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Meu nome é Patrícia do Carmo Pereira Ito e eu tenho 52 anos.
Sou mãe, sempre sonhei em ser mãe. Sou psicóloga, esposa. Eu nasci em Minas Gerais, no sul de Minas, em Andradas. Mudei para Campinas muito pequena, eu tinha 5 anos e meio. Meu pai foi transferido para cá no trabalho. Eu vim com a família, eu tenho mais duas irmãs, eu sou a filha mais velha, tenho uma irmã com idade bem próxima a minha, agora com 49 anos, e uma outra que é a raspa do tacho, que veio 10 anos depois.
E que eu ajudei a cuidar, minha mãe falava que parecia a minha boneca e da minha irmã. E aí eu cresci, junto a meus pais, sempre estudando em escola pública.
Na adolescência eu gostava muito de ler. Brincava na rua, até os 15 anos, ainda brincava na rua de queimada, vôlei, entrei na adolescência ainda brincando bastante. Gostava de dançar.
Com 15 anos, tive um primeiro namorado, fiquei um tempo, não deu certo. Aí depois eu conheci o meu marido, Hélio Takashi, começamos a namorar quando eu tinha quase 18 anos. Nossa, 35 anos atrás. Foram 10 anos de namoro.
Na época que fui escolher uma área de atuação, eu me identifiquei com a psicologia e comecei a trilhar o caminho. E aí comecei a faculdade de psicologia na mesma época.
Comecei a namorar com ele, eu estava para prestar o vestibular e aí a faculdade de psicologia demandava bastante. Era praticamente em período integral, então tinha aula de manhã e à tarde, eu me dedicava à faculdade, fiz os estágios na área hospitalar, escolar, em clínica, organizacional. Inicialmente eu queria trabalhar na área organizacional, mas não deu certo.
Fui trabalhar na área clínica, mas é muito difícil quando a gente não tem uma rede, pessoas que te encaminhe os clientes, praticamente pagava para trabalhar.
E aí conheci uma professora, pesquisadora que trabalhava na área de prevenção, psicologia escolar e avaliação psicológica. Comecei a fazer aperfeiçoamento, me encantei pela área de avaliação e a questão da prevenção, situação de risco e vulnerabilidade.
Depois do aperfeiçoamento fiz mestrado e doutorado na área da psicologia, tinha bolsa de estudo. Meu tema de trabalho era a questão do temperamento, investigando uma escala para avaliação do temperamento infantil. A pesquisa de doutorado foi sobre o temperamento de crianças gêmeas.
Depois que defendi o doutorado em janeiro de 2004, fui para o mercado de trabalho. Inicialmente dei aula na PUC e depois na FAM em Americana. Fiquei dando aula durante 7 anos no curso de psicologia, em disciplinas relacionadas à avaliação psicológica e depois à psicologia jurídica também.
Depois que comecei a dar aula e tinha estabilidade no trabalho começaram as tentativas para engravidar, foi um ano esperando a notícia da gravidez.
A gravidez veio naturalmente, foi uma gravidez muito planejada e esperada.
Dava aulas no período da noite e sábado, com o nascimento dos filhos, eles pequenos, eu pedi um afastamento sem remuneração, para me dedicar a eles, eu não estava dando conta de deixar os dois em casa para dar aula no período da noite.
O Felipe é o meu filho que tem síndrome de Down, ele está com 17 anos, cursando o 2° ano do ensino médio, participa do projeto de futsal down S21 da ponte preta, do projeto de basquete Updown. Ele é meu filho mais velho. Na época ele estava com 3 anos e meio quando a minha filha nasceu, a Isabela, ela agora tem 14 anos. Quando terminou a licença maternidade da Isabela fiquei mais um ano em casa, em 2012 fui nomeada para trabalhar no Tribunal de Justiça como psicóloga judiciária, tinha prestado o concurso em 2005, antes de engravidar do Felipe.
Continuo neste trabalho até hoje, embora seja uma área com muitas histórias difíceis, gosto do que faço e me sinto gratificada quando posso contribuir para que crianças e adolescentes tenham seus melhores interesses atendidos.
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Eu avalio que tudo aconteceu de uma forma muito certa na minha vida. Que Deus sabe o que ele faz. Porque quando eu me formei, eu não pensava em dar aula, eu tinha muita vergonha, não me via ali na frente dando aula.
Fiz o mestrado, doutorado, diante da dificuldade no mercado de trabalho, acabei entrando pra área acadêmica, me apaixonando pela pesquisa. Tinha vontade de caminhar seguindo o trilho da pesquisa, entrar numa universidade, seguir carreira acadêmica mas também não deu certo. Mas eu falo que Deus sabe o que ele faz, porque depois eu engravidei do Felipe.
E aí quando eu descobri que o Felipe tinha síndrome de Down, eu estava dando aula na FAM e trabalhava com uma professora que tinha dado aula para mim na faculdade, ela trabalhava com um grupo de pais de crianças com síndrome de Down. Quando eu recebi o diagnóstico, fui conversar com ela, participei da reunião do grupo de pais.
O fato de eu dar aula durante a noite, permitia que eu pudesse estar, cuidar do Felipe durante o dia, levá-lo para as terapias que eram necessárias. Então eu conseguia me organizar. Dava aula à noite e durante o dia conseguia levá-lo, estimulá-lo, levar para as terapias e estar junto com ele. Era uma coisa que eu não conseguiria fazer se eu tivesse numa organização, por exemplo, numa empresa ou trabalhando numa clínica.
Então eu tinha disponibilidade durante o dia para poder estar com ele. Repito, Deus fez tudo muito certo na minha vida. Ele trilhou um caminho que me permitiu estar presente e poder, no momento necessário estar ali, presente, maternando, cuidando e levando para as terapias e acompanhamentos necessários.
Eu sempre sonhei em ser mãe, de estar grávida. Eu curtia muito a minha barriga, os movimentos do bebê. É uma coisa que me encantava e que eu gostava muito de viver.
A gravidez foi tranquila, os enjoos no começo, que é natural. Com três a quatro meses comecei a ganhar um pouco de peso. Aí a médica falou assim: "Precisa dar uma maneirada. Não pode comer muita massa”. Porque depois daquela fase do enjoo, vem aquela fase que você quer comer tudo. E aí consegui estabilizar.
Quando eu estava com cinco meses, tive um aumento muito grande no líquido amniótico e a médica falou assim: "Olha, a gente vai precisar investigar porque deve ter alguma infecção, alguma coisa, porque seu líquido amniótico aumentou muito”. Fiz os exames para investigar diabetes, alguma possível infecção e não não tinha nada.
Estava tudo certo, então ela falou: "Olha, agora a gente precisa investigar um possível quadro genético, uma síndrome e vou te encaminhar para fazer análise genética”.
Com o coração na mão, com seis para sete meses, fui fazer o exame. Já começa aquele punhado de coisas na cabeça, começa a buscar na internet para ver o que pode ser. Fiz a coleta do líquido e o profissional que coletou falou: "Olha, vai aí umas duas semanas até sair o resultado."
E naquela angústia, não cheguei a compartilhar com os familiares. A única pessoa que estava junto ali naquele momento era meu marido.
Passou as duas semanas e nada do médico entrar em contato. Aquilo ia aumentando mais a minha angústia. Eu comecei a ligar, consegui falar no consultório e aí ele pediu para comparecer até lá.
Fui eu e meu marido e ele nos falou que o bebê, ele tinha um problema, que tinha síndrome de Down, que teria muitos comprometimentos, dificuldades e que se eu quisesse, ele poderia arrumar para mim retirar o bebê. E eu olhei para o meu marido e falei: "Não, não vai tirar é nosso filho"!
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Foram dois a três dias praticamente de luto, vivenciando aquilo sem falar para os outros familiares. E conversamos: "Vamos falar para a família agora." Nesse meio tempo, eu conversei com essa professora que trabalhava comigo, ela me tranquilizou, disse: "Não, Patrícia, não é assim, hoje em dia mudou muito, novas descobertas e conhecimentos, os recursos disponíveis, a importância da estimulação precoce, a inclusão. Eles são crianças como qualquer outra, com características individuais, que se desenvolvem, o importante é os estímulos e o carinho que eles recebem”. Cheguei a ir em uma reunião do grupo de pais de filhos com síndrome de Down que ela fazia parte do projeto. Conversei com outros pais e aquilo me trouxe um pouco mais de tranquilidade.
E aí compartilhamos com a família, fizemos um momento com a minha família, depois um outro momento com a família do meu marido. Ficaram assustados. Mas foi super bem recebido depois. Para meu pai foi difícil assimilar, ele era preconceituoso.
No começo ele falava: "Não, imagina, não vai ser assim, né? Não tem nada não." Falei: "Não, pai, é isso, não tem como mudar, né?" Então, foi um aprendizado para ele também.
Meu pai trabalhou muito, embora não tivesse nível superior foi promovido, progrediu no trabalho. Na infância e adolescência vivenciei momentos difíceis, meu pai faz uso de bebida alcoólica, ocorriam situações difíceis em casa motivadas pelo uso de bebidas alcoólicas.
Hoje ele mora em uma chácara, na divisa de Minas, e a gente vai visitá-lo ou ele vem para cá. Embora ele e minha mãe continuem casados no papel, cada um vive no seu canto.
Minha mãe mora aqui na cidade, o Felipe é o xodó dela. Nossa, é um amor enorme, é o primeiro neto, né? Eram três filhas. Meu pai sonhava muito em ter um filho. Ele tem carinho pelo Felipe, mas não é uma avô muito presente, ele mora um pouco distante, os encontros são em datas festivas.
Agora minha mãe já é aquela vovózona, sempre ali presente. A mãe do meu marido, a avó paterna também, está ali junto. Então, são pessoas próximas e que me ajudaram muito, quando a Isabela nasceu. Durante um ano elas ficaram em casa se revezando para me ajudar com o Felipe e com a Isabela.
Ele era pequenininho e eu era a pessoa de referência dele, era a figura de referência. Eu o levava para baixo, para cima, eu brincava… Eu queria muito fazer tudo com ele, brincar muito, estimular de todas as formas…
Então, quando eu descobri que estava grávida da Isabela, foi uma gravidez planejada também, a gestação aconteceu depois de um ano e meio. Eu falava para ele, que estava chegando um bebê, que ele estava na minha barriga e que era a irmãzinha dele, que ia se chamar Isabela.
O Felipe demorou muito para falar. Ele teve uma dificuldade muito grande na fala. Quando a gente soube que era uma menina, falamos para ele que ia se chamar Isabela. Durante muito tempo, ele passava a mão na barriga e fazia barulho com a boca, estalando a língua, significando que era a Isabela.
Quando o Felipe nasceu, eu estava com 38 semanas, e eu fazia muitos planos de ter um parto normal, depois veio o diagnóstico de que ele teria síndrome de Down, embora todos os exames indicassem que ele não tinha complicações de saúde, a obstetra não recomendava o parto normal.
Eu lembro que na época a gente estava terminando de construir uma casa. No domingo, meu marido estava finalizando a pintura do quarto do Felipe e eu lembro que fiquei andando pela casa, que é a casa onde moramos atualmente. E na segunda-feira eu acordei muito cedo, com a calcinha suja, e sentindo um pouco de contração. Aí eu liguei para a médica, ela falou: "Vem pro consultório para eu te examinar”.
Na hora de sair meu marido já falou: "Vamos levar a mala". Falei: "Não, que levar a mala, não está na hora ainda. Tem ainda duas semanas até chegar". Ele falou assim: "Não, vamos levar a mala." E aí a gente foi para o consultório. E aí chegando lá, a médica examinou e falou: "Você vai para a maternidade que o Felipe vai nascer, daqui a pouco eu vou para lá".
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E fomos direto para a maternidade de Campinas, a consulta tinha sido às oito e pouco. À uma e meia da tarde, Felipe nasceu por cesárea, porque eu não tive dilatação e a médica também não quis esperar. Mas, ele nasceu bem, com Apgar 9 para 10, chorando e super ativo.
Veio um médico pediatra, colocou o Felipe do meu lado, depois levaram ele para o berçário e eu fui para a sala de recuperação. Depois de duas horas eles trouxeram o Felipe para ficar junto comigo e para tentar pegar o peito. E aí foi muito difícil, pois ele começava a mamar e dormia. Eu tirava o leite e dava no copinho.
Depois de dois dias fomos para casa, em casa foi uma luta, porque aí eu não conseguia, eu tentava fazê-lo mamar, ele pegava o peito e dormia. Aí a indicação era tirar toda a roupinha e mexer no corpinho todo. Eu sei que foi quase um mês nessa luta.
Fomos à consulta com o pediatra depois de uma semana, ele avaliou e falou: "Olha, eu acho que nós vamos precisar entrar com o complemento." E eu falava assim: "Não, doutor, eu tenho muito leite, como que eu vou entrar com complemento". Ele falou: "Tá bom, então vamos tentar mais uma semana para ver se consegue amamentar e ele ganhar peso”. Porque ele não ganhava peso. E aí foi uma luta, tirando o leite do peito, dando no copinho, tentando dar o peito.
Depois de 15 dias a coisa começou a acontecer, ele começou a ganhar peso, mas muito devagarinho. E o médico falou: "Vamos entrar com complemento". Falei assim: "Não, doutor, eu vou conseguir". E eu sei que eu não entrei com complemento, conseguimos que ele ganhasse peso e se desenvolvesse bem. E ele teve o aleitamento materno exclusivo até o seis meses.
Ele era um bebê muito tranquilo, não chorava, a gente precisava acordá-lo a cada 3 horas para mamar. E ele mamava e voltava a dormir. Meu vizinho falava: "Nossa, nem parece que você tem um bebê em casa". Porque ele era muito tranquilo.
A minha rede de apoio era minha mãe, minha sogra e as minhas irmãs. Quando eu precisava, elas, a minha mãe ou a minha sogra, estavam sempre ali para me ajudar. Mas, em casa eu fiquei sozinha, eu queria cuidar dele. Chamava quando era necessário, quando tinha que sair ou que tinha alguma coisa para fazer e que precisaria de alguém para ajudar nos cuidados. Aí elas vinham.
Quando o Felipe era pequenininho, as pessoas não identificavam que ele tinha síndrome, porque meu marido é oriental. E então o olhinho puxadinho, eles atribuíam a questão do pai ser, de ter a descendência japonesa.
Logo que o Felipe nasceu, muito pequenininho, eu fui buscar atendimento na Fundação Síndrome de Down, mas falaram para mim: "Não, agora ele é muito pequenininho, curte o seu bebê, e volta quando ele estiver com quatro meses, mais ou menos. Quando ele completou 4 meses, como tínhamos convênio, optamos por levar numa clínica indicada pela minha amiga que trabalhava com o grupo de pais e aí ele fez as terapias. Fez fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, tudo nessa clínica.
O Felipe foi para a escola quando tinha dois aninhos. Quando ele estava com uns dois ou três aninhos, estava no colo da minha mãe ou em qualquer outro colo, comigo por perto, ele tinha um comportamento de arranhar o rosto das pessoas. Esse comportamento acontecia com as outras crianças também, principalmente quando eu estava junto, quando eu estava próxima dele. Começamos o acompanhamento com a psicóloga, então essas profissionais iam até a escola, conversavam e orientavam. Ele estudou em uma escola de educação infantil construtivista em Barão Geraldo.
Depois como a escola não tinha o primeiro ano, buscamos uma outra escola, procurei algumas e tive muita dificuldade. Buscava escola para os dois, pois a Isabela também estava na mesma escola e para mim seria muito difícil mantê-los em escolas diferentes, com horários diferentes.
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Quando eu dizia que eram duas crianças, as escolas eram super receptivas. Mas no momento que eu falava que era para a inclusão, aí diziam que precisavam ver se teria vaga, que só aceitavam uma criança por sala, que já tinham uma criança com essa demanda, então não sabiam se era possível.
Tinha uma outra mãe que frequentava a mesma clínica que eu e que a filha estava em uma outra escola em Barão Geraldo, fui até lá, fui bem recebida, me senti acolhida, então matriculei os dois lá. O Felipe voltou para o último ano da educação infantil antes de entrar no primeiro ano. Conversando com os profissionais que o acompanhavam achamos melhor, pois eram metodologias totalmente diferentes e depois ele seguiu com a turma. E assim a gente fez e foi muito bom para ele, vimos um salto muito grande no desenvolvimento dele.
Ele começou a reconhecer letras e a escrever o nome dele. Os profissionais que o acompanhavam iam todo ano fazer reunião, orientações na escola. E quando ele foi para o segundo ano, inicialmente a professora o recebeu super bem, mas quando as profissionais foram fazer a reunião, ela falou para as profissionais que aquela escola não era para ele. Ele ficava em período integral na escola e ela disse que aquela escola não era para ele, que ele precisaria buscar uma escola específica. Ela não falou diretamente para mim, mas ela falou para os profissionais que acompanhavam ele.
E os profissionais levaram isso para mim e aquilo pegou muito fundo. Conversei com a coordenadora da escola na época, a qual chamou a professora, que disse que tinha sido mal interpretada, que não era bem assim e que ela ia trabalhar com o Felipe. Fiquei muito atenta para ver se ele não apresentava nenhum tipo de resistência à escola, porque o Felipe sempre gostou muito de ir para a escola. Sempre gostou muito de livros, de caderno… O estar na escola para ele era um ambiente que o deixava feliz, ele vai com satisfação até hoje. Então o meu termômetro era ele, era verificar se ele começava a apresentar alguma demanda, aí a gente iria ter que tomar alguma providência.
A escola também ofereceu um professor de apoio para ficar junto com ele na sala e as coisas foram caminhando. No terceiro ano para a frente foi tudo bem, a professora que esteve com ele no terceiro ano teve uma postura totalmente diferente e ele foi caminhando na escola. Então, eu acho que essa professora do segundo ano, era uma pessoa com a questão do preconceito, que foi algo que sentimos bastante.
Quanto ao preconceito, lembro que uma vez fomos numa festa de aniversário de uma das crianças da escola, elas estavam brincando todas juntas, estavam atribuindo papéis para as crianças, as outras crianças receberam papéis “legais” e uma das crianças falou que ele ia ser o cachorrinho. Aquilo me incomodou muito.
Agora na adolescência a gente começa a ver o preconceito crescendo. A pandemia foi algo muito difícil, porque ele tinha um bom entrosamento na escola com os amigos, ele interagia, mas veio a pandemia justamente quando ele e os amigos estavam entrando na adolescência. E aí cada um na sua casa fazendo as aulas e quando voltou eles eram totalmente desconhecidos.
O vínculo que estava se construindo lá atrás acabou não se fortalecendo. Eles não excluíam o Felipe, mas não tinham a mesma interação, o Felipe deixou de ser convidado para as festas de aniversário. Na pandemia, quando às aulas voltaram, os colegas estavam em um outro momento e o Felipe no tempo dele. E então, isso dificultou, tem as questões relacionadas à sexualidade que também começaram a aparecer nessa fase.
O Felipe sempre foi muito afetivo, gosta de abraçar e beijar. Quando ele chegava nos lugares, ele queria cumprimentar, beijar e abraçar todo mundo, todo mundo. Na hora de ir embora, a mesma coisa. Quando veio a pandemia, foi muito difícil para ele assimilar que não podia mais ter esse comportamento. Ele ficou mais reservado.
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Após o retorno das aulas presenciais ocorreram três situações de preconceito, de questões relacionadas à sexualidade, em que a maneira como ele expressava sua afetividade foi interpretada como algo voltado para a sexualidade. Fui chamada na escola para conversar….
Numa das vezes a mãe de uma das crianças teve uma atitude que eu achei super inadequada, porque era um menino um pouco mais novo que o Felipe e que estava na sala da minha filha e que ele conhecia. Eles faziam inglês juntos. O Felipe fazia aula de inglês na escola junto com a Isabela, eles estavam na mesma turma. Fez a avaliação e acharam que o nível dele daria para estar junto com ela na turma de inglês. Então eles faziam o inglês junto e os amigos da Isabela estavam nessa turma.
O Felipe se identificou muito com esse colega da turma dela. E falava muito desse amigo e eu sei que o amigo deu o número de telefone, ele trocava mensagem e ele falava para mim que queria que o amigo viesse em casa jogar videogame. O Felipe nunca joga videogame, mas ele ouvia as conversas dos colegas. Na escola, esse colega devia falar que jogava videogame e ele fala assim: "Mamãe, eu quero que ele venha jogar videogame em casa". Falei: "Tudo bem, filho. A gente combina então para ele estar vindo".
Eu sei que eu cheguei até a entrar em contato com a mãe desse menino. Falei assim: "Olha, o Felipe quer que ele venha aqui em casa jogar videogame, ele quer brincar com ele". E a mãe falou que tudo bem. E eu sei que ficou da gente marcar uma data, mas não deu certo. Num determinado dia, o Felipe escreveu uma mensagem para o menino falando que gostava muito dele, que era para ele vir em casa dormir, para eles brincarem, jogarem videogame. E além dele escrever no celular, ele escreveu também num papel, entregou para esse menino e o menino deu para mãe que foi até a escola.
A coordenadora me chamou, falando que a mãe estava preocupada e que não queria mais que houvesse essa amizade. Que onde já se viu, que os jogos de videogame agora são todos online, por que o Felipe queria que ele fosse em casa para brincar. Ai meu Deus. Enfim. E aí eu sei que foi difícil. Eu tirei o menino do WhatsApp dele, expliquei para ele, falei assim: "Olha, filho, não vai dar mais para você brincar com ele, né? A mamãe dele não está gostando dessa interação". Eu não sabia nem como explicar para ele. Eu busquei então acompanhamento psicológico novamente para o Felipe, para lidar com as demandas relacionadas à adolescência e trabalhar a questão da interação social, o qual se mantém até hoje.
Ano passado um amigo que tem síndrome de Down, que faz futebol e basquete junto, veio pra escola, eles se conheciam de vista. Eu conheci a mãe, ela estava procurando escola, falei da escola do Felipe e este amigo também começou a estudar lá. Começaram a andar juntos e aí num dia, a coordenadora pedagógica me chama para conversar falando que eles estavam andando abraçados na escola. E aí eu falei assim, olha, é mais uma questão de amizade, não tem essa questão da sexualidade. Ela falou assim: "que entendia, mas que na escola ficavam preocupados com o que os colegas poderiam falar?" Enfim, e aí novamente orientei sobre a maneira de interagir com os colegas na escola…. então teve essas situações.
Como mãe de pessoas com síndrome de Down também passamos por situações preconceituosas. Já senti alguns olhares de piedade e alguns comentários como “Nossa, você deve ser muito especial para ter um filho com síndrome de Down.” Já ouvi.
Meu cotidiano é muito corrido. São dois filhos, né? Isabela e Felipe. A Isabela tem ciúmes do Felipe desde pequena. Ela, muito pequenininha, questionava: "Mas por que você sai tanto com ele e não comigo?” ou “Por que que a gente tem que ir com ele nesses lugares ?” Porque em alguns momentos ela me acompanhou nas terapias. Ela sempre achava que a atenção era maior para ele do que para ela. Aí ela foi crescendo, desenvolvendo e começou a ter as necessidades dela de querer fazer as coisas.
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Eu tenho uma rotina bem corrida, eu trabalho, e tenho que organizar a rotina para conseguir atender as demandas do Felipe nas atividades que ele realiza e a rotina da Isabela também, embora as demandas dela sejam menores, estou organizando a minha rotina de modo a realizar atividades junto com ela, estamos indo na academia.
Segunda e quinta são dias que eu tenho as atividades com o Felipe, que ele tem as terapias no CESD, então não dá para incluir outras coisas. E aí nos outros dias, terça, quarta e sexta, a gente tenta incluir as atividades com ela.
Para mim, especificamente, eu vou na manicure, no cabeleireiro e estou fazendo atividade física com eles agora. Mas é muita coisa, uma sobrecarga muito grande. Tem hora que eu penso que eu nem sei mais o que eu gosto. A gente acaba se perdendo no meio de tudo isso.
Meu sonho é ver eles bem, felizes, os dois. Que o Felipe consiga ter autonomia, fazer as coisas dele, ter uma vida feliz, que ele se sinta bem, produtivo, consiga ter as relações dele e que a Isabela, trilhe o caminho dela, seja feliz também. Eu acho que é isso.
E ter muita saúde, espero manter minha saúde física, mental e emocional para conseguir cuidar deles, porque é uma preocupação grande principalmente com o Felipe. Como vai ser o futuro, quando ele for adulto, quando eu não estiver mais aqui? Então, tenho procurado me cuidar para ficar bem.
Nós mães de pessoas com deficiência gostaríamos que tivessem espaços que pensassem no futuro dos nossos filhos, que favorecessem a questão dos nossos filhos estar, de poder interagir, de ter a oportunidade de mostrar quem eles são, de realizar as atividades, de se qualificar profissionalmente, de realizarem as atividades que eles gostam. Principalmente espaços para quando eles estiverem mais velhos, que eles possam estar e que tenham pessoas para dar o apoio que eles precisam, porque embora eu tenha família, a gente não sabe como vai ser o dia de amanhã.
E assim, a minha família não é muito numerosa. Eu inicialmente queria mais filhos, porque eu achava que seria importante ele ter mais irmãos para ter uma rede de apoio, tentei mais um filho, mas Deus não me concedeu. Eu tenho uma irmã que tem duas filhas, que são mais novas. A outra irmã não tem filhos. Meu marido tem só mais uma irmã que tem dois filhos também, que são uma filha da idade do Felipe e um filho mais novo, eles estão morando no Japão.
Mas, eu acho que é muito pouco, diante das demandas, das dificuldades que a gente vê na sociedade, dos preconceitos, e parece que está aumentando mais, parece que está ficando mais difícil. Então, eu acho que seria importante ter espaços, em que eles pudessem estar, que pudessem ajudar nesse sentido, pensando no futuro.
O Felipe é super dócil, carinhoso. Ele se desenvolveu bem, inicialmente se comunicava por gestos, demorou muito para falar. Tanto que a escola até achava que ele tinha autismo, porque ele começou a falar com 9 anos. Embora fizesse fono desde os 4 meses, demorou muito. E aí a fono, depois de muito tempo trabalhando com ele, fechou o diagnóstico de apraxia da fala. Hoje ele se comunica verbalmente, às vezes quando fala muito rápido é difícil entender, mas ele se comunica bem, se faz entender. Também está alfabetizado, lê e escreve.
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Na minha vida tudo foi muito planejado: casamento, as duas gestações e a terceira que não aconteceu. A gravidez para mim era um sonho, eu curti muito, eu gostava muito de estar barriguda, eu tinha orgulho, mas as duas passaram por momentos difíceis. O Felipe por conta do aumento do líquido amniótico, que proporcionou todo desenrolar depois, com o médico postergando o diagnóstico e depois dando de uma forma muito ruim. E da Isabela foi uma gestação planejada, foi uma fertilização. Mas, eu tive uma intercorrência, porque foram colocados três embriões, dois vingaram, só que um deles subiu para trompa, então eu tive uma hemorragia e com sete semanas eu precisei passar por uma cirurgia às pressas, quase morri eu e o bebê. Fui internada, precisei fazer uma cesárea, tirar a trompa e aquela luta para não perder o bebê, a Isabela. Então, foram momentos muito difíceis, embora planejados e em que eu gostasse de estar gestando, foram momentos difíceis. Mas, só me fazem valorizar ainda mais. E os dois são minha vida!
Entre os acontecimentos bons da minha vida estão meus filhos, eles foram muito desejados, meu marido, o meu trabalho que eu gosto muito do que eu faço e a minha família. Acho que é isso.