Isadora de Paula Santos
isadora.santos@discente.ufg.br

Valdete Teles Xavier Soares
valdeteteles@gmail.com

Michell Pedruzzi Mendes Araújo
michellpedruzzi@ufg.br

EIXO
Educação, tecnologia e linguagem

A INCLUSÃO DE ESTUDANTES PÚBLICO-ALVO DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NAS AULAS DE CIÊNCIAS DA NATUREZA: UM ESTUDO BIBLIOGRÁFICO

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Resumo: Esta pesquisa tem como tema a inclusão de estudantes público-alvo da educação especial nas aulas de ciências da natureza. À vista disso, o desenvolvimento desse trabalho é relevante, posto que há um aumento significativo desse público-alvo no ensino regular, todavia a grade curricular dos cursos de licenciaturas não apresentam discussões acerca da inclusão, além disso, a área de ciências da natureza é repleta de termos científicos complexos que precisam ser “decodificados” para que a inclusão seja consubstanciada, alicerçado em um meio planejado para isso. Nessa perspectiva, esse estudo tem como objetivo central compreender como se dá a inclusão do público-alvo da Educação Especial nas aulas de ciências da natureza por meio de um estudo bibliográfico. Ademais, serão especificamente analisadas as principais abordagens didáticas utilizadas pelos docentes em sala e as práticas pedagógicas que promovem a inclusão. E, também, averiguar se o processo de ensino e aprendizagem estão direcionados para a alfabetização científica e se realmente a inclusão faz parte dessas aulas de ciências da natureza. No que concerne ao referencial teórico utilizado para subsidiar as análises, optou-se pela Teoria Histórico-Cultural de Vigotski, enfatizando alguns de seus principais conceitos, como a mediação, internalização, processo de aprendizagem e de desenvolvimento da pessoa com deficiência, função psicológica elementar e superior. Acerca da metodologia, a pesquisa é qualitativa do tipo bibliográfica, que envolveu a análise de materiais já elaborados. Para a seleção do material foi realizado um recorte temporal de 2010 a 2023, com buscas no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes e no Google Scholar. Também foram empreendidas pesquisas nos sítios de periódicos relevantes da área de ensino de ciências, a saber: Revista Brasileira de Ensino de Ciências e Matemática; Revista Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências; Investigações em Ensino de Ciências; Revista Actio: Docência em Ciências. Como resultado, infere-se que, para promover um ambiente adequado para a aprendizagem e para a alfabetização científica, o docente precisa organizar oficinas/aulas com recursos didáticos, como jogos educativos adaptados, e conteúdos que sejam de interesse do público-alvo da educação especial, para que, dessa forma, as aulas fiquem interessantes e acessíveis para os discentes.

Palavras-chave: Inclusão. Deficiência. Ciências.

1 INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tematiza a inclusão de estudantes público-alvo da educação especial nas aulas de ciências da natureza, por meio de uma análise bibliográfica. Uma vez que há um crescente aumento do público-alvo da educação especial no ensino regular e em contrapartida dentro da grade curricular das licenciaturas não têm uma discussão intrínseca acerca da inclusão. Ademais, dentro da área de ciências da natureza existem termos científicos complexos que precisam ser adaptados para o ensino, em relação às especificidades de alguns educandos. Por esse motivo, essa pesquisa é de suma importância, especialmente para integrar a formação continuada de alguns professores e futuros docentes.

Essa pesquisa teve como fundamentação teórica a Teoria Histórico-Cultural de Vigotski (1984; 2001), que tem como cerne o sujeito que é histórico e cultural, isto é, sua história incluindo todas as suas vivências em conjunto com a cultura do meio em que vive, transforma todo o indivíduo inclusive o modo como ele aprende e consequentemente se desenvolve. Entretanto, o autor bielorrusso salienta que à medida com que o homem é transformado, ele também modifica o meio em que está inserido. Ademais, Vigotski também trabalha o conceito de mediação, que de acordo com o autor pode ocorrer por meio de instrumentos e por signos, o primeiro é algo mais concreto, isto é, pode ser um objeto que modifica ativamente o meio. Já o segundo, se refere a fala, ou seja, a maneira como os indivíduos se relacionam, essa forma de mediação é crucial em um ambiente educacional principalmente se referindo a inclusão, porque o docente precisa estabelecer uma comunicação com os seus discentes, independente da linguagem utilizada.

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A capacidade especificamente humana para a linguagem habilita as crianças a providenciarem instrumentos auxiliares na solução de tarefas difíceis, a superarem a ação impulsiva, a planejarem a solução para um problema antes de sua execução e a controlarem seu próprio comportamento. Signos e palavras constituem para as crianças, primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas da linguagem tornam-se, então, a base de uma forma nova e superior de atividades nas crianças, distinguindo-as dos animais (Vigotski, 1997, p. 31).

Dessarte, Vigotski (1984) também discorre sobre as funções psicológicas elementares e as superiores, a primeira diz respeito às funções inatas, que os indivíduos possuem em semelhança aos outros animais, como as ações por reflexo e por extinto, ou seja, atuam para satisfazer suas necessidades biológicas. Nesse viés, o autor pontua que essas funções inatas em conjunto com as vivências e as relações sociais com outros mais experientes são responsáveis por constituir as funções superiores, que é uma característica distinta do ser humano, que diz respeito à consciência, à memória, à capacidade de pensar e executar. Em suma, são capacidades adquiridas ao longo da vida, por intermédio das relações sociais.

[...] no processo de constituição humana é possível distinguir duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento, diferindo quanto a sua origem: de um lado, os processos elementares, que são de origem biológica; de outro, as funções psicológicas superiores de origem sociocultural. A história do comportamento da criança nasce do entrelaçamento dessas duas linhas. (Vigotski, 1984, p. 52)

Confluindo, Vigotski (1984) apresenta que o processo de desenvolvimento cognitivo acontece de fora para dentro, por meio da internalização das vivências estabelecidas no meio social. O autor bielorrusso também enfatiza que o cérebro é um órgão dotado de plasticidade, isto significa, que não é rígido, sendo assim, ele se desenvolve cognitivamente ao longo da vida. Nesse viés, a criança não nasce pronta, com todas as suas capacidades cognitivas previamente determinadas, contudo, são adquiridas ao longo das suas vivências. Sendo assim, a mediação e a organização do meio em que o indivíduo se encontra são determinantes para o seu processo de aprendizagem e desenvolvimento.

Por conseguinte, essa pesquisa tem como objetivo central compreender como se dá a inclusão do público-alvo da educação especial nas aulas de ciências da natureza por meio de um estudo bibliográfico. Neste panorama, as finalidades específicas deste estudo são trazer à tona estudos que versem sobre a inclusão do público-alvo da educação especial nas aulas de ciências da natureza, e a partir disso, conhecer as principais abordagens didáticas utilizadas pelos professores da área para potencializar a aprendizagem e o desenvolvimento dos discentes público-alvo da educação especial. Ademais, analisar se os estudantes público-alvo em questão estão sendo incluídos nas aulas de ciências da natureza, além disso, compreender as principais práticas pedagógicas desenvolvidas com os estudantes público-alvo da educação especial. Por fim, a pesquisa também busca analisar se a alfabetização científica tem sido almejada nesses processos de ensino e aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial nas aulas de ciências da natureza.

2 METODOLOGIA

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Essa pesquisa foi desenvolvida mediante uma abordagem qualitativa do tipo bibliográfica. Ou seja, o estudo em questão não tem como intuito quantificar os sujeitos e os dados obtidos durante a pesquisa. Contudo, o foco está em analisar de modo geral o objeto de estudo e o meio em que este estava inserido, sendo assim, o objetivo está centrado na elaboração de resultados com qualidade e não com quantidade. Em consonância a isso, Martinelli pontua que uma pesquisa de abordagem qualitativa

Se insere no marco de referência da dialética, direcionando-se fundamentalmente, pelos objetivos buscados. O desenho da pesquisa qualitativa deve nos dar uma visibilidade muito clara do objeto, objetivo e metodologia, de onde partimos e onde queremos chegar (Martinelli, 1999, p. 115).

Ademais, concebe-se como uma pesquisa do tipo bibliográfica, levando em consideração que ela é desenvolvida com base em material já elaborado. Nesse estudo em específico foram analisados: cinco artigos científicos, um trabalho de conclusão de curso, quatro dissertações de mestrado e um capítulo de livro. Por conseguinte, vale ressaltar que a análise do conteúdo foi desenvolvida de acordo com a análise do conteúdo de Bardin (2011).

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Como resultado, por meio das análises bibliográficas, infere-se que a inclusão dos discentes público-alvo da educação especial nas aulas de ciências da natureza só era alcançada quando o docente realizava um planejamento da aula que fugisse do modelo usual das ministrações, que, normalmente, era a exposição do conteúdo. Sendo assim, para promover um ambiente propício para a aprendizagem e o desenvolvimento desses educandos, os professores utilizaram de uma abordagem didática pautada na teoria histórico- cultural, considerado o estudante como um ser histórico e cultural e protagonista do seu processo de aprendizagem, valorizando também as relações sociais estabelecidas por esses sujeitos.

Ademais, os docentes que conseguiram organizar um meio educacional inclusivo, utilizaram de recursos visuais e táteis que promoviam a interação do educando tanto com o material quanto com os outros da sala de aula, como: a maquete de uma boca, denominada “Bocão”, contendo os dentes e alguns materiais como uma escova de dente grande, na qual, possibilitou a interação da criança. Outrossim, foi confeccionado um corpo humano, por meio de uma impressão 3D, evidenciando o sistema circulatório, que permitia o monte e o desmonte das peças do coração, bem como, foi criado um manual tátil contendo o uso das das plantas no dia a dia, além de trazer para a aula prática chá, xarope e mudas da vegetação estudada.

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Alguns professores dispuseram de jogos educacionais, como: “Conhecendo o mundo invisível desafio de sinais”, “Jogo cooperativo Hugo recicla”, jogo da memória, quebra-cabeça, mapa interativo e um dominó sobre assuntos científicos, que de forma lúdica e divertida ensinaram ciências às crianças e que consequentemente eram conduzidas ao processo de alfabetização científica. Destarte, também foi desenvolvido um aplicativo de celular denominado “ciência inclusiva”, que tinha como objetivo audiodescrever os conteúdos abordados em sala de aula e os materiais dos recursos utilizados.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, essa pesquisa teve como objetivo identificar por quais vias se dá a inclusão de discentes público-alvo da educação especial, por meio de uma pesquisa qualitativa do tipo bibliográfica, em que a análise do conteúdo foi realizada segundo a análise do conteúdo de Bardin.

Acerca do objetivo geral da pesquisa, “compreender como se dá a inclusão de estudantes público-alvo da educação especial nas aulas de ciências da natureza por meio de um estudo bibliográfico”, inferimos que ele foi alcançado, uma vez que os estudos selecionados para a análise apresentaram abordagens didáticas e práticas pedagógicas que foram fundamentais para promover a inclusão desses estudantes.

Acerca dos objetivos específicos, mister faz-se destacar que os estudos trouxeram à tona a inclusão dos discentes público-alvo da educação especial, por meio da abordagem didática e ações pedagógicas planejadas de acordo com as especificidades dos estudantes, tendo apenas duas exceções de pesquisas que não conseguiram efetivar essa inclusão. Em suma, foi perceptível que o processo de alfabetização científica era estimulado, quando os docentes traziam para a prática jogos educativos que elucidaram a respeito de assuntos científicos entrelaçando com o cotidiano dos indivíduos, o que promoveu uma aprendizagem significativa por parte dos educandos.

Por fim, infere-se que, para promover um ambiente adequado para a aprendizagem dos discentes e para a alfabetização científica, o docente precisa organizar oficinas/aulas com recursos didáticos diversificados, como jogos educativos adaptados, e conteúdos que sejam de interesse do público-alvo da educação especial, para que, dessa forma, as aulas se tornem mais interessantes e acessíveis para os discentes.

5 REFERÊNCIAS

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BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo. Editora Atlas, 2002.

MARTINELLI, M. L. Pesquisa qualitativa: um instigante desafio. São Paulo: Veras, 1999.

STAINBACK, Susan; STAINBACK, William. Inclusão: Um guia para educadores. Porto Alegre: Art Med., 1999.

VIGOTSKI, L. S. Obras Escogidas: Fundamentos de defectología. Tomo V. Madrid: Visor, 1997.

VIGOTSKI, L. S. Sete aulas de L. S. Vigotski sobre os fundamentos da pedologia. Organização [e tradução]: Zoia Prestes e Elizabeth Tunes; tradução: Cláudia da Costa Guimarães Santana. Rio de Janeiro: E-Paper, 2018.

VIGOTSKI, Lev Semenovich. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

VIGOTSKI, Lev Semenovich. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

VIGOTSKI, Lev Semionovich. Problemas da Defectologia. Volume I. Paraná: Editora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2022

VIGOTSKI, Lev Semionovich. Psicologia Pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2003.

VYGOTSKY, L. S. Obras completas. Tomo cinco. Fundamentos de defectologia. Habana. Editorial Pueblo y Educación, 1989. Tradução do Programa de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais (PEE). Cascavel, PR: EDUNIOESTE, 2022.

Notas

1. Estudante do curso de licenciatura em Pedagogia (FE/UFG).

2. Mestranda em Psicologia (PPGP/FE/UFG). Especialista em Neuropsicopedagogia (IPOG). Pedagoga (UFG).

3. Doutor e Mestre em Educação (PPGE/CE/UFES). Especialista em Educação Inclusiva e Diversidades (ISECUB). Biólogo (UFES) e Pedagogo (CESUMAR). Professor adjunto (FE/UFG) e professor permanente do Programa de Pós-graduação em Psicologia (PPGP/FE/UFG).