Pausado

Cláudia

Mulher, mãe e sábia, com sua história
de mãe que cuida de outras mães

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Olá, meu nome é Cláudia. Sou mãe, mulher, educadora e, acima de tudo, alguém que vive intensamente o amor pelas crianças – especialmente aquelas que vieram ao mundo com algo a mais.

Desde muito nova, sempre me senti atraída por crianças com deficiência. Não sei explicar bem, era como se algo me puxasse. Se eu via uma criança com síndrome de Down, então… meu coração corria até ela. Hoje eu entendo: era Deus me mostrando, desde cedo, o caminho que eu ia trilhar.

Sou mãe de duas meninas: Maria Alejandra e Maria Juliana. Duas joias preciosas, tão diferentes e tão complementares. A Juliana tem T21, e foi ela quem transformou de vez minha vida, meu olhar, minha missão.

Sempre fui muito ativa. Não paro. Brinco, me jogo no chão, faço bagunça boa com as crianças. Elas me trazem vida, e estar com elas me faz sentir inteira. Ser mãe é algo que me completa, mas conversar com outras mães é o que me move. Acredito muito na força da troca entre nós. Cada história é um universo – e todas carregam amor, dor, superação e esperança.

Minha origem é colombiana, de Medellín. Venho de uma família grande, católica, muito unida, com cinco irmãos. Meu pai sempre dizia: "Não vou deixar dinheiro, mas vou deixar educação", e assim foi. Cresci brincando na rua, correndo no mato, nadando no rio. Fui uma criança feliz, cheia de energia, sempre estimulada pelos meus irmãos.

Na adolescência, já sabia que queria trabalhar com pessoas e ser mãe. Fiz ginástica, dançava muito, estudava. Meu coração sempre foi da área de Humanas – essa vontade de cuidar, de ouvir, de acolher.

Minha mãe foi minha maior inspiração. Ela não tinha diploma, mas era uma psicóloga nata. Tinha sempre uma palavra certa, um abraço no momento exato. Eu queria ser como ela. E, de certa forma, acho que consegui.

Me formei em Educação Especial na Colômbia, com foco em deficiência intelectual, mas conheci várias outras áreas. Trabalhei em uma instituição de reabilitação, e foi lá que conheci a Marlene, uma menina com síndrome de Down, abandonada pelos pais. Ela me chamava de mãe, e passei a levá-la para minha casa. Anos depois, compreendi: Marlene foi a preparação para receber minha filha Juliana.

Vim para o Brasil por amor, para acompanhar o pai das minhas filhas. Tive minha primeira filha enquanto terminava a especialização e trabalhava em cirurgias. Era uma rotina maluca, mas cheia de sentido. Quando engravidei da Juliana, foi tudo mais tranquilo.

A notícia da síndrome de Down não foi um choque para mim. Eu já sabia. Conhecia os sinais, e, ao olhar para minha filha, reconheci cada um deles. O médico tentou me preparar para uma notícia que meu coração já havia acolhido. E minha resposta foi simples: “Para mim, não tem problema nenhum”.

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Desde o primeiro dia, comecei a estimulação com ela em casa. Foram dois anos de dedicação diária, três horas por dia. E colhemos os frutos. Ela é bilíngue, alfabetizada em espanhol e português. Tem limitações? Sim. Mas tem brilho, amor, empatia e uma sensibilidade que encanta.

Hoje, minha missão é acolher outras mães. Porque eu sei como é. Sei da dor, da solidão, do medo do futuro. Sei das noites em claro e das perguntas sem resposta. E é por isso que criei minha clínica, um espaço de cuidado e apoio verdadeiro, onde tudo que sonhei se tornou real.

Recebemos mães todos os dias, e eu faço questão de estar presente. De escutar, orientar, acolher. Na clínica, temos tudo o que uma criança com deficiência pode precisar – e o que uma mãe merece ter ao seu lado: escuta, compreensão, um ombro amigo.

Também sei que ainda temos muito a melhorar. A forma como o diagnóstico é dado… dói só de lembrar como poderia ser diferente. Falta acolhimento, falta preparo, falta humanidade. E não são só os médicos, é o sistema todo.

A inclusão no papel é linda, mas, na prática, tantas escolas já não conseguem dar conta. Famílias ficam desamparadas. As terapias públicas são escassas, os profissionais sobrecarregados, e muitos planos de saúde recusam crianças com necessidades mais complexas. Isso é desumano.

E, enquanto isso, o foco parece se voltar apenas para o autismo. E as outras síndromes? E a síndrome de Down? Ninguém pode ficar invisível.

Eu sigo aqui, fazendo minha parte. Acolhendo, dividindo conhecimento, criando grupos de apoio, e estando presente. Mas aprendi que, para cuidar do outro, eu preciso cuidar de mim.

Por muitos anos, esqueci da Cláudia mulher. Me perdi nos cuidados, nas terapias, nas responsabilidades. Hoje, aos poucos, me reencontro. Cuido da minha saúde, faço exercícios, aprendi a dizer "não". Redescobri a Cláudia que gosta de dançar, de rir, de viver.

Meu maior medo ainda é o futuro da Juliana. Quem vai cuidar dela quando eu não estiver mais aqui? Mas também aprendi a confiar no que estou construindo agora. Sei que estou fazendo o melhor que posso.

Sonho em voltar para a Colômbia, ficar com minhas filhas por lá. Não sei se vai acontecer, mas é um desejo que mora no coração.

E se eu puder deixar uma mensagem para você, mãe que está lendo isso, ela é essa:

“Não desista. Não se apague. Não se esqueça de você. Cuide, sim, com amor, com entrega, mas lembre-se que você também precisa de cuidado. Porque quando uma mãe está bem, tudo ao redor floresce”.

Eles, nossos filhos, são amor em forma de gente. Eles sentem quando precisamos de colo, quando estamos cansadas. São nossos maiores professores.

E se você ainda está no começo dessa caminhada, saiba que não está sozinha. Juntas, podemos ir mais longe.

Notas de rodapé