Cinthia Alencar Pacheco
cinthia.pacheco@discente.ufg.br

Aline Campelo Silva
alinecampelo@egresso.ufg.br

Rosemara Perpetua Lopes
rosemaralopes@ufg.br

Agência financiadora: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg)

EIXO
Formação Inicial, estágio, didáticas e metodologias de ensino

FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES EM TEMPOS DE TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: RESULTADOS PRELIMINARES

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Resumo: Este trabalho contém o relato parcial de uma pesquisa em andamento, voltada a investigar a formação de professores em cursos de licenciatura em tempos de inteligência artificial, assentada na premissa de que estudar a formação docente abrange a realidade escolar atrelada ao saber-fazer. A pesquisa em desenvolvimento é qualitativa e documental, envolvendo os projetos pedagógicos dos cursos de licenciatura da Universidade Federal de Goiás. Os resultados apresentados correspondem a uma das etapas do estudo, que teve por objetivo reunir documentos correspondentes à identidade dos cursos, organizando-os a partir de suas particularidades. Como procedimentos metodológicos, foram acessados os sites oficiais dos cursos presenciais e à distância, definidos e aplicados critérios de inclusão e exclusão, quantificados e agrupados os achados do levantamento on-line. Foram incluídos documentos disponíveis em formato acessível que continham textos completos, aprovados pelas unidades de ensino correspondentes e vigentes. Os projetos pedagógicos foram agrupados em três categorias, a saber, cursos presenciais de Pedagogia, demais cursos de licenciatura presenciais e cursos na modalidade à distância. Os resultados convidam a refletir sobre tecnologias digitais na educação em tempos de popularização da inteligência artificial e sugerem que a formação de professores ainda tem muitos obstáculos a superar, desde o tipo de formação até políticas públicas que assegurem investimento em recursos humanos, sem desconsiderar condições de trabalho, infraestrutura e fluência tecnológica.

Palavras-chave: Educação pública. Formação docente. Licenciaturas.

INTRODUÇÃO

A formação para a docência se mantém como um aspecto da maior relevância social, conforme destaca Gatti (2022). Para a autora, o tema tornou-se uma questão social e adquire ainda mais importância ante os cenários social, científico e tecnológico que se anunciam e instauram mudanças nas formas de pensar e relacionar-se, mudanças no mundo do trabalho e na vida cotidiana. Diante disso, abordar tais mudanças, envolve falar da formação docente no contexto de uma sociedade em rede (Castells, 2008), que tem incorporado tecnologias digitais e móveis rapidamente ao cotidiano, conferindo sentido ao pressuposto de Mcluhan (2007) sobre os meios como extensão do homem. Com um grande volume de informações e de dispositivos rodeando a escola, o docente se vê mais uma vez no centro da discussão de como se encaixar e atuar no século XXI.

Nesse contexto, inscreve-se o presente trabalho, que compõe uma pesquisa sobre a formação de professores em cursos de licenciatura em tempos de Inteligência Artificial (IA) e Chat Generative Pré-trained Transformer (Chat GPT). Os resultados parciais apresentados têm o objetivo de descrever, especificamente, a etapa que envolveu a coleta de material, englobando os Projetos Pedagógicos de Curso (PPC) das licenciaturas da Universidade Federal de Goiás (UFG). Desse modo, apresenta-se aqui uma análise descritiva, de abordagem quantitativa, do material coletado.

Embasa o estudo o entendimento de que a pesquisa é fundamental para compreender os contextos de formação dentro da universidade pública, detidamente, no âmbito curricular, consideradas as práticas sociais e vivências culturais. Conforme Freire (1996, p. 32),

no meu entender o que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da natureza prática do docente a indagação, a busca, a pesquisa, o que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador.
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Compreende-se que é necessário rediscutir a formação do professor à luz de elementos da contemporaneidade e problematizar os rumos da profissão docente em novos cenários, com destaque para os digitais, alavancados pela pandemia de Covid-19 e o ensino remoto emergencial.

METODOLOGIA

Os procedimentos metodológicos consideram os pressupostos de Moran (2000, p. 23), para quem “o conhecimento só tem sentido quando é experimentado ou aplicado de alguma forma ou em algum momento”. Diante disso, a pesquisa é uma forma de conhecer e (re)formular sentidos.

A pesquisa documental, cujos resultados parciais são aqui relatados, caracteriza-se por sua fonte de dados ser restrita a documentos, escritos ou não, constituindo fontes primárias (Marconi; Lakatos, 2015). No caso dos projetos pedagógicos de curso selecionados, todos os documentos são públicos e de acesso livre.

 No tocante ao percurso, inicialmente, os cursos incluídos no estudo foram divididos em três categorias: grupo A - cursos presenciais de Pedagogia, grupo B - demais licenciaturas presenciais, e, por último, listados apenas para quantificação, os cursos de Educação à Distância (EaD), promovidos pelo Centro Integrado de Aprendizagem em Rede (CIAR) da UFG. Para encontrar os PPC, foi necessário consultar o site oficial de cada curso e construir uma planilha para acomodar os seguintes dados: endereço e data de acesso, além do ano do documento, a localização do curso e o status do documento (completo ou incompleto). Esses procedimentos compuseram o estudo relatado neste trabalho, realizado com base no método quantitativo e abordagem bibliográfica.

No tocante aos cursos, foram selecionadas somente licenciaturas cujo PPC disponível no site correspondesse à última versão publicizada após aprovação em todas as instâncias da UFG, ainda que datada de anos anteriores. Desse modo, foram excluídos todos aqueles que não se encaixavam nesse perfil, sendo reunidos 31 projetos pedagógicos, agrupados de acordo com traços comuns, previamente definidos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A coleta dos projetos pedagógicos prevê uma análise aprofundada de cada um, a ser realizada em 2025, pelo grupo de pesquisa “Tecnologias digitais e formação de professores”. Desse processo mais amplo, destaca-se o levantamento aqui apresentado, para o qual foi elaborada a planilha anteriormente mencionada, para fins de sistematização do conteúdo. Os resultados obtidos compõem o Quadro 1.

Quadro 1: Projetos pedagógicos das licenciaturas presenciais da UFG

Grupo Curso Localização
A Pedagogia Campus Goiânia
A Pedagogia Campus Goiás
B Artes Visuais, Ciências Biológicas, Ciências Sociais, Dança, Educação Física, Educação Intercultural, Filosofia, Física, Geografia, História, Letras: Estudos Literários, Letras: Português, Letras: Libras, Letras: Inglês, Letras: Espanhol, Letras: Francês, Matemática, Música – Educação Musical, Teatro, Psicologia e Química. Campus Goiânia
B Educação no Campo e Filosofia Campus Goiás

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2024.

Ao todo, 25 projetos pedagógicos completos atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos, totalizando 100% da amostra, sendo excluídos seis da modalidade EaD. Dos 25 selecionados, dois correspondem a cursos de Pedagogia (grupo A) e 23 a licenciaturas diversas dos campi Goiânia e Goiás (grupo B). No campus Goiânia, foram encontrados 22 PPC completos, sendo um de Pedagogia e 21 referentes às demais licenciaturas (Quadro 1), no Campus Goiás, foram encontrados três PPC completos, sendo um de Pedagogia e outros dois pertencentes às licenciaturas em Educação no Campo e Filosofia.

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Em geral, os sites consultados continham informações sobre os projetos pedagógicos na página principal, porém alguns as disponibilizavam em outros locais, a exemplo do menu de cursos da unidade, o que pode dificultar o acesso pelo visitante da página. Dos documentos obtidos, o mais antigo, data de 2011, do curso de Letras: Estudos Literários, enquanto os mais atuais são de 2024, dos cursos de Letras: Português, Letras: Espanhol, Letras: Francês e Matemática. As datas dos projetos pedagógicos das licenciaturas à distância variam entre 2011 e 2018.

A UFG possui regramento interno para a elaboração de projetos pedagógicos de curso, disposto na Instrução Normativa nº 01/2022, editada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura (Cepec). Entretanto, esse documento não menciona diretrizes sobre atualização e revisão dos PPC, que não são encontradas também na Resolução Cepec/UFG nº 1791/2022, que aprovou o Regulamento Geral dos Cursos de Graduação (RGCG) desta Instituição Pública de Ensino Superior (IPES). A ausência desta determinação pode implicar em documentos muito antigos e descontextualizados da realidade atual, principalmente no que diz respeito ao uso de tecnologias. Sobre as tecnologias digitais, especificamente, inteligência artificial, uma busca rápida nos projetos pedagógicos coletados, utilizando-se a ferramenta de localização do editor de texto, mostra ausência de menção à IA.

Esse procedimento permitiu verificar, também, que o PPC de Licenciatura em Pedagogia do Campus Goiás registra o termo “tecnologia” cinco vezes e prevê uso de tecnologias da informação e comunicação, como computador e vídeo, narrativas orais e escritas de professores, produção de alunos, situações simuladoras e estudos de caso. O referido termo aparece ainda relacionado à disciplina de Educação e Linguagens Midiáticas. Além disso, refere-se à tecnologia assistiva na disciplina de Educação Matemática Inclusiva. Não há menção à inteligência artificial ou novas tecnologias.

Quanto aos demais PPC, os cursos de Dança, Letras: Português, Letras: Inglês, Letras: Espanhol, Letras: Francês, Matemática e Teatro contêm menções às tecnologias, mas nenhuma à inteligência artificial. Os cursos de Letras se destacam, por conter em seus projetos pedagógicos a disciplina “Tecnologias Aplicadas ao Ensino de Línguas” e a maior quantidade de ocorrências do termo “tecnologia”, perfazendo nove registros. Esses cursos contêm, ainda, menções a inovações e novas tecnologias, que podem abranger contextos como o de IA.

Esses resultados preliminares podem ser vistos como indícios que contribuirão para a análise dos PPC, a ser realizada posteriormente. Embora ainda incipientes, sinalizam que tecnologias e educação é uma relação em construção nos cursos de licenciatura presenciais da UFG, cabe investigar as nuances e especificidades de cada caso, em estreita articulação com elementos como formação docente, fluência tecnológica, infraestrutura condizente com as tecnologias de cada época, e, principalmente, políticas subjacentes aos currículos de formação docente (Goodson, 2007).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

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O presente trabalho contém um relato parcial de pesquisa em andamento, referente ao material coletado para um estudo sobre formação de professores em cursos de licenciatura em tempos de IA e Chat GPT. A partir de procedimentos que envolveram investigação on-line, elaboração de planilhas e categorização do conteúdo por traços comuns, foi possível reunir 25 PPC das licenciaturas presenciais da UFG e seis das licenciaturas EaD, essas últimas somente quantificadas. A análise preliminar e descritiva aqui apresentada mostra escassez de termos relacionados às tecnologias digitais nos PPC, exceção feita aos cursos de Letras, não sendo localizadas ocorrências referentes à IA ou Chat GPT. Esses indícios serão tomados como ponto de partida na análise dos PPC na íntegra, prevista para ocorrer nos próximos meses, durante a continuidade do processo investigativo.

Os resultados preliminares comunicados sinalizam que a formação de professores para ensinar em tempos de tecnologias digitais móveis se mantém como desafio, remetendo ao apontado por Lopes e Fürkotter (2016), mesmo após a pandemia e a educação remota e diante da popularização da inteligência artificial no cotidiano de uma sociedade em rede.

REFERÊNCIAS

CASTELLS,  Manuel. A sociedade em rede. 11. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Cortez, 1996.

GATTI, Bernadete Angelina. Duas décadas do século XXI: e a formação de professores? Rev. Int. de Form.de Professores (RIFP), Itapetininga, v. 7, e022009, p. 1-15, nov. 2022.

GOODSON, Ivor. Currículo, narrativa e o futuro social. Revista Brasileira de Educação, v. 12, n. 35, mai./ago. 2007.

LOPES, Rosemara P.; FÜRKOTTER, Monica. Formação inicial de professores em tempos de TDIC: uma questão em aberto. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 32, n. 4, p. 269-296, out./dez. 2016. DOI: https://doi.org/10.1590/0102-4698150675.

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2015.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. 16. ed. São Paulo: Cultrix, 2007.

MORAN, José Manuel. Ensino e Aprendizagem Inovadores com Tecnologias Audiovisuais e Telemáticas. In: MORAN, José Manuel; MASETTO, Marcos Tarciso; BEHRENS, Marilda Aparecida. (orgs.). Novas tecnologias e mediação pedagógica. 8. ed. Campinas: Papirus, 2000. p. 11-66.

Notas

1. Doutoranda em Educação, PPGE/FE/UFG.

2. Graduada em Licenciatura em Pedagogia, FE/UFG.

3. Doutora em Educação. Docente FE/UFG.

4. Disponível em: https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/90/o/Instrucao_Normativa_01-2022_PPC.pdf. Acesso em: 16 nov. 2024.