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Meu nome é Regina Célia de Oliveira Rocha e tenho 56 anos, nasci em São Paulo, capital, e tive uma infância muito boa. Morei em São Paulo até os 7 anos e brinquei muito na rua, minha rua só tinha meninos, então me juntava a eles, até diziam que eu parecia um moleque. Estudava em um colégio de freira, minha vida era uma delícia. Com aproximadamente 8 anos, meu pai tinha uma indústria com um sócio, esse sócio, acabou fazendo coisas erradas levando a empresa à falência. Foi muito difícil, porque da noite para o dia, ficamos sem casa, sem nada, pois meu pai fez questão de pagar todos os funcionários, todos os seus direitos, não ficou devendo nada e olha que eram mil funcionários.
Essa fase da vida foi complicada, muitos julgavam, foi desafiador. Lembro de ser a fase mais difícil, porque de uma hora para outra não tinha mais carro, casa, nem dinheiro, absolutamente nada. Por essa situação, saímos de São Paulo e fomos para Guarulhos, moramos lá por seis meses e, para ajudar no sustento, minha mãe começou a fazer bolo para vender. Meu pai, se não me engano foi trabalhar em uma indústria de celulose. Um fato marcante, a situação já estava difícil, em uma encomenda de bolo, minha mãe tinha uma bela orquídea e para agradar a cliente, decorou o bolo com as flores dessa orquídea. Para tristeza e desespero, a pessoa não foi buscar e, consequentemente, não pagou. Então, o pouco que tínhamos, perdemos. Foi uma fase dificílima.
Ela levava, eu e meu irmão, éramos nós dois, todos os dias para uma escola do estado, ela levava a gente com uma bicicleta, como eu era a mais velha, ia atrás na garupa e meu irmão ela acomodava no guidão, as ruas eram de terra o que dificultava ainda mais o trajeto.
Depois de alguns meses, saímos de Guarulhos, a família da minha mãe morava em Valinhos, então minha avó e meu tio iam levar mantimentos para nos ajudar. Depois de um tempo mudamos novamente, agora para Suzano, pois meu pai tinha conseguido um outro emprego, então recomeçou toda aquela batalha de organização familiar, escola, emprego para minha mãe etc.
Minha mãe foi trabalhar com representação do INPS, meu pai trabalhou em uma empresa, começando devagarzinho todo o processo, do zero. construir a família de novo. Entretanto mesmo sendo criança, na época, guardo muitas lembranças, muitas coisas que ficaram no meu inconsciente, por exemplo, essa dificuldade toda que assolou meus pais, foi pesada, porém isso ajudou a dar uma boa base da vida para mim e para meu irmão.
Minha mãe saía para trabalhar bem cedo, nessa eu quem arrumava a casa. Aprendi a fazer comida com 11 anos, tive que amadurecer cedo, por conta dessas responsabilidades, isso ajudou e muito a desenvolver os valores que tenho. Por exemplo, minha família, mesmo nesses momentos difíceis, conseguia entender como aprendizado, não enxergava somente as coisas negativas. Com certeza me ajudou muito e trago esses ensinamentos até hoje.
Então, praticamente minha juventude foi em Suzano, lugar onde tem muitas pessoas japonesas, tanto que, todos meus amigos e amigas dessa época, eram japoneses, aliás tenho amizade com alguns até hoje. Quando saímos de Suzano, já com meus pais mais estabilizados financeiramente, viemos morar em Campinas, nessa época eu estava com 15 anos, foi uma nova história, uma nova vida, pois tínhamos uma vida bem mais confortável.
Apesar da situação familiar estar melhor, senti que Campinas era uma cidade mais “fechada”, ou seja, tive dificuldade para fazer novas amizades, era uma cidade interiorana e estava acostumada com a grande São Paulo, isso foi um choque de cultura para mim. Aqui em Campinas, fui estudar no Imaculada e meu irmão no Liceu, inclusive morávamos muito próximo do colégio, meu pai tinha uma casa lotérica, entretanto foi bem difícil porque vínhamos de escola do Estado, por mais que a escola de estado era considerada forte, inicialmente sentimos muita diferença. Esses colégios tinham carga horária diferente da nossa, tinham disciplinas que nunca tínhamos visto, tanto que eu e meu irmão reprovamos. Porém, persistimos e nos esforçamos muito e consegui entrar na Faculdade, fiz o curso de Arquitetura.
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Em Campinas, mudamos para perto da lagoa do taquaral, foi um período muito bom, o lugar era incrível para viver, tinha uma boa área de lazer, recebemos muitas visitas, enfim a casa estava sempre cheia de amigos. Quando eu terminei a faculdade, já comecei a trabalhar, era autônoma. Como havia falado, meus pais tinham uma lotérica, porém estavam desanimados e cansados de trabalhar nessa área, pois era muito perigoso, já tinham sido assaltados, inclusive colocaram a arma na cabeça do meu irmão, por isso eles resolveram sair desse ramo.
Meu irmão estava fazendo faculdade de Agronomia e nessa época estava começando a hidroponia, porém muito no início sem muito estudos e Campinas não tinha nenhum lugar que trabalhava com isso. Como meu irmão trouxe a ideia da faculdade, meu pai falou: "Vamos ver se a gente consegue trabalhar com hidroponia". Sendo assim, meu pai vendeu alguns bens aqui em Campinas, juntou dinheiro e comprou uma área na Holambra para começar a trabalhar com a hidroponia. Percebendo todo movimento em casa, isto é, um investimento nesse novo ramo da Agronomia, além de trabalhar com os meus projetos, dedicava um tempo para ajudar nessa nova empreitada profissional da família. Como minha família vinha de muitas mudanças, essa foi mais uma, entretanto tivemos muita facilidade por conta da resiliência que adquirimos ao longo dos anos.
Então, começamos a aprender tudo relacionado à hidroponia, como construção das estufas, manejo e tudo mais. Como não tinha em Campinas e o mercado começou a aceitar bem essa técnica de cultivo, o negócio estava indo muito bem. Até que um dia deu um temporal, destruindo praticamente tudo. Lembro, como nas vezes anteriores, ou seja, nos momentos difíceis que passamos na vida, quem mais tomava a frente era minha mãe. Curioso como as mulheres em situações difíceis se viram bem. Mais uma vez a minha família caiu, quem mais ajudou a subir foi minha mãe.
Na nossa família, quando entramos na falência em São Paulo foi minha mãe quem foi o alicerce. Depois quando estávamos em Suzano, meu pai fez faculdade de direito, trabalhava o dia todo e a noite ia pra faculdade em outra cidade. foi um batalhador.
Voltando, quando meu pai viu tudo destruído, colocou a mão na cabeça com aquele olhar desesperado, minha mãe e eu, reagimos de outra maneira, até brinco que, abrimos uma garrafa de vinho e falamos vamos reconstruir, pois a vida é sempre um recomeço. Hoje você está bem, amanhã pode ser que não, mas sempre lutando. Dessa forma, durante o dia eu trabalhava na hidroponia e, quando terminava o serviço, focava nos meus projetos, foi um período da minha vida que eu trabalhei muito.
Quando eu tinha 27 anos, conheci meu marido, ele era daqui de Campinas, nos conhecemos dançando em um lugar chamado Flor de Lis. Até hoje comento com ele: "Olha, aquele dia era para gente se conhecer mesmo, porque eu estava com febre”. Cheguei no portão de casa, parei o carro e falei: "Acho que não vou, não estou bem”. Pensei comigo: "Poxa, para trabalhar eu tive que ir, agora que eu vou me divertir eu não vou?!!" e resolvi sair.
Conheci meu marido nessa noite, namoramos 2 anos, na época ele trabalhava em São Paulo, então a gente se encontrava nos finais de semana, foi dando certo e com dois anos de namoro, resolvemos nos casar. Passando pouco mais de um ano, engravidei. Aconteceu após ir fazer um exame hormonal, com o meu ginecologista e ele pediu para que parasse de tomar o anticoncepcional por 4 meses, a gente aproximadamente 30 anos, e combinamos que se ficasse grávida, estava tudo certo, e foi assim.
Queria ter sido mãe até mais cedo, tive filho com 32 anos e já achava tarde demais, meu planejamento era ter filho com 24 anos, pois meu meu pai me teve aos 22 anos e achava boa essa idade, pois quando os filhos crescessem você estaria nova ainda. Mas na época, ainda quando não fazia faculdade, eu era muito caseira, muito de ficar com minha família, trabalhava junto com eles, viajava para praia, quando juntamos, nós quatro, era muita alegria, risada, curtimos demais, enfim, minha programação era junto com minha família e fui me desprender mesmo, quando entrei na faculdade.
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Mesmo assim fazendo uma reflexão, depois que crescemos e viramos mãe que vamos de fato compreender o que nossos pais fizeram de esforço para nos criar. Tem muitos filhos que não compreendem isso, porém para mim fez mais sentido quando virei mãe.
Na correria a gente imagina que não fez nada, não aprendeu nada, mas com o tempo percebe que foi aprendendo muita coisa com os pais. Minha mãe sempre foi muito rígida. Quando era pequena, não entendia porque minha mãe exigia isso ou aquilo de mim, achava muito dura, porém com o tempo fui percebendo que esse era o jeito dela de oferecer o melhor, era o amor como sabia dar, ela dava o seu melhor para mim e para toda minha família.
Retornando ao assunto gravidez, como havia falado parei de tomar o anticoncepcional e engravidei muito rápido, tinha 31 anos, minha gravidez foi ótima. Estávamos morando em um apartamento que o meu marido, no centro de Campinas, ficava mais próximo para viajar para São Paulo. Porém, planejamos mudar para uma casa e então começamos a procurar, nisso vendemos o apartamento, compramos um terreno e mudamos provisoriamente para a casa da minha mãe, então tinha um quarto com banheiro, separados da casa e lá que ficamos. Entretanto, com o passar do tempo, a gravidez evoluindo, minha mãe trocou, ou seja, mandou para casa dela e ela e meu pai foram morar nesse quarto com banheiro. Então pensamos em agilizar a construção da nossa casa para deixarmos meus pais mais confortáveis. Lembro que quando iniciaram as obras eu ainda estava trabalhando com a barriga grande, mesmo assim acompanhava a obra diariamente, sem falar que continuei ajudando na hidroponia, fazia entregas em Jaguariúna, em alguns varejões, era bem corrida minha vida, tanto que ganhei somente um pouco mais de 8 quilos na gravidez.
O ginecologista era muito amigo, fizemos cursinho juntos, na época ele brincava comigo e falava: "Um dia você será paciente minha". Eu respondia brincando: "Você está louco que vou ser paciente seu". Ele tinha razão, pois foi quem fez o parto do meu filho. Um detalhe curioso, foi que quando engravidei, eu não contei para ninguém, nem mesmo para o meu marido, fui contar somente no dia em que toda a família estava reunida para festejar o Natal. Então fiz a surpresa, peguei uma caixinha, coloquei o sapatinho e fiz uma cartinha. Na noite de Natal, todos os presentes ali e mais aquela caixinha. Após as trocas de presentes, sobrou a caixinha e falei: "Marido acho que aquela caixinha é sua", ele achou estranho, mas pegou, abriu e começou a ler, então começou a chorar e minha cunhada em tom de brincadeira disse: "Ela pediu o divórcio, não é possível!”, depois que contou foi aquela emoção.
As pessoas sempre nos perguntavam se era menino ou menina, até que um dia falei para o meu marido: “Ah, não quero saber o sexo do bebê. Então fui montando o enxoval bem colorido. Acompanhamos o desenvolvimento como teria que ser, fizemos os exames iniciais, inclusive não deu alteração na translucência nucal, nem nós nem o médico sabia que viria com síndrome de Down.
Ficamos sabendo somente quando ele nasceu. Depois do nascimento, estávamos esperando-o no quarto e nada de trazê-lo, ficamos agoniados e depois de um bom tempo, entrou uma pessoa no quarto e falou: “Olha, seu filho teve um problema, deu pneumonia, e encaminhamos ele para a UTI” e não deram nenhuma outra informação. Ficamos somente nós dois, eu e meu marido no quarto, passa um tempo e entra um especialista, depois entrava outro, e deixava algo no ar, seu filho pode ter algo diferente, isso foi nos deixando ansiosos, ficamos muito preocupados, pois toda a vez que abriam a porta do quarto falavam algo que ficávamos sem saber o que de fato se tratava.
Até que no outro dia, o meu médico veio conversar comigo e falou: "Olha, tem uma suspeita do seu filho, não é um consenso geral, que ele possa ter síndrome de Down”. Meu marido ficou em estado de choque por um tempo e, e eu mesmo com essa notícia, não senti algo ruim, muitas pessoas ficam em estado de luto, mas não foi assim comigo. Sou de uma família espiritualizada, tenho outra visão sobre a vida, sobre as deficiências e tudo mais, por isso acho que para mim não foi uma coisa pesada, porque eu compreendi na hora.
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Desta forma, desde que soube dessa suspeita, não fiquei questionando, chorando etc. Eu queria saber da situação e fazer de tudo para acontecer o melhor. A parte mais difícil disso tudo, foi quando tive alta, porém meu filho teve que ficar na UTI por mais um tempo por conta do tratamento, sai do hospital como entrei, somente com a mala que fiz para nosso filho! Isso foi muito difícil!
Chegar em casa de volta com a malinha, sem o filho não foi fácil, além disso, visitar seu filho duas vezes por dia na UTI, para amamentar e meu leite foi ficando “empedrado”, tive que usar aquela bombinha para retirar o leite e isso me machucava muito, sofria demais, porém ficava aliviada quando conseguia levar o leite para meu filho.
Até que um dia a enfermeira me falou: "Vamos pôr ele no seu peito" e ele conseguiu mamar. Finalmente, após 10 dias ele teve alta. Mesmo na alta ficava aquela conversa, tem ou não síndrome de Down, pediram para eu fazer o cariótipo para eu ter certeza, mas como foi um desgaste tão grande esses dias, falei: "Olha, se o meu filho não fizer o cariótipo agora e fizer depois, muda alguma coisa na vida dele?" A resposta foi: “Não”. Eu: "Então vamos esquecer que ele tem síndrome de Down, quero somente sair com ele e vivo do hospital, depois vejo o que que eu faço. Até porque antes dele sair fizeram um teste no ouvido e não estavam concluindo, percebi que durante o teste começaram a olhar, quase que dizendo, pode ser que ele seja surdo, enfim, eu só queria sair com meu filho no colo.
Depois dessa turbulência toda, respirei e comecei a buscar as informações, por exemplo, com três meses ele fez o cariótipo, por sorte a médica geneticista era muito boa. Ela foi super amorosa, ela era da Unicamp, então me falou: “Você vai fazer o exame, porém já começa a estimulação, pode ser no CESD” e completou: “começa a fazer estimulação precoce, até porque se não tiver síndrome de Down, ele não perdeu nada e, se tiver, já começou a fazer”. Fiz exatamente isso e quando confirmou que tinha síndrome de Down, fomos providenciar tudo o que ele precisava.
Foi quando começamos a levá-lo no Cesd (Centro Síndrome de Down), ficou dos seis meses até 2 anos, depois quando resolvemos mudar para os atendimentos em clínicas particulares e, esse tempo que ficava esperando-o, daria para escrever um livro. Conheci muitas histórias de pessoas com deficiência, muitas mães, muitas crianças e percebi que tivemos muita sorte de conhecer bons profissionais, desde a pediatria.
Isso tudo me ajudou a não ficar de luto com o nascimento do Rafa, percebi que não olhava aquelas crianças com deficiência com preconceito e por esse motivo, também não percebia os olhares dos outros para com meu filho, ou seja, a gente enxerga no outro aquilo que seu coração está cheio, então não sentia o mesmo peso que algumas outras pessoas carregavam por ter um filho com deficiência.
Eu falava para mim mesmo: "É só correr e fazer o que ele precisa. Esquece a síndrome de Down, pois isso pesa muito, acaba colocando um limite”. Lembro que nessas esperas nas recepções de várias clínicas, algumas mães falavam, meu filho não pode isso ou meu filho tem isso ou aquilo e eu sempre falava: "Esquece a síndrome de Down, olha para o seu filho, para o nome que ele tem, não fica focada na deficiência, corre atrás do que ele necessita".
Vivi com mais leveza a vida mesmo cada dia sendo muito desafiador, essa era a diferença. Os médicos e terapeutas comentavam isso comigo, ou seja, como eu conduzia a vida com mais leveza e, com certeza, por conta de toda a base familiar e espiritualista que tinha.
Quando o Rafa tinha 4 anos e meio, eu engravidei, porque sempre quis ter dois ou três filhos. Porém, aproximadamente 3 meses de gestação, no dia em que estava marcado para fazer os exames de rotina, comecei a sentir dores e tive um aborto.
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Foi assim, era noite e estava chovendo muito em Campinas, acabou força, alagou várias ruas, um caos. Porém como estava sentindo muitas dores o médico pediu para que eu fosse para o Hospital, dei entrada e não deram tanta importância para minha dor, liguei para o médico e prontamente pediu para que me deixasse em repouso. Quando eu já estava no quarto esperando o que que iriam fazer, comecei a ter hemorragia, nisso o meu médico chegou e fez um ultrassom. Me lembro enquanto me levavam de um lugar para o outro no hospital de estar um temporal, alguns lugares sem energia, estava um caos. Na minha cabeça, eu já tinha perdido o bebê.
Apesar de estar tranquila, era uma cena ruim, as enfermeiras trocando minha roupa e a roupa de cama, sujas de sangue, meu marido assim em estado choque, vendo tudo isso. Então eu conversando com a enfermeira disse: "Tenho quase certeza que estou perdendo meu filho." Ela respondeu: "Agora tem que fazer uma curetagem, para cessar o sangramento". Meu médico então, me levou rapidamente para o centro cirúrgico, pois o sangramento aumentava consideravelmente, percebi que começou a ficar mais tenso, entretanto naquele momento não tinha nenhum anestesista no hospital e por conta do temporal demorou para chegar.
Meu médico veio do meu lado, aproveitei e falei: "A coisa está feia, não é?! Ele não respondeu, mas percebi no semblante dele muita preocupação, porém estava tentando manter o controle, pensei comigo: "Agora eu vou!”, pois pensei que iria morrer!
Depois de todo o procedimento, que por conta da anestesia não vi nada, no dia seguinte estava no quarto e meu médico veio conversar comigo: "Ontem conversando com a enfermagem, elas acharam que você tinha provocado aborto” e logo pensei, por isso que ontem, após verem meu caso, senti um clima pesado com a enfermagem. E ele continuou: "Não, ela é minha amiga, ela quer muito ter um filho", explicando o caso para as enfermeiras. Após isso me disse que deveria ter recebido bolsa de sangue, de tanto que perdi sangue, entretanto ele achou arriscado e optou por ministrar ferro. Depois desse episódio, meu marido não quis mais ter filhos, então infelizmente o Rafa é filho único. Por muito tempo isso me doía muito, mas com o tempo fui aprendendo a aceitar o fato dele não ter irmão, pois não dependia só de mim.
Então depois do Rafa, parei de trabalhar, tinha em mente: "O dia que tiver um filho, vou parar de trabalhar, até que ele tenha 2 anos, depois eu retomo." Todavia, por conta da síndrome de Down, resolvi parar de vez para dar atenção que ele merecia e necessitava . Com 2 anos o Rafa foi para escola, pois os terapeutas entendiam como importante, lembro que no início ele ficava muito doente, até então ele nunca teve nada. Meu marido falava para gente tirá-lo da escola por conta das repetidas vezes que ficava doente, mas entendemos que só iria adiar esse processo, foi então que levamos ao homeopata e foi muito bom, reduziu muito o uso de antibióticos.
Até os 2 anos de idade, o Rafa nunca havia ingerido açúcar, refrigerante, porém na escola, mudou, pois sempre que tinha as festinhas de aniversário, havia refrigerantes, doces, salgadinhos e nunca proibi nada, seria ruim ele ficar excluído da festa. Porém até hoje a alimentação dele tem pouco refrigerante, não comer muito doces, não gosta de pirulitos, balas, isso também ajudou muito para a boa saúde dele.
Praticamente depois que ele saiu da pediatra, foi para essa médica que é otorrino e homeopata que cuida dele até hoje. Fui pesquisando, buscando congressos relacionados à síndrome de Down e, em uma dessas, inclusive conheci um geneticista que atuava com pessoas com síndrome de Down.
Com relação à inclusão escolar, tínhamos um grupo de pais que tinha um projeto de inclusão com profissional da educação e era levado para a escola para ensinar como adaptar conteúdo escolar e nós sempre conversávamos com a coordenadora, orientadora e com a professora. Então eu fui me envolvendo mais nessas áreas em que o Rafa precisava, como fonoaudiologia, pedagogia. Apesar de amar a Arquitetura, fui deixando de lado, entendi que estava acabando esse ciclo e que não conseguiria fazer bem feito as duas coisas, então parei de trabalhar e investir nesse caminho da Educação, comecei a estudar e ler sobre, inclusive algumas pessoas até pensavam que eu era fonoaudióloga e professora, achava divertido.
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Como disse anteriormente, nunca fiquei presa em um projeto. Alguns clientes diziam que eu era louca de abandonar a carreira, uma vez que tinha fidelizado muitas pessoas, tinha muitos contatos, então eu falava: “Só estou trocando o projeto, antes eu fazia casa, hoje estou com o projeto do meu filho”.
Não achava interessante deixar meu filho o dia todo na escola para eu ir trabalhar, por exemplo, tinha essa convicção e quem iria levá- lo para as diversas terapias. Escutava muitas mães com sentimento de culpa porque não conseguia tempo para ficar com os filhos. Tanto é que até o ensino médio, meu tempo era preenchido para atender as demandas dele, além da escola e fazia outras atividades, como por exemplo o Hip Hop, tinha muita tarefa escolar complementares que fazia. Ele terminou o ensino médio, em 2019.
Na época da escola, tinha somente o Rafa e uma criança com paralisia cerebral, em outra turma e, essa mãe também era muito dinâmica, ela era professora, então nos juntamos para sugerir mudanças em prol das pessoas com deficiência no ambiente escolar, foi uma fase de grandes desafios pois não é fácil a desconstrução das limitações da pessoa com deficiência. Fiz a jornada escolar ao lado do Rafa tendo que aprender para poder auxiliá- lo nos estudos e a criar material didático no concreto. Foi um tempo de grande aprendizado em todas as áreas da vida pra mim.
Depois que o Rafa se formou, veio a pandemia da Covid, como a vida tinha me ensinado a tirar algo bom de tudo, essa época foi mais uma que consegui viver sem aquele peso que a maioria sentiu. Aproveitei essa “parada” obrigatória para me dedicar mais a mim, comecei a pesquisar sobre essa parte holística, algo que me dava muito prazer. Eu fiz um curso de apometria online, durante um ano. Estudei outras coisas, como física quântica, epigenética, essas questões neurais entre outros assuntos correlacionados. Então surgiu essa nova fase, pois o Rafa não tomava tanto tempo como antes e comecei a me envolver com esses estudos citados, inclusive me conhecendo mais.
Outra atividade que fiz foi um curso de Reike, depois comecei a aplicar o Reiki no Boldrini, especificamente na parte da internação, vivenciei muita coisa lá dentro, como a realidade de outras mães de filhos com deficiência, a morte, enfim fui me reinventando e o mais importante, com muito amor e prazer. As pessoas se apegam muito na questão que trabalhar é só para pensar na questão financeira e, eu pensava para além disso. Curioso, como mudei tanto, tem uma Regina antes e outra depois da pandemia, como também antes de depois do nascimento do Rafa. Valorizo muito esse processo de crescimento, porém as vezes as pessoas não param para pensar e refletir sobre tudo isso.
A pandemia me trouxe muitas reflexões, por exemplo para o Rafa foi prejudicial, ele regrediu um pouco, para mim foi o inverso, consegui ter mais tempo para mim e pensar mais na minha vida, desacelerar. Inclusive agora no pós pandemia, muitas pessoas desaceleram por conta dessa parada, porém voltaram a entrar nessa vida acelerada e estressante novamente, ou seja, não conseguiram refletir. Percebo que aprendi a ver as coisas da vida com mais leveza, sou otimista, consegui seguir esse caminho.
Hoje tento ao máximo que consigo viver no presente, tudo do meu passado, eu tento não remoer mais, desapegar mesmo, me libertar do que passou. Porém, sem deixar de compreendê-lo. Por outro lado, se eu ficar pensando no futuro, posso ficar ansiosa, então trabalho para construir bem cada dia da minha vida, com isso meu passado será bom e o meu futuro vai ser ótimo, esse é o grande desafio de se viver!
Antigamente eu começava a pensar o que será do meu filho lá na frente, pois ele é filho único, minha família é pequena, o que será de nós? Quando você começa a fazer isso em qualquer aspecto, é horrível, porque a ansiedade fica exacerbada, ou quando começa a ver tudo que aconteceu e fica preso ao passado, pode vir a depressão. O mais difícil é viver o presente. As vezes falo para o Rafa, a gente só tem hoje, então vamos fazer bem hoje, com isso a sequência da vida vai entrando no eixo.
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Isso não significa que não devemos ter sonhos. Acredito que sonhar faz bem, é preciso ter objetivos na vida, mas tudo com muito cuidado para não aumentar demais a ansiedade. Aprendi assim, fazer bem feito o dia de hoje.
Despertei outros pontos que também gosto muito, por exemplo, gosto de estar com pessoas, sou do tipo de pessoa que uma tarde com uma amiga vale mais do que uma terapia. As vezes brinco com o psicólogo do Rafa falando isso.
As pessoas parecem que não se permitem mais a isso, sempre estão com tempo para o trabalho, para gerar dinheiro (necessário tb). Quando as pessoas perceberem que se separarem um tempo do dia de um fim de semana para não fazer nada, tomar café com amigos, entendo que não estarão perdendo tempo, terão um ganho enorme na qualidade de vida.
Então, prefiro dar um passo de cada vez, porque dessa maneira, vejo as coisas acontecerem e, se estiverem indo para um fluxo que eu acho que é bom, continuo nessa energia.
As vezes penso, nem sei se estarei viva amanhã. Então, porque vou ficar tão apegada ao futuro. Me preocupo mais com o hoje do que com o amanhã. Se der certo vai ser ótimo, então ponho energia positiva para dar certo e deixo fluir.
Para mim esse é o melhor jeito de se viver, ou seja, aquele que é bom para você. Escuto muito as pessoas dizendo: "Qual é a melhor educação, qual será melhor forma de educar?” Entendo que, se você está sofrendo, pode parar que está errado, agora se estiver feliz, independente do que os outros pensam, está correto.
Naquela época, em que eu era criança e depois adolescente, vivíamos com mais independência, hoje entendo que muitas coisas que fiz e errei foi por falta de experiência. Entretanto, não fico mais presa no passado, para não alimentar frustração, exemplo eu poderia ter sido isso e não aquilo, deveria ter feito isso ao invés daquilo.
Por isso me considero uma pessoa realista e otimista. Sempre fui responsável, pois tive que amadurecer rápido para dar conta dos problemas cotidianos, em algumas fases da vida do Rafa eu pensava, com essa idade dele o que eu estava fazendo. Tento recuperar um pouco daquela menina que fez pouca “meninice” porque teve que ajudar e respeitar as fases da vida da minha família.
Sou quem sou e cheguei onde cheguei graças à toda essa adversidade e desafios da minha vida. Sou muito grata aos meus pais por tudo.