2012, v. 1, p. 283-294.
PEIXOTO, J. Tecnologias na mediação do trabalho pedagógico: uma nova perspectiva didática? Série-Estudos - Periódico do Programa de Pós-Graduação em Educação da UCDB, [S. l.], v. 27, n. 59, p. 39–60, 2022. DOI: 10.20435/serie-estudos.v27i59.1586. Disponível em: https://serieucdb.emnuvens.com.br/serie-estudos/article/view/1586. Acesso em: 7 ago. 2024.
PEIXOTO, J. Notas para compreender relações contemporâneas entre tecnologia e educação. Linhas Críticas, [S. l.], v. 29, p. e48540, 2023. DOI: 10.26512/lc29202348540. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/article/view/48540. Acesso em: 7 ago. 2024.
Notas
1. Estudante da Licenciatura em Ciências Biológicas. Bolsista Prolicen, ICB, UFG Goiânia.
2. Orientadora e pesquisadora do PPGECM e PPGE UFG, ICB, UFG Goiânia.