A FUNÇÃO DO CINEMA NO DESENVOLVIMENTO DAS CONSCIÊNCIAS (I)MORAIS NO ENSINO DE HISTÓRIA: CAMINHOS PARA A APRENDIZAGEM ACERCA DA DITADURA CIVIL-MILITAR (1964-1985)
06Resumo: Este trabalho parte de uma pesquisa de estágio de maior fôlego que visa a análise das narrativas de estudantes acerca dos valores morais na história a partir da utilização de narrativas históricas fílmicas. A partir da teoria da consciência moral frente à consciência histórica proposta por Jörn Rüsen (2010), haverá a tentativa de condução dos estudantes ao nível ontogenético de consciência, de modo que a relatividade cultural, a alteridade e as possibilidades de agência histórica no presente, a partir do passado e com projeção ao futuro, sejam evidenciadas. Assim, haverá a análise da presença de questões de cunho moral nas aulas de história, a busca pela identificação dos seus limites na construção do conhecimento científico e a proposta de um ensino de história ético, plural e humanista (Fronza, 2020), que abarque as diversidades. Para esta comunicação, teremos como base os resultados obtidos em uma turma de 9° ano do ensino fundamental II de uma escola municipal de Goiânia. Na pesquisa, utilizamos trechos do documentário Brazil, A Report on Torture, de 1971, em uma sequência didática acerca das violências e resistências de grupos minorizados durante a ditadura civil-militar. A obra traz entrevistas com exilados políticos da ditadura brasileira no momento em que chegam ao Chile, após terem sido libertados em uma troca com o embaixador suíço que havia sido sequestrado por membros da luta armada. As cenas do média-metragem apresentam relatos de pessoas que sofreram com diversas violências do regime, enfatizando a militante Maria Auxiliadora Lara Barcellos. Na ocasião, foi feito o levantamento de ideias dos discentes a partir de formulários que evocaram temáticas relativas à consciência moral com base na obra fílmica analisada.
Palavras-chave: Consciência histórica. Consciência moral. Cinema.
1. INTRODUÇÃO
Este projeto de pesquisa surge a partir de reflexões relativas a vivências em sala de aula na disciplina de Estágio Obrigatório 1 do curso de licenciatura em História da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás (FH-UFG), à historiografia e à didática da história. Na realidade escolar, a emergência da temática da moralidade pode ser notada a partir de conflitos entre os estudantes, em que o fator moral(ista) é utilizado na elaboração de ofensas preconceituosas. É notória a reprodução de discriminações a partir de discursos que evocam uma moralidade conservadora. Tais julgamentos repreendem comportamentos considerados dissidentes, gerando ofensas e exclusões aos indivíduos que os expressam. Em segundo lugar, o cinema aparece como uma forma de aproximação da realidade dos discentes a partir de sua potencialidade artística de estímulo de diversas formas; essencialmente, a partir da imagem em movimento e do som (Napolitano, 2009). Essa escolha também partiu de observações realizadas nas aulas de história, visto que as turmas dos anos finais do Ensino Fundamental II se mostram alheias e desestimuladas. Desse modo, a conexão entre a temática moral no ensino de história e o cinema se mostra adequada às necessidades da realidade escolar.
Esse entrelaçamento também é notório para além da realidade escolar, a partir de discussões nas áreas da teoria da história e da didática da história. Esta pesquisa se insere no interior das discussões sobre os limites da subjetividade no trabalho historiográfico e no ensino de história. A priori, adotamos a perspectiva que entende a historiografia como fato moral, expressa na obra do historiador Paulo Knauss (2008) e do historiador Jan Löfström (2022). Pois entendemos que os valores morais individuais dos historiadores são expressos na historiografia. A partir disso, estendemos a reflexão para o ensino de história. Jörn Rüsen (2010), Maria Auxiliadora Schmidt (2011), Marcelo Fronza (2020), Jan Löfström (2022), Niklas Ammert (2022), Silvia Edling (2022) e Heather Sharp (2022) constituem os referenciais teóricos acerca da análise da moralidade no ensino de história a serem utilizados nesta pesquisa. Rüsen (2010) propõe uma tipologia que expressa a progressão do que denomina como “consciência moral”. Esta, indissociável da “consciência histórica”, se desenvolveria em 4 etapas: tradicional, exemplar, crítica e genética. No último estágio, há a expressão de uma ideia de relatividade cultural com o reconhecimento de diversos tipos de moralidade ao longo da história e no presente (Rüsen, 2010, p.20). Desse modo, os discentes podem romper com a obrigatoriedade de manutenção de moralidades que não constituem um sentido histórico em suas vidas e exercer suas alteridades na compreensão de outros sistemas morais. Por fim, Rüsen atribui à narrativa histórica o potencial de transformação das consciências dos estudantes.
Schmidt (2011) utiliza a tipologia de Rüsen para propor formas de análise das consciências morais e históricas dos estudantes. A autora defende, principalmente, a análise do que denomina “consciências históricas prévias” dos estudantes para que, em seguida, haja a construção de totalidades temporais que exponham a historicidade dos valores morais (Schmidt, 2011, p.115). Já Fronza (2020), complementa o pensamento ao apontar a importância do desenvolvimento de uma educação ética pautada por um “novo humanismo” que corrobora a dignidade humana orientada por uma “responsabilidade histórica”, suprimindo os problemas de carência temporal identificados nas consciências dos jovens (Fronza, 2020, p.90). Portanto, entendemos que o professor-pesquisador deve conduzir os estudantes ao nível genético das consciências, visando o acolhimento de narrativas plurais e o combate às opressões das diversidades.
07Os historiadores Jan Löfström, Niklas Ammert, Silvia Edling e Heather Sharp contribuíram para a discussão sobre moralidade nas aulas de história em um trabalho conjunto. Os autores também veem a possibilidade de construção de um ensino de história preocupado com questões éticas baseadas em preceitos democráticos (Löfström, 2022, p.3). Além disso, indicam, a partir de experiências empíricas, que o engajamento dos discentes nas aulas de história é maior quando há algum dilema moral nas narrativas históricas utilizadas (Löfström, 2022, p.2). Por fim, propõem o uso de elementos afetivo-emocionais no ensino de história, unindo a emoção e a cognição na aprendizagem (Löfström, 2022, p.5).
Partindo da ideia de Rüsen quanto ao papel da narrativa histórica na transformação das consciências morais e históricas dos estudantes, para esta pesquisa, houve a escolha de narrativas cinematográficas. Fica claro, portanto, a relevância de debates acerca da moralidade tanto na teoria, quanto no ensino de história para a construção de uma história ética e plural. A partir de problemáticas práticas do cotidiano da sala de aula de história, podemos discutir temas que são atravessados por questões morais, compreendendo como estes influenciam a compreensão da história pelos alunos; em que a narrativa histórica cinematográfica surge como uma ferramenta fundamental.
Desse modo, os objetivos da pesquisa são: fomentar a reflexão acerca dos sujeitos históricos em suas complexidades emocionais e morais, compreender os limites entre moralidade e cientificidade e reconhecer o cinema como uma das possibilidades de narrativa histórica que conduzirá os indivíduos ao nível ontogenético da consciência histórica e moral proposto por Jörn Rüsen.
2. METODOLOGIA
A metodologia utilizada para esta pesquisa consistiu na aplicação de uma sequência didática em turma do 9° ano do ensino fundamental II de uma escola municipal de Goiânia. A partir dos referenciais de sequência didática (Freitas; Oliveira, 2022), aula oficina (Barca, 2004) e aula histórica (Schmidt, 2020) desenvolvemos uma sequência de duas aulas em que o trabalho com uma fonte primária cinematográfica foi essencial.
Inicialmente, houve a reprodução de cenas de Maria Auxiliadora Lara Barcellos no filme documental Brazil, a report on torture (1971). Barcellos foi uma militante da luta armada no período da ditadura civil-militar que foi presa e torturada e, em decorrência dos traumas, cometeu suicídio alguns anos após ter se exilado na Alemanha Ocidental. O filme retrata o momento em que Maria Auxiliadora chega ao Chile juntamente com outros ex-presos políticos da ditadura brasileira após terem sido exilados. O evento foi possível após a troca realizada pelos militares e militantes entre estas pessoas e o embaixador suíço no Brasil, que havia sido sequestrado por outros membros da luta. Nas cenas selecionadas, Barcellos narra as torturas que sofreu, destacando a violência sexual mais recorrente a corpos femininos.
Ao final da reprodução do filme, houve uma exposição acerca da violência de gênero durante a ditadura civil-militar a partir do texto “‘Sobre as mulheres, um silêncio que gritava’”: duas décadas da primeira obra historiográfica sobre mulheres e Ditadura Militar no Brasil, entrevista com a professora Dra. Ana Maria Colling”, de Ary Cavalcante Júnior. A exposição apontou a especificidade da violência contra as mulheres tidas como “subversivas” pelo regime em relação aos homens enquadrados da mesma forma. Ao final da aula, houve a projeção e a leitura de um relato escrito produzido a partir de uma entrevista com Maria Diva de Faria, outra militante torturada pela ditadura civil-militar (SILVA, 2019 p. 350).
08Na aula seguinte, os alunos foram solicitados a responderem um formulário acerca da história de Barcellos. Utilizamos como base a estrutura de formulários de Jan Lofstrom (2022), selecionando e aplicando 3 tipos de questões: uma relativa ao raciocínio moral (julgamento do personagem histórico), uma relativa à tomada de perspectiva (se colocar no lugar do personagem histórico) e duas relativas à consciência histórica (relação entre passado, presente e futuro). Desse modo, as perguntas foram: “Por que você acha que Maria Auxiliadora se uniu à luta armada? Como você julga a conduta dela durante os acontecimentos que foram descritos no texto?”, “Imagine que você estivesse lutando contra a ditadura civil-militar. Você lutaria da forma como Maria Auxiliadora lutou? Como você se sentiria ao passar por situações como as narradas?”, “Você acha que situações semelhantes às narradas por Maria Auxiliadora podem acontecer no Brasil atual? E no futuro?” e “Qual mensagem o filme passou para você?”.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da observação, do engajamento dos estudantes durante a sequência didática e dos formulários analisados, identificamos uma pluralidade de consciências morais dos estudantes, pensando nas tipologias de Rüsen (2010) e de Löfström (2022). Ao tratarmos de um tema sensível como a violência de gênero na ditadura civil-militar, as reações dos discentes são complexas e partem desde o julgamento moral negativo do papel da mulher “subversiva” à sua tomada de perspectiva e empatia em relação à personagem histórica.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluímos que a exposição de uma narrativa cinematográfica documental na referida sequência didática foi capaz de mobilizar a consciência moral dos estudantes, evocando as suas subjetividades a partir da dimensão emotiva do conhecimento histórico. Além disso, a partir da exposição de ideias científicas acerca do assunto, os alunos foram capazes de unir a cognição e a emoção na construção de suas interpretações do passado, se aproximando de uma consciência moral ontogenética.
5. REFERÊNCIAS
BARCA, Isabel. Aula Oficina: do Projeto à Avaliação. In. Para uma educação de qualidade: Atas da Quarta Jornada de Educação Histórica. Braga, Centro de Investigação em Educação (CIED)/ Instituto de Educação e Psicologia, Universidade do Minho, 2004, p. 131 – 144.
09CAVALCANTI JÚNIOR, Ary. “Sobre as mulheres, um silêncio que gritava”: duas décadas da primeira obra historiográfica sobre mulheres e Ditadura Militar no Brasil, entrevista com a professora Dra. Ana Maria Colling. Em Tempos de Histórias. Brasília-DF, n. 38, p. 213-224, jan./jun. 2021.
FRONZA, Marcelo. Consciência histórica, consciência moral em relação com a natureza para uma didática humanista da história em Jörn Rüsen. MÉTIS-história & cultura, v. 19, n. 38, p. 81-97, 2020.
LAGNY, Michèle. O cinema como fonte de história. Cinematógrafo: um olhar sobre a história. Salvador: EDUFBA, p. 99-131, 2009.
LÖFSTRÖM, Jan et al. AVANÇOS NA EDUCAÇÃO ÉTICA NA AULA DE HISTÓRIA: o prosseguimento das interseções da consciência moral e histórica. Currículo sem Fronteiras, v. 22, n. 1103, p. 1-16, 2022.
NAPOLITANO, Marcos. Cinema: experiência cultural e escolar. Caderno de cinema do professor, p. 10, 2009.
RÜSEN, Jörn. O desenvolvimento da competência narrativa na aprendizagem histórica: uma hipótese ontogenética relativa à consciência moral. Jörn Rüsen e o Ensino de História. Curitiba: Editora UFPR, p. 51-77, 2010.
SCHMIDT, Maria A. Didática reconstrutivista da história. Curitiba: CRV, 2020. Capítulo 4, p. 127-157.
SCHMIDT, Maria Auxiliadora Moreira dos Santos. Hipóteses ontogenéticas relativas à consciência moral: possibilidades em consciência histórica de jovens brasileiros. Educar em Revista, n. 42, p. 107-125, 2011.
Fonte audiovisual
Brazil, a report on torture (Brasil, relato de uma tortura). Haskell Wexler e Saul Landau. Chile, 1971.
Notas
1.Graduando do curso de Licenciatura em História da Faculdade de História (FH) da Universidade Federal de Goiás (UFG).