Pausado

Vanuzia

Mulher, mãe, força, amizade e sua história
de luta e resiliência

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Meu nome é Vanuzia Santana dos Santos. Minha idade é 52.

Não dá nem para descrever quem é a Vanuzia. Tanta história. Minha vida tão intensa, tão intensa… Vanuzia é de lutas, muito amor, muito carinho, sempre ajudando o próximo, quer carregar o mundo nas costas. Essa sou eu, a Vanuzia. Que na vida não é fácil! Essa sou eu. Me defino assim, guerreira. Essa sou eu.

Desistir jamais, nunca fraquejar, muito menos. Jamais. Apesar de ter uma vida difícil, de carregar minha mãe nas costas, pois minha mãe é cadeirante e eu tenho um irmão que ele é super depressivo, tem que estar bem junto. Com meu filho Gabriel também, tenho que estar na luta, a gente nunca pode desistir, todo dia a gente continua, sempre juntos. E é isso.

Ainda trabalho fora, trabalho numa casa há 35 anos. Entrei para ser babá dos filhos do patrão. Hoje estão todos casados, tem já seus filhos e eu estou lá na luta junto até hoje com eles. Pego três ônibus para ir trabalhar, três para ir e três para vir. Não é fácil. A canseira bate, mas a gente vai se apegando na fé, no amor que a gente tem pela família, pelos filhos e vamos tocando a vida. Então essa sou eu.

Eu nasci na Bahia. Eu sou de Salvador. A minha infância não foi uma infância boa. Hoje eu acordei cedo às cinco da manhã com lembranças da minha infância. Coincidência. Não foi boa a minha infância. Somos 10 irmãos. Meu pai sempre bebeu, sempre violento nas memórias que eu tenho. E o tempo foi passando. Quando eu tinha três a quatro anos, minha mãe teve uma briga muito muito feia com meu pai. Ela já tinha umas irmãs que moravam aqui em São Paulo, então resolveu vir para São Paulo. Como ela tinha 10 filhos, ela não podia trazer todo mundo junto, daí ela escolheu os filhos que ela ia trazer e os filhos que iam ficar com o meu pai.

Então ela trouxe sete, deixou eu, meu pai e dois irmãos. Aquilo para a gente foi o pesadelo. Ela veio para cá com a promessa de que um dia voltaria, que um dia ela iria buscar a gente. Ela veio para cá com sete, deixou três lá, que ela achou que eram os mais fortes, os outros eram meio doentes, coisa e tal. Fiquei com meu pai.

Passou uma semana, meu pai arrumou uma companheira para ele. E ali começou o terror, era uma madrasta muito ruim. Muito ruim, muito ruim. O pai teve dois filhos com ela e tudo era para eles. A gente passava muita dificuldade, apanhava de cabo de vassoura. Eu tenho memórias que eu tinha uns sete para oito anos, tinha que ir buscar água no rio muito longe, colocava um balde pesado na cabeça e quando chegava em casa na hora de tirar, já aconteceu de eu deixar cair. Porque eu não tinha estrutura física para aguentar, aí levava uma grande surra e tinha que ir buscar de novo a água.

Então a gente vivia apanhando, meu pai também batia na gente de bainha, sabe, de bainha de facão. Eu acho que a mais sofrida fui eu, que meus irmãos não sofreram tanto como eu. Tinha dias que não me deixava dormir em casa. Você não vai dormir em casa e acabou.

Tinha que arrumar um lugar para dormir, nisso tudo, vem as memórias que eu tenho da minha avó, a mãe dele. Ela me acolhia. Minha avó morava com uma tia minha que tinha acho que uns 10 a 12 filhos, ela também não queria que eu ficasse lá. Chegava na casa da minha avó, ela abria uma janelinha, que eu lembro aquelas duas portinhas, e falava: "Tal hora você chega…" Eu chegava ali, pulava aquela janelinha e dormia quietinha no chão do quarto dela assim. Eu lembro que ela colocava um saco de estopa ali no chão e eu me deitava.

Minha avó era alcoólatra, do lado da cama tinha um litro de pinga, a noite todinha ela levantava e dava um gole naquilo, a noite inteira. Mas ali eu me sentia protegida, que ela era a única, a única que tinha preocupação comigo. Aí às quatro da manhã eu levantava e ela falava: "Vá embora agora, vai embora. Ninguém pode ver você".

Eu lembro do meu avô no fogão de lenha, assim bem cedo. Meu avô era bem pequenininho, fazendo café, cozinhando batata doce. Ele me dava uma batata doce e um café, todo mundo da casa acordava mais ou menos às quatro e quarenta da manhã. Eu acordava mais cedo para pular a janela e tentar ir embora.

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Chegava em casa, levava outra surra, eu era muito pequena, muito franzina, cuidava dos dois filhos da minha madrasta e era assim… Comia quando ela resolvia dar. Meu pai sempre acreditou muito nela. E a vida foi assim de sofrimento, muito sofrimento.

Aí tinha meu irmão que era bem menor, que eu também já me sentia meio mãe dele e cuidava. Teve uma época que a gente pegou tanto piolho, tanto piolho, que até na sobrancelha do meu irmão tinha piolho.

Minha madrasta, não ligava para a gente, ligava só para os filhos dela e meu pai saía para trabalhar, ia para sua Salvador, voltava depois de 15 dias. E ali a gente comia o pão que o Diabo amassou na mão daquela mulher. Meu irmão que é maior do que eu não, porque ele ficava com um tio meu, o acolheu lá e ficava mais lá. Mas eu e meu irmão pequeno, hum, foi luta!

E aí a gente vai. Tinha dia que você chegava na casa de um e dizia: “Aqui eu não quero você”. Chegava na casa de outro: “Aqui também não. Vai embora pra sua casa”. Hoje tem uma rua em São Paulo que moram vários dos meus parentes e tem muitas tias da minha infância, quando vou lá hoje, elas me tratam muito bem, mas naquela época elas não me tratavam bem. Eu fico com aquilo na lembrança… Chego lá uma delas diz: "Oi, nossa, que bom que você veio. Me dá um abraço. Como é que você tá?” Eu fico pensando como eu sofri na infância: “Nunca me apoiou na sua casa. Chegava lá, você mandava embora”. Aí minha irmã fala: "Nossa, mas a tia, essa tia é tão legal". Eu falei: "Eu não tenho mais nada contra ela, mas é coisa da minha infância, que eu era criança, eu fiquei traumatizada. Isso é um trauma que eu tenho." Então, vejo tudo bem, vejo minhas primas.

Minha mãe nesse meio tempo estava aqui em São Paulo. Essa minha tia, sempre vinha aqui em São Paulo, duas vezes por ano e levava muitas coisas que minha mãe mandava. Naquele tempo, a gente não tinha nada, nem um chinelo. Meu chinelo tinha um prego que ficava embaixo, que mais machucava meu pé do que outra coisa. E minha mãe sempre mandava as coisas para a gente. Eu tinha certeza disso… Eu sou uma pessoa que prevê as coisas que acontecem, quando falo que tenho certeza que alguma coisa vai acontecer e acontece. Eu já tinha aquele segundo sentido e a minha mãe trabalhava em casa de família, juntava muita roupa boa, muitos brinquedos e toda vez que minha tia vinha, minha mãe dava três malas para ela levar para a gente. Então, minha mãe achava que a gente recebia as malas de roupa. Mas, nunca a gente recebeu nada!

Quando ela chegava daqui de São Paulo, que a gente ia lá, ela falava assim para a gente: "Pode ir embora. Eu nem vi a mãe de vocês, ela não mandou nada para vocês”. A gente ia embora, principalmente eu e meu irmão que era pequeno. Tá bom, tinha que ir embora, voltava para casa do meu pai. E aí eu pensava: "Poxa, a mãe não mandou nada pra gente?” A gente naquele tempo era criança, não sabia escrever, não sabia se comunicar, então acreditava.

Eu ficava com aquele ressentimento, mas eu tinha certeza que ela mandava. Que as memórias que eu tinha da minha mãe, era que ela era uma pessoa boa quando eu era criança, até 4 anos, eu tinha essas lembranças boas. Depois, eu via minhas primas brincando, aquele monte de brinquedo legal que a gente nem pensava em ter. Nossa, meu sonho era ter uma boneca, brincava com a boneca de milho. Descascava o milho meio verde, ali amarrava aquele cabelinho e ficava sonhando com aquilo. E elas brincando no dia seguinte, aquele monte de brinquedo, aqueles vestidos bonitos, tudo, eu falava: "Tenho certeza que essas coisas era tudo que a mãe mandou pra gente". Mas como é que a gente ia falar alguma coisa, ela nunca entregava as coisas para a gente.

Por isso que hoje, quando eu vou para São Paulo, que eu vou na casa dela, que ela é um doce, nossa! Pode ser também coitada, que ela não sabia nem o que estava fazendo naquela época, não sei. Hoje é uma pessoa doce, boa, mas eu tenho essas memórias, no meio de tanto sofrimento.

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Eu já estava com 10 anos, quando foi um dia, meu pai me deu uma surra, uma surra, uma surra. E era surra de machucar, que a minha madrasta fazia a cabeça dele. Minha madrasta alcoólatra, meu pai alcoólatra. Nossa, era uma coisa muito doida. Me deu uma surra e eu não tinha lugar para dormir. Aí eu cheguei até a casa da minha avó e bati na janela. Ela, minha avó, alcoolizada também, abriu, falou: "Entra, seu pai te bateu de novo, né? Entra". Então a minha memória é de uma senhora negra (como meu pai), baixinha, cabelo branquinho, vestidinho com os bolsinhos do lado. Eu tenho essas memórias dela.

Ela falou: "Entra”. Naquela noite choveu muito e o quarto dela molhou. Lembro daquele chão batido de barro de terra. Ela colocou aquela estopa, ali eu deitei, mas aí eu não consegui dormir. Toda hora ela levantava, bebia, um tantão de pinga por noite, dava aquele gole naquele negócio e colocava ali perto. Quando foi às 3:30 da manhã, meu avô levantou. Eles levantavam muito cedo para acender o fogo, fazer o café, que o povo tinha que trabalhar na cidade, coisa e tal. Eu levantei junto com ele, estava com muito frio, naquele chão molhado.

Ele foi para o fogão e eu encostei perto. Pensei que como o povo ainda estava dormindo, não ia ver que eu estava ali, meu avô falou assim: "Ô, minha filha, encosta aqui para se esquentar". Aí eu cheguei ali, coloquei a mão, fiquei quietinha, naquele meio tempo consegui dormir e tive um sonho com a minha mãe.

Eu sonhei que ela estava chegando para buscar a gente e meu irmão tinha matado um porco na época, no sonho. E aí disse que meu tio matou um porco e, geralmente, ele matava para vender na cidade. E aí a minha avó falava assim: "Não, Antônio, não leva o porco para para vender, não. Tira um pedaço que a Maria vai chegar hoje para buscar os meninos e eu não tenho nada para fazer para ela almoçar. A Maria chega hoje, então você deixa a metade do porco aí que a Maria vem buscar os meninos hoje." Daí eu acordei com aquele sonho assim, desesperada e fui para perto do fogão e contei para o meu avô esse sonho. Falei: "Nossa, vô, eu sonhei com a mãe que estava chegando hoje, coisa e tal”. Contei a história para ele.

Quando passou 10 minutos bateram na porta, chamavam minha avó de dindinha. “Dindinha, dindinha”. Aí todo mundo da casa levantou, era o meu irmão mais velho. Ele chegou até mim, lembro como se fosse hoje, em um corredor assim, ele chegou e falou para mim: "Adivinha quem chegou?" Aí eu olhei para a cara dele. Falei para ele: “Não sei quem chegou. Não adivinho, não faço ideia". Aí meu avô falou assim para ele: "Fala logo quem que foi? Ele disse: “A mãe acabou de chegar e veio buscar a gente." Pensei: “Meu Deus”.

Meu avô era bem velhinho, olhou para mim, lembro como se fosse hoje, falou: “Isso que é sonho. Você é uma pessoa sábia, você consegue ter o intuito das coisas”. E aí quando ele olhou para mim, falou assim: "A mãe chegou”. A atitude que eu tive foi de ficar com medo de ir, porque fazia tanto tempo, ela me deixou com quatro anos, e voltou quando eu estava com quase 11 anos. Eu não sabia o que eu ia encarar.

Falei: "Nossa, como será minha mãe?” Eu não lembrava do rosto dela. Eu achei que minha mãe era morena, mas minha mãe é branca de cabelo preto e longo. Então eu falei assim: "Minha mãe chegou, veio buscar a gente, vô". Pensei que foi tanto sofrimento, porque que ela não veio antes? Mas aí, eu levantei, dei tchau para meus avós e fui em casa. Lá peguei meu irmão pequeno, tinha um rio perto, levei ele, tomei um banho, dei um banho nele e vesti uma roupa. Meu irmão maior já desesperado, já foi, eu tive que ir em casa fazer tudo isso.

Peguei meu irmão e fui lá andando na casa dessa tia, que eu falei que nunca deu as coisas para a gente, sempre mandou a gente embora. Minha mãe se hospedou lá, que é irmão dela. Eu falei: "A gente tem que ir lá na casa do tio. Vamos, né?” Falei: "Não é possível que na frente da mãe da gente, ela vai mandar a gente embora.” Chegamos lá. Quando chegou bem perto assim, abri uma cerca que tinha, dei uma olhada, eu falei: "Ah, será que eu vou? Será que eu não vou?" E meu irmãozinho pequeno: "Vamos, vamos." Na época ele tinha uns nove anos: “Vamos, vamos. A mãe chegou, veio buscar a gente, coisa e tal”. Eu falei: "Ah, não sei se eu vou". Aí eu abri e mandei ele primeiro. Aí eu falei: "Ah, eu vou também. Vamos." Aí quando chegou lá, minha mãe correu, abraçou ele.

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Eu comecei a olhar ela pelos pés, minha mãe assim grandona, eu olhei pelos pés, ela estava com chinelo. Eu falei: "Nossa, mas ela é branca". Minha mãe, eu pensava ser negra, não tinha nem foto dela. Quando pequena achava que era negra, mas ela é branca. Daí fui fazendo assim com olhar para cima, olhando, olhando.

Daí eu vi que ela estava com um relógio bonito, uma pulseira bonita, um anel bonito. Fui olhando, olhando, cheguei assim, olhei um tempo para os olhos dela. Eu falei: "Nossa, não pode ser minha mãe não". Ela disse: "Oi, minha filha, coisa e tal, que saudade de vocês e tal. Vim buscar vocês, acabou o sofrimento. Eu trabalhei, aluguei uma casa, e vim buscar vocês." Ali eu já falei: "Bom, o sofrimento acabou, né? Minha mãe vai levar a gente embora. Acabou o sofrimento”. E ali, minha tia já acolheu a gente melhor.

Quando minha mãe foi buscar a gente levou roupas, levou uma sacola de roupa para a gente, levou uns brinquedos. Nossa, aquilo para mim foi o máximo. Ela comprou uma sandália para mim. Tomamos banho e nos arrumamos. Ela ficou 20 dias. E naqueles 20 dias que ela ficou, minha tia já deixou a gente ficar junto com ela ali e começou a tratar a gente muito bem.

E nesse meio tempo eu não vi mais meu pai, nem voltei lá na casa dele. Quando chegou o dia de eu ir embora, minha mãe falou: "Amanhã nós vamos embora, pegamos o ônibus e vamos embora". Eu lembro que eu fui na casa da minha avó falar tchau para ela. Foi a única pessoa que eu queria muito me despedir. Quando eu cheguei lá na casa dela, lembro de tinha uma casa de farinha. O meu pai estava fazendo farinha, minhas tias raspando mandioca.

Eu olhei da porta, minha avó não estava. Eu pensei, ela deve estar na casa dela fazendo comida. Quando eu cheguei lá, estava os dois, minha avó e meu avô, na beira do fogão. Eu falei: "Dindinha eu vim me despedir que a minha mãe vai nos levar embora hoje". Fui eu e meu irmão mais velho. Ela falou assim: "Minha filha, vai lá, você não vai sofrer mais. E quando você chegar em São Paulo você vai crescer, você vai estudar e depois que você crescer, você vai começar a trabalhar. Depois de você estudar, você compra um corte de pano para mim de bolinha branca e preta e manda fazer um vestido”.

Para quem está na Bahia, São Paulo é tudo. Ela colocou a mão no bolso, lembro como se fosse hoje, tirou o dinheiro, deu para mim e para o meu irmão. Ela me deu até a mais. Meu irmão ainda falou: "Nossa, Dindinha a senhora deu mais para a Vanuzia". Ela disse: “Menino nada não. Toma o seu”. Falou para mim assim: “Vai que um dia você vai ser uma grande mulher, vai embora”. O meu tio foi buscar a gente numa carroça com as malas. E aquela carroça indo e ela com a mãozinha abanando. Então, eu estou com 52 anos, faz muito tempo. Depois disso nunca mais eu quis voltar.

Meu pai tocou a vida dele lá, quando foi agora ele veio para cá, antes largou a mulher, foi para o Paraná, que tinha um tio lá que acabou falecendo. E eu fui ver meu pai agora. Eu tinha muito rancor dele, tinha muita coisa ruim. Parece que Deus falou assim: "Vai que você precisa se libertar disso”. Então, como eu faço muita terapia, eu falei: "Não, isso é uma coisa que eu tenho que resolver”. Aí fui, fiquei lá duas semanas com ele. Falei: "Pai você está perdoado, fazer o quê?" E ele acabou indo embora.

Bom, voltando a história, chegamos aqui em São Paulo, minha mãe já tinha sete filhos em casa. Todo mundo regula a idade com o outro mais ou menos. Minha mãe chegou, eu lembro, era uma casa grande. Ela alugou uma casa tipo chácara, cheia de árvores, cheio de pé de tudo quanto é coisa. Aqui nós vamos ficar. Quando eu cheguei naquela casa, tudo era lindo, nossa, tinha luz elétrica, coisa que não tinha lá na Bahia, tudo eu achava muito estranho. Nossa, tem chuveiro!

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Então, eu não sabia de nada, um dia eu fui fazer comida na panela de pressão e não conhecia. Abrindo e na hora explodiu a panela de pressão, água quente, caiu por tudo. Até hoje tenho cicatriz. Nossa. Então tudo para mim era novidade.

Minha mãe chegou, já matriculou a gente na escola. Hoje minha mãe não anda, está com 85 anos, criou 10 filhos sozinha! Minha mãe vendia verdura, tinha uma horta perto de onde a gente morava, enchia a cesta de verduras, pegava o ônibus para o centro de Campinas, passava o dia todo vendendo verdura, como a gente era tudo pequeno, os maiorzinhos acompanhavam ela. E de tarde ela vinha com aquela cesta cheia de pão, o pessoal doava as coisas. “Olha, como tem muita criança…” davam pão, roupas, comida, um arroz… Ficávamos esperando ela chegar a tarde com aquelas coisas. Eu tenho memória daquele pão cheiroso, sabe, que ela trazia. E assim a gente foi, não foi fácil criar dez filhos sozinha.

Eu comecei a ficar tipo a dona da casa, já estava com 12 anos. Minha mãe matriculou a gente na escola, aprendemos a ler e escrever. Meus irmãos começaram a crescer, todo mundo começou a trabalhar junto com minha mãe e foi que foi.

Hoje minha mãe não anda por ter os ossos gastos. Hoje eu fico pensando, o tanto que trabalhou para cuidar da gente. Trabalhou tanto! Eu já falo: "Mãe, não fique se culpando. Nenhum filho virou bandido. Ninguém é alcoólatra, ninguém fuma. A senhora fez o que a senhora pode. E minha mãe sempre foi seca de amor. Quando é o aniversário do filho, ela não dá parabéns, não diz que está ali, não, minha mãe não consegue. Acho que ela nunca teve isso. E meus irmãos não entendem isso. Falei: “Gente, a luta dela foi tão grande que ela não consegue ter afeto assim”.

Hoje moramos no mesmo terreno, ela mora na frente, eu moro no fundo. Quando é dia do meu aniversário, às vezes eu estou na janela da sala dela, e ela me manda mensagem: "Parabéns para você". Meus irmãos falam: "A mãe é dura, é seca". Eu falo: “Gente, ela não sabe o que é amor. Ela não teve”. Como eu faço muita terapia, eu entendo. Eu falo: "Gente, hoje a gente tem que dar graças a Deus. A gente cresceu, todo mundo casou, todo mundo tem sua casa, nossa família é grande”. Hoje ela está numa cadeira de roda, anda muito pouco, mas tem uma memória excelente. Mas se você precisar, ela está ali.

Vendendo a verdura, ela comprou meio terreno, onde ela mora e fez uma casinha. Antes ela pagava aluguel. Eu comprei outro meio terreno, junto com ela. Tem um irmão que mora em São Paulo e todos os outros moram perto de casa, mas eu que fico na retaguarda ali, sabe?

Assim foi a minha infância, quando a minha mãe foi me buscar, muita coisa melhorou. E eu achei que eu ia ter um grande rancor dela. Porque eu passei a entender. Não tenho rancor. Há, só quando ela chegou na Bahia que descobriu que a gente nunca recebeu as coisas que a tia levava. Mas tudo bem, a gente tem que perdoar, né? Deixa isso para lá. Minha mãe diz: “Mas eu mandava as coisas para você”.

Para ir buscar a gente, ela jogou na mega sena e ganhou. Fez quatro pontos. Então, ela ganhou um prêmio lá, juntou o pouquinho que ela tinha e pegou 20 dias para buscar a gente. Essa é minha história.

Depois disso, eu estudei um pouco. Comecei a trabalhar nessa casa que estou até hoje, foi meu primeiro emprego. Entrei como babá, os meus patrões são médicos, eles eram recém formados. Tinha uma menina de três e um menininho de um ano, comecei a cuidar das crianças e fui indo.

Tive uma filha de um relacionamento que não deu certo, depois eu casei. E minha filha hoje está com 27 anos e agora tem meus dois gêmeos. Nesse meio tempo construí família, meus irmãos, todo mundo tem sua família. Quando eu fui morar com esse meu marido, minha filha tinha 5 anos. Hoje ela tem 28, casou e foi embora.

Pensei em ter outro filho quando mais nova, mas tentei, tentei e não consegui. Quando chegou os 40 anos pensei que não daria mais. "Mas quando eu estava com 42 anos, comecei a sentir umas coisas estranhas. Eu sentia queimar a barriga, parecia que a barriga e as partes íntimas pegavam fogo. Era horrível estar de jeans, uma coisa que queimava, ardia muito, tinha que colocar toalha molhada na barriga. Falei: "Mãe, não é normal”. Fiquei desesperada, comecei a enlouquecer atrás de médico. Aí comecei uma saga de ginecologista, ia em um e ele dizia: “Não tinha nada de infecção”. Ia em outro e dizia: “Não é nada, isso aí deve ser da menopausa”. Me passou um antibiótico, uma pomada e nada, quase dois meses nessa luta.

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Quando foi um dia, eu encontrei com uma amiga minha, ela falou: "Olha, em Sumaré tem um ginecologista que ele é muito famoso, não sei quem foi lá, estava com câncer e descobriu. Ele é muito bom, a consulta dele é muito cara. Se você conseguir um horário com ele…” Eu fiquei desesperada. Eu falei: "Eu quero ir, né?" Eu estava cansada, só de consulta particular tinha pagado umas cinco ou seis. Público então… Aí eu liguei lá e a secretária, falou: "Não tem vaga. Ele vai ter um encaixe aqui daqui 15 dias". Eu desesperada, eu falei: "Ah, moça, eu quero esse encaixe".

Até do serviço me afastei porque era tão ruim. Falei: "Eu estou com uma doença ruim na barriga. Não sei o que é, mãe”. Chegou o dia da consulta, paguei, meu marido bravo. Falei, eu tenho que me cuidar, não sei o que eu tenho. Chegou lá, a consulta do médico é muito boa. O médico tem uma consulta de quase 1 hora e meia, é um médico meio com psicólogo, sabe? Uma coisa muito boa.

E vai daqui e lá, como já estava tudo incluso, fiz mamografia, ultrassom, um check up lá na hora, levei todos os papéis que os outros médicos me deram. Chegou lá ele olhou para mim e falou assim: "Não, você está com 42 anos, está com cara de menopausa". Aí ele falou: “Vamos fazer um ultrassom, se tiver alguma coisa na sua barriga, eu vou ver agora”. Falei: "Senhor, tem misericórdia, é agora." Deitei lá, ele olhou tudo. Ele disse: “Não, sua barriga não tem nada. Seu útero está limpinho e você nem engravida mais. Mas só tem um ovário. Você fez cirurgia de ovário?” Eu falei: "Doutor, eu nunca tirei ovário na minha vida". Eu falei: "Só se tiraram quando eu tive minha filha" Aí ele falou: "Às vezes o médico tira, porque tem algum mioma, acaba tirando." Eu falei: "Então tiraram, eu não sei." Ele falou: "Chances de engravidar, você não tem nenhuma. Seu útero já está meio envelhecido. Não tem nada aqui, tá tudo limpinho, não tem coceira, não tem nada, não tem foco de nada. Então acho que é coisa da sua cabeça e é menopausa. esse antibiótico aqui, em 15 dias você retorna”. Já era o terceiro antibiótico que eu tomava. Aí deu o dia de voltar nele e não voltei.

Um dia, eu levantei para trabalhar umas quatro da manhã, que é muito longe, são três horas para ir. Quando o ônibus passou na chegou de frente de um hospital, que minha mãe já tinha falado dele, eu desci e fui na emergência. Quando cheguei lá, peguei uma doutora residente, falei: "Meu Deus, já paguei tantos médicos particulares, imagina essa doutora”. Desanimador. Não queria nem contar a história. Ela pediu um exame de sangue e de urina. Pensei em não fazer, mas fiz. Fui para casa, e voltei quando ficou pronto. Ainda estava no plantão dela. Ela olhou para mim e sorriu. Aí disse: "A senhora estava esperando uma doença ruim?" Falei: "Doutora estava, estou, né?” Ela me disse: “Parabéns, você está grávida".

Quando ela me falou aquilo, gente, eu não sabia onde pisava. Estava pisando em ovos no chão. Ela falou assim, que pela minha idade, era bom fazer o pré-natal no CAISM. Voltei para casa. Minha mãe e meu marido perguntaram: "Você não aguentou trabalhar?" Aí falei: "Mãe, tem um café aí?"Quando meus irmãos chegaram, juntei todo mundo e falei: "Gente, todo mundo está muito preocupado comigo, ó, achei a solução que eu tinha. Gente, eu tô grávida!”.

Eu já estava indo para o terceiro mês. Todo aquele sintoma que eu estava, no dia seguinte eu não tinha mais nada. Pensa aquela coisa, eu levantei de manhã, eu nem acreditei. Passei a mão na barriga assim, fui no banho, falei: "Eu não tô sentindo mais nada, Papai. Como assim?” Acho que era para descobrir que era gravidez tudo isso aí. Ai, parece que Deus tirou com a mão.

Passou um tempo, em uma noite dormi, levantei com a cama lavada de sangue. Meu marido falou: "Vamos na emergência, perdeu o neném." Eu falei: "Minha mãe, tô indo, acho que perdi”. Eu estava indo para o terceiro mês. Falei: "Perdi". Cheguei lá na emergência do mesmo hospital que eu fui. Falei: "É, doutor, tô grávida três meses, acho que perdi." Quando ele fez o ultrassom, ele olhou, olhou, e disse assim: "Não, não perdeu não. O saquinho gacional está aqui. Tem dois corações batendo aqui”. Aí eu pensei, é o meu e do neném. Aí ele falou para enfermeira: "Chama outro médico lá para mim". Aí o outro médico falou: "É, está vivo. E parabéns, está grávida de gêmeos”. Eu fiquei em estado de choque.

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Aí chegou lá fora, meu marido desesperado: “Perdeu o neném, né?” E eu não conseguia abrir a boca para falar para ele que eram gêmeos. Aí tinha uma pracinha assim na frente, falei para ele me dar uma garrafa de água. Ele falou: "Vamos entrar no carro". Eu falei: "Eu preciso te falar uma coisa". Vai fala: "O quê? Você perdeu o neném? Tudo bem, tudo certo”. Falei: "Não perdi, eu estou grávida de gêmeos".

Eu cheguei em casa, todo mundo triste, minha filha veio do trabalho, todos achando que eu tinha perdido o neném. Eu contei para todos e ficaram espantados. Não acreditavam.

Comecei o pré-natal no CAISM na faixa vermelha, que é de risco, por causa da idade, para não ter diabetes sensacional. Então era muito rigoroso. Toda semana ia para o pré-natal, o médico fez dois exames morfológicos, e disse: “Mãe, seus filhos vão ser perfeitos, muito perfeitos, serão dois meninos muito saudáveis.

Quando chegou com 34 semanas e meia, ainda estava trabalhando de empregada doméstica. Hoje eu trabalho só três dias na semana, mas eu trabalhava todo dia. Pegava três ônibus para ir, três para vir. Tinha uma energia que era uma coisa, minha coluna travava antes e até a coluna melhorou. Parece que quando a gente engravida, a gente tem um hormônio bom, que a gente fica super bem. A casa da minha patroa tem oito banheiros, seis salas e quatro quartos. São dois andares, pensa num casão. E eu ia feliz da vida e chegava na porta do condomínio, tinha que andar mais uns 20 minutos para chegar na casa dela, com uma subida gigante.

Quando estava com 34 semanas e meio, eu tinha uma consulta. Fui com meu marido, o médico olhou, falou assim: "Mãe, tem um que não quer mais ficar na barriga, vamos fazer essa cesárea hoje. Está com 34 semanas e meia e geralmente gemelar não chega até a reta final. Tem um aí que está em sofrimento… Tem um muito grande e um pequeno. O grande não deixou o outro comendo, não dá espaço e ele não quer ficar mais aí”. Eu já estava com as malas dentro do carro no porta-mala, era meio desesperada. Faltando meia hora para ir para a sala de parto, fizeram um ultrassom e o médico falou: "Nossa, mãe, os dois são muito cabeludinhos, vão nascer super bem, os dois são grandes. Se precisar de neonatal é uma semana, coisa e tal". Eu estava com a carta para laqueadura na mão.

Chegou na hora o médico e falou para o meu marido: "Olha, é uma equipe de 12 profissionais e a sala é pequena. O senhor vai passar mal?" Ele disse: “Não, estou firme”. Meu celular quase descarregando para tirar foto. E aí fomos para a sala de parto, chegou lá, preparou tudo. Eu lembro que dois anestesistas, um de cada um lado, no começo da gestação eu tive pressão alta, mas fiz uma dieta e estabilizou. Tanto que eu engordei só 9 kg na gravidez inteira.

O Gabriel que tem síndrome de Down nasceu primeiro. Eu vi que tirou ele, ele chorou, eu estava meio tonta, aquela anestesia toda, de cabeça baixa, mas não estava dormindo. Eu ouvi que ele chorou. Aí demoraram um pouco, não cheguei a ver o rosto dele no momento. Chamaram meu marido e começaram a falar para ele alguma coisa. Meu marido chegou perto de mim, desesperado, querendo chorar e eu falava para ele: "O primeiro neném está bem? Que aconteceu com o primeiro neném? Que aconteceu?" E ele falava: "Não, não aconteceu nada”. Eu falei: "Aconteceu alguma coisa, sua cara está estranha. Porque o médico chamou você lá?" Ele dizia que não aconteceu nada.

Minha pressão foi subindo e o anestesista disse: "Mãe, calma, não é nada, é só uma suspeita". Eu falei: "Suspeita do quê?" Aí ele falou assim: "É que o médico acha que o primeiro tem síndrome de Down”. Depois de três minutos que o Gabriel nasceu, nasceu o outro.

Naquele momento ali minha vida parou! Quando ele falou para mim que tinha uma suspeita de síndrome de Down, mas não é certeza. Não consegui mais falar com o médico. Eu já me calei, guardei para mim. Fiquei só com meu pensamento com Deus: “Senhor, como assim síndrome de Down?” Parece que o tempo parou naquele momento, parou. Eu não via mais ninguém do meu lado. A minha vida ali se resumiu a 3 minutos. Eu fiquei pensando: “O Senhor me mandou um filho especial com síndrome de Down”. Eu já conhecia o que era síndrome de Down. Depois eu chego nessa parte…

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Eu falei: "Senhor, eu não vou questionar, eu só quero que se o senhor me mandou, Ele me capacite. O Senhor só manda filhos especiais para mães que, eu acho, que também que são especiais. Senhor, me capacite, me estruture, me dê sabedoria, Senhor." E naquele momento eu voltei e falei para enfermeira: "Tira uma foto para mim". Acho que foram duas fotos que ela tirou, que meu celular descarregou na hora. E nem pude ver ele, que já levou rapidinho para a Neo, ele nasceu meio cansado”.

Veio o outro 3 minutos depois, aí eu pensei, se um veio com síndrome de Down, o outro vai vir como? Porque você faz o pré-natal inteiro, diz que está saudável… Aí nasceu e o médico falou: "Ah, o outro é saudável, o outro não tem nada, nasceu super bem o outro".

O Gabriel nasceu com 2,150kg e o outro nasceu com 2,480kg. Foram para a Neo os dois. Acabou o parto, fiquei me recuperando e fui para o quarto. Chegou no quarto, meu marido só chorava e eu tinha feito cesárea e laqueadura.

Meu marido chorou a noite inteira e eu fiquei calada, só pensando: "Se o senhor me mandou eu vou ser forte, eu vou cuidar do meu filho, vou lutar". E aí meu marido ficava: "Como é que vai ser um filho especial?" Ficava muito preocupado com o que os outros iam dizer. Eu levantei daquela cama, eu lembro que cheguei no quarto era meia noite e pouco. Uma e pouco da manhã eu falei para ele: "Levanta, vai para casa, quero ficar sozinha, vai para casa". Foi embora.

Ali eu fiquei sozinha pensando, não conseguia chorar e eu estava doida para ver o rosto, porque eu não pude ver. O médico falou para mim assim: "Você vai levantar só amanhã meio-dia dessa cama, você fez laqueadura e cesárea, amanhã quando a enfermeira vier meio-dia, vai levar você para tomar banho”.

Três da manhã eu me levantei daquela cama sozinha. No quarto não tinha ninguém, só estava eu. Levantei da cama, minha mala estava no quarto, abri minha mala, peguei uma roupa, estava meio frio, era 31 de março, liguei aquele chuveiro frio, entrei debaixo, tomei um banho dos pés a cabeça. Troquei, abri a porta do quarto, e fui sozinha para o neonatal.

Cheguei lá, sem ninguém ver, não podia nem levantar da cama. Que loucura. Quando eu cheguei na porta, as mãe tem acesso livre. Eu entrei, tinha um enfermeiro, estava até meio cochilando. Eu entrei, olhei para aquelas duas incubadoras, já tinha certeza que eram aqueles dois. Era um meio moreninho que eu sou morena, o marido é branco, cabelo cacheadinho e vi um menino bem branquinho.

Quando eu olhei eu falei: "São esses dois." Eu falei: "Eu sou mãe do Luiz Eduardo e do Gabriel”. Quando eu olhei para o Gabriel, carequinha, nem cílio ele tinha. O médico falou que era muito cabeludinho. O médico via tudo no irmão. Eu vi ele tão fragilzinho. Eu fiquei olhando e ela disse: “Você sabe, né, mãe que tem suspeita de síndrome de Down”. Eu falei “Sei”. Falei: “Eu quero pegar ele no colo”. Aí sentei, me deram ele, tiquinho assim. Quando eu olhei, nem as unhas estavam formadas, sem sobrancelha, sem cílios. Olhei para a cara dele, abracei ele.

Sabe, você vai aceitando, olhei e falei: "É meu". Falei: "É meu". Eu falei: "Senhor, o Senhor me deu é meu". Meu coração se encheu de amor. Falei: "Meu". Aí falou: "Você não quer pegar outro?" Eu falei: "Depois eu pego o outro". Aí eu olhei assim, fiquei olhando ele, olhando todos os detalhes. Falei: "Senhor, é meu, o senhor me deu, tô pronta, senhor". Aí a médica falou assim: "Mãe, eu nunca vi uma reação tão maravilhosa dessa, porque tem mãe que nem quer ver”. Falei: "Doutora, eu tô preparada. Eu sei que não vai ser fácil, que a luta vai ser grande, mas eu tô preparada".

Eu tive alta, fui para casa, ficaram os dois. Eu cheguei em casa acabada, eu não aguentava nem olhar as coisas e nem o carrinho, eu larguei os dois lá porque não estavam bons para vir embora ainda.

Quando eu cheguei em casa aquela noite, arrumei uma mala bem grande e quando era quatro e pouco da manhã falei para o meu marido: "Me leva, me leva na Unicamp". Ele falou: "Não vou levar". Falei: "Pois eu vou pegar o carro”. E fui.

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Cheguei lá, as mães têm acesso liberado. Disseram que já iam ligar para mim que um teve alta. Era o Luiz Eduardo. E o Gabriel ia ficar. Olhei para a cara da doutora e falei: "Doutora, como que eu vou embora levar um e deixar o outro? Eu não sei nem cuidar desse aqui que é prematuro. Doutora, eu não tô preparada, eu precisava de umas aulas, coisa e tal." Ela falou assim: "Mãe, nós temos um quarto aqui dentro da UTI, eu vou colocar você lá com esse, que teve alta para você aprender”. Eu falei: “E o Gabriel que tem síndrome de Down? Eu tenho que aprender como é que eu vou fazer para dar a mamadeira, tudo. Olha o tamanhinho que ele é?” “Então enquanto você aprende com outro você vai ficar dentro desse quarto aqui”. Parece que eu estava adivinhando, levei uma mala enorme. Durante 15 dias o Gabriel ainda ficou na Neonatal e eu no quarto com o outro. Aí os dois tiveram alta. Então eu tinha que adaptar os dois para ir embora, aprender mamar. O Gabriel ainda não sabia pegar o peito. Ninguém podia me acompanhar, minha minha filha e meu marido iam visitar. Eu sozinha com os dois, dava leite para um, para outro, aquela luta e fomos para casa.

Esses 15 dias que eu fiquei na Unicamp e tinha que comer embaixo. Ele estava no terceiro andar, eu descia de escada com cesárea, e eu tinha que comer em 15 minutos. que eu descia aquela escada enlouquecida.

Fomos para casa, ele era tão pequeno que todo mundo tinha medo de me ajudar. Com um mês e meio que nós estávamos em casa, eles tiveram bronquiolite, foi outro sofrimento. Fomos para emergência, fui com o Luiz Eduardo, ele estava com cinco dias, o Gabriel não feliz também teve o mesmo sintoma, os dois com bronquiolite. O Luiz Eduardo foi intubado. Nossa, foi luta.

E depois disso ele começou a fazer as terapias na Unicamp para estimulá-lo. Estava com seis meses e eu não sabia onde colocar ele. Aquele medo, você quer proteger, você quer deixar em casa, você não quer mostrar para o mundo, aquela coisa.

Antes dos meninos nascerem os meus patrões moravam perto da Fundação Síndrome de Down. O fundador era amigo do meu patrão, que era médico cardiologista e tinha uma filha com síndrome de Down. A filha dele ia lá brincar com a filha do meu patrão, pequenininha a filha dele. Meu patrão, que era muito amigo dele, fazia as festas dos filhos no espaço da Fundação. Ele cedia o espaço. E eu ia com eles, a menininha que é filha dele e a outra filha foram criadas juntas. Então, tinha festas que eu ia como babá. Eu dormia no emprego na época.

Então quando o Gabriel nasceu, eu levei para a Fundação e a cunhada da minha patroa foi coordenadora por 12 anos. Eu já sabia mais ou menos como era. Coloquei ele na Fundação com 7 meses e estamos até hoje. E hoje ele já vai fazer 10 anos, ele está no 5º ano, vai para a escola, é muito inteligente.

Gabriel andou com um ano e três meses. A estimativa do neurologista era que ele ia andar com 5 ou 6 anos, dizia que ele era mole demais. O irmão dele era o professor dele, tudo que o irmão fazia, ele imitava e até hoje é assim, os dois vão para a escola juntos. Se um está doente, o outro não quer ir. Se um fica doente, o outro fica atrás e onde o irmão está, ele está atrás. O irmão chama Luiz Eduardo, ele chama de Dudu. Às vezes até o irmão fala: "Mãe, o Gabriel só fica me seguindo. O Gabriel faz tudo que eu faço, mãe. O Gabriel só fica atrás de mim”. Falo: "Filho, você é irmão dele, então ele quer aprender com você”.

Ele não dá trabalho, não fica doente fácil, uma graça, fala de tudo, dança o dia inteiro, falou muito rápido, olha, não tem o que dizer. E dificuldade com ele? Nenhuma, não tenho. Nunca tive. Todo dia uma batalha atrás da outra. Já enfrentei tanta coisa, tanta coisa, tanto preconceito, tanta gente que tem preconceito. Vai na escola, brinca, é feliz, dorme a noite inteira. O outro irmão dele, que hoje está com 10 anos, tem asma, quando começa a tossir já me dá desespero, tenho que prevenir. Agora o Gabriel começou a dar uma gripinha, é só dar um xaropinho, come de tudo.

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Olha, hoje eu sou uma pessoa bem melhor do que eu era. Me tornei, eu achava que eu já era legal, mas eu acho que eu me tornei uma pessoa bem melhor do que eu já era. Coisas que eu não enxergava, passei a enxergar. E assim, a luta é essa. A gente todo dia briga por uma coisa, por outra, pelos direitos que eles têm. A gente vai na escola, vai na sala de recurso, vai com o professor, vai daqui, tudo, tudo que seja bom para eles eu estou.

Eu trabalho como empregada doméstica, sou registrada. Nem o benefício dele eu pego. Porque por eu ter registro na carteira, eu nunca fui nem atrás. Eu trabalho e o pai trabalha, então deixo para quem precisa. E a gente vai tocando a vida cheio de amor. Ele é todo cheio de amor, tudo cheio de carinho. Ele chega na sala do médico, olha a palavra difícil que ele fala: "Bom dia, doutor." Ele consegue falar perfeitamente isso. Os médicos não aguentam, dão risada quando ele fala. Às vezes ele se atrapalha para falar alguma coisa, mas ele chega: "Bom dia, doutor". Uma graça.

O outro acorda super mal humorado. Ele já acorda beijando a gente. Fala bom dia para todos. “Bom dia, mamãe. Bom dia”. Tem um cachorro em casa Pitoco. “Bom dia, Tô”. Uma alegria, dança o tempo inteiro. Minha vida ficou leve. Leve, minha vida não é fácil, tanta luta, né? Mas minha vida ficou leve. Eu não vejo a hora de chegar, de eu acabar o serviço, cansada, pegar três ônibus e voltar para casa para ir na escola buscar ele, para ver aquela carinha. O pai que busca ele na escola. Aí quando eu tenho um tempinho, oportunidade, eu vou de surpresa na escola. Quando eu chego na porta que eu olho, ele está com a cuidadora e ele fala: "Mamãe, mamãe". Pega a mochilinha, sai e começa a me beijar, a professora dá risada. Então, para mim isso é bom na vida.

Então, minha vida se resume nisso. E vivo. Hoje eu estou com 52 anos, dói aqui, dói ali. Mas para mim, Deus falou: "Ó, você tem uma missão". Minha missão está cumprida. Porque é repleta de amor, de alegria. E você vê, hoje mesmo trouxe ele na Fundação, mas eu tenho mil coisas para fazer hoje. Mil coisas. Tenho que fazer as coisas para minha mãe, fazer comida, vou lavar roupa, vou levar para a escola, eu vou no médico buscar o encaminhamento dele. Já fui tirar sangue hoje cedo. Ele já foi tirar sangue, ele já foi. Eu já cozinhei feijão, já organizei minha casa.

Então assim, se Deus falou assim: “Você tem uma missão”. Minha missão está cumprida. Não preciso de mais nada. Perfeito. está perfeito o filho que o Senhor me deu, não tem noção. Até meu marido, que é meio durão, se derrete com ele. Aí o outro, nosso filho, fica até com ciúme e eu, mãe, às vezes até esqueço que eu tenho outro. O Gabriel fica grudado na gente, cheio de amor. Aí eu fico me policiando e faço carinho no outro também. Mas o Gabriel é demais, gente. É demais.

Eu não tenho tempo nenhum para mim. Mas faço terapia. A filha da minha patroa é psicóloga e me ajuda muito. Converso muito com ela. Já fiz muita, fiz muita terapia. Na Fundação Síndrome de Down tem um grupo onde tudo que a gente sente, o que a gente quer falar, eu já chego já solto tudo. Então isso para mim é terapia. Lá no condomínio que eu trabalho tem o pessoal de um centro de recuperação de usuários de drogas. Passo alí e converso com todo mundo. É outra terapia, né? Aconselho, um aconselha o outro. A gente vai batendo um papo. Minha outra terapia é pegar ônibus e conversar com todo mundo. Quando chega tarde que estou no ponto com as amigas, falam: "Vamos pra nossa terapia". Sentamos em três, quatro atrás, a gente vem conversando.

Meu marido fala: “Vamos de carro”. Eu falo: “Não vou não”. Se eu fosse de carro para trabalhar, eu sairia de casa às 6:30. De ônibus levanto quatro, pego de 4,40. Nossa, teria mais conforto e gastaria só 30 minutos. Mas,eu chego no condomínio, quando eu desço do ônibus, eu ando uns 20 minutos. A subida é grande, mas ali eu vou feliz, vou conversando, lá é tudo natureza, vejo rio, pato, ganço... Minha terapia é isso. Eu conheço todo mundo do condomínio, é outra terapia, converso com pedreiro, jardineiro.... Aí minha patroa fala assim: “Como você é popular nesse condomínio”. Eu sou muito faladeira. Eu falei gente, eu tenho um leque aberto com amizade. Na casa da minha patroa tem uma senhora, nós trabalhamos em duas, eu e a cozinheira. E tem uma vizinha que me chama no muro para conversarmos. Aí a cozinheira fala: "Nossa, ela quer fazer terapia". Eu falei: "Deixa ir lá ajudar ela”. Aí a gente conversa, conversa". A filha da patroa fala: "Vá, você não existe."

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Um tempo para mim assim é quando eu chego em casa que eles dormem, eu tomo um banho, fico um pouquinho no meu sofá esticada um pouquinho e ponho uma série, qualquer coisa, tomo um chocolate quente, um café, fico ali um pouquinho, mas é muito pouquinho, porque ele só dorme quando eu vou dormir.

Assim, não tem um tempo para mim, quando estou assim meio estressada, vou dar uma volta. Gosto de ir em lojinha, vejo as coisinhas de casa, sabe? Dou uma voltinha por ali, penso um pouquinho na vida e volto para a luta. Mas assim, fala assim: "Você tem um tempo para você?" Tenho. Eu não tenho vaidade de andar empetecada. Não. Não, o pouco tempo que eu tenho, eu já levantei hoje e já trabalhei tanto.

Meu maior sonho é ver meus dois filhos crescer, o Gabriel crescer. Ficar bem, ser feliz, ver ele crescer, desenvolver bem, sabe? Ver ele estabilizado, trabalhando, cuidando da vidinha dele. Não tenho outro sonho só ver o Gabriel feliz, saber que ele vai ficar bem, que vai conseguir administrar a vida dele. Esse é meu maior sonho.

Notas de rodapé