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Sou Carolina Gonçalves Nagano, tenho 42 anos.
Sou uma pessoa simples, que não liga para luxo e coisas caras. Sou alguém que vive o dia como se fosse o último, intensa, eu diria. Meus pais sempre me ensinaram a ser mais humilde, a valorizar os momentos presentes e a dar carinho e atenção às pessoas que são importantes para nós. Tanto que, no dia que o Nando se engasgou, ele me deu um abraço que nunca vou esquecer. (Meu namorado até me falou que me ouviu dizendo: “Nossa filho, que abraço gostoso”). Parecia que o Nando sabia que não ia mais me abraçar. Aquele abraço que ele me deu foi tão apertado e o beijo em seguida, tão demorado e intenso, que parecia mesmo uma despedida. Então, eu me defino assim: pelo presente, pelo simples, pelo gesto, pelo carinho. Acho que isso vale mais do que qualquer dinheiro.
Nasci em Campinas, interior de São Paulo. Eu diria que minha infância foi feliz, intensa, cheia de bons momentos. Só tenho boas recordações dessa época. Meus pais sempre deram momentos de qualidade junto com meu irmão, que é dois anos mais novo que eu. Meu pai sempre brincou muito comigo e com meu irmão; eu digo que ele tem uma criança interna até hoje, inclusive. Quando meus pais se separaram, eu estava entrando na adolescência. Foi um choque muito grande em mim e acredito que no meu irmão também. Minha mãe saiu de casa e eu e ele ficamos morando com meu pai. Mesmo assim, eu sempre ia à casa de minha mãe enquanto ela morava em Campinas. Ela permaneceu aqui até meados de 2008, quando se mudou para Jaguariúna. Mas, mesmo separados, meus pais sempre procuraram educar eu e meu irmão juntos e nos dando muito carinho e atenção. Sempre fui muito apegada ao meu pai, desde criança. Claro que minha mãe também sempre soube de tudo, mas sempre foi meu irmão quem manteve uma ligação mais forte com ela, enquanto eu era mais próxima do meu pai. Por isso, digo que tive, sim, uma infância de qualidade, não no sentido material de ter sempre o que se quer, mas no sentido emocional. E quando aconteceu tudo com o Nando, eu sabia exatamente com quem falar primeiro, a minha mãe. Lembro que eu estava totalmente sem chão, sem saber o que fazer, sem saber o que falar. Eu só queria o colo dela.
Minha adolescência foi cheia de aventuras. Por causa da separação dos meus pais, eu tinha duas casas: ia e vinha entre a de minha mãe e a de meu pai. Mesmo assim, sempre vivi e aproveitei cada momento, sem me preocupar com o futuro naquela época. Mas meus pais, porém, sempre ficaram no meu pé e no do meu irmão em relação aos estudos. Incentivaram bastante, sempre sentavam comigo e com meu irmão pra estudar. O importante era sempre ter nota boa na escola para, no futuro, ter segurança e estar bem estruturado financeiramente. Hoje em dia, faculdade existe em todo lugar, e essa sempre foi a preocupação do meu pai, estar bem profissionalmente e financeiramente futuramente. Ele sempre me incentivou a buscar todos tipos de conhecimentos e vivia pagando cursos para fazermos no contraturno da escola. Fizemos inglês por anos. Meu pai também nós ensinou a jogar diversos tipos de baralho, desde truco, poker, tranca, buraco, entre muitos outros jogos. Quando terminamos o ensino médio, ele me colocou no Bentinho, onde fiz o curso técnico de Turismo e Hotelaria. Por isso, acredito que minha adolescência tenha sido vivida entre muitos conhecimentos, diante de tantos estudos e cursos.
Quanto aos relacionamentos, como tive uma adolescência cheia de aventuras, só aprendi a me relacionar melhor agora, aos 42 anos. Acho que todo mundo aprende só na vida adulta, não é mesmo? Eu nunca me relacionei a fundo com ninguém. Sempre que percebia que algo poderia ficar sério demais, eu fugia. Talvez por causa da separação dos meus pais, não sei. Com o pai do Nando não foi diferente. Engravidei quando a gente já estava quase terminando o relacionamento, que já estava bem desgastado. Mesmo assim, fiquei dez anos com ele. Depois da separação, fiquei um bom tempo sozinha. No começo de 2022, namorei por dois anos um rapaz totalmente imaturo, e não deu certo. Fiz então uma pausa de uns oito meses para não me envolver com alguém. Foi nesse período que me encontrei: aprendi a me amar de verdade, comecei a cuidar mais de mim, fiz aulas de autodefesa feminina, me conectei com Deus e, quando eu me senti preparada, o Eduardo apareceu na minha vida. Com ele foi tudo diferente, eu me envolvi e me permiti estar com alguém profundamente.
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Se eu pensava em ser mãe quando engravidei do Nando? Não. Como já disse, nunca fiz planos para nada, nem sobre profissão, nem sobre casamento, nem sobre entrar na igreja ou de ser mãe. Nunca tive esses sonhos, eu sempre vivi um dia de cada vez, como se fosse o último. O Nando simplesmente aconteceu. Descobri a gravidez por meio de um exame de sangue pela Unimed. Quando saiu o resultado, o pai dele foi comigo à ginecologista, e a própria médica disse que era provável eu estar de oito semanas, de acordo com meu ciclo menstrual. A notícia da gravidez foi uma surpresa.
Quando fui fazer a ultrassom que a ginecologista havia pedido, o pai do Nando foi comigo. Ali descobri que estava com 16 semanas de gestação. Foi uma surpresa ainda maior, porque, assim que começamos o exame, a médica perguntou: "Você quer saber o sexo?" Eu respondi: "Oi? A minha ginecologista falou que eu estava de oito semanas”. Então, a médica disse: "Não, você não tá com oito semanas não, moça. Está com 16”. Naquele momento, ela já falou que era um menino e que eu precisava escolher o nome. Foi uma surpresa enorme. Até porque já estávamos bem apavorados com a descoberta da gravidez, e descobrir que eu estava no meio da gestação deixou tudo mais tenso ainda.
Na época, eu cursava Publicidade e Propaganda, e o pai do Nando fazia Administração em Comércio Exterior, ambos na UNIP. Eu precisei trancar, porque a médica recomendou repouso absoluto por causa de uma infecção urinária. No começo da gestação, continuei tendo sangramentos que eu acreditava serem da menstruação, já que meu ciclo não era totalmente regulado. Mas não era menstruação, era consequência da infecção urinária. Por isso, segui a orientação da ginecologista e fiquei em repouso absoluto durante toda a gestação, na casa do meu pai, enquanto o pai do Nando continuou a faculdade.
Apesar disso, foi uma gestação tranquila. Fiquei de repouso, não deu nenhum trabalho, não tive nenhuma urgência nesse meio tempo, dormi muito com a gravidez, um sono lascado, chegava a dormir 16 horas seguidas. Nando nasceu com 38 semanas, de cesariana, em uma maternidade de Campinas. Nos ultrassons e exames não havia nada que indicasse que ele teria síndrome de Down. A gente descobriu apenas quando ele nasceu. Os médicos acharam estranho. Olharam para ele, depois para mim, e até chegaram a desconfiar que eu tivesse síndrome de Down. Fizeram até cariótipo em mim também, porque tenho algumas características que poderia levantar essa hipótese, como dedinho tortinho, mãozinha que é papada, é o pé que parece bisnaguinha, e o olhinho puxado. O geneticista, então, solicitou o exame. A gente não desconfiou, ninguém desconfiou da Síndrome de Down! Lembro-me que foi um rebuliço, eu só vi a correria das enfermeiras, todo mundo correndo que tinha que ir atrás de geneticista, pediatra. E eu, sob efeito de anestesia, totalmente desorientada, sem saber o que pensar naquele momento. A gente descobriu só na hora do parto mesmo. Para o pai do Nando, foi um baque. Para mim, foi natural. Não sei explicar, mas não vi diferença.
A amamentação foi normal. Amamentei o Nando até os dois anos, porque o pessoal da Apae me orientou a colocar ele na creche. Mas, se pudesse, teria amamentado por mais tempo. Meu leite só foi parar de descer quando ele tinha 3 anos. Amei amamentar ele e acho que é a melhor sensação do mundo para qualquer mãe.
Sobre minha relação com o pai do Nando, acredito que, durante os 10 anos em que estivemos juntos, tentamos ficar bem em consideração a ele. Tentamos muito ser uma família por muito tempo. Foi uma relação boa, talvez. Quando o Nando nasceu, fomos morar na casa dos meus ex-sogros, onde ficamos por cinco meses. Depois, mudamos para a casa do meu pai e ficamos lá até ir para nosso apartamento em 2012. A gente não tinha tanta privacidade, porque tinha a família inteira em volta. Depois a gente foi para a casa do meu pai, também não tinha tanta privacidade, mas a gente sempre procurava ter aqueles momentos família. O pai do Nando sempre se esforçava para ser presente, era carinhoso, prestativo e uma ótima pessoa. Não tenho do que reclamar dele. Aprendi muita coisa ao seu lado, mesmo ele sendo quatro anos mais novo que eu. Foi nesse momento que a gente começou a se conhecer mais a fundo, ver que realmente algumas coisas a gente dava como conceito errado. Foi na rotina do dia a dia que nos conhecemos mais, e percebi, com o tempo, que nosso relacionamento estava muito desgastado.
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Depois que tranquei a faculdade de Publicidade e Propaganda, não voltei mais. Ingressei na Pedagogia quando o Nando tinha sete anos. O pai dele concluiu a faculdade de Administração em Comércio Exterior na UNIP, onde também trabalhava à noite, como técnico de Informática. Quando o Nando estava com seus seis meses, ele deixou a UNIP e passou a trabalhar no Banco Itaú. Até então, conseguia ir comigo nas estimulações do Nando, pois o horário de trabalho permitia. Mas, depois que entrou no banco, ficou mais difícil. Às vezes ele levava a gente, mas não podia permanecer. Assim, fui eu quem sempre acompanhei o Nando em todos os lugares. Mas, quando dava, o pai do Nando levava a gente.
Minha rede de apoio, enquanto o pai do Nando, era formada pelo meu pai e pelos avós paternos. Após a separação, essa rede mudou, passei a contar com a minha vizinha do andar de baixo e com a Aninha, irmã da cuidadora da escola do Nando. Meu pai sempre me ajudou muito; quando eu precisava sair, era ele quem ficava com Nando na maioria das vezes. Depois da pandemia, a situação ficou mais difícil. O Nando passou a resistir a dormir fora de casa, dando trabalho principalmente na hora de dormir quando estava com meu pai e minha madrasta. Ele vivia fazendo artes na casa de meu pai. Mas, depois que comecei a namorar Eduardo, fizemos duas viagens, e foi muito difícil para mim ficar longe do Nando por quatro ou cinco dias. Na primeira viagem, minha vizinha ficou com ele em nossa casa, o que facilitou, pois ele dormia no quarto dele e não deu tanto trabalho. Já na segunda, ele ficou na casa da Aninha na casa, e foi mais complicado; meu pai precisou me ajudar para eu conseguir aproveitar a praia sem preocupação. Meu pai sempre foi a minha principal rede de apoio em tudo. Quando morava mais perto, eu e o Nando íamos sempre à casa dele. Mas, depois que ele foi para Sumaré, as visitas se tornaram menos frequentes, já que ficou mais longe.
Minha rotina com Nando mudou bastante com a pandemia, porque ficou restrito sair de casa. Acho que eu enfiei tanto na cabecinha do Nando que podia morrer pegando vírus, que, após a pandemia, ele começou a ficar com medo de sair de casa. Só no ano passado, acredito, ele começou a aceitar um pouco mais a sair de casa. Foi quando a gente entrou na Guardinha, onde conheceu e aceitou bem o pessoal. Ainda assim, havia dias em que ele ficava bem resistente, sentava-se no chão e falava: "Não quero, não quero, não vou". Ele era muito caseiro, gostava da sua rotina em casa. Com o desemprego do pai, o Nando perdeu a Unimed e, consequentemente, o acesso às terapias. Estava somente indo estudar no Guardinha, enquanto aguardava, em fila de espera, atendimento público para as terapias. Então, durante a semana, na parte da manhã, ele me ajudava a arrumar a casa, e à tarde íamos para o Guardinha. Eu ficava lá esperando, e, como meu trabalho pode ser feito de qualquer lugar, levava minhas coisas para fazer enquanto ele estava nas atividades.
Em casa, a rotina dele era sempre a mesma. Quando acordava e eu já estava desperta, dizia: “Bom dia meu amor”. A gente se abraçava, ele me enchia de beijos e me dizia: “Te amo mamãe”. Quando acordava antes de mim, vinha até minha cama, ficava mexendo em mim até eu abrir os olhos, deitava comigo, e eu dizia: “Bom dia meu amor”. Sempre com aquele sorrisinho dele todo feliz, me enchia de beijos. Às vezes dizia “te amo, mamãe”, outras vezes colocava a mão no peito e fazia um coração para mim, como quem dizia “te amo” só com o olhar, e isso me derretia. Em alguns dias, ele preparava a lancheira para nós dois, fazia suco de limão e me acordava com o café da manhã já pronto. Era raro, mas acontecia. Na maioria das vezes, porém, eu dizia: “Vamos comer, tomar café da manhã?” e preparava a refeição enquanto ele assistia televisão. Quando ele ia no Guardinha, eu ficava mais no pé dele para que se arrumasse cedo. Já nos dias sem aula, eu o deixava livre para fazer o que quisesse. E, assim como tinha o “bom dia”, também nunca faltou o “boa noite”. Eu sempre ia ao quarto dele antes de dormir, dava-lhe um beijo e um abraço. Desde que o Nando nasceu, optei por estar presente em todas as terapias e nos cuidados. Por isso, não trabalhei e consegui o BPC também, o que me permitiu dar conta da rotina. Depois da separação, passei a trabalhar de casa para continuar acompanhando o Nando. Contudo, durante a pandemia, perdemos o BPC. Só conseguimos entrar com recurso em agosto de 2024 e, alguns dias após o falecimento do Nando, o benefício foi aprovado, depois de muita luta.
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Sobre vivenciar o preconceito, já vivenciei várias vezes situações. Afinal, que mãe de criança especial nunca passou por isso? Foram mais de 17 anos com o Nando e muitos episódios de preconceito. Não tem como não citar o último, no ônibus, quando voltávamos da aula no Guardinha. O veículo estava lotado e ninguém se levantou para o Nando sentar-se. Eu gritei pedindo se alguém poderia ceder lugar para ele, mas ninguém se moveu. O próprio Nando, bravo, acabou se sentando no chão. Ele não conseguia se equilibrar em pé com o ônibus em movimento, segurando apenas com as mãos. E tinha o jeito dele de mostrar às pessoas as dificuldades que enfrentava, fazia com que se sentissem culpadas. Sentou-se de repente, em protesto mesmo, porque ninguém queria dar lugar para ele. O motorista percebeu, parou o ônibus e disse que só seguiria viagem se alguém cedesse lugar. Foi assim que, de imediato, alguém se levantou para que o Nando pudesse se sentar. Mas não foi apenas no ônibus. No parquinho do condomínio onde moramos, foram vários episódios. Já chamaram o Nando de “debilóide”; já houve crianças que se recusaram a brincar com ele, outras diziam que não queria brincar com ele porque ele babava “igual neném”. Por causa disso, muitas vezes ele só descia quando o parquinho estava vazio e quase sempre me fazia brincar com ele. Quando percebo que o preconceito vem da ignorância, nem dou importância, relevo, porque sei que nem vale a pena perder meu tempo discutindo.
Hoje sou professora e tutora particular. Trabalho com artigos e trabalhos de final de curso. Comecei ajudando o pai do Nando, quando ele ainda cursava Administração. Eu o auxiliava nos trabalhos e, depois, quando fiz Pedagogia, ele também me ajudava bastante. Aprendi muito com ele sobre PowerPoint, pacote Office e informática em geral, já que ele era técnico da área. No início, algumas amigas pediam minha ajuda com trabalhos, e eu auxiliava sem cobrar nada. Sempre fui de ajudar as pessoas de coração, nem trabalhava com isso ainda, nem sonhava em transformar isso em profissão. Quando me separei do pai do Nando, percebi que havia muita gente precisando desse tipo de apoio e decidi criar uma tabela de preços. Sem planejar, acabei me encontrando nesse trabalho e me apaixonei. É muito gratificante quando alguém me diz: "Nossa, como é bom ter alguém que pode ajudar a gente". Hoje posso afirmar que amo o que eu faço. Se pudesse trabalhar apenas com isso, trabalharia com todo prazer. Infelizmente, por enquanto, ainda não é possível.
Já sobre meus autocuidados e tempo para mim, sempre me alimentei bem depois que tive o Nando. Como ele tinha algumas restrições alimentares, o médico sempre orientava a evitar gordura e “besteiras”. Por isso, nunca tive em casa salgadinhos, bolachas recheadas, essas coisas. Acostumei o Nando desde cedo a não comer esses alimentos. Sempre preparei sucos naturais e fazia comida em casa. Depois que ele entrou no Guardinha, eu o levava até lá e ficava esperando. A equipe do Guardinha criou um projeto chamado Asas, voltado para o fortalecimento da rede de apoio das pessoas com deficiência e suas famílias e/ou cuidadores, garantindo inclusão nos espaços sociais. Nesse projeto, as mães participavam de uma espécie de terapia em grupo. Em algumas sessões, destacavam a importância de cuidarmos de nós mesmas para podermos cuidar deles. Foi ali que percebi que precisava frequentar academia, ir ao médico sempre. Antes, eu era totalmente desleixada e preguiçosa com isso. Comecei a fazer exames mais frequentemente, porque a gente tem que estar precavida, saber como está a saúde. No projeto tinha psicóloga, às vezes tinha assistente social junto para falar um pouco sobre os direitos, e tudo mais. Com o Asas, e depois com as aulas de Autodefesa Feminina, comecei a me perceber mais, a me cuidar mais, a me amar mais, pensando em estar bem sempre para poder cuidar do Nando.
Com certeza, a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi o nascimento do Nando. A primeira vez que ele disse “mamãe” foi o melhor acontecimento na minha vida, sem dúvida nenhuma. Mesmo aos 17 anos, eu sempre amei ouvir ele dizer “mamãe”, o som da voz dele, o carinho com que ele sempre me chamou.
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Nosso relacionamento sempre foi muito bom, cheio de carinho e atenção. Nando tinha uma relação muito boa comigo. Tentava me contar tudo, mas, por conta da dificuldade na fala, nem sempre conseguia se expressar. Porém, desenhava muito bem e colocava nos desenhos o que queria transmitir. Eu sempre conversei muito com ele, e ele entendia tudo. Nossa parceria e cumplicidade eram imensas, não só na relação de mãe e filho, mas tamabém dia a dia. Enquanto eu fazia meus trabalhos, ele passava pano nos móveis e varria a casa. Organizava praticamente tudo, sempre com autonomia. Hoje sinto muita falta disso. Eu olhava para ele e pensava: “Caramba, eu criei um homem de verdade: carinhoso, atencioso, prestativo, lindo, com um corpo muito bonito”. Eu achava linda as costas e coxas dele, o rostinho dele todo juvenil. Sempre fui “babona” nesse aspecto e sempre dizia a ele o quanto me orgulhava do menino que era.
Sobre o que falta na sociedade, nas famílias e nas políticas públicas para que nós, mães de pessoas com deficiência, possamos viver melhor, acredito que o principal é empatia. As crianças especiais vêm para ensinar a população a ser mais empática, mas vejo que isso ainda é raro, a maioria pensa apenas no próprio umbigo. Na sociedade, falta empatia, mas também consciência real e acolhimento verdadeiro. Nas famílias, falta dividir o cuidado com os filhos especiais. Muitas mães se sentem sozinhas porque toda a responsabilidade recai sobre elas: terapias, escola, médicos, adaptação de rotina, finanças. É uma carga emocional, física e mental imensa. Uma boa rede de apoio com certeza ajudaria muito. Já nas políticas públicas, falta efetividade e prioridade. Há leis bonitas no papel, mas na prática os serviços são insuficientes, demorados ou inexistentes. Mães acabam se tornando “especialistas” em brigar por direitos. Eu mesma já dei a cara a tapa na TV para brigar pelos direitos das crianças com necessidades especiais. Ainda há muito o que mudar: mais centros de atendimento multidisciplinar (com psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas, assistentes sociais) próximos das famílias e sem filas intermináveis; oportunidades de trabalho flexível para mães; acesso a benefícios sem burocracia humilhante, entre tantas outras medidas. Se eu fosse listar todas, cansaria.
Sobre o que me mantém motivada, nem sei o que dizer no momento. Antes do Nando falecer, o que me deixava feliz e motivada era o sorriso dele, tudo que deixava ele feliz, me fazia sentir a melhor mãe do mundo. Era sempre o sorrisinho dele que me motivava a acordar, a trabalhar. Ele acordava, ia para minha cama, só esperava eu falar: "Bom dia, meu amor". Aí ele me abraçava, me beijava, sempre com um sorrisinho, todo feliz. Hoje, não sei explicar ainda o que me motiva e me faz feliz, pois faz apenas um mês que o Nando se foi, e me sinto ainda anestesiada com tudo. Desde que tudo aconteceu com ele as pessoas a minha volta ficam sempre me dizendo para eu não ficar sozinha, por medo de eu entrar em depressão ou qualquer coisa do tipo, então está sendo um dia de cada vez.
Meu maior medo? Eu nunca tive medo de morrer. Sou espírita, sei que foi só uma passagem. Sei que a gente vai se ver depois que eu me for. Quando o Nando estava aqui comigo, eu tinha medo dele não conseguir expressar o que sentia. Hoje o meu medo é não ter motivação de verdade para viver. Na autodefesa feminina, aprendi muito sobre isso, a motivação de viver, o autocuidado, a defesa de qualquer sofrimento. Ainda está tudo muito recente, dentro de mim o que me motiva hoje é saber que Nando está em um lugar melhor. E que ele não quer me ver triste.
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Falar sobre como foi o acidente não é difícil. Na verdade, a parte mais difícil foi lidar com os curiosos quando realmente tudo aconteceu. Quis me privar e entender tudo, antes de contar o ocorrido até mesmo para meu pai. Foi tudo muito rápido. Em uma quarta-feira, pela manhã, quando fui à padaria comprar pão, vi o pão de queijo, que tinha acabado de ficar pronto. Comprei porque o Nando amava comer pão de queijo. Estava eu, meu namorado, e o Nando na sala. Ele havia se engasgado com nada, mas, de repente, ali na minha frente ele se engasgou. Meu namorado, que tem curso de bombeiro, soube o que fazer de imediato, enquanto eu só sabia gritar por socorro e pedir para o Nando respirar. A vizinha da frente ouviu os meus berros de socorro e, ao ver meu filho desmaiado no chão, assumiu a massagem cardíaca, percebendo que eu não conseguia raciocinar. Meu namorado ligou para o Samu. Parecia que todo mundo sabia o que fazer, menos eu. Mas eu sentia que estava sendo guiada por pessoas que vieram como anjo nesse momento e agiram muito rápido. O Samu chegou em apenas três minutos, muito rápido. Quando os profissionais entraram, foram espetaculares: retiraram quase de imediato o pedaço de pão de queijo que obstruía a traqueia dele. Quando vi o tamanho daquele pedaço, percebi a gravidade do acidente. O socorrista mencionou que nenhuma manobra que fizesse pelas costas ou de frente poderia retirar algo tão grande. Assim que removeram o alimento, entubaram ele para conseguir reanimar o coração e a respiração. Após estabilizá-lo, fomos direto para o hospital na ambulância. Eu sabia que era grave, mas não tinha dimensão da gravidade até que todos os exames fossem feitos na emergência. Foram as três horas mais longas da minha vida. Eu só sabia chorar, não conseguia pensar no que fazer, mal conseguia pegar no celular. Acreditava que ele voltaria para casa naquele mesmo dia, talvez com muitos remédios e muitos exames para fazer. Mas quando a médica me chamou para conversar, ela me levou para uma sala reservada. Ali já entendi que era sério. Se fosse algo simples, ela já teria falado no corredor. Quando entrei, ela me mandou sentar. Minhas pernas se desmontaram. A médica explicou que ele havia ficado cerca de 28 minutos sem oxigênio, que ele já chegou em coma à emergência e que já apresentava um edema no cérebro. Disse que, se voltasse, teria sequelas. Acrescentou que precisavam estabilizar a respiração para levar ele para a UTI e realizar exames necessários, mas, que por enquanto, o quadro era instável. Pedi imediatamente para ver o Nando, e ela autorizou. Ele parecia tão sereno que não dava para imaginar a gravidade. Eu queria ficar, mas fui orientada a ir embora, pois era setor de emergência. A médica caminhou comigo até a saída, onde meu namorado estava me esperando, e explicou tudo para ele, já que eu estava em estado de choque. Passei umas duas horas deitada na cama, tentando entender tudo. Até que meu namorado disse que eu precisava avisar meu pai, o pai do Nando e os familiares. Peguei meu celular e, sem pensar, já fui logo conversar com minha mãe. Foi ela que me acalmou um pouco e me disse o que fazer. Na visita das 16hs ao hospital, meu namorado me ajudou a explicar melhor a situação para todos. Ainda na emergência, o médico de plantão disse que o Nando estava com pneumonia devido à parada respiratória. Porém, aguardavam estabilização para levá-lo à UTI. Na manhã seguinte, o hospital me ligou: ele já havia sido transferido. Na visita de 12h30 pude vê-lo, mas esse horário não tinha médico para dar informações. Às 17 horas, já com respaldo médico, disseram que não havia alteração: nem melhora, nem piora. Ele seguia sedado, com respirador em 100% e medicação totalmente alta, mas sem respostas neurológicas. Na sexta-feira, houve piora no quadro, os rins estavam comprometidos. No sábado, os médicos apresentaram a hipótese de falência cerebral, já que ele não acordava do coma e não reagia aos estímulos. No domingo, na visita de 12h30, cheguei perto dele e disse: “Oi, meu amor, mamãe está aqui”. Senti que ele podia me ouvir e conversei muito. Foi então que vi uma lágrima cair do olhinho dele, mesmo estando fechados. Quando saí, o médico me contou que ele ficou bem alterado depois da minha visita. Mais tarde, entrei junto com o pai dele e pedi: “Conversa com ele, ele pode te ouvir”. Enquanto o pai falava, eu também falei, e novamente os olhos do Nando encheram-se de lágrimas. Ainda assim, a médica deixou claro que ele poderia falecer a qualquer momento, pois continuava em estado muito grave, usando medicamentos muito fortes e na máxima dosagem, respirador também com 100% de uso, continuava instável, porém em coma sem sedativo na esperança dele acordar a qualquer momento. Na segunda-feira, levei a professora dele lá do Guardinha para a visita das 12h30, porque ele a amava. Mas na visita das 17 horas percebi que o corpo dele dava indícios de que logo entraria em óbito. Na terça-feira, dia 6 de maio, às 11h11, ele faleceu. Vi seu corpo ainda no hospital, sem os aparelhos. Mas a parte mais difícil foi o enterro. Ver ele naquele caixão foi o maior baque de todo esse processo, com certeza.
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Hoje, um mês após o falecimento do Nando, sinto que ele continua em casa comigo. Sinto que ele está perto de mim. Onde eu estou, sinto ele perto de mim. Acredito que ele está num lugar melhor, sem preconceito, onde pode falar, brincar e fazer o que quiser.
Senti sua presença especialmente quando doei suas coisas. Acredito que ele ficou bravo comigo, porque não gostava que mexessem no quarto dele. Não gostava mesmo. Na primeira vez que organizei, bati a cabeça várias vezes e pensei: “Aposto que o Nando está ficando bravo comigo!”. Ele era calmo e bonzinho, não dava um pingo de trabalho, mas não suportava que mexessem nas coisas dele. Arrumava a casa todinha para mim, passava aspirador, varria, limpava tudo, passava pano em todos os móveis, organizava do jeito dele. Tudo errado, mas organizado.
Sempre ajudou em tudo, só não o deixava mexer com a cozinha, porque tinha medo dele se queimar no fogão e na pia para lavar louça é perigoso. Mas recolhia roupas, passava, colocava para lavar, até lavar o banheiro, às vezes, ele me ajudava a limpar. Ele era muito autônomo e independente, fazia tudo sozinho. Desde os 10 anos de idade sempre me ajudou. Por isso digo: não tinha como ficar brava com uma criança assim.
O que fica no meu coração? Quando eu penso no Nando, fica uma paz. Claro que tenho saudade, vontade de sentir seus abraços e beijos. Nas minhas redes sociais há vídeos dele me fazendo carinho, eu brincando com ele, ele brincando com o meu pai. Ainda não desativei o Facebook e nem o Instagram dele, mas eu vou desativar. Mas tem muita coisa dele, tanto nas minhas redes sociais, quanto nas dele. Em todos os registros, dá para ver e sentir a sintonia que ele tinha comigo, o carinho, a paz e a luz que ele trazia.
Quanto aos meus sonhos, sempre faço um balanço do ano para o outro. Entrei em 2025 com um sonho para realizar, que é atender o Brasil inteiro com o meu trabalho. Eu vou seguir com esse plano. A meta é alfabetizar o quanto eu conseguir. Porque, dependendo dos políticos, o povo continuará sem acesso à educação. Enquanto eu puder ajudar alguém a se formar, eu vou ajudar.