O Drama em Vigotski e sua Compreensão na Educação: uma pesquisa bibliográfica
88Resumo: O drama é uma noção vigotskiana oriunda do teatro e concernente à dinâmica conflituosa e dialética que permeia o desenvolvimento humano. Esta pesquisa bibliográfica, produto do Programa Bolsas de Licenciatura (PROLICEN), teve como objetivo explorar o significado de drama para Vigotski, buscando sua relação com a educação. Foram utilizados textos que abordam a questão do drama, de Vigotski e comentadores. A relação da educação com a noção do drama e sentimentos foi feita através de Ferrarese (2023), e Nüssle (2021). A pesquisa revelou heterogeneidade na significação da noção de drama, sendo entendido no modo genérico de teatro ou como conflito psíquico interno. Na educação, o que se verifica é o uso do drama como conflito ou como dificuldades. Conclui-se que o drama representa um tema de estudo que pode receber ainda diversas contribuições, cuja relevância se expressa na dialética das relações sociais e todos os temas relacionados a elas.
Palavras-chave: Drama. Vigotski. Educação.
1. INTRODUÇÃO
A arte foi companheira de Vigotski no caminho de sua construção teórica, seja como crítico de arte, seja como psicólogo. Assim, em Psicologia da arte, ele fala sobre as emoções numa perspectiva de reconhecimento das obras de arte.
No estudo da gênese das reações estéticas, Vigotski considerava a arte um produto social, que provoca efeito em seu público, e tal efeito recebe sentidos atribuídos por cada um, pois quando cada qual vivencia uma obra de arte, ela se converte de social em pessoal (Toassa, 2011). Arte é o social no ser humano, diz Vigotski (1925/2001), e o efeito em cada indivíduo que a arte provoca não faz dele um individualista, afinal, coletivo não é sinônimo de social. “O social existe até onde há apenas um homem e as suas emoções pessoais" (Vigotski, 1925/2001, p. 315).
Tal relação é equivalente à concepção do autor da integração entre o que é de ordem social e individual no sujeito. As funções psicológicas são divididas entre as elementares, que são orgânicas do ser humano, e as psíquicas superiores, exclusivamente humanas e constituídas a partir da relação com o outro. Conforme experencia o mundo, se integrando no meio social, o sujeito desenvolve suas funções psíquicas superiores. A partir disso, passa a ter condições para se constituir enquanto indivíduo. O que é vivenciado fora do psiquismo, na relação entre as pessoas, irá se internalizar e gerar o desenvolvimento individual.
A intrínseca relação entre individual e social se sobressai ao pensar em processos internos de desenvolvimento e transformação. Assim, surge o interesse pela noção de drama, tema emergente no estudo da psicologia vigotskiana, mas ainda pouco explorado. A própria semântica da palavra constitui um desafio à pesquisa de tal tema, além da não sistematização e falta de conceituação do termo drama dentro da obra do autor.
Como o drama só é possível de ocorrer através de relações sociais, sentimos a necessidade investigar como a literatura educacional aborda o conceito vigotskiano de drama, pois, afinal, é no contexto escolar que se formam substanciais relações sociais, seja no aspecto pedagógico, de alunos em sala de aula, seja nas relações profissionais desenroladas nesse meio. Assim, como forma de aprofundar os estudos sobre o drama, buscando o lugar das emoções em sua dinâmica, tendo em vista sua apropriação na psicologia e na educação, essa pesquisa tem por objetivo a elaboração de uma produção textual que contemple a investigação da noção de drama, com foco no campo educacional, a partir da obra original de Vigotski e seus comentadores.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A arte influenciou a produção teórica de Vigotski, visto que ele elegeu o termo drama para elevá-lo a um tema psicológico, influência direta do teatro, ao qual ele dedicou parte da sua vida, em particular na função de crítico de teatro. Como início de discussão, toma-se aqui sua proposição de Vigotski (1925/2001) de que, seja qual for a obra de arte, sua contradição entre forma e conteúdo gera uma contradição emocional, que suscita séries de sentimentos opostos entre si e provoca um curto-circuito, e para ele, esse era o verdadeiro efeito da obra de arte. Essa contradição é o que se nomeia como drama no psiquismo humano. É sobre isso que iremos discorrer.
Muitos temas trabalhados nas obras de Vigotski não foram sistematizados pelo autor ou conceituados de maneira que seja fechada a sua interpretação. Um dos comentadores da obra de Vigotski que se dedicou ao tema do drama é Delari Jr. (2011), que mostra tal falta de sistematização e considera o estudo da noção de drama na obra de Vigotski uma temática que necessita de investigação, já que tal objeto de estudo se situa em uma região de fronteira, situada entre a compreensão de drama como componente relacionado à área teatral e à compreensão como uma modalidade peculiar da ação humana composta por reflexividade e marcada pelo conflito interior.
893. METODOLOGIA
Tendo visto que o tema do drama não foi sistematizado por Vigotski e carece de definição clara, há de se empenhar em analisar seus escritos em busca do entendimento de tal noção. Desse modo, o ponto de partida da pesquisa foi pesquisar na obra original do autor como esse conceito era compreendido, isto é, que fenômenos ele busca analisar. Para cumprir esse objetivo, analisamos o manuscrito "Psicologia Concreta do Homem" (Vigotski, 1929). Outros comentadores de Vigotski também são utilizados na pesquisa, principalmente pela contribuição em diferentes áreas que se interligam com a noção do drama, como emoções, vivências e personalidade, discutidas por Magiolino (2011, 2015), Delari Jr. (2011) e Toassa (2011).
Em razão do objeto de pesquisa, optou-se pela realização de uma pesquisa bibliográfica, que, segundo Lima e Mioto (2007), é indicada para estudos em que a aproximação desejada com o objeto de estudo pode ser estabelecida através de fontes bibliográficas.
De maneira complementar, nós utilizamos um levantamento bibliográfico sobre as produções que utilizam o conceito de drama na área da educação. A busca por artigos que estabelecem tal relação, entre drama enquanto conceito de Vigotski e a educação, revelou serem escassas as produções nessa área. Assim, para contornar essa falta e ser possível verificar como são pensadas essas relações, tomamos como exemplares da interseção entre drama e educação a tese de Ferrarese (2023) e a dissertação de Nüssle (2021). Para a descrição e análise do material selecionado, fez-se uso de fichas de leitura, com base no roteiro de leitura proposto por Lima e Mioto (2007). Os resultados desvelados são discutidos a seguir, abrangendo as temáticas da noção de drama, sua relação com as emoções e outros conceitos trabalhados por Vigotski e a análise das produções que aproximam a noção do drama com a Educação.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nas obras de Vigotski, é possível encontrar a presença do termo drama com diferentes significados. Entre eles, um de grande relevância é o uso de drama como sinônimo de certa modalidade de peça teatral, parâmetro para comparação do desenvolvimento ontogenético, em que novas etapas do desenvolvimento equivalem a novos personagens de uma peça que entram em cena. Isso leva ao entendimento do desenvolvimento humano como sendo uma transformação da dinâmica entre indivíduo e meio social, isto é, de todo um “conjunto de relações sociais e do sistema de relações interfuncionais que lhes é correlato - comparável ao desenrolar de um enredo encenado em vários atos” (Delari Jr., 2011, p. 185). O desenvolvimento humano se processa a partir de situações conflitivas similares ao drama na peça teatro, o qual é o ponto de partida para o desenrolar da peça. Esse entendimento do drama, apesar de importante, não abarca todo o campo semântico do uso da palavra na obra de Vigotski.
Vigotski (1929/2000, p. 35) diz que “o drama realmente está repleto de luta interna impossível nos sistemas orgânicos: a dinâmica da personalidade é o drama”. Desenha-se um novo sentido para o drama, relacionado a um estado de luta intrapsíquica enfrentada pelo sujeito, luta esta que tem origem nas relações sociais. O choque passa a ser a característica do drama, que é a luta entre o pensamento e o desejo, oriunda de uma personalidade constituída por diversos papéis sociais. O ser humano é o próprio ator, pois assume diversos papéis sociais. Para exemplificar essa questão, Vigotski cita o exemplo de uma pessoa que é ao mesmo tempo juiz e esposo, e está em uma situação em que precisa julgar sua esposa, tendo de escolher entre culpá-la pelo crime que ela cometeu, mantendo sua imparcialidade como juiz, ou inocentá-la, pois ela é sua esposa e a relação pessoal entre eles se sobressai. Cada esfera da vida social possui relações hierárquicas diversas. Existem momentos em que uma determinada função psicológica se sobressai à outra, a depender da dinâmica social em um dado contexto, e o conflito se dá em situações em que pensamento e desejo se contrapõem, impossibilitando a reconciliação dos dois sem perdas. No exemplo citado, o sujeito deveria priorizar a função de juiz e condenar ou assumir o papel de marido e não condenar. Com isso, Vigotski busca ressaltar a contradição entre sentimento e dever que surge das diferentes relações que se estabelecem na vida social.
O que se vê então é a dupla significação do drama na obra de Vigotski, ora no sentido mais coloquial (embora oriunda do teatro), de cena e atores que entram em ato, ora como uma luta que se estabelece internamente, numa dinâmica síncrona, de contradição interna. A significação adotada na presente pesquisa é a de drama no sentido de conflito, e as buscas por produções no campo educacional e sua interligação com as emoções foram feitas se baseando nessa linha conceitual.
O ser humano assume diversos papéis sociais a partir do momento em que está inserido na cultura e assim se relaciona com as diversas pessoas à sua volta. Para Vigotski, a personalidade humana não é fixa, mas sim construída em um “processo dialético de interconstituição entre o individual e o social, o racional e o emocional, o biológico e o cultural” (Magiolino, 2011, p. 49). Assim, as experiências emocionais de cada pessoa encontram significado nas relações sociais vividas, num movimento do sentir individual, que tem sua significação pessoal atrelada à experiência social, na história do sujeito.
Vigotski utiliza um termo vindo do teatro, o drama, para uma noção de conflito interno, que se origina através da relação social. O drama, marcado por emoções contrárias, é formado através das relações sociais já que, para Vigotski, toda função psicológica superior surge a partir das relações interpsíquicas e depois são enraizadas na forma intrapsíquicas. Sendo assim, as funções psicológicas superiores, se formam a partir do plano social e interpessoal, para então passarem a um nível mais individual e intrapessoal. Isso mostra que o drama também se relaciona com o desenvolvimento humano em sua interface com as emoções.
90Ao relacionar o drama à dinâmica da personalidade, Vigotski (1929/2000) novamente liga o drama ao aspecto social, já que a personalidade é o conjunto de relações sociais. “A personalidade pode ser compreendida como o agregado de relações e posições sociais internalizadas no e pelo complexo processo de significação" (Magiolino, 2011). A personalidade é construída dinamicamente através de um processo dialético que inclui o individual e o social, um age sob o outro concomitantemente.
Então, a partir de sua personalidade, o ser humano atua ocupando diferentes papéis, que produzem conflitos pois não são integralmente harmônicos. “O drama sempre é a luta de tais ligações (dever e sentimento; paixão, etc.). Senão, não pode ser drama, isto é, choque de sistemas”, diz Vigotski (1929/2000, p. 35). Então, o drama está relacionado às emoções à medida que os conflitos estabelecidos são gerados através do que se passa no interior da estrutura psíquica do sujeito, o embate de emoções que não se conciliam e que geram o choque.
Em sua teoria, Vigotski compreende que as emoções são funções psíquicas superiores, ou seja, culturizadas, já que esse tipo de função não é inata, mas construída a partir da interação social, da relação com o outro. Desse modo, elas não são puramente biológicas, mas sim sociais, estruturadas durante a ontogênese. As funções superiores permitem relações reais entre as pessoas, e a partir dessa interação nos meios sociais se criam as diferentes posições que são ocupadas ao longo da trajetória pessoal de cada indivíduo.
Nesse sentido, o psiquismo humano apresentaria um tipo de organização dramática, e tal organização é o resultado das relações sociais vivenciadas pelo indivíduo (Magiolino, 2014).
Por trás de todas as funções superiores e suas relações estão relações geneticamente sociais, relações reais das pessoas. Homo duplex. Daí o princípio e método da personificação na pesquisa do desenvolvimento cultural, isto é, a divisão das funções entre as pessoas, personificação das funções[...] Compare Politzer: psicologia em termos de drama (Vigotski, 1929/2000, p. 26).
As funções superiores, desenvolvidas no meio social, carregam os traços das relações entre as pessoas, sendo então o desenvolvimento uma expressão da internalização das relações e personificação das funções. Magiolino (2014) salienta que, para Vigotski, a ordem, a hierarquia e as relações entre as funções psicológicas, como, por exemplo, o pensamento e o desejo, se modificam de acordo com as posições sociais que os sujeitos ocupam. Dessa forma, as condições concretas de vida e existência dos sujeitos e as formas de organização das relações sociais humanas estão relacionados intrinsecamente à constituição do psiquismo humano.
De forma análoga a essa relação entre drama e emoção, também se extrai a relação entre drama e vivências, compreendendo que os temas abordados na teoria de Vigotski são interligados e apresentam conexões. Vivência significa a experiência do mundo externo pelo sujeito, e também do seu mundo interno, passível de simbolização e tomada de consciência, e está implicada em uma tonalidade afetiva (Toassa, 2011). A vivência, (perejivânie, no original russo) forma uma unidade entre o interno e o externo e indica uma relação interna personalidade-meio, sendo que
O conceito de vivência, nos textos pedológicos e em outras obras vigotskiana, não reduz o sujeito ao momento da investigação, dando margem a que se compreenda sua ação no meio de forma muito mais profunda e multiforme. Sua lógica é dialética, tomando o homem em permanente movimento: Vigotski defende a investigação observacional e dialógica das várias facetas do meio social e de sua relação com o indivíduo, captando a vivência da criança no interior de um feixe de relações sociais. Não há simplesmente meio em-si, como um sólido que exerce, simplesmente, violenta força externa sobre a criança, mas um meio em que as funções psicológicas se desdobram e são compartilhadas (Toassa, 2011, p. 199).91
As vivências estão carregadas de teor afetivo, que marca as experiências. Essa afetação pode gerar uma condição para a constituição do drama, em que emoções contrárias, geradas a partir de alguma vivência, se estabelecem no sujeito e o levam a realizar uma escolha. A resolução do drama estabelecido acarretará transformações, seja qual for a escolha realizada. As relações sociais são o ponto de partida para o desenvolvimento, permitindo o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, possibilitando que as emoções sejam sentidas, e que a personalidade se constitua. A consciência e a personalidade, bem como as emoções, são marcantes nas vivências suscitadas nas relações sociais do sujeito. Assim, o drama se dá com o conflito interno, e tal conflito ocorre em razão das vivências darem significado aos oponentes da luta interior, sendo os sujeitos dotados de emoções que provocam oscilação e levam à necessidade de escolha.
A fim de ampliar a discussão do tema, foi realizada uma busca nas bases de dados por produções acadêmicas que relacionassem a noção do drama em Vigotski com a área da educação. O levantamento bibliográfico realizado revelou grande escassez de artigos da área da educação que trabalhassem com a noção do drama. Para avaliarmos como tais conceitos estão sendo utilizados como operadores para a análise do contexto educacional, recorremos, então, à tese e dissertação já conhecida sobre o tema.
Ferrarese (2023) produziu uma narrativa (auto)biográfica sobre sua jornada como professora da educação básica, utilizando como fator de análise as situações dramáticas, no entendimento vigotskiano do termo, que vivenciou ao longo da sua vida. Seu tema foi a formação permanente do profissional de educação e o objetivo foi identificar os eventos dramáticos vivenciados por ela e compreender como eles contribuem para a formação de sua personalidade consciente. Ela realizou um memorial, relembrando sua história de vida e sua jornada até se tornar professora e então, sua entrada no programa de pós-graduação, adotando uma perspectiva histórico-cultural como referencial teórico. Em sua pesquisa, ela chega à noção do drama como conflito, como já visto, explicando-o como colisões de experiência emocional que provocam mudanças na mente de um indivíduo e contribuem para o seu desenvolvimento, devendo ser compreendido tanto em sua conotação literária como teatral, mas sem ser no sentido exclusivamente emotivo do sofrimento, pois as emoções perpassam o drama, mas não o definem.
Ferrarese (2023) opta por usar a noção de drama, e não o conceito de drama, pois entende que o drama não foi objeto de investigação de Vigotski, mas sim uma categoria analítica para lhe auxiliar na formação de sua teoria. Para ela, “a noção de drama em Vigotski é algo que engloba emoção e pensamento, indivíduo e meio, o conflito entre e por diferentes motivos, a organização complexa das funções psicológicas” (p. 109). Além de ser o choque de vivências, segundo ela, o drama é um processo de suspensão, pois os sistemas afetivo-intelectuais em choque atuam em diferentes papéis sociais assumidos e não-conciliáveis, provocando um período de não-agir, uma suspensão necessária para que uma escolha seja feita, através da internalização do social para uma dimensão individual.
92Ela chega à conclusão de que, ao longo dos anos iniciais de sua atuação, ela vivenciou situações dramáticas que a impulsionam à transformações. Nasciutti, em diálogo com Veresov (Ferrarese, 2023), afirma que as mudanças em quem somos, pensamos e sentimos não são provocadas por simples interações sociais diversas e acontecimentos diários, mas sim por aquelas interações sociais que geram colisões, seja por sua intensidade emocional, por representarem um desafio cognitivo ou por suscitarem novos processos de pensamento. Experiências dramáticas podem ser comuns a todos os sujeitos de uma determinada cultura e período histórico, e levam a mudanças qualitativas do desenvolvimento como, por exemplo, a transição para a adolescência. Existem também experiências que cada ser humano se defronta de forma única, a partir de suas vivências anteriores.
Um dos exemplos de situação dramática vivenciada por Ferrarese (2023) no “chão da escola” é o choque entre o controle e a autonomia em sua atuação docente. Ao mesmo tempo que acreditava em uma prática que incentivava a autonomia de seus alunos, ela se via na necessidade de impor o controle na sala de aula para que seu planejamento tivesse êxito. Ela diz que esse drama, assim como todos os outros vivenciados por ela, foi marcado por afetos contrários, e envolveu impasses e a necessidade de tomada de decisões, compondo um processo que lhe gerou aprendizado.
Complementando a tese de Ferraresi, foi selecionada uma dissertação de mestrado para aprofundar as relações drama e educação. Novamente se tem uma obra que trata sobre a relação do profissional com situações dramáticas vividas na escola, agora na dissertação de Nüssle (2021), que pesquisou a vivência do trabalho em professoras de escolas privadas durante a pandemia de COVID-19. A autora também utiliza como referência Delari Jr. (2011), porém amplia suas concepções teóricas para autores como Veresov e Yaroshevsky, principalmente. A autora foca na relação entre vivências e drama no processo de desenvolvimento humano, sustentando que as situações externas influenciam no processo de constituição psíquica do sujeito, porém, para que isso ocorra, “é necessário que situações dramáticas, conflituosas e delicadas se façam presentes na vida do sujeito humano (contexto histórico e cultural) gerando a consolidação das importantes mudanças desenvolvimentais” (Nüssle, 2021). Aqui, o drama é entendido mais como uma vivência difícil de se atravessar e que leva ao desenvolvimento da pessoa que tem essa experiência, e menos como uma situação de conflito que culmina em decisão e transformação.
Nüssle (2021) afirma que vivência e drama agem de maneira unificada no processo de desenvolvimento, e busca em Veresov o conceito de vivência dramática, também formada de contradições, e que transforma uma situação social para que ela se torne um propulsor do desenvolvimento. Assim, desenvolve uma análise de entrevistas de professores de uma escola privada de ensino fundamental, a fim de buscar essas vivências dramáticas.
93Os principais aspectos dos enunciados apresentados na dissertação são as vivências dramáticas das professoras que se constituem pelo impacto que a pandemia causou na sala de aula, a qual perdeu seu espaço físico e passou a ser virtual. Além das dificuldades que as professoras da rede privada de ensino passam cotidianamente, como exigências de todas as instâncias da escola, insegurança sobre a permanência no emprego, falta de liberdade para planejar a aula como preferir, entre outros, a pandemia trouxe o desafio de dar aulas online, principalmente com crianças pequenas. As principais vivências dramáticas foram da ordem do novo espaço de trabalho, suas dificuldades frente à tecnologia, tempo de tela prejudicial e adaptação à mudança na vida social que a pandemia causou.
Estas duas produções foram as mais relevantes encontradas na área escolar para relacionar ao drama de Vigotski. Percebe-se que faltam produções que relacionem as duas áreas, mesmo que as conexões possíveis de serem feitas representem grande relevância para a educação, pois o cerne da discussão são as relações sociais, que se estabelecem na relação com o meio, sendo o meio educacional um dos que apresentam maior relevância na vida do ser humano contemporâneo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve como objetivo apresentar e discutir a perspectiva de Vigotski da noção de drama, passando por sua relação com as emoções (e, secundariamente, vivências), necessárias para fundamentar o tema. Não se buscou esgotar a discussão, pois a teoria, vista sua falta de sistematização, pode receber diversas interpretações. A busca foi por explorar o tema e investigar como ele está sendo utilizado em pesquisas da área da educação, visto que o drama abarca o que é de mais fundamental à psicologia de Vigotski, que são as relações sociais, e a educação é um campo onde elas se constituem, além da clássica relevância de Vigotski nos estudos em Educação.
Percebe-se no geral que a noção de drama ainda é pouco estudada na área da educação, apesar de estar presente em várias obras de Vigotski. De modo geral, o drama é estudado nas produções de Psicologia, porém a falta de clareza desses conceitos nas obras originais dificultam o interesse de estudo. A grande referência da noção de drama em Vigotski em língua portuguesa é Delari Jr. (2011), que traz, em seu artigo, uma análise teórica sobre o drama, com um desdobramento das obras que Vigotski escreveu, realizando uma junção das aparições e discutindo o significado do termo.
Na interlocução com a Educação, a tese de Ferrarese (2023) se destaca pela preciosidade material que são as suas narrativas e sua interpretação das vivências como situações dramáticas. A dissertação de Nüssle também contribui para o presente relatório, por pensar as vivências dramáticas em um contexto de pandemia e isolamento social. Uma observação é a de que as duas produções utilizadas dizem respeito às vivências da professora, mostrando a carência de pesquisas que relacionem o drama à educação com foco também nos alunos.
Por fim, cabe ressaltar as limitações da pesquisa, dado a complexidade do tema e a falta de sistematização do mesmo, contando com os comentadores associados à teoria original para ser possível a internalização da teoria, que ainda deixa brechas para aprofundamento dos estudos na área.
946. REFERÊNCIAS
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