Hevelyn Costa de Jesus
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Marcus Turíbio
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Carla Luzia de Abreu
carlaabreu@ufg.br

EIXO
Formação Inicial, estágio, didáticas e metodologias de ensino

REFLEXÕES SOBRE “ARTES MARGINAIS” E O ENSINO DE ARTES VISUAIS: UMA PESQUISA DO PROLICEN EM ANDAMENTO

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Resumo: A presente pesquisa tem como objetivo problematizar e analisar os impactos e as possibilidades dos estudos das “artes marginais” no contexto do ensino de Artes Visuais. Com a preocupação de ir além de construir conhecimentos a partir dos repertórios tradicionais, o ensino de Artes Visuais, orientado pelos estudos da Cultura Visual, valoriza expressões artísticas que não se encontram categorizadas pelo sistema de arte hegemônico e, assim, promover uma educação mais inclusiva, crítica e transformadora. A metodologia desta pesquisa apresenta caráter qualitativo e interpretativo, com viés da pesquisa-ação. O processo se inicia por um levantamento bibliográfico sobre o uso do termo “artes marginais”, tanto no campo das artes, quanto no da educação. Esta literatura irá conduzir reflexões cruzadas com as percepções de um grupo de estudantes de Licenciatura em Artes Visuais, que após uma série de encontros realizará uma produção artística coletiva, e com relatos de docentes do componente curricular Arte, da rede pública de Educação Básica, na cidade de Goiânia, colhidos a partir de entrevistas. Ao integrar diferentes abordagens na coleta de dados e realizar análises sistemáticas, esperamos obter uma compreensão abrangente e multifacetada das possibilidades pedagógicas ao incluir os estudos das “artes marginais” no contexto do ensino de Artes Visuais, bem como contribuir para o desenvolvimento de práticas críticas e emancipatórias no campo da educação artística.

Palavras-chave: Artes marginais. Práticas pedagógicas. Ensino de Artes visuais.

O Ensino de Artes Visuais tem em sua base uma história da arte que vem sendo questionada e reelaborada ao longo dos últimos anos. Há uma desconexão entre as culturas das e dos estudantes e o que é apresentado em sala de aula, experiências muitas vezes veladas por uma despolitização e imposição sobre o que é válido de ser trabalhado em sala de aula. Segundo Nascimento (2013), os campos de conhecimento da artes visuais e da educação ainda são conformados por uma vertente hegemônica, com viés romântico, concebidos “como um espaço idealizado, repleto de expressivismos, cheio de bondade e canduras, sem qualquer tipo de opressão e repressão” (2013, p.7). Essa perspectiva ainda está conectada a uma ideia de Arte entendida como manifestação da “alta cultura” em sua forma de articular o político e o estético, formando aquilo que Rancière (2012) chamou de “regime estético”.

Algumas fases na história brasileira indicam algumas subversões da estrutura conservadora que tem operado a relação da escola com as artes visuais. É o caso da apropriação das “culturas marginais” pelo cinema, a poesia, as artes visuais, e outros movimentos estéticos. Esta tendência surgiu entre os anos 60 e 70, em decorrência de movimentos de contracultura, artistas que construíram “uma representação ligada a trajetórias e trabalhos cujas marcas públicas e privadas desviavam do senso comum conservador do período” (Coelho, 2017, p. 347). Buscavam por meio da resistência e do protesto, opor-se ao sistema social do contexto da ditadura militar.

Nos dias de hoje, as “culturas marginais” podem ser inseridas na identificação de meios de expressão e de autoafirmação dos saberes locais de perspectivas silenciadas ou subalternizadas, por meio de práticas artísticas dotadas de potencial transgressor. Neste projeto, “artes marginais” consistem na “produção artística que apresenta um potencial emancipatório ao gerar mundos visuais férteis e variados, ou seja, sistemas estéticos que produzem significados individuais e coletivos” (Garcia Camargo, 2017, p.127, tradução nossa). Ao contextualizarmos esta prática no espaço escolar, trabalhar a partir da ideia das “artes marginais” significa realizar ações pedagógicas que buscam uma aproximação com as realidades do corpo discente.

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É o que busca o curso de Licenciatura em Artes Visuais da UFG. O curso possui orientação educacional nas pedagogias críticas, especialmente através da abordagem dos estudos de Cultura Visual. Desse modo, para além da preocupação em construir conhecimento a partir dos repertórios tradicionais das artes visuais, também valoriza as expressões artísticas que não se encontram categorizadas pelo sistema de arte hegemônico. Dessa forma, busca formar professoras e professores críticos, que promovam novas partilhas do sensível (Rancière, 2009), com potencialidade de sensibilizar e reformular as formas como aprendemos a ver o mundo.

Os processos educacionais na Educação Básica, as relações de ensino e aprendizagem em Artes Visuais, assim como o ato de ver não acontecem num “vazio cultural” (Tourinho, Martins, 2011, p. 54). No entanto, o que predomina é uma estrutura educacional que não se aproxima dos processos culturais dos contextos em que se situa (Candau, 2008, p. 13). Surge daí o interesse desta pesquisa por projetos que atendam às demandas do alunado em sintonia com seus repertórios estéticos. Nesta direção, partimos da seguinte pergunta: Como práticas pedagógicas críticas, baseadas em conceitos como o das “artes marginais”, podem desafiar e reconfigurar as normativas estéticas e ideológicas dominantes no contexto do Ensino de Artes Visuais, promovendo uma educação mais inclusiva e transformadora?

Isso significa ir ao encontro das subjetividades que habitam o chão da escola, com a intenção de conhecer os universos, as expectativas e as experiências das e dos estudantes. Faz-se necessário problematizar e analisar o impacto e as possibilidades de posições politizadas como das “artes marginais” na dimensão educacional, a fim de averiguar como esta pode atravessar os processos de ensino e aprendizagem, promovendo a curiosidade epistemológica (Freire, 1996, p.18). Pretendemos problematizar e analisar este impacto no contexto do Ensino de Artes Visuais, utilizando como ponte epistemológica as percepções de um grupo de estudantes de Licenciatura em Artes Visuais da UFG, e de relatos de docentes de Arte da rede pública da Educação Básica, na cidade de Goiânia.

Como encontraremos “artes marginais” no chão da escola

Esta é uma pesquisa com caráter qualitativo, com viés da pesquisa-ação e propõe analisar as possibilidades pedagógicas das manifestações artísticas classificadas como marginais, no contexto do Ensino de Artes Visuais. Para analisar essas questões, o primeiro passo foi realizar um levantamento bibliográfico para encontrar referências teóricas e outras pesquisas que dialoguem com a temática do projeto, especialmente no contexto da educação.

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Na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), foram usadas as palavras-chave “arte marginal” e “ensino de arte”, para resultados de trabalhos publicados nos últimos 10 anos. A quantidade baixa de trabalhos sobre artes visuais, em sua maioria com recortes na produção literária, apresenta a importância da investigação para o campo. Por outro lado, resultados apresentados em algumas pesquisas sugerem o potencial positivo do uso das “artes marginais” na construção de um repertório na educação que contemple a transformação local e o acolhimento de estudantes. Entre os dez trabalhos selecionados, destacamos as dissertações “Vozes artísticas das periferias na escola: vetores para a formação humana do aluno e para o desconfinamento das memórias silenciadas” (Iladin, 2024), da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, e “Ensino de artes visuais e cultura periférica: reflexões a partir da Escola Municipal Frei Afonso no Baixo Roger, João Pessoa, PB” (Salustiano, 2017) da Universidade Federal da Paraíba.

Na etapa seguinte, pretendemos formar um grupo de estudos composto por estudantes do curso de Licenciatura em Artes Visuais da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. A ideia é fomentar discussões sobre as possibilidades das “artes marginais” no contexto educacional e refletir sobre suas formas de manifestações na contemporaneidade. Ao final da pesquisa, será proposto a este grupo elaborar e desenvolver uma intervenção artística, baseada nas discussões e trocas de experiências ocorridas nos encontros do Grupo. Simultaneamente às atividades desenvolvidas pelo grupo de estudos, serão contactadas docentes que atuam no componente curricular Arte da Educação Básica, para conhecer suas percepções e experiências com as “artes marginais”. Essa ação será desenvolvida mediante entrevistas e terão como finalidade uma aproximação com as realidades dessas/es professoras/es e os desafios enfrentados ao propor ou integrar conteúdos e práticas associados às “artes marginais”

A análise dos dados será realizada de forma integrada e interativa, com as pessoas envolvidas no projeto, permitindo uma compreensão aprofundada das complexidades e nuances envolvidas no contexto do ensino de Arte e das artes marginais. Inicialmente, os dados provenientes do levantamento bibliográfico e das entrevistas com professoras/es da Educação Básica serão submetidos a uma análise de conteúdo. Nessa fase, será realizada uma categorização dos temas emergentes das referências teóricas e das percepções e experiências compartilhadas pelas professoras/es entrevistadas/os. Essa análise permitirá identificar padrões, tendências e lacunas no entendimento das práticas pedagógicas relacionadas às “artes marginais”, bem como compreender os desafios enfrentados pelas/os docentes na implementação dessas práticas no contexto escolar. A análise das entrevistas será compartilhada com o Grupo de Estudantes e temos a expectativa de que cumpra o papel de disparador das discussões. A partir desta estratégia, pretendemos analisar as reflexões do grupo sobre as narrativas docentes, propor leituras, e explorar suas propostas e percepções das experiências relatadas. Serão identificados os principais temas, conceitos e ideias discutidas durante as reuniões do grupo, bem como as reflexões críticas e as proposições de intervenção artística. Essa análise permitirá compreender as percepções e interpretações das/os estudantes e futuras/os professoras/es de artes visuais sobre as possibilidades de partilharem das “artes marginais” no contexto educacional, nas busca por estratégias e abordagens que promovam uma educação mais inclusiva e crítica.

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Para Rancière (2005), a arte resiste quando abala o sensível, quando questiona o que é dado como comum. Para o autor, a arte está associada à resistência quando ela subverte as lógicas de dominação. Nesse sentido, pensar a arte como resistência é pensar na criação de mundos, é perceber que existem frestas que possibilitam experiências com aquilo que escapa ao convencional ou previamente estipulado como “Arte”. Dessa forma, pretendemos com esta investigação pensar possibilidades que possam subverter as normativas do sistema de arte. Expandindo o conhecimento sobre experiências artísticas que promovem outras formas visuais de manifestações, com potencialidade de criar afetos e questionar o que é dado como comum. Refletir sobre o Ensino de Artes Visuais subvertendo o olhar colonizado e instituído pelas lógicas de dominação.

REFERÊNCIAS

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COELHO, F. Contracultura no Brasil–Infraturas. Romance Notes, v. 57, n. 3, 2017, p. 347-359. Disponível em: https://doi.org/10.1353/rmc.2017.0030. Acesso em:

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GARCÍA CAMARGO, D.L. Pedagogía popular a partir de prácticas artísticas marginales realizadas con objetos de lo cotidiano. Cuadernos de Música, Artes Visuales y Artes Escénicas. vol. 12, n. 2, 2017, p. 125-145. Disponível em: https://doi.org/10.11144/javeriana.mavae12-2.pppp . Acesso em: 24 nov. 2024.

ILADIN, I. Vozes artísticas das periferias na escola: vetores para a formação humana do aluno e para o desconfinamento das memórias silenciadas. 2024. 163 f. Dissertação (Mestrado) Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Cascavel, 2024. Disponível em: https://tede.unioeste.br/bitstream/tede/7228/2/Ismael%20Iladin.pdf Acesso em: 24 nov. 2024.

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NASCIMENTO, E.A. Colonialidades na relação entre educação e visualidades. Revista Digital do LAV, Santa Maria, v. 6, n. 11, 2013. Disponível em: http://www.redalyc.org/pdf/3370/337028478006.pdf. Acesso em: 24 nov. 2024.

RANCIÈRE, J. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

RANCIÈRE, J. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental org., 2009.

RANCIÈRE, J. Será que a arte resiste a alguma coisa?. In LINS, D. (org.) Nietzsche e Deleuze. Arte e resistência. Simpósio Internacional de Filosofia, 2005. Rio de Janeiro Forense. Disponível em: https://we.riseup.net/assets/404237/Jacques+Ranci%C3%A8re+Sera+que+a+arte+resiste+a+alguma+coisa.pdf. Acesso em: 24 nov. 2024.

SALUSTIANO, C.E. Ensino de artes visuais e cultura periférica: reflexões a partir da Escola Municipal Frei Afonso no Baixo Roger, João Pessoa, PB. 2017. 151 f. Dissertação - (Mestrado) Programa Associado de Pós-graduação em Artes Visuais, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal de Pernambuco, Paraíba, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/11509/1/Arquivototal.pdf . Acesso em: 24 nov. 2024.

TOURINHO, I; MARTINS, R. Circunstâncias e ingerências da cultura visual. In: ______ (Org.) Educação da cultura visual: conceitos e contextos. Santa Maria: Editora UFSM, 2011.

Notas

1. Discente na Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV/UFG). Participante no Programa de Iniciação à Pesquisa das Licenciaturas da UFG.

2. Discente de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual (PPGACV/UFG), com bolsa concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG). Participante no Grupo de Pesquisa Cultura Visual e Educação (PPGACV/FAV/UFG).

3. Professora da Faculdade de Artes Visuais, da Universidade Federal de Goiás (UFG). Integra o Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual (PPGACV-UFG). É doutora em Artes Visuales y Educación (2014), pela Universidade de Barcelona.