DESENVOLVIMENTO DE MATERIAIS COMPLEMENTARES AO LIVRO DIDÁTICO DE GEOGRAFIA DO ENSINO MÉDIO: EXEMPLOS DA INTENSIFICAÇÃO DO FENÔMENO DA INUNDAÇÃO NO MUNICÍPIO DE GOIÂNIA (GO)
23Resumo: Ao tratar do assunto relacionado à intensificação do fenômeno da inundação nos materiais educativos, esta pesquisa buscou como objetivo principal desenvolver materiais complementares aos livros didáticos, utilizados comumente nas redes de ensino, especificamente sobre exemplos da intensificação desse tipo de fenômeno em Goiânia, em sua região urbana e em expansão. Tendo em vista a disponibilização desses materiais adicionais, pretendeu-se fornecer suporte, tanto ao professor quanto ao estudante do Ensino Médio. O intuito foi realizar uma abordagem do tema de forma mais aprofundada e clara, além de alertar o público alvo a respeito da inundação, complementando o conteúdo dos livros didáticos. Disso surgiram materiais visuais e cartográficos, como desenhos, esquemas conceituais, fotografias, jogos interativos, além de mapas temáticos, utilizando o sistema de informações geográficas livre e de código aberto, QGIS. Sendo assim, o trabalho resultou em produção de materiais educativos, apresentando exemplos da ocorrência e dinâmica das inundações, intencionando deixá-los disponíveis para livre acesso, de forma que isso facilite o ensino-aprendizagem da temática, por meio de divulgação em redes sociais, publicações em periódicos e congressos científicos, além de apresentações e divulgações técnico-científicas outras, possíveis. De forma geral, o projeto possibilitou uma abordagem mais aprofundada da temática dentro do campo dos estudos geográficos, com destaque para o contexto urbano de Goiânia.
Palavras-chave: Inundações. Ensino. Geografia.
1 INTRODUÇÃO
Em eventos hidroclimatológicos sentidos pela população de áreas urbanas, por causa, principalmente, de um mau planejamento das cidades, são comuns as ocorrências, de modo intensificado, de inundações, enxurradas e alagamentos. De acordo com Marcelino (2007), as inundações que ocorrem, intensificadas pela apropriação inadequada do solo, sentidas em eventos climáticos extremos, advindos de instabilidades atmosféricas, totalizam 59% dos registros, no Brasil.
Ressalta-se que, nas áreas urbanas e em expansão, em Goiânia, a intensificação de fenômenos, tais como as inundações, os alagamentos e as enxurradas, associam-se, principalmente, à impermeabilização do solo, consequente aumento de vazão e drenagem da água pluvial inadequada, que fazem com que, por exemplo, ocorram transbordamento dos cursos hídricos sobre suas áreas de fundos de vale e planícies. Nesses locais, muitas vezes existem moradias vulneráveis a esses fenômenos.
Por se tratar de um problema que abrange todo o Brasil, a intensificação da ocorrência de inundações têm sido objeto de estudo, também, para o caso das áreas urbanas e em expansão, de Goiânia. De acordo com Carvalho (2008), com o avanço da urbanização, é necessária a expansão ou até mesmo a implantação de infraestruturas públicas, como as redes de drenagem pluvial. A intensificação desses eventos ocorre de forma sazonal, fazendo com que a população que vive próximo das áreas de cursos d'água sofram com frequência (FERNANDES et.al., 2016). Dessa forma, entende-se a importância em buscar medidas e conscientização do poder público junto à população, para que estabeleça a minimização e/ou controle desses impactos adversos, principalmente a partir da educação escolar.
A compreensão da dinâmica da ocupação e de expansão de Goiânia torna-se fundamental, visto que se trata de um município com muitos rios e córregos próximos ao meio urbano. Dessa forma, foi necessário analisar a dados pluviométricos e a distribuição das ocorrências de alagamentos, enxurradas e principalmente inundações, bem como sua associação com a má drenagem das águas pluviais.
24Tendo em vista o discorrido, o presente trabalho, a partir de levantamento bibliográfico, de dados pluviométricos, e de ocorrências registradas, pretendeu oferecer subsídios à compreensão da intensificação dos referidos fenômenos, no município de Goiânia, de modo que esses conhecimento estejam disponíveis e acessíveis aos professores e estudantes do Ensino Médio, por meio do material didático complementar, elaborado no decorrer desta pesquisa.
2 METODOLOGIA
Durante a realização do plano de trabalho desta pesquisa, adotou-se uma abordagem documental. Primeiramente, foram examinados os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para avaliar as habilidades e competências necessárias no ensino de Geografia, além de ser observado como os conteúdos estão refletidos nos livros didáticos em uso. Em seguida, a atenção foi voltada para a leitura e fichamento de materiais científicos que abordam o fenômeno das inundações, junto à elaboração dos materiais, incluindo a análise e classificação dos processos que contribuem para sua intensificação.
Para que assim fosse feito, foram também levados em conta resultados obtidos em plano anterior, com o desenvolvimento de resultados atuais, desejando a obtenção de novas compreensões para o desenvolvimento de materiais didáticos, quanto: (a) aos diversos mapeamentos realizados sobre a ocorrência do fenômeno de inundações no referido município; (b) das alterações antrópicas e respectivas classificações já mapeadas;
(c) tendo em vista, as áreas, urbana e de expansão urbana, além da investigação quanto às possibilidades de melhoria das condições de vida, principalmente da população atingida por tais fenômenos e vulnerável a eles (FERNANDES et al., 2016).
Para que o material elaborado fosse eficiente, foi preciso considerar alguns pontos. Conforme apontado por Cavalcanti (2002, p. 91), foram observados que: 1. A preparação: é importante a mobilização do estudante, a problematização do conteúdo, o contato com alguma representação do meio a ser estudado (textos, mapas, fotos). 2. A realização do trabalho consiste na observação, registro, descrição e coleta de informações. 3. Exploração do trabalho em sala de aula: o retorno à sala de aula é bastante importante, pois a partir da síntese e da exposição dos resultados pode-se dar continuidade à atividade.
Dessa maneira, tentou-se assim alcançar progressos na compreensão desse tema por parte do estudante, de uma melhor forma, atingindo fins como expressos por Eckhardt et al. (2008), que diz que conhecer detalhadamente as áreas urbanas propensas a inundações ajuda na formulação de alternativas e ações para minimizar os efeitos negativos associados a enchentes, inundações, alagamentos e enxurradas. Isso é especialmente importante porque a eliminação completa desses fenômenos é difícil de alcançar.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Milton Santos (1985), revela em sua obra "Espaço e Método", que o estudo em escalas geográficas e espaciais menores é fundamental, pois quanto menor a área de análise, maior é sua complexidade e potencial para subdivisões. Dessa forma, o estudo individualizado de fenômenos naturais em uma cidade específica, como Goiânia, é essencial para uma percepção mais detalhada e compreensiva por parte do estudante.
25O município de Goiânia está localizado na Região Geográfica Imediata de Goiânia (IBGE, 2017). A capital é uma metrópole que passou por um grande crescimento nas últimas décadas, com uma população de mais de 1,4 milhões de habitantes (IBGE, 2022). A segregação socioespacial é evidente nesse cenário, em que as regiões periféricas das cidades são ocupadas por populações em situação de vulnerabilidade (SANTOS, 1996). Em Goiânia, essa segregação fomentou a ocupação de áreas em situação de risco por diversas famílias, áreas essas que muitas vezes são áreas de preservação permanente. O município de Goiânia possui várias áreas suscetíveis a inundações, conforme indicam reportagens em jornais locais e dados da Defesa Civil.
O aumento das ocorrências de fenômenos acelerados de alagamentos e inundações, quando da ocorrência de eventos pluviométricos extremos, vem crescendo nos últimos 20 anos. Transtornos vividos pela comunidade goianiense associados aos referidos fenômenos são cada vez mais comuns (Gomes, 2015). O município de Goiânia possui como uma de suas características as chuva tropicais, que são conhecidas como intensas e rápidas, tendo isso em vista e, ligando com o processo de urbanização adensado e intenso da cidade, a sua qualidade ambiental é ameaçada em diversas regiões (Leão Carvalho, 2013; Borges et al., 2014).
Durante a expansão urbana de uma cidade, a impermeabilização aumenta as vazões máximas devido ao maior escoamento superficial e alteração da infiltração. Esse processo impacta no comportamento das vazões mínimas, que são especialmente notáveis durante os períodos de seca. O impacto da urbanização no ciclo da água é um resultado da substituição da vegetação nativa por superfícies impermeáveis, o que reduz a infiltração de água no solo e diminui a evapotranspiração. Com o aumento da impermeabilização, há uma menor infiltração, uma redução na recarga dos aquíferos e uma diminuição na vazão dos rios durante os períodos de seca, enquanto há um aumento do escoamento superficial, nos períodos chuvosos.
Com base no conteúdo apresentado, comparando-se com o que é abordado nos livros didáticos, ao longo desta pesquisa, foi possível observar que esse recurso, apesar de desempenhar um papel crucial no ensino, apresenta deficiências ao abordar o fenômeno de inundação, carecendo de exemplos claros. Em Goiânia, como destacado anteriormente e como apresentado por Fernandes et al. (2016), as atividades de apropriação do solo urbano pela sociedade, de modo desigual, têm impulsionado a evolução dos problemas supracitados, em sua região periférica, associados a setores de risco.
26Pode-se observar (Figura 1) um desses materiais complementares, elaborados pelo autores visando preencher as lacunas presentes nos livros didáticos e complementar a mediação do docente no ensino de Geografia.
Figura 1: Ilustração exemplificando os níveis de um curso d’água. Fonte: Elaborado pelos autores
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O projeto visou desenvolver recursos adicionais para livros didáticos de Geografia do Ensino Médio, usando o município de Goiânia como estudo de caso. O foco foi analisar a intensificação das inundações relacionadas às atividades de apropriação desigual da cidade. Além disso, o projeto ajudou a entender o estado atual dos materiais didáticos de Geografia, fomentando uma cidadania bem-informada e criando um banco de dados com informações relevantes para o ensino dos aspectos naturais e físicos. A utilização do QGIS para criar uma base cartográfica, aliada a ilustrações, fotografias, mapas e fundamentação teórica, foi essencial para desenvolver materiais didáticos e preparar futuras publicações em congressos e periódicos. O projeto pode assim permitir a ampliação da compreensão da temática nos estudos geográficos, com ênfase no contexto urbano de Goiânia, contribuindo para o aprimoramento do ensino médio.
5 REFERÊNCIAS
CARVALHO, E. T. L. Avaliação de elementos de infiltração de águas pluviais na zona Norte da cidade de Goiânia. 2008. 222 f. Dissertação (Mestrado em Geotecnia e Construção Civil) - Universidade Federal de Goiás. Escola de Engenharia Civil, Goiânia.
CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia, escola e construção de conhecimentos. Campinas-SP: Papirus, 1998. Geografia e práticas de ensino. Ed. Alternativa: Goiânia, 2002.
ECKHARDT, R. R.; SALDANHA, D. L.; ROCHA, R. S. Modelo Cartográfico aplicado ao mapeamento das áreas urbanas sujeitas às inundações da cidade de Lajeado/RS. Revista Brasileira de Cartografia, n. 60/03. 2008.
FERNANDES, R. L. G.; PERET, G.; MAGALHÃES, L.; BOAS, C. Ação emergencial para reconhecimento de áreas de alto e muito alto risco a movimentos de massa, enchentes e erosões: Goiânia, GO. Serviço Geológico do Brasil/CPRM: Goiânia, 2016. Disponível em: http://rigeo.cprm.gov.br.
GOMES, M. N. Distribuição espacial das áreas de inundações e alagamentos na cidade de Goiânia segundo critérios de riscos adotados pela defesa civil de Goiânia no período de 2008 a 2012. Monografia (Graduação), Goiânia, UFG, 2015.
27IBGE. Divisão regionaldo Brasil em regiões geográficas imediatas e regiões geográficas intermediárias. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv100600.pdf. Acesso em: 24 nov. 2024. MARCELINO, E. V. Desastres Naturais e Geotecnologias: Conceitos Básicos. INPE, Santa Maria, 2007.
SANTOS, Mílton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1985.
SANTOS, Mílton. A Urbanização Brasileira. 3ª ed. São Paulo: Hucitec, 1996.
Notas
1.Graduanda, IESA, UFG.
2.Doutor, IESA, UFG.
3.Doutora, IESA, UFG.