6. Discutindo e valorizando cabelos crespos e cacheados de estudantes afrodescendentes em umas escola pública de Aparecida de Goiânia
Desde a Antiguidade, os cabelos são um signo e/ou símbolo de identidade étnica, religiosa, profissional etc. ligados à nossa natureza animal, ao poder vital, à força física, à virilidade, à conexão com Deus (Sansão, na Bíblia; rastafáris; sikhs), à sedução e atração sexual da mulher. O corte total ou raspagem do cabelo pode representar a castração simbólica, a punição por mau comportamento, a sublimação dos instintos, o luto, a renúncia aos valores mundanos (JULIEN, 1993). Os cabelos ou a ausência deles são importantes para a nossa identidade individual ou grupal.
Nesse sentido, Nilma Lino Gomes (2002) demonstra como os sujeitos negros desde cedo mantêm uma relação com o seu cabelo crespo por ele não se enquadrar no padrão hegemônico do cabelo liso. Desse modo, o senso comum considera o cabelo crespo como um “cabelo ruim”. Ora, Rabelo (2006) e Chevannes (1998) argumentam que a noção de cabelo ruim se deve ao fato de que os pentes eram fabricados para os cabelos lisos e não para cabelos crespos. Em uma pesquisa recente numa escola pública de Iatuçu-Go, Flávia Mendonça (2021) descobriu que os cabelos eram a parte do corpo que a maioria dos(as) estudantes pardos(as) e negros(as) não gostavam em si mesmos(as) e que eram fonte de zombarias por parte dos(as) colegas.
Obviamente, essas representações sobre o cabelo crespo ou cacheado dos sujeitos negros são resultantes do racismo estrutural da sociedade brasileira. Nesse sentido, a escola, embora possa ser um aparelho reprodutor do Estado e da estrutura social, pode ser, também, um local de resistência e combate ao racismo (MUNANGA, 2005; CAVALLEIRO, 2005; GOMES, 2002; RABELO, s/d).
No final de 2019, em uma escola do município de Aparecida de Goiânia-Go, constantemente as pias do banheiro feminino estavam entupidas com fios de cabelo. Pelas imagens das câmeras constatou-se que algumas alunas iam várias vezes ao banheiro e saíam dali com os cabelos molhados em todas elas.
Essas alunas possuíam cabelos crespos ou cacheados e os molhavam para abaixar o seu volume e não se sentirem incomodadas. Para estimular a autoaceitação e a autoestima das alunas e alunos de cabelos crespos e cacheados e, ao mesmo tempo, conscientizá-los sobre o problema com as pias, a administração da escola convidou um salão especializado em cachos e crespos para dar uma palestra para os discentes interessados. Gomes (2003) destaca a importância destes locais, chamados “salões étnicos”, para a formação da identidade negra.
Embora a palestra fosse parte da programação escolar de comemoração do mês da consciência negra, a sua inscrição estava voltada para toda o corpo discente da escola, isto é, estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. Entretanto, a totalidade das 50 inscrições era de estudantes com cabelos crespos ou cacheados, talvez motivada pela própria temática da palestra.
As profissionais do salão levaram vídeos, amostras de produtos e deram dicas de cuidados, enfatizando que molhar constantemente os cabelos poderia enfraquecê-los. A premissa era ensinar alunos(as) a tratar de seus cabelos crespos ou cacheados, nem tanto para adequá-los ao padrão hegemônico, mas para estimular a autoestima e autoaceitação desses(as), valorizar sua etnicidade.
Como forma de avaliação da iniciativa da administração, um questionário com perguntas fechadas e abertas foi apresentado aos(às) participantes para ser entregue no final da palestra e que compõe a base de dados para este artigo. Foram entregues 46 formulários do questionário respondido.
Inicialmente, procurou-se caracterizar os(as) participantes quanto à idade, pertencimento ou autodeclaração étnica e tipo de cabelo. O gênero não foi perguntado porque não obstante seja um dado importante, poderia-se cair no estereótipo de que somente as mulheres se preocupam com a aparência ou são mais vaidosas. Na ocasião havia a presença equilibrada de homens e mulheres.
Dentre os(as) respondentes, 15 (32,6%) tinham 14 anos; 14 (30,45%) tinham 13 anos; 7 (15,2%) tinham 15 anos, 6 (13,05%) tinham 12 anos e 4 (8,7%) tinham 16 anos, conforme o gráfico 1 a seguir.
Gráfico 1 – Distribuição Etária de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

Na autodeclaração étnica/racial (gráfico 2), 34 (73,92%) se consideravam pardos(as), 9 (19,57%) negros(as), 2 (4,34%) brancos(a) e um(a) (2,17%) se declarou indígena. Essa autodeclaração se baseou nos critérios estabelecidos pelo IBGE, isto é, as pessoas são perguntadas sobre sua cor de acordo com as seguintes opções: branca, preta, parda, indígena ou amarela (MENDONÇA, 2021).
Gráfico 2 – Distribuição étnica e racial conforme autodeclaração de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019))

Quanto aos seus cabelos, foram assim distribuídos: 30 (65,2%) estudantes com cabelos cacheados, 8 (17,4%) estudantes com cabelos crespos e 8 (17,4%) com cabelos ondulados, conforme o gráfico 3 a seguir:
Gráfico 3 – Distribuição de tipos de cabelos de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

Com respeito ao cuidado com os cabelos, 23 (50%) estudantes achavam difícil cuidar dos cabelos; 16 (34,78%) estudantes achavam fácil; 7 (15,22%) achavam mais ou menos, conforme o gráfico 4 a seguir:
Gráfico 4 – Facilidade ou Dificuldade para tratar dos próprios cabelos de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

Os motivos dificultadores no cuidado com os cabelos crespos eram vários, porém, os mais mencionados foram: exigem muito cuidado (30,43%), exigem muito creme (13,04%) e problemas com volume (13,04%), conforme o gráfico 5.
Gráfico 5 – Motivos da Dificuldade para tratar dos próprios cabelos de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

Já aqueles(as) que tinham facilidade mencionaram: facilidade (37,5%), gosta de cuidar (25%) e basta lavar e passar creme (18,75%), conforme o gráfico 6.
Gráfico 6 – Motivos da Facilidade para tratar dos próprios cabelos de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

Nilma Lino Gomes (2002, p. 42) demonstra como “a experiência corporal é sempre modificada pela cultura, segundo padrões culturalmente estabelecidos e relacionados à busca de afirmação de uma identidade grupal específica”. Porém, a identidade grupal não é unívoca, fixa ou monolítica, mas sim polissêmica (Bhabha, 1998). Nesse sentido, observa-se que metade dos(as) entrevistados(as) afirmou ter dificuldade no cuidado com seus cabelos crespos/ondulados/cacheados, ou seja, embora haja ou não uma identidade grupal definida, a participação dentro do grupo e/ou no contexto da sociedade envolvente não é monolítica, mas diversa, especialmente no nível individual, pois “as múltiplas representações construídas sobre o cabelo do negro no contexto de uma sociedade racista influenciam o comportamento individual [...] está intimamente associado a estratégias individuais de construção da identidade negra” (GOMES, 2002, p. 44-46).
Todavia, com ou sem dificuldade para tratar de seus cabelos crespos/cacheados, 36 (78,26%) informantes confessaram ter molhado os cabelos na pia do banheiro da escola ou de sua casa, conforme o gráfico 7.
Gráfico 7 – Percentual de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia e que molharam seus cabelos na pia do banheiro da escola ou de suas casas (2019)
Os principais motivos para molharem os cabelos foram: abaixar o volume (66,6%), não aceita o seu cabelo (11,11%), para tirar o “frizz” (8,33%) e ser mais fácil de cuidar (8,33%), conforme o gráfico 8.
Gráfico 8 – Percentual de Motivos de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia para molharem seus cabelos na pia do banheiro da escola ou de suas casas (2019)

De acordo com Gomes (2002), o espaço escolar exige uma padronização e uniformização, disciplinarização do corpo disfarçada ou não de normas ou preceitos higienistas (FOUCAULT, 1999). É nesse sentido que a escola torna-se um dispositivo disciplinador que tanto silencia a questão racial quanto impõe o padrão hegemônico da branquitude, reforçando os estereótipos racistas contra as crianças e adolescentes negras(os).
As estratégias de molhar o cabelo para abaixar o volume, tirar o “frizz” e facilitar o cuidado revelam uma tentativa de se adequar aos padrões normativos hegemônicos de dentro e fora do ambiente escolar, bem como uma possível percepção de que a escola associa cabelos rebeldes, soltos e ‘descuidados’ à independência ou mesmo relutância às normas sociais, ou ainda, como expressões da sujeira e/ou da marginalidade como no caso dos cabelos black power, dreadlocks e estética hip hop (GOMES, 2002).
A forma escolhida pela escola para lidar com o entupindo das pias dos banheiros causado pelo ato de molhar os cabelos, ou seja, pelo cuidado das alunas negras de cabelos crespos/cacheados, poderia levar ou não a um reforço de representações racistas de negras e pardas. A escola, no entanto, entendeu que proibir tal cuidado não levaria em conta o desconforto desses sujeitos e só faria aumentar a tensão entre as estudantes e a administração escolar.
Ao chamar as cabeleireiras negras do salão especializado em cachos e cabelos crespos para ministrar a palestra ao corpo discente, a administração da escola estava não só tentando dar uma solução ao problema pontual das pias de banheiro entupidas, como também promover uma ação de valorização da estética negra que questiona o racismo estrutural e o padrão hegemônico da branquitude como único padrão desejável.
Durante a palestra, algumas vezes, foi mencionado que o ato de molhar os cabelos pode enfraquecê-los e adoecer o couro cabeludo por causa da umidade constante. Os penteados afro usados e apresentados pelas palestrantes foram bem recebidos pelos(as) estudantes que viram ali alternativas para o cuidado com seus cabelos, como também aceitação e valorização do seu tipo capilar, de seu pertencimento étnico/racial.
Assim, a palestra foi bem recebida pelos(as) estudantes, sendo que apenas um (2,17%) não respondeu, enquanto que 45 (97,83%) afirmaram ter gostado dela, conforme o gráfico 9.
Gráfico 9 – Percentual de Aprovação de Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

Para os(as) alunos(as), os tópicos mais interessantes foram: como cuidar do cabelo (9 respostas ou 20%); dicas (8 ou 17,7%), tudo (6 ou 13,3%), como lavar o cabelo (5 ou 11,1%) etc., conforme o gráfico 10.
Gráfico 10 – Tópicos Mais Apreciados pelos Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

A maioria dos(as) informantes (42 ou 91,3%) considerou importante a existência de um salão especializado em cabelos cacheados, enquanto um(a) (2,17%) não considerava isso importante, outro(a) (2,7%) não sabia e dois/duas (5,4%) não responderam, conforme o gráfico 11.
Gráfico 11 – Importância de Salões especializados em cabelos crespos e cacheados segundo Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

Nilma Lino Gomes salienta a importância desses salões “étnicos” para as populações negras da seguinte maneira:
Os salões étnicos apresentam, no seu interior e na sua constituição, todas as tensões e ambiguidades que envolvem a construção da identidade negra no Brasil. Porém, não é só isso. Eles se destacam como espaços de resistência. Revelam-se como algo muito além de microempresas ou lugares de “embranquecimento”, como julgam algumas pessoas. Eles são espaços da comunidade negra. As pessoas que por ali circulam e as que ali trabalham enfrentam, cotidianamente, o desafio de “lidar” com as questões concernentes à construção da identidade negra. Nesses espaços, a identidade negra, enquanto processo, é problematizada, discutida, afirmada, negada, encoberta, rejeitada, aceita, ressignificada e recriada. Tudo isso acontece ao mesmo tempo e, nesse sentido, os salões étnicos nos colocam no cerne das tensões e também das possibilidades de recriação vividas por homens, mulheres, crianças, adolescentes, jovens e adultos negros (GOMES, 2003, p. 179).
As justificativas para a existência de salões especializados em cabelos cacheados e crespos foram as seguintes: necessidade de cuidado profissional (8 respostas ou 17,39%); há poucos salões especializados (8 ou 17,39%), necessidade de cuidado (5 ou 10,86%), porque é importante (5 ou 10,86%), ajuda as pessoas (3 ou 6,52%), necessidade pessoal (3 ou 6,52%), porque é um direito (2 ou 4,34%), não justificou (8 ou 17,39%), não sabe (1 ou 2,17%), empoderamento (1 ou 2,17%). O gráfico 12 ilusta a distribuição percentual dessas justificativas.
Gráfico 12 – Justificativas para a Importância de Salões especializados em cabelos crespos e cacheados segundo Estudantes Participantes da Palestra Sobre Cuidados Com Cabelos Crespos e Cacheados na Escola Pesquisada em Aparecida de Goiânia (2019)

A única resposta (2,7%) que considerava não ser importante haver um salão especializado em cachos e cabelos crespos apresentava a seguinte justificativa: “não, tem que cuidar do próprio cabelo”, expressando um desejo de autonomia ou autossuficiência individual. Todavia, a maioria das respostas foi justificada por necessidades mais imediatas de tratamento em nível profissional ou não do cabelo que, somando-se, chegam a 13 (28,26%). A raridade (8 ou 17,39%) desses salões também aponta para essa necessidade de tratamento, mas abre espaço para inferir sobre o significado que esses salões podem adquirir como “espaços da comunidade negra” (GOMES, 2003).
Uma resposta (2,17%) justificou que esses salões são um direito, mas não especificou que direito é esse. Outra (2,17%) considera que tais salões são uma forma de empoderamento. Poder-se-ia inferir que o empoderamento expressa tanto o empreendedorismo de microempresas quanto a constituição de espaços de afirmação, debate e construção de identidades negras.
À parte as inferências, nenhuma justificativa afirmou claramente a importância que os salões étnicos possui como espaços de afirmação e valorização étnica, cultural e estética dos sujeitos negros no Brasil. O desejo de diminuir o volume não poderia representar o desejo de pessoas jovens e negras em se adequar ao padrão estético hegemônico? Ou se trata de adequar-se à moda?
Contudo, a palestra fazia parte das comemorações do mês da consciência negra (novembro), decorrente da data comemorativa da morte de Zumbi de Palmares, ocorrida em 20 de novembro de 1695 e, portanto, poderiam os(as) informantes e participantes da palestra terem conseguido fazer uma relação com a questão étnica e racial.
A data comemorativa foi instituída no calendário escolar pela Lei nº 10.639/03 (BRASIL, 2003) e nacionalmente como dia de Zumbi e da Consciência Negra pela Lei nº 12,519/11 (BRASIL, 2011). Esse é, talvez, na maioria das escolas brasileiras, o único período em que se discutem nas escolas as questões raciais brasileiras, a história africana e afro-brasileira (PINA, 2017; SASSO e MEDROA, 2018; BITTAR, 2021).
Tanto essa atividade quanto a pesquisa de Flávia Mendonça (2001) realizada no município de Iatuçu (Go) foram realizadas dentro desse calendário que perpetua o mês de novembro como o único momento em que se debate as relações étnicas e se valoriza as culturas africanas e afrobrasileiras no espaço escolar. Isso demonstra, conforme apontam Pina (2017), Sasso e Medroa (2018) e Bittar (2021), a dificuldade de cumprimento da Lei nº 10.639/03.
Na escola pesquisada por Flávia Mendonça (2021), os(as) estudantes estavam no 5º ano do ensino fundamental e, quando solicitados a conceiturem o racismo, eles(as) em grande parte o confundiam com bullying, gordofobia e outras formas de discriminação. Desse modo, Mendonça constatou a necessidade de intervenção no campo da pesquisa, elaborando uma complexa e rica sequência didática que envolvia exibição de vídeos, canções, elaboração de cartazes, aulas expositivas sobre os conceitos chaves, rodas de conversa sobre cabelos crespos e padrões não hegemônicos de beleza, e confecções de bonecas abayomi.
Por sua vez, a atividade aqui descrita e analisada bem como o questionário avaliativo que se seguiu a ela, demonstram que também nos anos finais do ensino fundamental e médio há necessidade de discussão e debate das relações étnicas e raciais brasileiras, do estudo da história e culturas africanas e afrobrasileiras, da valorização das vivências e estética dos sujeitos negros no Brasil.
Também concorda-se aqui com a recomendação do Parecer nº 3 de 10 de março de 2004 (BRASIL, 19/05/2004) para as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana que foi transformado em Resolução em 17 de junho de 2004 (BRASIL, 22/06/2004) sobre a necessidade de
Pedagogias de combate ao racismo e a discriminações elaboradas com o objetivo de educação das relações étnico/raciais positivas têm como objetivo fortalecer entre os negros e despertar entre os brancos a consciência negra. Entre os negros, poderão oferecer conhecimentos e segurança para orgulharem-se da sua origem africana; para os brancos, poderão permitir que identifiquem as influências, a contribuição, a participação e a importância da história e da cultura dos negros no seu jeito de ser, viver, de se relacionar com as outras pessoas, notadamente as negras (BRASIL, 19/05/2004, p. 7).
Desse modo, é preciso desconstruir a naturalização da branquitude hegemônica demonstrando os processos históricos violentos e cruéis de sua constituição, como a escravização de africanos, as ideias racistas pseudocientíficas, bem como os prejuízos que as desigualdades étnicas, raciais e sociais trazem para as sociedades e a humanidade como um todo.
Nesse sentido, está sendo elaborado um produto educacional como proposta de intervenção pedagógica na escola onde foi realizada a palestra sobre cabelos crespos, cacheados e/ou ondulados que poderá servir não somente a estudantes afrodescendentes, mas também a estudantes de outros pertencimentos étnicos. A temática será sobre as culturas africanas e afro-brasileiras e resultará em um produto educacional que poderá ser utilizado em outras instituições escolares. A proposta do produto educacional faz parte de uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação Ensino na Educação Básica (PPGEEB) do Centro de Pesquisa Aplicada à Educação (CEPAE) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Para que o racismo deixe de ser um obstáculo na vida dos(as) estudantes negros(as) há que existir o envolvimento de toda sociedade escolar, educando, discutindo, criando novas e eficazes políticas públicas para seu combate e aplicando as já existentes. A escola precisa entrar nesta luta utilizando-se de políticas afirmativas e propagando as leis antirracistas, mostrando a esses(as) alunos(as) que eles(as) não estão sozinhos(as), pois têm ao seu lado toda a sua comunidade escolar.
Referências
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