Beatriz Galdina da Silva

Patrícia de Araújo Romão

EIXO
Programas e Projetos para formação de professores

Desenvolvimento de Materiais Complementares ao Livro Didático de Geografia do Ensino Médio: exemplos da ocorrência e dinâmica das feições associadas aos processos erosivos hídricos no município de Goiânia (GO)

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Resumo: Ao tratar do assunto relacionado ao processo erosivo hídrico nos materiais educativos, este trabalho busca como objetivo principal desenvolver materiais complementares aos livros didáticos, especificamente sobre a evolução e classificação de feições associadas aos processos erosivos hídricos. Tais materiais visam fornecer suporte ao professor e ao estudante de Geografia do ensino médio, tendo como base de exemplificação, a região urbana e de expansão do município de Goiânia, com o intuito de abordar o tema de forma aplicada ao seu cotidiano. Disso surgiram elementos visuais e cartográficos, que foram obtidos a partir de trabalhos de campo, pesquisas na internet e utilização do programa computacional, QGIS, um Sistema de Informações Geográficas, livre e de código aberto. Assim, o trabalho apresenta uma revisão bibliográfica para o desenvolvimento de esquemas mentais, bem como elementos de representação de feições erosivas, como protótipos de materiais didáticos para o ensino-aprendizagem do tema.

Palavras-chave: Erosão hídrica. Ensino. Geografia.

1. Introdução

No contexto da aprendizagem escolar, materiais didáticos apropriados facilitam e enriquecem o aprendizado escolar. Dada a carência identificada em materiais de Geografia do ensino médio, este estudo busca preencher lacunas, com vistas ao aprimoramento de métodos educativos. Deste modo, este trabalho propõe a continuidade de pesquisas desenvolvidas no âmbito do programa PROLICEN/UFG (2019-2020, 2020-2021, 2021-2022) e de um trabalho de final de curso (Braga, 2022).

Apesar de se constituir no principal material utilizado no ensino básico no Brasil (Mendes; Oliveira; Morais, 2016), o uso do livro didático pode ser complementado com elementos que façam referência ao cotidiano dos estudantes, de modo a contribuir para a aprendizagem dos referidos conteúdos (Morais; Romão, 2020). Tendo em vista essa necessidade, com esta pesquisa, tentou-se contribuir para que a educação se tornasse mais próxima à realidade do estudante, visto que assim esperou-se possibilitar uma maior conexão entre a sala de aula e o ambiente fora dela.

Portanto, em relação ao ensino-aprendizagem em Geografia, parte-se aqui da problemática referente à falta de elementos para complementar o livro didático, que é um dos materiais mais utilizados rotineiramente nas salas de aula. Essa problemática envolve a falta da abordagem de processos que ocorrem nas cidades, como é o caso comum dos processos erosivos hídricos acelerados, condicionados por diversos fatores.

Por outro lado, desde o estudo inicial de Nascimento (1994), a ocorrência de processos erosivos hídricos em Goiânia, especialmente em áreas periféricas à área urbana, tem sido pesquisada (Nascimento; Sales, 2002; Faria, 2008; Carneiro; Faria; Soares Neto, 2017; Cavalcante, 2019). As feições resultantes são principalmente sulcos, ravinas e voçorocas. A intensificação dos processos erosivos hídricos, ocasionando essas feições, dificulta a circulação de automóveis particulares e do transporte público; causa transtornos aos residentes e a quem transita nas proximidades; além dessas cavidades serem utilizadas como depósitos de resíduos (Nunes; Romão, 2010).

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Neste sentido entende-se que a realização de estudos sobre os condicionantes físico-naturais (Morais, 2011) de processos erosivos, no município de Goiânia, como suporte ao ensino de Geografia pode auxiliar o professor de escolas locais a explorar exemplos em aula que possibilitam o esclarecimento das causas desses processos. A explicação poderá partir da abordagem das mudanças geológicas lentas e das modificações que são impostas à dinâmica externa em um tempo relativamente rápido, com a ocupação urbana, sem o devido planejamento e ordenamento territorial, acelerando ou mesmo deflagrando processos erosivos hídricos, por exemplo.

A promoção de um ensino significativo e a conscientização sobre a importância do planejamento e ordenamento de áreas urbanas e de sua expansão pode gerar a busca de melhores condições de vida da comunidade (Silva; Cavalcanti, 2007; Souza Lopes, 2016; Mazaro; Darroz; Rosa, 2020). Partiu-se ainda aqui, do princípio de que os recursos virtuais melhoram a compreensão, superando deficiências em livros, impulsionando o desenvolvimento escolar e a capacidade de identificar feições que podem ser intensificadas pela ação humana, ao mesmo tempo que a própria sociedade, especialmente aquela mais vulnerável por causa de suas condições socioeconômicas impostas a ela, sofre com as consequências geradas pela aceleração de processos como os erosivos hídricos.

Deste modo, este estudo teve como objetivo principal, a avaliação e desenvolvimento de imagens, mapas e esquemas conceituais, como material didático complementar aos livros de sala de aula, tentando conectar o conteúdo associado aos processos erosivos hídricos à realidade dos estudantes, tornando a geografia relevante e prática no cotidiano (Brito et al., 2010).

2. REFERENCIAL TEÓRICO

O processo erosivo insere-se no contexto da dinâmica geológica externa, ocorrendo lentamente, o que pode ser considerado normal, ao longo de um tempo longo. Ao serem modificados os componentes físico-naturais, como o solo, vegetação, recursos hídricos e até mesmo o substrato rochoso, são impostas alterações aos ciclos de formação dos solos, ao ciclo hidrológico, à cobertura vegetal, dentre outras, e consequentemente, aos processos que a eles se associam (Almeida Filho; Ridente Júnior, 2001).

Deste modo, processos podem ser intensificados por causa dessas alterações, como é o caso da ocupação urbana, que em geral se inicia pelo desmatamento, pavimentação e diversos outros usos, interferindo por exemplo, de forma a causar maior exposição dos solos às chuvas intensas, como é o caso da apropriação do ambiente Cerrado, no qual se insere Goiânia. Além disso, a impermeabilização do solo modifica as condições hidrológicas e hidrogeológicas, intensificando, por exemplo, o escoamento superficial da água das chuvas, diminuindo sua infiltração, contribuindo assim para a aceleração dos processos erosivos hídricos.

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Deste modo, concorda-se com Bertoni e Lombardi Neto (1999), que apontam que o processo erosivo pode ser intensificado sobre o solo exposto, pois a partir do impacto das gotas de chuva no solo, ocorre o efeito denominado de splash. Essas gotas podem variar em tamanho e na velocidade de queda e, consequentemente, em energia, a depender do diâmetro. Após o efeito splash, em geral ocorre o escoamento superficial da água da chuva. Isso pode ser notado no que denominamos de enxurrada, o que é visto claramente nas cidades, quando a canalização da água pluvial é subdimensionada, a qual pode variar em velocidade, em referência às inclinações das vertentes, denominadas comumente de declividade.

Tendo em vista a possibilidade de aceleração do processo erosivo, que, em condições não alteradas, ocorreria de modo dito normal, é necessária a observação de como o fator climático, chuva, ocorre regionalmente e localmente. Assim, é possível descrever a ação individual da gota de água da chuva e de seu posterior escoamento superficial, a partir de sua intensidade, duração e frequência (Bertoni; Lombardi, 1999).

Além do fator declividade, existem outros elementos que podem descrever o relevo e que também atuam, passivamente, na velocidade da água. Dentre eles, destaca-se o comprimento da vertente. Outro fator que atua de modo passivo, especificamente na quantidade de água do escoamento superficial, diz respeito à capacidade de absorção da água pelo solo. Merece destaque ainda outra força passiva, como, por exemplo, a resistência que o solo exerce à ação erosiva da água, relacionada principalmente às propriedades mecânicas, físicas e químicas do solo.

Além de tudo, como comentado, e constituindo-se em um dos fatores mais importantes, por ser um fator de proteção do solo à ação da água da chuva, ressalta-se o tipo de cobertura vegetal, especialmente se é nativa ou não, bem como a sua densidade, que está associada ao Índice de Massa Foliar, dentre outros, que podem descrever esse fator de proteção (Miranda, 2005). Após a descrição da ação da água da chuva, especialmente sobre o solo exposto, considera-se importante apresentar quais os tipos de feições erosivas, dependendo do modo como o processo erosivo ocorre, tendo em vista seus principais fatores supra apresentados. Logo, o processo erosivo hídrico pode ser classificado em dois tipos principais, os laminares e os lineares.

O processo erosivo hídrico laminar ou em lençol, pode ser originado por fluxos superficiais difusos, ou seja, que ocorrem sem haver uma direção preferencial de escoamento. Já o outro tipo de processo refere-se ao erosivo linear, ligado à concentração do fluxo da água da chuva em superfície e/ou ligado à percolação da água subterrânea e ao nível d’água freático (Bertoni; Lombardi Neto, 1999; Salomão, 2015).

O erosivo laminar pode ser caracterizado como um fenômeno de lavagem e desgaste gradual da camada superior do solo, rica em nutrientes. Isso provoca o transporte de partículas de grandes áreas, exigindo inclinação da vertente para o deslocamento ocorrer. Conforme Camapum de Carvalho et al. (2006), a falta de infiltração leva ao escoamento superficial da lâmina d’água. Esse processo ocorre após o impacto das gotas de chuva no solo exposto, causando o efeito splash ou salpicamento. Isso desencadeia o desprendimento de partículas devido à energia das gotas, formando cavidades de tamanho proporcional à energia mecânica envolvida.

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Uma vez soltas, partículas são levadas pela água do escoamento superficial, formado pela união das gotas da chuva. A erosão por escoamento em lençol superficial difuso é o início do processo erosivo, removendo uniformemente a camada superficial do solo. É pouco visível, mas expõe as raízes das plantas (Guerra; Cunha, 1995; Almeida Filho; Ridente Júnior, 2001; Salomão, 2015; Bertoni; Lombardi Neto, 1999).

Quanto à classificação dos processos erosivos lineares, há uma hierarquia entre os filetes de água de escoamento concentrado, com remoção das partículas, aprofundando-se, podendo os filetes menores juntarem-se para formar filetes maiores. Quanto aos sulcos e ravinas, sua classificação associa-se ao tamanho. Portanto, entende-se que os sulcos se tratam de erosões que resultam de pequenas irregularidades na superfície do terreno, ao longo da maior direção de inclinação, concentrando-se em alguns alinhamentos, atingindo volumes suficientes para formar filetes mais ou menos profundos (Bigarella, 2007).

Ainda de acordo com Bigarella (2007), o sulco se origina da erosão laminar, sendo um estágio inicial da erosão linear. Para Almeida Filho e Ridente Júnior (2001), as ravinas são sulcos mais profundos, formados por escoamento superficial concentrado. Carvalho et al. (2006) limitam sulcos até 10 cm de profundidade, que podem evoluir para ravinas ou voçorocas em curto prazo. Ravinas têm profundidade superior a 10 cm, e são aberturas alongadas sem atingir o nível freático (Almeida Filho; Ridente Júnior, 2001; Salomão, 2015).

Como descrito, o último estágio de evolução erosiva é denominado de voçoroca ou boçorocas, que ocorre a partir do momento em que o processo atinge o nível freático. Essa forma de feição erosiva, comparada ao das outras formas, torna-se mais difícil de ser controlada, podendo muitas vezes causar cicatrizes permanentes nas paisagens. Para Camapum de Carvalho et al. (2006) as voçorocas podem ser categorizadas pelo perfil transversal, associado à sua evolução. Esses autores apontam que, dependendo da estrutura comandada pelo substrato rochoso, quando atingido, o formato em V, pode persistir estágios avançados, influenciados por esse substrato, como visto em voçorocas no Distrito Federal.

Além do escoamento superficial, o voçorocamento pode também estar ligado à erosão interna (piping), que pode ocorrer durante a percolação da água subterrânea, formando tubos conectados no solo em profundidade, após a infiltração da água, muitas vezes relacionada à saturação dos poros do solo ou da rocha, quando o nível freático em períodos chuvosos se aproxima da superfície. Esse fenômeno faz com que a água aflore em surgências nas vertentes, observadas em cavidades em barrancos (Francisco, 2011), resultando nesse tipo maior de feição, carreando grandes volumes de solos aos cursos d’água.

Quando os vazios desses entubamentos ganham um diâmetro significativo, ocorrem colapsos desde a superfície, ocasionando cavidades de grandes tamanhos, formadas pela ruptura do teto formado pelo solo existente acima dos grandes vazios internos (Pereira; Rodrigues, 2020). Essas cavidades podem levar à formação ou expansão de voçorocas em extensão e/ou profundidade. Isso é evidente em eventos como o do Maranhão, onde o desmatamento local contribuiu para desmoronamentos em sequência, colocando várias famílias em situação de risco, as quais residiam ao lado do local que foi “engolido” pela evolução do processo erosivo.

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3. METODOLOGIA

A pesquisa aqui realizada partiu de abordagens relacionadas à temática da evolução e classificação de feições associadas aos processos erosivos hídricos. Deste modo, adotou-se uma abordagem documental. Inicialmente, consultou-se os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para analisar habilidades e competências em Geografia, além de examinar a abordagem da temática em livros didáticos. Isso estabeleceu a base teórica para a produção do material didático, pensando em sua disponibilização aos professores e estudantes do ensino médio com vistas a auxiliar o trabalho docente, durante o processo de ensino-aprendizagem do tema em questão.

Determinados critérios a respeito do conteúdo algumas vezes não se refletiram em abordagens satisfatórias, quando foram observados os livros didáticos, separados e investigados no âmbito deste trabalho. A partir desta análise, foram elaborados materiais didáticos, tendo em vista a necessidade de exemplificação da realidade da cidade por meio de: (a) compilação dos diversos mapeamentos existentes, dos processos erosivos hídricos da área urbana e de expansão e das condições de uso e cobertura do solo atual da cidade; (b) classificação das feições erosivas existentes, mapeadas, em termos de laminares e lineares, se conectadas ou não aos cursos d’água; (c) partindo-se da observação desses processos nas áreas urbanas e de expansão urbana, também investigou-se se qual a população mais afetada pelos fenômenos em análise, lançando mão, além de outros, da pesquisa realizada por Fernandes et al. (2016), disponibilizada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

Para que o processo ensino-aprendizagem seja proveitoso e produza os resultados esperados, é necessário que sejam adotados métodos e técnicas adequadas. O método pode ser conceituado como um roteiro geral para a atividade. Situa-se na linha do pensamento da orientação, indicando as grandes linhas de ação, sem se deter em operacionalizá-las. Orienta em termos gerais onde se quer chegar (BARBOSA, 2011, p.10).

Para que o material elaborado fosse eficiente, foi preciso considerar alguns pontos. Conforme apontado por Cavalcanti (2002, p. 91), consideraram-se etapas essenciais: 1. Mobilização e problematização do conteúdo, envolvendo contato com representações do meio (textos, mapas, fotos). 2. Realização do trabalho com observação, descrição e coleta de informações. 3. Sugestão de exploração do material resultante desta pesquisa, em sala de aula, com retorno e exposição de resultados por parte dos estudantes para continuidade no ensino-aprendizagem.

As diferentes linguagens proporcionam ao educador trabalhar os conteúdos articulados a uma técnica que facilitará a compreensão do aluno, sendo indispensável a formação do professor-educador para o uso desses recursos (linguagens de mapas, imagens e músicas). A ciência geográfica disponibiliza através de seu objeto de estudo, o espaço, à articulação com métodos didáticos que insira o aluno nesse processo de ensino-aprendizagem (Alves, 2016, p. 29).

Portanto, para o desenvolvimento dos referidos materiais didáticos, conforme descrito anteriormente, incluiu-se a avaliação dos mapeamentos dos processos erosivos hídricos e de suas feições resultantes, em relação à localização dos cursos d'água existentes no município de Goiânia, associando-se essa avaliação à observação das condições de uso e cobertura do solo da cidade.

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4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dando enfoque nos tipos de processos erosivos na área urbana de Goiânia, destacam-se os hídricos, onde a água desencadeia o desprendimento das partículas de solo, quando em contato com o terreno exposto. Esses processos, conhecidos como hídricos ou hidro pluviais, são frequentes em climas tropicais, devido ao impacto das gotas de chuva no solo, intensificados quando o solo está sem cobertura vegetal nativa (que serviria como proteção). A urbanização, com poucas áreas verdes, intensifica esses processos, levando ao aumento dos processos erosivos (Morais; Romão, 2020). Nota-se que é comum ainda a denominação processo erosivo de margem de canal, associado a desbarrancamento e abertura de canais. A evolução relaciona-se aos córregos encaixados, com grandes desníveis entre margens e Fundo de Vale, conhecidos como barrancos (Casseti, 1992). Nessas áreas em que a proteção da vegetação já não existe, quando outros componentes físico-naturais são suscetíveis aos processos erosivos, a ausência das condições naturais intensifica o processo, como é o caso em Goiânia das áreas de Fundos de Vale, em que existem consideráveis desníveis. Deste modo, torna-se necessário dar destaque também à conexão ou não do processo erosivo com cursos d’água pré-existentes, permitindo a classificação dos processos erosivos em conectados ou desconectados de cursos d’água (Oliveira, 1999). Em Goiânia, muitos processos lineares são conectados a cursos d’água.

Com base no conteúdo apresentado, comparando-se com o que é abordado nos livros didáticos, ao longo desta pesquisa, foi possível observar que esse recurso, apesar de desempenhar um papel crucial no ensino, apresenta deficiências ao abordar os processos erosivos urbanos, carecendo de exemplos claros. Em Goiânia, como destacado anteriormente e como apresentado por Fernandes et al. (2016), as ações humanas têm impulsionado a evolução de problemas associados aos processos erosivos hídricos, principalmente os lineares, em sua região periférica, associados a setores de risco.

Desse modo é possível se enfatizar a busca da melhoria da qualidade de vida das populações afetadas por esses fenômenos, apontadas por Fernandes et al. (2016), as quais se constituem também, tanto social, quanto economicamente, naquelas mais vulneráveis. Essa busca de melhores condições de vida pode ser ressaltada por meio da apresentação da localização dos setores de risco em Goiânia.

Muitos setores de risco, mapeados por Fernandes et al. (2016) em Goiânia, estão localizados associados à ocorrência de processos erosivos de grande porte, na maioria deles, de voçorocamento. A proximidade com feições como essas com grandes proporções, próximo às quais, em geral, há o perigo de movimentos de massa ocorrerem, comumente estão situadas em áreas periféricas, em locais com moradias resididas pela população de baixo poder aquisitivo. Logo, são locais em que existem pessoas em condições de alta vulnerabilidade ambiental e socioeconômica. Caso ocorram tais movimentos, por causa da evolução e avanço das feições erosivas de grande porte, casas e pessoas podem ser atingidas, como por exemplo, durante o solapamento de barrancos existentes nas bordas de grandes feições erosivas, cuja evolução foi intensificada pela ocupação e nas quais nenhuma medida de controle eficaz foi tomada.

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Contraditoriamente aos fatos supracitados, quando moradias destinadas à população de alto poder aquisitivo são construídas em terrenos suscetíveis aos processos erosivos hídricos, observa-se o planejamento da ocupação, com arruamentos cuja orientação segue um percurso perpendicular à linha de maior inclinação da vertente, dentre outras medidas de controle desses processos que geralmente ali são realizadas. Assim, apesar de haver a suscetibilidade dos componentes físico-naturais, a apropriação desses locais com adequadas medidas de controle, garante condições estáveis quanto a não haver vulnerabilidade nem de pessoas, nem de moradores aos processos erosivos já não ocorrem, com a ocupação por moradias de alto padrão.

As fotografias e mapas apresentados na Figura 1 e na Figura 2, respectivamente, apresentam exemplos de materiais produzidos durante esta pesquisa. Outros materiais, como, desenhos esquemáticos, esquemas conceituais e outras fotografias, não foram possíveis de serem aqui apresentados, por limitação de espaço, mas fazem parte do relatório e/ou de um acervo, cuja divulgação e disponibilização previstas, para fácil acesso por parte de professores e estudantes, encontra-se em fase de organização.

Figura 1: Feição erosiva localizada a aproximadamente 1 m de distância de muros no conjunto Vera Cruz em Goiânia
Fonte: G1 (Goiás). Disponível em: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/erosao-gigante-esta-a-cerca-de-um-metro-de-distancia-do-muro-d e-casas-em-goiania.ghtml. Acesso em 18 nov. 2023.
Figura 2: Mapa de localização das feições erosivas e dos setores de risco em Goiânia
Fonte: Prefeitura de Goiânia; Fernandes et al. (2016); organizado pela autora

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O projeto teve objetivo de criar recursos para livros didáticos de Geografia no Ensino Médio, usando Goiânia como exemplo para explorar processos erosivos causados pela atividade humana. Também visou entender a situação dos materiais didáticos de Geografia, esperando-se contribuir para a promoção da cidadania, por meio da disponibilização de informações e da construção de um banco de dados para sobre ensino de componentes físico-naturais.

A criação desse banco de dados, contendo dados cartográficos, juntamente com ilustrações, fotos e esquemas conceituais, enriqueceu, de igual modo, o embasamento teórico-metodológico da pesquisa. De igual modo, isso também permitirá a viabilização de futuras publicações em eventos e de artigos em periódicos científicos, promovendo o conteúdo pedagógico dos materiais didáticos. Tais ações visaram o aprimoramento da aprendizagem no ensino médio e o desenvolvimento acadêmico da bolsista envolvida no projeto em questão. Considera-se assim, de um modo geral, que este trabalho permitiu também a ampliação da possibilidade de compreensão da temática, no âmbito dos estudos geográficos, no contexto urbano local, da cidade de Goiânia.

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A abordagem das condições dos componentes físico-naturais da cidade de Goiânia, ao mesmo tempo em que apontou as modificações impostas aos processos da dinâmica geológica externa, como por exemplo a intensificação ou mesmo deflagração de novos processos erosivos hídricos, ressaltou o fato de que é possível auxiliar na conscientização da comunidade, de suas condições de vida.

A formação de um cidadão passa assim pelo entendimento de que existem possibilidades de melhorias de qualidade de vida, especialmente das populações mais sujeitas a sofrerem as consequências da falta de políticas públicas mais efetivas, para a concretização de tais melhorias. Isto pode significar na compreensão de que é possível que as consequências sentidas, por causa da convivência em condições inadequadas de ocupação, possam ser minimizadas com um adequado planejamento e ordenamento territorial.

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