GEOGRAFIA E PRÁTICAS COTIDIANAS ESCOLARES: A RELAÇÃO PROFESSORAS(ES) E ALUNAS(OS) NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM
59Resumo: Este estudo, vinculado ao projeto "Geografia na escola como objeto do pensamento", desenvolvido no Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás, tem como objetivo compreender as relações entre professores e alunos da educação básica com os conhecimentos geográficos, destacando sua contribuição para a formação do pensamento geográfico e a aprendizagem significativa. A pesquisa, de natureza qualitativa, iniciou-se com análise bibliográfica e definição de oito categorias de análise que orientaram o trabalho de campo, realizado com turmas do 7º ano da Escola Municipal Professora Leonísia Naves de Almeida, em 24 observações durante 2023 e 2024. Foi desenvolvido um percurso didático inspirado em Cavalcanti (2024), estruturado em três etapas: problematização, sistematização e síntese pelos alunos. Nas sínteses, os estudantes articularam conteúdos trabalhados em sala com elementos de sua realidade cotidiana, evidenciando o potencial da Geografia para se tornar um conhecimento ativo e significativo em suas vidas, em uma perspectiva de formação cidadã. Portanto, nota-se o potencial teórico de que se dispõe a Geografia, fazendo com que esta possa se tornar elemento ativo e presente na realidade das(os) alunas(os).
Palavras-chave: Pensamento Geográfico. Ensino de Geografia. Percurso didático.
INTRODUÇÃO
Este estudo origina-se das discussões do projeto de pesquisa intitulado “Geografia na escola como objeto do pensamento: o papel da relação de professores e estudantes da escola básica com os conhecimentos geográficos nos processos de aprendizagem”, em desenvolvimento no Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás. O referido projeto tem por objetivo compreender as relações de professores e alunos (sujeitos do processo de ensino e aprendizagem de Geografia na educação básica) com o conhecimento, como fator de aprendizagem e de formação do pensamento geográfico.
A pesquisa, que ainda está em andamento, tem por finalidade investigar as relações e práticas cotidianas de professores e alunos, e de como a Geografia pode se tornar elemento presente na vida dos alunos. A premissa é de que, a partir do momento em que professores e alunos se colocam como sujeitos ativos nos processos de ensino e aprendizagem, a Geografia pode se tornar um elemento poderoso e participativo na vida das(os) estudantes.
A problemática, por sua vez, refere-se a um conjunto de programas e políticas públicas recém implantadas no Brasil voltado para a educação e que certamente afetam as práticas do ensino de Geografia, como a Reforma do Ensino Médio (BRASIL, 2017), que tem suas bases na Lei n.º 13.415/2017, de 16 de fevereiro de 2017 (Brasil, 2017). Nesse sentido, tendo em vista o viés profissionalizante e flexível da matriz curricular do Ensino Médio, a defesa é de que as disciplinas das chamadas ciências humanas se dispõem de características e referenciais teóricos específicos. Sendo assim, o potencial para contribuir de maneira significativa e crítica na vida das(os) alunas(os) perpassa defender a relevância e especificidade do campo disciplinar, em específico da Geografia.
60Este estudo adota uma postura teórico-metodológica ancorada na dialética, fundamentada na linha histórico-cultural (Vigotski, 2000; 2009), com o intuito de explorar as contradições e tensões relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem em sala de aula, mais especificamente no âmbito da Geografia. Em relação a fundamentação teórico-conceitual da pesquisa, destacam-se três eixos centrais, relacionados a relação das(os) sujeitas(os) e o saber/objeto do pensamento em situação escolar (Charlot, 2000, 2009, 2020), a Atividade de estudo (Leontiev, 2004) e do desenvolvimento do pensamento geográfico na escola básica (Cavalcanti, 2019, 2024; Gomes, 2013; 2017; Moreira, 2007).
Conforme Libâneo (2005), na perspectiva da teoria pedagógica pautada na orientação histórico-cultural, a aprendizagem é fruto da interação sujeito-objeto, sendo a ação do sujeito sobre o meio socialmente mediada. Assim sendo, Vigotski (2000, 2009) pontua que ao atuar sobre o meio, o ser humano modifica a sua própria natureza, e isso se dá através das relações sociais que cercam essas transformações.
As relações sociais são o ponto-chave de compreensão daquilo que entendemos como sociedade, pois é a partir delas que as relações se estabelecem e se desenvolvem no meio circundante. Para corroborar com essa afirmação, Vigotski (2000, 2009) explicita que a linguagem consiste em um meio social de comunicação, enunciação e compreensão criados pelos seres humanos, a partir da necessidade que se criou de dizer algo. Essa necessidade então surge a partir das relações sociais de trabalho, com o trabalho compreendido através das ideias de Marx (1985) de que o trabalho é a maneira pela qual o ser humano se apropria da natureza de modo a satisfazer suas necessidades.
Nessa perspectiva, conforme Morais (2021), o meio social deve ser encarado como o principal fator de mudanças e transformações da conduta humana. Ao longo da história, os seres humanos foram desenvolvendo a linguagem que haviam criado e aprimorando esses sinais. Nestes movimentos de evolução da linguagem, os homens foram incorporando aos seus respectivos repertórios elementos que enxergavam em seus cotidianos, bem como suas próprias reflexões sobre as relações sociais e cotidianas em que estavam inseridos.
O pensamento geográfico, por sua vez, constitui-se na capacidade geral de realizar um tipo de análise com elementos específicos, com as perguntas típicas sobre as localizações e suas implicações, articulando conceitos, categorias e princípios. Na escola, ele tem o sentido de contribuir com o desenvolvimento das funções intelectuais superiores dos alunos com aportes dessa ciência, ressaltando-se o espaço geográfico como conceito central; os conceitos e sistemas conceituais, seus raciocínios e princípios e suas linguagens (Cavalcanti, 2019).
61Por conseguinte, tendo em vista a complexidade do processo de ensinar e aprender Geografia, reconhece as relações entre os sujeitos – professoras(es) e alunas(os) – e os conhecimentos veiculados na escola, as atividades escolares e as possibilidades de alcance de aprendizagens transformadoras têm o sentido de formar o pensamento geográfico, contribuindo para o desenvolvimento intelectual das(os) alunas(os), com o pressuposto de que, munido dos conhecimentos geográficos, interfira em suas práticas espaciais cotidianas em uma perspectiva de formação da cidadania, tendo potencial real de se mostrar ativo na vida das(os) estudantes.
METODOLOGIA
Tendo em vista o objetivo de investigar de que forma a Geografia pode contribuir para o cotidiano dos alunos, os ajudando a resolver suas questões cotidianas, bem como os ajudando a ver de maneira crítica as decisões que são tomadas diariamente em nossa sociedade, recorreu-se ao uso de metodologia de natureza qualitativa.
O percurso metodológico deste estudo iniciou-se com a revisão e análise de material bibliográfico, sendo este discutido durante o período de execução do projeto, e se fez necessário a definição de 8 (oito) categorias de análise que pautasse o trabalho de campo realizado na pesquisa. Este trabalho, por sua vez, consistia em observar as práticas cotidianas de alunos do 7° ano da Escola Municipal Professora Leonísia Naves de Almeida, com 15 (quinze) observações no ano de 2023 e 9 (nove) observações no ano de 2024.
Após as observações, em cada 1 (um) dos anos, foi proposto um percurso didático baseado em Cavalcanti (2024) onde, no momento da aula, tem-se como etapas problematizar, sistematizar e, por último, a síntese pelos alunos. As categorias definidas foram: 1) Aluno; 2) Relação dos alunos com a Geografia; 3) Relação dos alunos com o professor; 4) Relação dos alunos com as aulas; 5) A Geografia ensinada; 6) O professor; 7) Relação do professor com os alunos e; 8) Relação do professor com a Geografia.
Após a definição das categorias, ocorreu o momento das observações. No ano de 2023, no 7°B, aconteceram 15 (quinze) observações, de agosto a novembro de 2023, e no ano de 2024, no 7°D, aconteceram 9 (nove) observações, de fevereiro a abril de 2024. Após estes momentos, foi feita a análise dos dados obtidos em consonância com as categorias estabelecidas.
62No fim, o grupo se voltou à tarefa de elaborar os percursos didáticos baseados em Cavalcanti (2019, 2024), seguindo a proposta de problematizar, sistematizar e sintetizar sobre os domínios morfoclimáticos de Ab´Saber (2003) com o foco direcionado ao cerrado e de como as ações humanas podem interferir na dinâmica dos domínios, sendo este percurso realizado em 2023, e o segundo tratando a respeito da ocupação da Região Noroeste de Goiânia baseado em Moysés (2004), trabalhando como se deu o povoamento da região onde fica localizada à referida escola.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Como resultados, notou-se que os elementos que não foram abordados diretamente no momento da aula apareceram no momento da síntese pelas(os) alunas(os). Na aula a respeito dos domínios morfoclimáticos, o foco da aula direcionou-se para como as ações humanas agem de maneira negativa no desmatamento do bioma Cerrado. E temas como as queimadas na Amazônia e o derretimento das geleiras vieram à tona nas respostas e questionamentos feitos pelas(os) estudantes.
Na aula a respeito da ocupação da Região Noroeste de Goiânia (mesma região da escola e de moradia dos alunos), temas como segregação socioespacial e periferização foram abordados, e algumas questões foram levantadas pelas(os) alunas(os), como a questão da pavimentação recente da rua que fica sua moradia e aspectos relacionadas a saneamento básico.
Portanto, evidencia-se que o conteúdo geográfico abordado potencializou a análise da realidade, tendo como referência a relação entre os conhecimentos geográficos e o cotidiano das(os) alunas(os). Nesse sentido, pode-se dizer que a Geografia torna-se um elemento significativo na vida das(os) estudantes, tendo como meta o desenvolvimento do pensamento geográfico na escola básica (Cavalcanti, 2019, 2024).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da problemática apresentada no trabalho, relacionada ao processo de ensino e aprendizagem de Geografia, torna-se evidente a relevância da formação de uma consciência e reflexão crítica acerca dos conteúdos geográficos, que necessita de uma abordagem que relacione os conceitos científicos com o cotidiano das(os) alunas(os), para que de fato, as/os estudantes encontram-se mobilizados para a atividade de aprendizagem.
63Nesse sentido, o ato de ensinar está voltado à aprendizagem, mas para que haja aprendizado do aluno no contexto escolar se faz necessário organizar essa ação levando em consideração as relações entre as/os alunas(os), os conhecimentos geográficos, cotidianos e a dimensão dos conhecimentos curriculares e pedagógicos do conteúdo.
No que tange às observações realizadas em sala, através de uma perspectiva obtida através da revisão bibliográfica, torna-se importante salientar a necessidade de mobilizar as/os alunas(os) para situação de aprendizagem, sendo o papel de mediador da(o) professor(a) essencial, bem como a relação das(os) sujeitos do processo de ensino e aprendizagem com o saber científico geográfico. Assim, torna-se relevante analisar as relações entre o saber e os sujeitos no cotidiano escolar, tendo em vista contribuir com os processos de ensino e aprendizagem, com base no percurso didático desenvolvido e teorizado por Cavalcanti (2019, 2024). Portanto, a defesa é de que a sociedade deve ter acesso às discussões que a cercam e que definem seu futuro, e não somente o acesso, mas uma base intelectual bem estruturada para expressar suas opiniões e ir contra aquilo que julgar que não atenda suas demandas. Sendo assim, a Geografia constitui-se com um conhecimento poderoso para pensar e agir espacialmente.
REFERÊNCIAS
AB'SABER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
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Notas
1.Graduando em Geografia (Licenciatura), Instituto de Estudos Socioambientais (IESA), Universidade Federal de Goiás (UFG). Bolsista de Iniciação Científica.
2. Doutoranda em Geografia, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Instituto de Estudos Socioambientais (IESA), Universidade Federal de Goiás (UFG)