Caminhar frágil? o caminhar feminino como reprodução dos espaços públicos opressores
69Resumo:O caminhar é uma experimentação urbana e também uma intervenção do espaço, aparentemente, comum a todos, porém, a vivência do espaço público é centrada na ideologia errônea de que todos têm na prática os mesmos direitos, sendo que, com a inserção das discussões sobre gênero na urbanidade sabe-se que o deslocamento não é reproduzido de forma universal, tampouco por mulheres. Deste modo, neste artigo pretende-se assimilar a potencialidade do caminhar como agente formador das cidades, como explicitado por Careri, mas também compreender como o caminhar feminino é restringido a um deslocamento manejado por corpos masculinos privilegiados e seus ideias de espaço público, evidenciando-se em intervenções artísticas feministas de denúncia.
Palavras-chave:Feminino. Masculino. Caminhar. Urbano. Arte.
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Introdução
Este artigo tem como objetivo incitar a discussão sobre a identificação da mulher e os modos de uso dos espaços públicos e a restrição que o mesmo exerce sobre a tomada de decisões do indivíduo feminino ao caminhar nesse espaço. Dessa forma, pretende-se entender como a cidade e os debates sobre acesso a espaços de comunidade sempre foram desenvolvidos e pautados na idealização de uma sociedade universal e que valoriza preceitos masculinos e suas experiências, negligenciando, assim, as diferenças e divergências de gênero. Outrossim, ressalta-se que o texto foca na análise de intervenções artísticas que datam da metade do século XIX ao início do século XX, com o pressuposto de compreender o momento em que a arte pública passa a questionar o que é ser mulher e o discernimento do que representa esse corpo inserido no espaço urbano.
Essa temática surgiu com base em uma aula em que foram apresentados os princípios surrealistas, sendo notabilizado o caminhar como um ato onírico e surreal, assim sendo, uma deambulação. Ademais, verifica-se que no âmbito do estudo do caminhar do homem, em diversas vertentes, como Dadaísmo, Surrealismo e Situacionismo, esta ação é entendida como uma ação artística, política e/ou transformadora, porém, ao mesmo tempo banal, inconsciente ou lúdica. No entanto, tendo em vista um ato que primitivamente é comum a todos os seres humanos, a desconcordância com os princípios dos movimentos citados é apresentada a partir da inserção do gênero neste questionamento. Uma vez que a experiência de ser uma mulher na cidade e entender os riscos e problemáticas do corpo feminino no espaço público não parece condizer com o entendimento do caminhar como uma atividade automática.
A partir desta constatação de desencontro entre os ideais defendidos por movimentos e a realidade de mulheres no meio urbano, surge a dúvida que será debatida neste artigo. “O que é ser mulher no espaço público?”. Este “simplório” questionamento foi temática para diversos atos e obras artísticas em espaços públicos, e também para o início da percepção de que a sociedade democrática atual é centrada em uma fantasia masculina de homogeneidade que oprime as relações de gênero. Contudo, ainda se mostra necessário o debate sobre essa temática com o objetivo de externalizar a problemática da manutenção de uma sociedade falocêntrica, visto que é essa concepção que opera para a violação e controle do corpo feminino.
70Deste modo, a indagação sobre a mulher e o espaço público passa a ser temática de diversas obras, principalmente, após o início da crítica feminista e de exposições do trabalho de artistas com essa abordagem. Por isso, o presente artigo irá analisar quatro obras, sua contextualização e a forma como as mesmas estão de encontro com a pergunta motivacional do texto, sendo essas: “Experiência n° 3” de Flávio de Carvalho (1956), “Untitled (Your body is a battleground)” de Barbara Kruger (1989) e “Primeiro querem tirar o direito de escolha da mulher. Agora estão censurando a arte”, das Guerrilla Girls (1991).
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Referencial teórico
O desenvolvimento deste artigo ocorreu a partir do reconhecimento do conceito de “lugar de fala” de Djamila Ribeiro (2019), para analisar o caminhar feminino na cidade, partindo da experimentação cotidiana de uma mulher como orientação para se pensar as questões de gênero no urbano. Isto posto, com base no estudo do “grande jogo do caminhar”, de Francesco Careri (2002), juntamente com a análise Rosalyn Deutsche (2018) sobre o espaço público, democracia e arte feminista, se faz possível compreender as questões artísticas e críticas que envolve o corpo da mulher na cidade.
Observa-se a “transurbância” (CARERI, 2002) como ação transformadora e artística, que essencialmente é a motivadora da criação da arquitetura e do urbanismo. No entanto, salienta-se que o ato criador de caminhar também é temível ao se fazer um recorte de gênero, uma vez que é possível identificar a “agorafobia” (DEUTSCHE, 2018) como um pavor socialmente codificado no ser feminino. É a partir deste contraponto de referências que se entende a simbologia do caminhar da mulher, e juntamente com a produção audiovisual de Gabriel Ramos, em que se repete o questionamento: “Como funciona um roteiro de viagem mediado por outro?” (RAMOS, 2020), evidenciando-se que “o outro” seria a sociedade masculina e suas normativas que discriminam até o próprio locomover feminino. Por fim, com base na análise das obras: “Experiência n° 3” de Flávio de Carvalho (1956), “Untitled (Your body is a battleground)” de Barbara Kruger (1989) e “Primeiro querem tirar o direito de escolha da mulher. Agora estão censurando a arte” das Guerrilla Girls (1991), que debate-se a errância e a fantasia masculina que condiciona a figura feminina no espaço público, sendo esse, o foco deste artigo.
Djamila Ribeiro é uma filósofa, escritora, pesquisadora e feminista negra nascida em Santos, São Paulo em 1980. É uma ativista negra de grande reconhecimento no cenário brasileiro, sendo em seu livro “O que é lugar de fala?” (2019) que apresenta a necessidade de se entender o discurso a partir dos grupos distintos e suas experiências, que são individuais mas comuns a este grupo, uma vez que, essas realidades são silenciadas em detrimento da uniformidade dos privilegiados. Assim, segundo Djamila, “(...) pretende-se também refutar uma pretensa universalidade. Ao promover uma multiplicidade de vozes o que se quer, acima de tudo, é quebrar com o discurso autorizado e único, que se pretende universal” (RIBEIRO, 2017, p. 69).
71Francesco Careri, por sua vez, é um arquiteto e professor italiano, nascido na cidade de Roma em 1966. Ademais, é autor do clássico: “Walkscapes: o caminhar como prática estética” (2002), em que apresenta como seu objeto de estudo a “transurbância”, ação transformadora e simbólica da cidade. Assim, o mesmo investiga e realiza intervenções experimentais com os “Stalker/Observatório Nômade”, com o intuito de fomentar a discussão sobre a vida nas cidades. Dessa forma, Careri analisa o caminhar como uma ação primordialmente natural, mas com uma essência artística e interventora, como exemplificado por ele em: “A ação deixa um rastro no terreno, o objeto escultórico está completamente ausente, o caminhar transforma-se em forma de arte autônoma” (2013, p. 30). Outrossim, é a partir da concepção de percurso como o espaço de desenvolvimento da vida comunitária, que se fará a relação dos pensamentos de Francesco com a temática do artigo.
Rosalyn Deutsche é uma historiadora da arte, escritora, crítica e professora, e atualmente vive em Nova York, Estados Unidos da América. Sua pesquisa é marcada pela relação entre intervenções artísticas e o urbanismo, e, consequentemente, ao discurso de democracia e espaço público: “A arte que é “pública” participa de um espaço político ou o cria e é, em si mesma, um espaço em que assumimos identidades políticas” (DEUTSCHE, 2018, p. 133). Logo, com um enfoque para a crítica feminista e as ações artísticas desse movimento, com início da análise a partir da exposição Public Vision de 1992, em Nova York, identifica-se a indagação da representação da mulher, em conformidade com o meio que a mesma está inserida.
Gabriel Ramos é um arquiteto e urbanista, doutor, pesquisador, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Goiás, Campus Goiás. Ademais, sua pesquisa “Mapas-Movimentos” apresenta como enfoque a análise de representação dos percursos urbanos e suas poéticas. Enfim, suas produções que abordam o navegar de diversas formas, inclusive o navegar “agorafóbico”, são objetos de incremento para a discussão da temática deste estudo.
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Material(is) e métodos
O desenvolvimento deste artigo se dá através da pesquisa bibliográfica e leitura crítica de textos que contextualizam o caminhar como atividade transformadora e artísticas com enfoque nas considerações sobre o espaço público e os questionamentos sobre a comunidade e democracia universais que produzem estes locais e suas problemáticas. Para tanto, as principais referências utilizadas foram: “O que é lugar de fala?” de Djamila Ribeiro, “Walkscapes: o caminhar como prática estética” de Francesco Careri, “Agorafobia” de Rosalyn Deutsche e a produção audiovisual “navegares imprecisos” de Gabriel Ramos.
A pesquisa utilizará também intervenções artísticas que incorporam a temática urbana com a questão de gênero, identificando-se os questionamentos que cada obra incitou no contexto da cidade e de sua população ocupante. Dessa forma, as obras analisadas são: “Experiência n° 3” de Flávio de Carvalho (1956), “Untitled (Your body is a battleground)” de Barbara Kruger (1981-1983) e “Primeiro querem tirar o direito de escolha da mulher. Agora estão censurando a arte” das Guerrilhas Girls (1991), sendo utilizado o acervo disponível das mesmas como objeto de desenvolvimento da pesquisa.
Destarte, optou-se por uma breve contextualização inicial da temática levando em consideração a vivência urbana da autora e seu local de fala como mulher negra na cidade, assim, introduz-se o questionamento que motivou a escolha do assunto deste artigo. Consequentemente, se apresenta uma análise da ação caminhar e suas simbologias, tendo em vista os moldes desse ato de acordo com o corpo que o realiza.
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Lugar de fala
falar da mulher, em termos de aspiração e projeto, rebeldia e constante busca de transformação, falar de tudo o que envolva a condição feminina, não é só uma vontade de ver essa mulher reabilitada nos planos econômico, social e cultural. É mais do que isso. É mais do que isso. É assumir a postura incômoda de se indignar com o fenômeno histórico em que metade da humanidade se viu milenarmente excluída nas diferentes sociedades no decorrer dos tempos. (TELES, 1993 apud RIBEIRO, 2018, p.44).
Para o entendimento do artigo em questão, é necessário observar que os questionamentos apresentados têm como principal motivação o caminhar da autora como mulher negra na cidade. Assim, as diferenças e divergências entre o caminhar inconsciente surrealista são identificadas pela própria noção empírica de que a mulher não vaga plenamente desacompanhada, uma vez que, antes mesmo da saída do espaço privado, existe um ritual naturalizado pela figura feminina.
Isto é evidenciado pela escolha da roupa de acordo com o horário, pelos desvios de trajeto para áreas mais seguras, pela escolha da forma como usar o cabelo, pelo uso de acessórios para se proteger e pelos avisos prévios para terceiros, dentre outros, que fazem parte da rotina feminina para exercer seu direito de se deslocar.
Tendo em vista como o deslocamento na cidade difere drasticamente de acordo com o gênero, é impensável entender o caminhar como uma ação natural e desprovida de preocupações no caso feminino, pois, não gozamos da denominação de Homi Bhabha, ou seja, “o masculinismo como uma posição de autoridade social” (BHABHA, apud DEUTSCHE, 2018, p. 149).
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O caminhar
O caminhar é uma ação do ser humano, que consiste em percorrer um espaço com o objetivo de se atender os estímulos individuais ou coletivas que deram início aquela ação, sendo que, o percurso pode ser feito de forma automática e natural, assim, “navegar pressupõe um rumo que não se sabe, mas se quer ir” (RAMOS, 2020).
Desta forma, esta ação desde os primórdios da vida humana está relacionada a diversos significados, sendo estes a necessidade de sobrevivência, a curiosidade de experimentação do espaço ou questões puramente intelectuais e subjetivas de cada indivíduo, como citado por Careri (2002, p. 27): “o caminhar transformou-se em uma forma simbólica que tem permitido que o homem habite o mundo”. Logo, é através do deslocamento de indivíduos que o humano passa a transformar a paisagem natural do ambiente e também desenvolver suas comunidades, que se tornam mais tarde as grandes cidades detentoras dos espaços públicos e da organização social que são objeto de estudo deste artigo.
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1 Experiência Urbana
Como já citado anteriormente, o estudo do caminhar já foi realizado por diversos movimentos, assim, salienta-se que uma concepção comum no estudo deste ato é do poder de transformação que o mesmo detém. Deste modo, o simples caminhar é uma ferramenta de transmutação capaz de fazer um não-lugar se tornar um meio-lugar (CARERI, 2002).
No entanto, é também a partir desta simples ação que podemos identificar as divergências de gênero presentes na estrutura urbana, uma vez que a mesma foi criada e estudada por muitos anos por homens e seus conhecimentos empíricos, sendo renegado a mulher os mesmos espaços de discussão e também de prioridade para suas necessidades. Assim, ressalta-se que muitas das problemáticas experienciadas pela mulher no ambiente urbano têm raiz no próprio perigo constante de viver um ambiente constituído pela democracia masculina, intrínseca ao machismo. Sendo assim, o próprio direito à cidade é inalcançável perante a organização atual do espaço público.
É certo, como John Barrell tem o cuidado de enfatizar, que às mulheres foi “negada a cidadania, é negada absolutamente tanto na república do gosto quanto na república política”, porque eram consideradas incapazes de generalizar a partir de seus interesses particulares e, portanto, incapazes de exercer a visão pública (DEUTSCHE, 2018).
Então, é a partir da ausência do conceito de Hannah Arendt de “direito de ter direitos”, em que a mulher perde o acesso a seu direito de circular livremente, que podemos verificar como o locomover da mulher no espaço urbano é limitado pelas escolhas que a mesma têm que fazer para circular na estrutura urbana em que está inserida, assim sendo, novamente evidenciado como é impossibilitado o caminhar de forma automática.
Nas ruas e praças, onde os homens têm mais direitos, mulheres elaboram estratégias para evitar as ameaças que as acometem no espaço público. A mulher fóbica pode tentar estabelecer, e se manter nos limites, do que ela considere uma zona segura. Ela inventa “histórias de capa”: explicações para suas ações que, como certa socióloga escreve, “não revelam que ela é o que é, uma pessoa com medo de espaços públicos”. (DEUTSCHE, 2018).
À vista disto, será ocasionado todo o contestamento da crítica feminista sobre o espaço público e a representação da figura feminina no mesmo, sendo a arte o meio de comunicação para impulsionar estes questionamentos.
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A(r)tivismo urbano
Qualquer local tem potencial de ser transformado em espaço público ou, também nesse sentido, em espaço privado, a arte pública pode ser vista como um instrumento que tanto ajuda a produzir um espaço público quanto questiona um espaço dominado que foi oficialmente ordenado como público. A função da arte pública se torna, como colocado por Vito Acconci, “fazer ou romper um espaço público”. (DEUTSCHE, 2018).
Partindo do pensamento de Rosalyn Deutsche, a arte pública é utilizada como ferramenta contestadora da estrutura da “boa sociedade”, para mais, sendo um movimento mobilizadora para a contestação da estrutura social presente e para reivindicação de mudanças sociais e no espaço produzido pela comunidade e suas ideologias.
O abraço carinhoso da boa sociedade” nos alerta dos perigos inerentes à fantasia aparentemente benigna da plenitude social, uma fantasia que nega a pluralidade e o conflito, visto que depende de uma imagem do espaço social determinada por um fundamento autoritário. Essa imagem está vinculada à rígida dicotomia público/privado que consigna as diferenças ao âmbito privado e configura o público como uma esfera universal ou consensual. (DEUTSCHE, 2018).74
Dessa forma, a crítica feminista no âmbito artístico discorre atravês da representação e intervenção sobre questões públicas de segurança relacionadas aos preceitos de público/privado e da responsabilidade democrática de se ter um espaço público que atenda as demandas dos grupos, antes negligenciados. Logo, a partir dessa premissa, surgirá artistas feministas e obras que colocaram em xeque o antiquado modelo de comunidade universal contido na visão e privilégios do homem branco, assim, segundo Djamila Ribeiro, “Trata-se de empoderar a si e aos outros e colocar as mulheres como sujeitos ativos de mudanças” (RIBEIRO, 2018).
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.1 Experiência n° 3

A Experiência n° 3 de 1951 performada e elaborada pelo multi artista, Flávio de Carvalho, era uma dinâmica que consistia em desfilar pelas ruas do centro de São Paulo trajado com vestimentas criadas pelo mesmo, sendo essas composições de dois conjuntos: o primeiro com um blusão e saiote; e o segundo com um blusão saia e meia arrastão. Dessa forma, o “New Look” do homem que mora nos trópicos, teve sua modelação baseada no clima do local, tendo como objetivo a distinção do vestuário antigo, que remete aos padrões europeus, da vestimenta nova, que seria brasileira.
A velocidade do fluxo de ar entre o tecido e o corpo é graduável por meio de dois círculos de arame: um na cintura e outro sobre a clavícula. Estes dois arcos preenchem também a função de conservar o tecido de malha aberta afastado do corpo. O tecido leve de cor viva que se encontra por baixo é afastado do corpo por meio de presilhas volantes que são colocadas sobre o tecido de malha aberta do blusão. Estas presilhas são colocadas por último na toilete do cidadão prestes a sair. (CARVALHO, 2010).
Logo, evidencia-se a clara desconstrução do gênero, uma vez que, apresenta-se um homem cis branco com roupas que são esteriotipadas como pertencentes a identidade feminina. No entanto, destaca-se como o direito ao caminhar é questionado nesta intervenção, já que, ele como homem gera estranhamento ao se deslocar com estas roupas, sendo muitas vezes vaiado e ridicularizado, porém, ele não parece perder sua coragem de se deslocar ou modificar seu caminhar por estar no espaço público.
Obviamente, Flávio de Carvalho, com a composição do seu “traje tropical”, expôs apenas um deboche da cópia que estabelecemos dos europeus e norte-americanos e dos padrões que consideramos corretos no que diz respeito ao gênero do indivíduo […]. Mas não estaria ele também colocando em xeque, mais uma vez, a presença do sagrado fortemente incorporado na nossa sociedade? Tida por feminina na grande maioria das culturas modernas, a saia, usada como cerne de uma performance em um corpo masculino. (FREY, 2013).
Vale se questionar se a ridicularização que o mesmo sofreu foi pela sua vestimenta considerada incomum ou se é pela sua semelhança com roupas consideradas femininas, já que, questionar a estrutura em que o masculino é superior é ofender diretamente a construção de masculinidade, assim segundo Rosalyn Deutsche: “A masculinidade, nesse sentido, “nada mais é que a capacidade de manter limites rígidos ou, mais precisamente, o efeito de tais limites” (DEUTSCHE, 2018).
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2 Untitled (Your body is a battleground)

A fotomontagem sem título de 1989, elaborada pela artista estadunidense Barbara Kruger, consiste em uma foto de um rosto feminino, provavelmente retirado de um instrumento midiático, com sua metade em preto e branco, e sua outra metade negativa, ademais com a legenda “Seu corpo é um campo de batalha” (KRUGER, 1983, tradução nossa). Esta obra foi produzida em ocasião da discussão sobre a legalização do aborto nos Estados Unidos da América, após o caso “Roe vs Wade”⁴ de 1973, assim, a artista propõe o pôster como chamado para as manifestações “pro-choice” e convocação para o posicionamento social e político da população.
As obras de Barbara exigem do espectador um olhar crítico para interpretar a mesma para além do enquadramento e texto apresentados pela artista, dessa forma, a imagem reconhece o espectador e retira do mesmo a neutralidade de ser apenas um observador, instigando o mesmo a interrogar o que se é apresentado (DEUTSCHE, 2018).
A fotomontagem de Kruger sugere também que os espaços atribuídos a espectador e imagem nas estruturas voyeuristas estão intimamente ligados às estruturas hierárquicas de diferença sexual – não só porque as mulheres têm historicamente ocupado o espaço de objeto visual e são literalmente observadas, mas porque o olhar voyeurista “feminiza” tudo o que olha – se, como escreve Mark Wigley, se entende por feminino aquilo que perturba a segurança dos limites que separam espaços, deve, portanto, ser controlado pela força masculina. (DEUTSCHE, 2018).
Isto posto, o contexto da obra de Kruger contesta o juízo do corpo feminino como passível de intervenção pública, política e governamental, em contraposição ao corpo masculino que é autônomo e instituído de poder para subordinar os demais às suas concepções. Além disso, a artista apresenta o intuito de fazer uma arte política, para além dos questionamentos e subjetividades que já são incorporados na obra, sendo possível identificar a urgência da crítica feminista de mudança social.
Qual o sentido de chamar esse espaço conturbado de “público”? A expressão visão pública tem várias conotações. Sugere que a visão é modelada por estruturas sociais e históricas; que o significado das imagens é produzido cultural e não individualmente; e que as imagens significam estruturas sociais. Em todos esses sentidos, o termo público implica que espectadores e imagens são construídos socialmente, que o significado é público, não privado. (DEUTSCHE, 2018).
Outrossim, “Untitled (Your body is a battleground)” ainda é uma arte atual e universal, podendo ser inserida no contexto da mulher de 2022 e no Brasil, principalmente, quando analisado o corpo feminino no espaço público. Se faz possível associar o caminhar de mulheres a essa constante batalha por controle de seu corpo e decisões individuais, que ainda não são permitidas pela construção social e histórica imposta, e que ainda não foi completamente subvertida por toda população, apesar dos claros avanços após anos de movimentos feministas.
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3 Primeiro querem tirar o direito de escolha da mulher. Agora estão censurando a arte

O outdoor “ Primeiro querem tirar o direito de escolha da mulher. Agora estão censurando a arte”, foi elaborado pelo grupo de mulheres feministas interseccionais, Guerilla Girls. Logo, essa obra como as demais do grupo questiona os preconceitos de gênero na política e diversas vertentes artísticas, assim “[...] o principal objetivo é questionar como as mulheres são vistas no meio artístico, mostrando o quão são desvalorizadas e invisibilizadas” (COSTA e COELHO, 2018, p. 35).
Destaca-se que esta obra, entre as demais, trabalha com a intervenção urbana, que questiona o formato da sociedade, em que mulheres são minorias na política e na arte, além de serem representadas nesses espaços de acordo com um imaginário masculino, sendo musas ou acompanhantes. Dessa forma, o outdoor “Primeiro querem tirar o direito de escolha da mulher. Agora estão censurando a arte” (GUERRILLA GIRLS, 1989, tradução nossa), polemiza a ausência de autonomia feminina na tomada de decisões por mulheres sobre seus corpos, sua vida e até mesmo caminhar, e juntamente, a censura que as mesmas recebem ao se expressarem através das artes e suas subjetividades.
Outrossim, evidencia-se que as obras das Guerrilla Girls situadas no contexto urbano se utilizam do espaço público, que antes era uma das vertentes machista de opressão das mulheres, para instigar a contestação e a movimentação feminina. Assim, é através do vivenciar da cidade, que os banners e outdoors conseguem inserir o telespectador no debate e, aos poucos, modificar a mentalidade das sociedade que caminha por esses espaços públicos decorados com a crítica feminista.
Quando a arte intervém nas formas de representação por meio das quais os sujeitos se constroem como universais e desprovidos de diferença, não deveríamos acolhê-la – junto à arte envolvida em novos movimentos sociais – como uma contribuição ao aprofundamento e à extensão do espaço público? (DEUTSCHE, 2018).
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Discussão
O caminhar é objeto de estudo de diversos movimentos artísticos, tendo diferentes significados e simbologias, no entanto, o gênero é indissociável para o entendimento dessa ação e suas formas de acontecer no contexto urbano, uma vez que, a cidade sempre foi pensada e estudada por homens, negando-se até o percurso inconsciente e desprendido de adversidades para as mulheres. Todavia, em contrapartida ao limitar da errância feminina, artistas e obras que exprimem em suas críticas feministas o desejo de caminhar e habitar o público com a mesma autonomia masculina, utilizando-se das artes e do espaço público como tela de expressão da resistência e pretensão de mudança.
Logo, partimos do pressuposto que o urbanismo deveria ser a ferramenta de modificações da cidade, se adequando de forma propícia à incentivar o caminhar e habitar da população do espaço, no entanto, muitas vezes sendo utilizado de forma errônea pela percepção questionável de uma sociedade universal e excluindo de sua investigação mulheres e sua forma de habitar a cidade. Ademais, é também o urbanismo em convergência com a crítica artística o precursor de um movimento para entender a figura feminina no espaço público e a partir do mesmo questionar a forma que se produz a cidade.
As experiências de investigação do espaço urbano pelos artistas errantes apontam para a possibilidade de um ― urbanismo poético, que se insinua através da possibilidade de uma outra forma de apreensão urbana, o que levaria a uma reinvenção poética, sensorial, das cidades. Talvez a maior crítica dos artistas errantes aos urbanistas modernos tenha sido exatamente o que Oiticica resumiu de forma tão clara no que ele chamou de ―poetizar o urbanoǁ. Os urbanistas teriam esquecido, diante de tantas preocupações funcionais e formais, deste enorme potencial poético urbano e, principalmente, da relação inevitável entre o corpo físico e o corpo da cidade que se dá através da errância. (JACQUES, 2006).77
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Considerações finais
Conclui-se, que o intuito deste artigo é evidenciar como a cidade que sempre foi produzida por homens e para homens se torna uma extensão da cultura machista e opressora em que as mulheres estão inseridas, e a partir desta explanação identificar como o caminhar feminino é um ato de resistência, sendo também a ação impulsionadora para produções artísticas feministas. Ademais, é através dos estudos sobre o caminhar como ação política, filosófica e modeladora do espaço, abordados no livro “Walkscapes” de Careri (2002) e no texto “Agorafobia” de Deutsche (2018), que podemos identificar como esta ação ao ser executada por um corpo feminino se torna uma reprodução das opressões experimentadas pelas mesmas. Outrossim, em resposta às violências experienciadas pelas mulheres na cidade a produção artística feminista surge como instrumento questionador deste urbanismo opressor, sendo exemplificado neste artigo pelas obras: “Experiência n° 3” de Flávio de Carvalho (1956), “Untitled (Your body is a battleground)” de Barbara Kruger (1981-1983) e “Primeiro querem tirar o direito de escolha da mulher. Agora estão censurando a arte das Guerrilhas Girls (1991). Portanto, exalta-se que apesar de não existir uma conclusão ou solução diligente para a problemática apresentada, é através da pesquisa e debate que será possível ressignificar a mulher na cidade e modificar as ruas para que elas tenham um olhar feminino.
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Referências
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CARVALHO, Flávio de. A moda e o Novo Homem. Azougue Editorial, 2010.
CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano. Rio de Janeiro: Editora Vozes Ltda, 1990.
COELHO, Naiara e COSTA, Maria. A(r)tivismo feminista: Intersecções entre arte, política e feminismo. CONFLUÊNCIAS: Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito, Rio de Janeiro, v. 20, p. 25 - 49, 2018.
DEUTSCHE, Rosalyn. Agorafobia. Revista Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais EBA - UFRJ, Rio de Janeiro, n. 36, p. 116 - 173, dezembro, 2018.
FREY, Tales. Diretrizes Profanas nos Trajes e Acessórios de Flávio de Carvalho e de Márcia X. eRevista Performatus, n. 4 , maio, 2013.
GUERRILLA GIRLS. 1985 - 2022. Disponível em: www.guerrillagirls.com . Acesso em: 09 de fev. de 2022.
JACQUES, Paola Berenstein. Errâncias Urbanas: a arte de andar pela cidade. ARQTEXTO: Revista Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura UFRGS, Rio Grande do Sul, v. 7, p. 16 - 25, 2005.
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RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
STIGGER, Veronica. Flávio de Carvalho: Arqueologia e contemporaneidade. Celeuma, São Paulo, n. 4, p. 44 - 56, maio de 2014.