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Meu nome é Maria Inês Cidrim Righi, da Silva Cidrim de Solteira, e minha idade é de 60 anos. Acabei de fazer.
Eu nasci na terra de Caetano Veloso, Santo Amaro da Purificação, na Bahia. E, a minha família era uma família grande, éramos nove pessoas, meu pai, minha mãe e sete filhos. A minha infância foi a infância que eu não troco pela infância de ninguém. Foi aquela infância de brincar no chão, andar a cavalo, andar de bicicleta, desbravar cachoeiras, rios, enfim, foi muito boa.
Não tinha nada de cidade grande, de shopping, nada disso.. Era tudo muito simples, muita natureza, muita brincadeira na rua, com bola, com boneca. Então, foi uma infância muito gostosa. Eu e minha irmã mais nova, chamada Rosa, de vez em quando paramos para ficar lembrando, nossa, foi uma delícia.
Cidade pequena, não tinha violência, então a gente saía a hora que queria, e voltava na hora que queria. Foi muito boa. Eu fico com dó das crianças de hoje, pois tudo é feito dentro de casa.
E a vida da gente era uma vida simples. Minha mãe não sabia ler e nem escrever. Inclusive foi minha mãe que ficou comigo, cuidando de mim no período em que eu estava grávida. Eu tive problemas na minha gravidez, passei por uma cirurgia de cerclagem uterina, e depois da cirurgia foi necessário repouso absoluto. Eu estava com apenas quatro meses de gestação. E ela foi cuidar de mim. Neste período eu descobri que o sonho de minha mãe era assinar o próprio nome. Eu falei: "Mãe, a senhora não sabe ler e escrever?" Ela disse: "A minha mãe me tirou da escola porque disse que eu iria escrever cartas para o namorado e eu tenho essa mágoa, porque eu não sei assinar meu nome."
Aí, aquilo me marcou tanto. Falei: "Mãe, a senhora vai aprender a ler e escrever. Como a senhora vai ficar aqui comigo e teremos muito tempo livre devido o meu repouso forçado vai ser fácil. Então eu pedi para o meu marido comprar um caderno e uma cartilha de alfabetização, igualzinho à que eu tinha quando eu aprendi a ler. . A cartilha tinha as imagens e a escrita de cada imagem. Eu fui ensinando para ela, e antes de completar os nove meses de gestação a minha mãe aprendeu a ler e escrever.
Ela ficou comigo 5 meses. Como falei tive um problema na gravidez e tinha que ficar deitada. Minha mãe ficou tão feliz quando ela escreveu o próprio nome, sem precisar copiar de lugar nenhum. Já meu pai era uma pessoa simples. agricultor e eu tenho muito orgulho dele ter criado uma família inteira sozinho com o trabalho braçal na roça, literalmente braçal, porque ele plantava o dia inteiro, depois colhia e vendia na feira e criou nós todos desse jeito, sozinho, trabalhando sozinho.
E eles eram pessoas muito caridosas. Eu nunca lembro da minha casa ter só os sete filhos, sempre tinha dois ou três primos, sobrinhos junto com a gente. Então, a família era bem grande. E hoje todo mundo é casado, com muitos filhos. Então, a família hoje, tem mais de 50 pessoas, é uma família muito grande.
Com relação a minha adolescência, como a cidade era pequena, tinha que sair de lá para estudar, porque tinha estudado apenas até o fundamental dois, que era a antiga oitava série, depois a gente tinha que sair. Na minha cidade ainda tenho muitos amigos que cresceram juntos comigo, ou seja, todo mundo conhece todo mundo. Tanto que todos me chamam ainda de Lia, pois minha mãe me chamava de Maria, que era Maria Inês. Como as crianças pequenas não sabiam chamar Maria, me chamavam de Lia, e ficou Lia.
Meus pais não estão mais aqui, ambos já foram para o plano espiritual. Eles morreram velhinhos. Minha mãe tinha 88, meu pai tinha 87. Mas o legado que eles deixaram, foi muito bom! Eles ensinaram muitos valores e, cada um de nós temos o nosso livre arbítrio, né? Então, alguns filhos aprenderam O que eles ensinaram, outros não.
Percebo que principalmente minhas irmãs, ou seja, as mulheres aprenderam bastante. Eu tenho duas irmãs, o resto são todos homens. E a gente absorveu os valores que eles passaram, como por exemplo dignidade, respeito, honestidade, caridade. Meus pais eram muito caridosos.
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Já meus irmãos são completamente diferentes da gente, engraçado isso. Como eu falei, minha adolescência foi bem gostosa, eu sempre adorei crianças. Eu acho que é por isso que eu tenho tanto orgulho de ser mãe, porque eu nunca me vi sem estar cuidando de uma criança. Quando não tinha o que fazer à tarde, porque no interior tem aquele marasmo, eu e A minha irmã saía “catando” as crianças pela rua, eram os filhos dos vizinhos que a gente conhecia, a gente saia falando: "Deixa eu levar ela para casa".
A gente dava banho, matava piolho, cuidava muito bem e na época, minha mãe era costureira, fazia roupinhas, a gente pedia para minha mãe fazer roupinhas a mais. Então a gente vestia as crianças com roupas novas e aí “pegava” elas pela barriga, pois falávamos que tinha salada de fruta, frutas do quintal de casa, pois o quintal da minha casa era um grande pomar, tudo que você imaginar tinha no quintal.
Por isso que digo que a gente cativava as crianças pela barriga, entendeu? Porque a maioria era muito pobre, não tinha o que comer e então nós passávamos a tarde inteira cuidando das crianças dos outros. As mães destas crianças adoravam isso. Lembro que nessa época, eu e minha irmã, tínhamos por volta de 11, 12 anos.
Eu alfabetizei algumas crianças porque eu queria ser professora, eu achava a profissão de professor tão linda. Achava o máximo, sabe? Poder ensinar tudo, por isso tinha uma admiração imensa pelos professores. Eu falei: "vou ser professora".. Por isso, eu comecei a dar aulas de reforço escolar para aquelas crianças.
Algumas mães me procuraram, por conta da notícia que corria na cidade, as pessoas comentavam que eu estava cuidando e ensinando algumas crianças a ler e escrever, inclusive algumas dessas mães começaram a me procurar para ajudar os filhos que tinham dificuldade de aprendizagem na Escola, e, quando vi, estava com uma classe enorme. Na sala da minha casa, tinha uma mesa enorme, e agora estava lotada de crianças.
Estava dando muito certo, me empolguei tanto que até comprei uma lousa. Eu lembro que haviam dois “alunos” que me marcaram muito, eles eram gêmeos idênticos, eram Raimundo José e José Raimundo. Os meninos eram gêmeos idênticos e com esses nomes idênticos. Eu chamava um deles de Mundo e o outro de Zé e, eles eram terríveis. Ele falava assim: "Eu não vou fazer essa lição, com a cabeça baixa e com o lápis na mão". Eu fingindo que não estava ouvindo e o outro irmão repetia: “não faço também”. Pensei e falei: "É o seguinte, aqueles que fizerem a lição até a hora do recreio, tem manga, tem banana, tem laranja, tem mexerica e os que não fizerem não terão recreio. Então, quem agilizar vai comer, quem não comer depois do recreio, vai embora, sem comer nada. Um olhou para a cara do outro, e falou baixinho: “vamos fazer logo”. E desse jeito eu ia conquistando todos e, conseguia alfabetizá-los
Foi muito bom e quando chegou o final do ano as professoras da escola vinham me agradecer. Falavam: "Inês, o que você fez com essas crianças? Eles eram terríveis, não sabiam nada, não prestavam atenção e hoje eles pegaram gosto em aprender?!”.
Eu falei: "tem que ter jogo de cintura e porque uma professora com a sala com 30, 40 não daria conta mesmo, mas eu ali era 8, 10 “alunos”, ou seja, mais fácil.
Eu adorava ser a “professora” deles. Eu lembro que eu ficava com eles até umas 7 da noite, meu pai falava assim uma frase que nunca mais esqueci: " Deixa de ser boba, Inês. As professoras que ganham milhões e ficam somente 4 horas com eles e você não ganha nada e fica até as 7 da noite”. Detalhe, meu pai achava que o professor ganhava muito.
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Ficava até 7 da noite com esses meninos, mas é porque eu gostava, para mim não era sacrifício. E aí eu falei: "Pai, olha eles aprendendo a ler, escrever, que coisa linda". Aí meu pai falava: "E não é que eles estão aprendendo mesmo, porque chegavam bem arredios. E meu pai via quando chegavam e o progresso. Meu pai era meu fã, e eu continuava e falava: "Pai, vem aqui, vem ver eles escrevendo, olha isso aqui, ele não sabia nem pegar no lápis". Aí me olhava e dizia: "Gente, ele tá escrevendo e a caligrafia parece com a sua, que coisa linda!!!" Falava: "Então, esse é meu pagamento".
E aí meu pai entendeu, falando: "É, filha, é isso mesmo, a gente tem que dar o exemplo e fazer aquilo que a gente pode. Falei, não me custa nada pai, prefiro ficar ensinando as crianças do que ficar a tarde inteira de bobeira.
Sabe, eu sempre me vi rodeada por crianças, sempre, e quando eu conheci meu marido, nosso primeiro assunto foi adotar uma criança. Veja se isso é conversar com alguém que você acabou de conhecer?! Eu falei para ele: "Nossa, eu tenho vontade de adotar uma criança. Me veio essa necessidade de falar isso para ele." Ele respondeu assim: "Por que você acha que não vai poder ter filhos?" Eu falei: "Não, claro que vou poder ter filho. Não tenho problema de saúde nenhum, mas independente disso: "Eu quero muito adotar uma criança". Ele falou: "Engraçado, eu também tenho essa sensação".
Ele era separado e tinha uma filhinha de uns 3 ou 4 anos, com o nome de Marjorie. Quando o conheci, a Marjorie tinha uns seis anos. Ele falou: "Então, eu já tenho uma filha do meu primeiro casamento, mas eu também tenho essa necessidade, essa vontade de adotar uma criança". E ficou nisso, como se fosse uma conversa banal. Aí depois com os anos, não é que a gente realizou isso mesmo.
Então, a Jé e a Anne, o pessoal fala muito assim: "A, a pessoa com síndrome de Down é isso e aquilo". Eu falei: "Não são, cada uma de um jeito, porque eu tenho duas e elas não se parecem em nada, em absolutamente nada." E dizer assim, elas gostam disso aqui igual. Não. Uma gosta de chocolate, a outra gosta de café com leite, uma gosta de se vestir como perua, a outra gosta do basicão. Elas não se parecem absolutamente em nada, nem na alimentação. Uma adora macarrão, a outra arroz, feijão todo dia. Eu falo sempre: "Gente, não tem essa coisa de o Down é assim. Eles são como nós. Tem gente que gosta do azul, outro gosta do preto, eles são assim". E aí a Jé quando eu engravidei, eu engravidei, eu conheci o Cláudio lá em Salvador, ele era daqui de São Paulo. E eu tinha uma necessidade de sair da minha cidadezinha. Parece que era algo que me empurrava, porque se eu tivesse lá eu não iria conhecer o Cláudio.
Acho que algo me empurrava para ir para Salvador. E a gente se conheceu em Salvador. Ele foi fazer um lançamento da Margarina da Sadia, que ele era engenheiro químico na Sadia e, nos conhecemos no evento, pois na época eu trabalhava com eventos. Sabe aquela coisa de encontro de almas? Foi isso!
Foi muito interessante. Eu trabalhava com o chefe, e ele me falou assim: "Inês, amanhã eu preciso que você faça uma planilha com todo o cronograma do que vai acontecer durante o evento daqui até o final e por favor, coloque no envelope com a chave do apartamento e o crachá do funcionário. Amanhã chegarão todos os funcionários, ou seja, vem o pessoal de São Paulo e os revendedores de toda a Sadia do Nordeste. Então quando eu estava datilografando, nessa época ainda era máquina de escrever, vi esse nome e falei: "Nossa, que nome lindo Cláudio Rigue. Se eu me casasse com esse rapaz, olha que coisa, sem conhecer o Cláudio, iria tirar esse da Silva, que eu odeio e, ficaria mais chique, Maria Inês Cidrin Rigue, olha, fica até sonoro, ficaria perfeito.
E meu chefe falou assim: "Se você se casasse com esse rapaz, você iria tirar a sorte grande, porque é um ser humano maravilhoso, é meu melhor amigo, tem um coração enorme, a pessoa mais caridosa que eu conheço." Eu falei: " tudo bem, mas você está falando com seu amigo. Agora vamos que interessa, é bonito, pelo menos?. Ele disse: "Ele é bonito, tem olhos azuis, chama atenção." Eu falei: "Uau, já me interessei pelo seu amigo, é solteiro?" Disse: “Então ele é separado e a mulher é meio complicada". Eu falei: "Ih, não quero não. Homem separado é enrosco." E completou: "Tem uma filhinha". Falei: "Ixe, ainda vem com o kit, não quero." Mas isso só na brincadeira, nem conhecia o Cláudio, até então.
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No dia seguinte, quando Claudio chegou, era eu e mais três meninas que trabalhavam comigo. Ele veio na minha frente, eu estava de cabeça baixa, ele falou assim: Você pode ver meu envelope, por favor? Meu nome é Cláudio Rigue de Lima Júnior. Aí eu de cabeça pensei: "Não, meu futuro marido chegou." E quando eu olhei para ele, a gente ficou uns 5 minutos se olhando. Aquela sensação de que já conhecia há muito tempo, tanto eu como ele.
Ele falou assim: "Nossa, eu tenho a sensação que te conheço". Respondi: "Eu também". Ele falou: "Você já foi em São Paulo?" Eu disse: "Não." "E você já veio aqui em Salvador?" Ele falou: "Não". Falei: "Nossa, que sensação forte que eu já vi esse rapaz". Mas ficou nisso. Então no último dia do congresso a gente começou a conversar, éramos muito parecidos e aí a gente se apaixonou mesmo, aquela paixão fulminante, ele ia para Salvador direto no final de semana as vezes eu para São Paulo, então a gente casou.
Na verdade, a gente começou a morar juntos, não nos casamos e, quando estávamos há uns três anos juntos, eu engravidei.
Engravidei, nossa essa gravidez me fez mal, o médico falou para eu repetir o exame do ultrassom, mas não me falou mais nada, pensei: "Mas eu fiz ultrassom hoje, você está pedindo para fazer novamente daqui duas semanas?" Ele falou: "É porque já estará com quase oito semanas, é melhor". Respondi: "Está bom", e quando repeti o ultrassom, não tinha batimentos cardíacos.
Aí ele falou para mim: "Olha, Inês, não virou um embrião e explicou assim, sabe a galinha quando põe o ovo e o ovo não choca, não vira pinto. É mais ou menos isso que aconteceu com você". Então seu organismo mesmo vai expelir, vai abortar, porque não é um embrião.
Pensei: "Ai, meu Deus”, fiquei mal, meio depressiva por alguns dias, e falei: "E agora?" O médico falou: "Agora a gente vai esperar". Como vocês querem muito engravidar, se eu marcar para tirar, fazer uma curetagem, você vai ter que esperar no mínimo seis meses para seu útero voltar ao normal. Então o meu conselho é vocês esperarem que o organismo vai expelir.
E realmente aconteceu. No dia comecei com aquelas cólicas, sangramento e desmaiei umas três vezes. Meu marido perdeu a paciencia e falou: "Não, amor, vamos para o hospital, não vou ficar com você desmaiando aqui em casa. No ultrassom o médico disse: "Olha, você não perdeu completamente, não está inteirinho lá dentro só estourou a placenta, sangra muito, mas o feto está inteiro. O “ovo” está inteiro, a gente vai ter que tirar."
Então foi realizada a curetagem, assim esperei mais de um ano para tentar engravidar e mesmo assim não conseguia. Pensei: "A, seja o que Deus quiser." Um dia eu conversei com Deus, pedi para Ele com tanta fé, falei com Ele: "Deus, se você acha que eu sou merecedora de ser mãe, manda o filhinho para mim, eu quero tanto ser mãe, gerar um filho. Eu quero adotar também, mas eu quero gerar um filho. Depois disso, passa mais ou menos um mês, eu estava grávida. Eu tenho uma conexão com Deus que tudo que eu peço para Ele, acontece muito rápido, mas não peço bobagem.
Quando engravidei, eu lembro que falei: "Deus, como você me ouve?" Eu agradeci tanto a Ele. Aí aí engravidei. Então o fato da Jéssica ter nascido com síndrome de Down era um detalhe tão pequeno comparando-se com o fato de ser mãe, que para mim não teve importância nenhuma. Eu falei, é um filho que fui eu que gerei. Deus me deu essa benção. Por que que eu vou ficar falando, mas ela tem deficiência, para mim era um presente de Deus, independentemente de como viesse.
E aí quando o médico falou, olha, talvez ela tenha um problema, a gente está na dúvida, isso após o nascimento, pois na gestação, não houve desconfiança do médico. Porém eu tive uma premonição, sonhei que ela tinha síndrome de Down. Eu nem sabia o que era síndrome de Down.
Lembro de ter conhecido um menino com síndrome de Down, durante toda minha vida, até então, ele era cunhado da minha irmã, ou seja, minha irmã namorava o irmão dele. Lembro que era uma família grande, com 10 filhos e a gente conhecia os nove, menos ele. Um dia a sogra da minha irmã chamou a gente, que queria muito nos conhecer. Morávamos perto da casa dos pais desse rapaz e não conhecia esse menino. No dia em que fomos almoçar na casa dele, lembro que ele parecia com a Jé, assim pequeno, gordinho e lembro que ele acariciava nossas pernas.
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A gente era novinha, uns 17 para 18 anos e ele falava: "Você é gostosa". E eu achando bonitinho, engraçado até falei: "Nossa, ele é diferente, ele é engraçado. Eu nem sabia qual era o problema dele. Eu só o achava legal, e ele continuava: "Você é gostosa". E aí uma hora eu perguntei a idade dele, achava que tinha entre 10 e 12 anos. Quando foi falado a idade dele, lembro que deu um nó na minha cabeça. Pensei comigo, ele é um homem e ele está aqui passando a mão nas minhas pernas e a gente dando risada, mas ele tinha 33 anos. Depois eu não sabia mais como agir, sabe? Mas no fundo isso foi bom, pois passei a entender que tinha essa diferença e, me coloquei no lugar do outro.
Quando alguém olhava diferente para a Jé, principalmente e depois para a Anne, nunca passava pela minha cabeça que era preconceito. Eu pensava, podem estar olhando para ela porque ela é linda. Minha filha sempre foi linda, nunca ficava com o pé atrás, como acontece com a maioria das mães. Todo mundo era muito armado, algumas falavam: "Vai, fica olhando para o meu filho". Eu falei: "Você já parou para pensar que podem estar achando-o bonito, que podem estar olhando não por conta da síndrome de Down?."
E refletia com elas, às vezes é você que já está armada em relação às pessoas. E respondiam: "Nossa, nunca parei para pensar nisso". Falei: "É porque você já tem na sua cabeça, que só estão olhando a síndrome. Ele pode ser um menino esperto, inteligente. Por quê vão olhar só para a síndrome?
E é essa minha postura com o Grey, com esse menino com Síndrome de Down, cunhado da minha irmã. Um parênteses aqui, a família tinha nomes diferentes, era Gandhi, Latif, Grey. Essa minha postura com ele me fez bem por isso, porque eu não soube o que fazer e como agir. Então ninguém é obrigado a saber até você ter um filho ou um parente com a síndrome de Down.
Então quando as pessoas não sabem como agir, eu ensino a falar: "Não, pode fazer isso, eu vou dando uns toques, porque ninguém é obrigado a saber. Nós sabemos porque convivemos com nossos filhos. Isso foi me ajudando bastante e fui passando essas reflexões para outras famílias.
Quando eu estava grávida, lembrei do Grey, durante toda minha gravidez, e olha que fazia uns 15 anos que não via mais o Grey. Pensei: "Gente, por que que estou lembrando tanto daquele menino que tinha aquele probleminha?" Eu não sabia nem dizer o que que ele tinha. Falava probleminha. Então a noite eu tive um sonho, eu em trabalho de parto e o médico pegava o bebê e me mostrava. No sonho era a Jéssica, digo porque era um bebê ruivinho, com a linguinha para fora, o olhinho puxadinho. Eu falava: "Gente, o bebê é igualzinho ao Grey". Então acordei e pensei: "Será que o bebê vai nascer igual Grey? Por que eu tive esse sonho?"
Eu tinha pré-natal naquele dia, iria com a minha mãe, pois meu marido viajava muito, viajava na segunda e voltava à sexta. Na espera do consultório, na televisão, passou uma reportagem da APAE com aquele monte de crianças com Down e minha mãe falou: "Inês, por que esses meninos têm essa carinha tudo igual? Parece tudo irmão". Eu falei: "Mãe, é uma doença que nasce tudo assim com essa carinha". Olha a minha ignorância na época, não sabia explicar, não conhecia a síndrome e fiquei pensando: "Gente, é isso, a aparência deles é igualzinha à do Grey e do bebê que eu sonhei." Pensei: "Meu bebê vai nascer com esse problema e se nascer assim, nasceu".
Eu acho que Deus está me avisando, já me preparando como que vai ser. Naquele dia, na consulta, perguntei ao médico: "Doutor, tem alguma chance da minha bebê nascer com alguma deficiência, algum problema?" Ele respondeu: "Não, sua translucência nucal está normal, seus exames são todos normais." "Mas por que você está preocupada?" Eu falei: "É deficiência física que você tá preocupada?" Falei: "Não, é mental". Ele disse: "Não, não tem nada que justifique. Seus exames estão todos normais". Aí ele falou: "Mas mesmo assim se tivesse, daria tempo para fazer um exame que chama amniocentese, porém você já está com a gravidez bem avançada e teria que fazer nas primeiras semanas.
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Continuou explicando, é um exame perigoso, não é seguro para o feto, eu não gosto de fazer, mas digamos que a gente fizesse e que acusasse alguma deficiência, o que você iria fazer? Você iria interromper a gravidez? Falei: "Não, jamais". E o médico continuou: "Então esquece, não tem motivo para ficar preocupada". Porém, aquele rostinho ficou na minha cabeça. Falei: "Quando nascer eu vou olhar se era a bebê do sonho."
Quando Jéssica nasceu, era o bebê que apareceu no meu sonho, ruiva, com o olhinho puxado, igualzinho, com a pele bem rosadinha. Falei: "É o bebê do meu sonho", eu entendi a mensagem, pensei: "Deus estava me preparando já para recebê-la". Porém os médicos não desconfiaram, já eu, tive certeza na hora que ela tinha aquele problema, não sabia exatamente o que era, mas sabia que ela era igual ao Grey, eu ainda nem sabia nada sobre a síndrome de Down. A metade da equipe médica ficou desconfiada e a outra metade tinha certeza de que ela não tinha síndrome de Down. Até porque o Apgar dela foi muito bom, foi 9,5, mas ela tinha os traços, características compatíveis com a síndrome de Down.
Quando tivemos alta do hospital, eles falaram da possibilidade: "Mas a gente não tem certeza, tanto que não colocamos nada na alta, mas sugiro fazer o exame com um geneticista, para vocês terem certeza." Na hora eu pensei, acho que essa médica nem sabe o que está falando, nem tem certeza, está muito vago. E meu marido todo preocupado, na cabeça dele, ele achou que como eu estava ainda naquele cuidado excessivo com o bebê, achou que eu não estava preparada para receber uma notícia dessa. Na verdade, era ele que não estava, mas no fim ele tirou de letra.
O Cláudio era assim, se eu tivesse com a unha encravada, ele falava: "Vamos logo pro médico", porém ele nem tocou no assunto, achei estranho. Passando um mês, eu falei: "Amor, e aquele exame que o médico falou, a gente não vai fazer para ter certeza se o bebê tem aquilo lá ou não". Ele: "Você quer fazer agora? Eu falei: "Lógico, vamos, já perdemos tempo demais". Na época morávamos em Belo Horizonte e lá ninguém sabia dar informações sobre esse exame. Ligava para saber se tinha que fazer jejum, se era exame de sangue, se era um raio X, se eu poderia amamentar antes, enfim, eu não sabia como era feito o exame. Foi difícil, diziam-nos que tinha que falar com o médico.
Então resolvemos que deveríamos ir para São Paulo". Meu marido então ligou para a empresa que ele sempre trabalhou, a Tetrapac, e disseram que em Campinas tem um ótimo geneticista, “olha que coisa, a gente venho fazer aqui". Foi excelente.
Ele disse: "Olha, o bebê realmente tem síndrome de Down." E continuou falando tudo sobre a síndrome, os cuidados que a gente tinha que ter, deu uma apostila sobre a periodicidade de cada exame e frisou: "É um bebê como qualquer outro vai fazer birra, vocês têm que ter pulso firme, tem que educar como educaria qualquer bebê, não tem que deixar fazer tudo porque tem síndrome de Down, esses conselhos foram importantes. Eu já ouvi relatos dele horrorosos, mas conosco, acho que Deus baixou ali e foi ótimo.
Depois disso, voltamos para Recife, e o Cláudio falou e agora? eu falei normal, é nossa filha, é como se não tivesse nada, então agora vamos ver o que ela precisa, fomos buscar terapias.
Passaram 5 anos, a Jéssica fez o aniversário de dois anos, outra coincidência, em Recife, ela chegou com um ano e pouco e fez o aniversário dela lá, porém como ela ainda não estava na escola, e então não tinha amiguinhos, eu não queria fazer uma festa para adultos, porque na empresa só tinha adultos. Aí eu falei: Pensamos então onde que a gente iria fazer a festa de aniversário. Como não conhecíamos quase ninguém, falei, "Já sei." Eu vou fazer em um orfanato e depois de uma pesquisa, achei um orfanato bem grande. Tinham 100 crianças nesse orfanato. Então fizemos a festinha dela de dois aninhos lá. De fora convidamos três famílias que eram amigas nossas. Foi a festa mais linda que eu já fiz para ela!
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O que eu iria gastar com buffet, investimos em comidas, animação e brinquedos. As brincadeiras foram pensadas de um jeito que todas ganhassem um brinde. tinha prêmio do mais para o mais rápido, para o mais devagar etc. Lembro que a gente levava o carro cheio de brinquedos e voltava para pegar mais. E as crianças se divertiram muito!
Quando a Jé tinha 5 anos, nesse mesmo orfanato, tinha uma bebê com síndrome de Down para ser adotada, que coisa, como Deus age na minha vida. Naquela semana uma amiga me ligou cedinho, a gente tinha uma ONG que chamava “Hora da Notícia” para ajudar as mães. Geralmente os médicos não sabem como falar e isso choca muito os pais.
Então nosso objetivo era tirar esse impacto inicial, porque pode influenciar no comportamento dos pais em aceitar ou não, eu achava essa palavra aceitar tão pesada que quando alguém falava: "Nossa, que bom que você aceitou bem". Eu sempre respondia: "Gente, não existe isso, de aceitar, pois é filho e para mim não existe opção, isso soava muito duro, pesado, por isso não gosto dessa palavra: aceitação. Então conheci muitos pais, por exemplo, uns mentiam e falavam ele não tem nada, apesar do médico já ter falado. Outros achavam que os filhos ficariam curados daquele problema, ou seja, muitos comportamentos e tudo se agrava da forma como era dada a notícia na maternidade. Então esse grupo surgiu para ajudar a dar essa primeira notícia, sem causar impactos negativos.
Então, tinha uma ONG que a dona era uma holandesa, chamava Carolina, a gente fazia palestras com profissionais da área. E em uma dessas palestras, a palestrante falou algo relacionado com: “nossos filhos deficientes” e estava do lado de uma amiga e perguntou: "Inês, nossos filhos são deficientes?" Falei: "São, aí ela olhou assim, falou: "Nossa, é pesado isso, né? Falar que eles são deficientes. Falei, Bonete, a nomenclatura é o que menos importa, as nomenclaturas já foram mudando ao longo da história, até crianças defeituosas já foi utilizado, o jeito de falar pode ser mais bonitinho ou menos bonitinho, porém se você vir seu filho como indivíduo, independente do que falam, não vai mudar nada para você. Aí ele olhou para mim e falou: "É, você tem razão." Falei: "Deixa o pessoal botar nomenclatura que quiser." Eu achava esse trabalho maravilhoso. Eu amava ir à maternidade dar a notícia.
Lembro de um caso que me marcou muito. Tinha uma mãe com um menino com síndrome de Down, o Igor e mais três. E aí o Igor tinha síndrome e Down e ela que era muito “armada”, ela dava aquelas resposta áspera para as pessoas e eu me divertia, falava: "Fátima, menos, fica menos armada, mais calma". Ela respondia: “não tenho paciência, não sou como você, não tenho sangue de barata".
Em um certo dia ela me ligou: "Inês, preciso da tua ajuda", na Vila Militar, onde ela morava com o marido que era da Aeronáutica, tinha um hospital e neste tinha uma menina com 18 anos que acabara de ter um bebê com síndrome de Down, engravidou do namorado e ela está desesperada. Inês, estou com medo dela entrar em depressão profunda. Ela só chora, se questiona, briga com Deus. E a mãe dela, que é a avó do bebê, está mais desesperada ainda, pois a filha e o neto estão nessa situação. "Você não poderia conversar com ela?" Eu falei: “Claro Fátima, o caso dela é urgente, por quê você não foi lá ainda? Ela disse: "Eu já tentei, mas ela disse assim: "para você é fácil, pois tem três filhos normais e só um com síndrome de Down". E eu que é meu primeiro filho?
Como você só tem a Jéssica, você parece mais com o caso dela. Por coincidência tinha sido o dia das mães e eu pedi para o meu marido fazer uma apresentação em PowerPoint e levei para esse encontro. Tinha também separado um monte de fotos e aproveitei e levei também. Chego lá e a menina estava até com rosto inchado de tanto chorar, desesperada, imagina, com 18 anos e abandonada pelo namorado, quando viu que o menino nasceu com síndrome Down. Triste pois antes de saber, quando viu que estava “grávido” e que era menino, ele foi com o pai dele todo orgulhoso para o hospital, entretanto, sumiu quando percebeu que tinha síndrome de Down e mais, falou que não queria saber dela.
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Então comecei a conversar com ela e me perguntou: "Você que tem só uma filha com síndrome de Down?" Eu falei: "Tenho." E ela disse: " e como que é? Aí ela foi perguntando e eu falei: "Elen estou com um monte de fotos de mães com crianças com síndrome de Down, deixa eu te mostrar." Quero que você olhe nessas fotos se tem uma mãe triste, com raiva, brigando com Deus? Essas crianças são presentes para nós. Você vai amar tanto seu filho, que vai odiar esse tempinho que perdeu aqui com essa tristeza, porque é um amor tão grande. Ela olhando para mim e, eu falava com muita emoção e perguntou: "Nossa, sério?" Eu falei: "Você vai ficar com tanta raiva de ter perdido esse tempo todo com bobagem?" e ela continuou: "Ela andou com quanto tempo?" Ela vai para escola. Eu disse: "Olha, a Jéssica nunca sofreu preconceito nenhum, nunca. Se eu disser que alguém olhou torto para ela ou discriminou, mentirei. Sempre olham ela e dizem, que menina linda, que cabelo lindo, como ela é carinhosa. Nunca falaram nada de negativo e você vai perder esse tempo sofrendo por algo que não vai acontecer? Continuei: "Olha, ela foi para escola com três anos, porque eu queria que ela andasse. Jéssica andou com dois anos, mas andava e ainda cambaleava um pouquinho, então não, vou mandar pra escola quando ela tiver pelo menos andando bem"
Então só não foi antes na escola por insegurança, por ela já tinha ido antes. Foi a melhor coisa que fiz, pôr na escola cedinho, incentivei outras mães a colocarem, ela é muito paparicada que as vezes tenho que brigar com a escola para não facilitarem para ela, pois é a tendência, deixa que eu levo mochila, deixa que eu faço isso. E já é esperta, ela sabe o ponto fraco das pessoas e abusa. A Elen escutava tudo e dava risada, para resumir, fui embora com ela dando risada e fazendo até piada com a síndrome de Down.
Antes de sair a mãe dela chegou e viu ela rindo, olhou para mim, não entendeu nada. Você que é a Inês? respondi: "Sim". Ela disse: "Nossa, a Fátima fala tanto de você". brinquei: "Fala coisa boa ou coisa ruim?" Ela: "Não, só coisa boa." Conversamos mais um pouco e antes de me despedir falei: "Elen, pode me ligar a hora que quiser, qualquer dúvida estarei à disposição, quando puder vai em casa ver como é o a rotina da Jéssica. E o Iago, filho com síndrome de Down da Elen, tinha problema cardíaco e por isso estava na incubadora, longe dela. Mas continuei falando coisas boas, disse: “O Iago vai ser uma criança como outra qualquer, vai fazer birra, vai te usar para conseguir as coisas, vai usar síndrome de Down para deixar você mais flexível” e ela dava risada, então nos despedimos e ela disse: “que alívio conversar com você”. Foi muito bom, inclusive a mãe dela me ligou à noite chorando aos prantos de alegria de ver a mudança da filha!
Esse é o trabalho que fazemos com muitas mães. O mais marcante foi a Elen, de desesperada que estava, virou minha melhor amiga. Tínhamos um núcleo de amizade muito grande no Recife, porém meu marido foi transferido para Campinas.
Mas antes disso tenho outra parte da nossa história, que é muito marcante, quando seis amigas me ligaram naquela semana para falar da Ane. Falaram assim: "você sabe que tem um bebê foi abandonado com síndrome de Down?”
Ao saber isso, me deu uma dor tão grande no coração. Eu imaginava se fosse a Jéssica abandonada, sozinha, no orfanato, ficava pensando se ela estivesse sem carinho, sem amor, sem estímulo, do jeito que ela é meiga, sensível, como ela iria sofrer”, comecei a sofrer por aquele bebê. No dia seguinte, outra mãe, me ligando para falar desse bebê e eram mães que nem se conversaram, ou seja, nada combinado.
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Até que a sexta pessoa que me falou, era uma amiga que morávamos no mesmo prédio, a gente fazia caminhada no calçadão na praia todo dia, eu deixava a Jé na escola e já ia caminhar. Ela trabalhava com adoção internacional. A Lu falou assim: "Inês, hoje vou naquele orfanato que você fez aniversário da Jéssica, fiquei sabendo que tem um bebê com síndrome de Down e vou pôr na lista para adoção internacional e me perguntou: “você não adotaria?" Respondi: "Lu, você é a sexta pessoa que me fala desse bebê essa semana, isso não é normal". E ela: "Jura?" Completei: "Ó, fulano já falou, sicrano já falou". E agora você".
Quando ela falou, “você adotaria?”, pensei e falei: "Eu adotaria". Com empolgação ela me olhou e disse: "Jura?!" completei: "Eu não sei se o Cláudio topa, mas eu adotaria". E a conversa continuou: "porque você já tem uma e já sabe como é". Falei: "Quem não tem não adota, porque tem medo, medo do desconhecido, não sabe como agir, o que fazer. Mas a gente que conhece, sabe que não é esse bicho de sete cabeças”.
Mas antes vou falar com Cláudio. Ela disse: “Inês, então eu nem vou pôr ela na minha lista de adoção por enquanto e você conversa com o Cláudio então” Como não queria conversar com o Claudio por telefone, esperei ele chegar na sexta-feira. Então quando ele chegou, falei: "Amor, vamos adotar um bebê". Foi desse jeito nossa conversa. Ele: "Adotar um bebê, você sempre quis casar e falava que queria ter seis filhos. E nessa época, minha sobrinha morava conosco, a Marjorie, filha dele do primeiro casamento, vivia mais em casa do que com a mãe, apesar de ela morar em São Paulo, qualquer brechinha, o Claudio comprava passagem e ela vinha.
Então daqui a pouco ela tem os seis filhos que ela quer tanto quer. E perguntei novamente: "Você adotaria, amor?" Ele: "Mas por que você está falando isso?" Respondi: "Porque estou com muita vontade de adotar” e não dei mais nenhum detalhe nesse dia. Ele falou: "Eu sei que é um sonho que você tem, eu também sempre pensei em adotar um filho”. Inclusive quando nos conhecemos, conversamos sobre isso, não é mesmo?” Então respondeu: "Vamos, eu topo". Então completei: "Mas pode ser com síndrome de Down?" Ele: "Com síndrome de Down, mas por quê você quer um bebê com Down"? Eu falei: "Porque já existe esse bebê com síndrome de Down e eu quero muito adotar, sabe, estou sofrendo com isso." E contei toda a história para ele, abismado ele falou: "Nossa, amor, que horror, como é que a mãe consegue abandonar um bebê com síndrome de Down?"
Claudio então compartilhou do mesmo sofrimento meu. Ele disse: “Agora sou eu que estou sentindo essa angústia aqui no peito. Vamos fazer o seguinte, você vai lá, conhece o bebê, se tiver aquela empatia a gente adota. Você tem todo o meu apoio, porém você sabe que o trabalho é todo com você, por conta da minha rotina de trabalho.” Eu: "Isso eu tiro de letra, onde eu levo uma, levo duas, essa será a diferença. Levarei para escola, terapias, porém em dose dupla". Respondeu: "Então marca com a Lu." Respondi: "A Lu falou que se eu for com ela no orfanato, precisa ser na terça-feira, pois é dia de visita". Ele: “Certo, então combina com a Lu e vai”.
Costumeiramente como ele viaja às segundas-feiras para trabalhar, começou a me ligar. “E então, já foi? Eu: “Calma, tenho que ver meu horário com o da Lu, tem terapias demais e no horário que a Jé está na escola é horário que a Lu está no juizado”. E ele: "Amor, faz o seguinte, pega um táxi, vai sozinha mesmo, chega lá e conversa com eles do orfanato.” Falei: "Nossa, amor, é verdade, não vou ficar esperando a Lu não". Tomei um banho, me troquei, avisei a Rosa que trabalhava lá em casa, detalhe, tinha uma moça que trabalhava comigo que era excelente, era uma mãe para a Jéssica. E falei: "Rosa, se eu não chegar até 11 horas, você me liga para lembrar que eu tenho que buscar Jéssica na escola, porque eu começo a conversar e posso perder a hora". Ela: "Ok, tudo bem".
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Estou no elevador e nesse momento a Lu apertou o interfone e falou: "Eu iria na tua casa para te levar no orfanato agora", pois apareceu uma brecha aqui e o juiz desmarcou comigo. Falei: "Nossa, Lu, eu estava indo sozinha porque estava difícil conciliar nossos horários”.
Chegando no orfanato, procuramos a diretora para ver o bebê, ela falou: "Vou buscá-la no berçário. Nesse tempo fiquei lembrando do que me falaram que a Anne era linda, então eu imaginei parecida com a Jéssica, estava viajando no pensamento, quando chegou aquela bebê tomada por feridas, ela tinha ferida no corpo inteiro, ela não conseguia manter a cabeça ereta, com a barriga enorme, a língua para fora. Então pense em um bebê feio! Então perguntei: "Não tem outro bebê com síndrome de Down aqui? Enquanto eu pedi para pegá-la no colo, pensava, fizeram propaganda enganosa, disseram que era um bebê lindo, e cadê?!!
No momento que peguei ela no colo para brincar, lembro que ela gritou de dor e quando eu olhei a solinha do pé estava em carne viva de ferida. Um parêntese: “A Anne tem um limiar de dor lá em cima, fico pensando o quanto, naquela época ela estava sentindo dor!”
Nossa, me deu uma coisa tão ruim que comecei a querer chorar, mas me segurei. Perguntei: "O que que ela tem, pois há ferida no corpo inteiro, por que rasparam a cabeça e passaram esse produto violenta na cabeça toda? “Ela me respondeu: “Então, a gente não sabe, o juizado obrigou, veio uma intimação para gente levar ela no dermatologista”. Eu perplexa perguntei: “mas porque, vocês não estavam cuidando dela, para o juiz obrigar, por uma liminar, a levá-la no médico?!”
Continuei a indagar: “E o que que o médico falou?” Ela: “o médico mandou comprar um remédio, mas aqui é muita burocracia para liberar a verba”. Eu: "Então vocês não estão usando nada, a menina está sem tratamento, quer dizer, vocês fingiram que cumpriram a ordem judicial e não cumpriram nada, porque só levar no médico não adianta, se não tratar e, se eu comprar o remédio?" Ela respondeu: “Se você comprar seria ótimo, você pode ajudar?” Eu: “Posso, pega a receita lá que eu compro”.
Porém ninguém sabia onde estava a receita e a menina queimando de febre. Então nada amistosa falei: “Ela está com febre”. Ela: "A moça que trouxe ela do berçário, falou que levaria aqui no postinho, aqui mesmo dentro do orfanato, porém ainda não levamos porque ela tinha essa visita. Eu: "Quer dizer que a visita é mais importante do que a saúde da criança?!"
Então perguntei onde era esse postinho que eu mesma levava, mas aquilo foi me dando uma angústia, um sentimento ruim. Eu falei para minha amiga: "Lu, o podemos fazer por essa menina, do jeito que ela está sendo tratada aqui, ela vai morrer”. Fiz questão de falar na frente da diretora do orfanato. Então vem uma moça, até então eu não sabia quem era e falou assim: "Essas crianças com essa doença, com Síndrome de Down morrem cedo, não vingam não". Quando ouvi isso me deu uma raiva, como poucas vezes eu tive e eu falei: "Como você fala uma coisa dessa?!! Eu tenho uma filha com Síndrome de Down em casa e fique sabendo que ela não pega nem resfriado, tem a saúde melhor que a minha” e continuei, sem deixar ela falar: "Então vocês estão esperando que ela morra, por isso vocês não estão fazendo nada? Realmente o juiz está certo em obrigar vocês a cuidarem dessa menina.
Virei para minha amiga e falei: “Lu, o que posso fazer para tirar essa menina daqui o mais rápido possível, eles estão esperando-a morrer!” Então a diretora falou: "Não, isso não". Eu falei: "Minha senhora, depois de tudo que ouvi, vou esperar o que desse orfanato?" Então ela saiu sem graça sem falar nada e perguntei para a moça do orfanato: "Quem é essa mulher que falou esse absurdo?" Ela respondeu: “Essa é a médica do orfanato”. Abismada, falei: "A médica?!"
Então fica ainda mais preocupada e assustada, pois se a médica fala isso, o que eu posso esperar desse lugar. Isso aconteceu rápido e então parecia que Deus estava agindo ali. Nisso a assistente social e a fonoaudióloga, eram as duas únicas pessoas legais daquele orfanato, decentes, que realmente gostavam das crianças. Então a fono falou assim para mim: "Inês, eu tenho aniversário hoje com a esposa do juiz que faz adoção, que é do juizado da infância e da juventude. Esse casal tem cinco filhos adotados e mais dois biológicos, eles partem do princípio de que o lugar de uma criança é num lar, independente se está em processo judicial ou não. Então, se tiver um lar que possa acolher, eles preferem dar a guarda provisória a deixar no orfanato." Então, se você quiser, posso falar com a Tereza para ela tentar agilizar esse processo. Respondi: "Mesmo que não quisesse, agora quero, porque não tem como eu virar as costas e deixar essa menina aqui sozinha, abandonada desse jeito". Ela disse: "Então, vou falar com ela". Mas do que depressa falei: "Mas eu quero que tirar ela daqui o mais rápido possível, porque eu sei que a guarda demora e a adoção demoram, mas preciso tirar essa menina o mais rápido daqui" Ela: "Tem um projeto de apadrinhamento, que se chama projeto Estrela Guia, foi a própria Teresa que criou, onde você pode apadrinhar e pegá-la nos finais de semana. Respondi: "Quero levar ela para a minha casa, tirar ela daqui". Ela falou: "Então é esse de final de semana". Eu falei: "Ok, por favor conversa com ela". Amanhã você me liga.
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No dia seguinte, liguei e ela disse: "Inês, ela falou que se você for hoje no juizado, com essa documentação, ela autoriza o apadrinhamento hoje mesmo”. Mais do que depressa liguei para o Cláudio, ele ainda não tinha viajado e disse: "Amor, você já está no avião?" Ele disse: "Não, eu vou viajar no final da tarde.” Falei: "Não, remarca para o final da tarde que você precisa ir lá no comigo". Ele: "Ok combinado".
Enquanto eu esperava-o, providenciei toda documentação necessária, então nos deram o apadrinhamento. Naquele dia, eu contei tudo sobre o orfanato, dizendo: "Só que tem um detalhe, eu não vou devolvê-la, não vou ficar com ela somente sábado e domingo, ela vai ficar comigo até ficar boa. Ela respondeu: "Um momento, vou pedir para o meu marido assinar uma autorização para você ficar com ela o tempo que você achar necessário, até restabelecer a saúde". Conseguimos então que a Anne ficasse em casa mais ou menos por um mês e, nesse tempo, ela não tinha mais nada.
Mas para a Anne ficar boa fiz o seguinte, liguei para pediatra da minha filha, a Dra. Juliana e contei tudo sobre a Anne. Porém já ciente do que poderia causar a presença da Anne no consultório particular, liguei antes e expliquei como ela estava, ou seja, se quando eu levava a Jéssica que parecia uma princesinha que só andava arrumada, eles olhavam e tiravam o filho de perto, imagina com a Anne que é preta e toda cheia de feridas?!!Eu disse: você sabe que com minha filha eu tiro de letra, mas se olhar torto para Anne só pela cor da pele, o bicho vai pegar”. E a médica me respondeu: "Inês, vou dizer que eu tenho uma cirurgia de urgência, você pode trazer a Anne que não terá ninguém". Falei: "Ótimo, Ju".
Quando ela viu a Anne, olhou para mim e falou: "Nossa, Inês, ela tem sarna, só que não cuidaram e infeccionou, então, ela vai ter que tomar antibiótico”. Detalhe, ela estava tendo febre todos os dias. Disse assim: "Eu vou dar um antibiótico e você vai usar esse sabonete e esse shampoo específico, também vai deixá-la o dia inteiro só de fralda, deixar a pele dela respirar. Tem tapetinho emborrachado em sua casa?" Falei: "Tem”. Ela continuou: “Então deixa ela só neste tapetinho para ela aumentar a tonicidade, pois ela não consegue nem manter o tronco ereto. Ela tem que pegar a firmeza e tem que aprender a te olhar no olho”.
Por ter levado a Jéssica em muitas terapias, eu conhecia muita coisa de estimulação, com sons, movimentos, bola enfim, então com cuidado fui fazendo alguns exercícios em casa com ela, pois ela ainda não podia sair de casa ainda para não contaminar ninguém. Separa tudo dela, fervia a roupa, passava com ferro bem quente, enfim todos os cuidados necessários, eis que depois de quatro dias, ela não tinha mais nada, a pele limpinha, não tinha mais febre, conseguiu manter a cabeça erguida e se sentar, eu ficava o dia inteiro com ela. Lembro que um dia meu marido brincou: "Jéssica, você perdeu seu trono, agora mamãe arrumou um brinquedinho novo e dava risada".
Você acredita que ela andou mais cedo que Jéssica, mesmo sem ter feito fisioterapia, conseguiu andar com 1 ano e 7 meses.
Estávamos muito felizes com essa evolução da Anne, porém ainda não tinha saído a guarda. Então fui falar com o juiz que a gente iria entrar de férias e teria que devolver a Anne para o orfanato. Falei: "Doutor, por favor, deixa a gente levar ela, vamos ficar 30 dias viajando, passaremos em São Paulo para visitar a família do meu marido, depois vamos para Bahia visitar minha família". Ele: "Não pode porque a guarda não saiu ainda, e caso der algo e vocês não adotarem, ela estará com um vínculo muito forte com vocês. Falei: "Mas ela já tem vínculo com a gente, ela fica mais em casa que no orfanato". Apesar da minha insistência, não teve jeito, ele não liberou. Apesar de contrariados, tivemos que devolvê-la para o orfanato. Nossa, sofri tanto e ficava com aquela angústia no peito. Nessas férias eu e o Claudio, fomos para o Chile, a Jéssica ficou com a minha sogra e minha cunhada em São Paulo, entretanto já no Chile, minha angústia só piorava. Falei: "Amor, tem alguma coisa errada." Ele disse: "Vamos ligar para São Paulo, ver se está tudo bem". E fizemos isso, minha cunhada disse: a Jé foi no Play Center, está se divertindo muito, inclusive mandou algumas fotos, como na época não tínhamos celular, as fotos chegaram via fax. E aí eu falei para ela: "Dê, mas estou com uma sensação tão ruim, está tudo bem mesmo, ela está dormindo bem, comendo bem?” ela respondeu: “Vai aproveita, faz uma segunda lua de mel” e deu risada.
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Bom como estava tudo bem com a Jé e minha angústia não passava, pensei comigo é algo com a Anne. Então liguei para Recife e me disseram que ela estava bem. A moça do orfanato até me disse: “Ela está no tapetinho que a senhora trouxe, conforme recomendou. Eu comprei um tapete igual que tinha lá em casa, aqueles de EVA, que encaixa um no outro. Assim reforcei: “Não quero ela no berço, deixa ela ficar no tapetinho para trabalhar a tonicidade, assim ela não fica muito deitada”. Mesmo depois de falar no orfanato, a sensação ruim só piorava, tenho uma intuição muito forte, algo me dizia que tinha coisa errada.
Depois de dois dias, chegamos em São Paulo, pegamos a Jéssica e a Marjorie, filha do Claudio, e já voltamos para Recife. A Marjorie queria conhecer a Anne, de tanto que falava dela. Falei para ela: "Marjorie, ela é tão linda, ela é toda gordinha, toda fofinha”
Antes de buscá-la no orfanato, liguei para avisar e pedi para deixar a Anne pronta. Eu falei: "Por favor, dá um banho nela, deixa ela pronta que eu vou pegá-la para ficar aqui com a gente". A moça falou: "Não, (ela chamava Anne de Jojô, era Joseane o nome dela antigamente), a Jojô está internada em estado grave no hospital”. Interrompi e mais do que depressa falei: "Não, ela não está não!!, Liguei há dois dias e falei com a Inalda, diretora, ela falou que ela estava brincando no tapete”. Ela: “Não, tem mais de 10 dias que eu não vejo ela por aqui, não sei nem se já não morreu”, bem assim a mulher falou!
Aquilo me deu uma angústia e comecei a chorar, mas antes eu já tinha perguntado no orfanato em qual hospital ela estava. Na hora liguei para o Cláudio, eu falei, Ela disse: "Ah, não sei não." Eu falei: "Então passa para Inalda". Porém nem ela e nem a fono, a Adélia, não tinham ido esse dia. A Elizabete, que era uma das que eu gostava, estava de férias, ou seja, só tinha essa moça e ainda por cima não sabia informar. Então, em um tom mais firme, falei: “Vou fazer o seguinte, vou ligar no conselho tutelar e eles vão descobrir para mim, porque se o orfanato só tem você e você não sabe dar uma informação básica. Ela assustada respondeu: “Não faz isso”. Eu: "Vou esperar 5 minutos e se não retornar para dizer pelo menos o nome do hospital, o conselho tutelar vai descobrir." Rapidamente ela retornou: “Ela está no hospital Osvaldo Cruz". Respondi: "Está bom". Liguei no 102, descobri o telefone e o endereço. Liguei e fui que ela estava no isolamento, então pedi para falar com a médica, que me atendeu e disse: "Nossa, até que enfim alguém que se importa com essa menina".
Então a médica contou que internaram ela, largaram ela sozinha e foram embora. Ela disse: "Aqui é um hospital público, é obrigado ter um acompanhante, não temos enfermeiro para ficar cuidando e continuou, o caso dela é grave, ela está com varicela, e infelizmente ela não está reagindo aos medicamentos. A gente já mudou de antibiótico, ela simplesmente não reage e a psicóloga acha que ela não quer reagir, ou seja, está entregue.
Quando ela me disse aquilo, acabou comigo. Fiquei com tanta raiva daquele juiz na hora. Expliquei para a médica: "Olha, estamos em processo de adoção dela, por enquanto somos apenas padrinhos, então o juiz a liberou ficar 15 dias, um mês, mas ainda não podemos ficar definitivamente com ela. Posso visitá-la? Ela disse: "Pode, não deve! Ela está largada aqui, depois que o Hospital brigou com orfanato e ameaçar que ela seria devolvida mesmo doente, eles mandaram uma acompanhante, entretanto ela fica lá fora fumando o tempo inteiro, nem entra no quarto. Tem uma mãe que vem visitar outra criança internada é que cuida dela, liga para gente”
Mais do que depressa, me arrumei, liguei para o meu marido, ele já tinha deixado a gente em casa e tinha ido trabalhar e falei: "Amor, vamos no hospital". Fomos eu, ele e a Marjorie, chegando lá, foi o pior quadro que eu já vi na minha vida. Aquela filha doentinha que eu conheci no orfanato, era fichinha perto do estado que Anne estava, nossa, tive que controlar para não ter uma crise. A médica, muito prestativa, veio conversar conosco: "Olha, ela não está reagindo à medicação, a gente acha que ela é HIV positiva." Falei: "Não, não é, ela tem três exames HIV negativos”. Ela: "Jura, colhemos material, mas demora para sair o resultado, isso já nos dá um alívio, pois desconfiávamos que ela não tinha anticorpos e por isso a imunidade era muito baixa. O histórico da mãe dela, você entendeu?”
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De acordo com essa sua informação que passei, estavam achando que a falta de motivação era o grande problema para não estar reagindo bem ao tratamento. Como a Anne se alimentava e tomava os remédios via soro, ela ficava amarrada. Perguntei a médica se poderia desamarrá-la, então ela tirou tudo, eu a peguei no colo. Ela me agarrou no pescoço e encaixou as perninhas em mim, parecia um pedido de socorro. Ela não me soltava, aquele abraço apertado e eu fazia carinho nela, com lágrimas nos olhos. “Calma, mamãe está aqui, você vai ficar boa, a mamãe te ama, foi o juiz que não deixou você ir, a gente queria muito te levar, mas não pudemos, mas agora você vai ficar bem.
Ficamos assim, abraçadas e conversando um tempão, olhei a minha volta e todos chorando. A médica disse assim: "Está na hora da medicação". Eu: "Pode dar medicação com ela aqui no meu colo?". E ela fez a medicação com ela abraçada em mim. Falei: "Olha, não pode coçar". Ela estava com um aninho ainda, porém eu conversava com ela explicando, que estava amarrada para não tirar o medicamento, por isso que não poderia coçar. Ela olhou nos meus olhos e sorriu. A médica depois me falou que achava que o retardo mental por conta pela Síndrome de Down era muito acentuado e por isso não reagia por nada. A médica disse: "Meu Deus, ela é bem esperta, ela tem um olhar vivo, aprende as coisas rápido, ela estava sem motivação para reagir. Nisso ela começou a sorrir, me olhava, começou a mexer nos brinquedinhos que tinha no berço. Ela: "Nossa, é outra criança, gente, olha como o amor é tudo!"
Pronto, ela foi reagindo, perguntei: "Posso voltar amanhã?" Ela disse: "Volte a hora que você quiser" e completou: “Vou deixar liberado aqui para visita, então venha a hora que você quiser. Eu vou até liberar a acompanhante porque não estava adiantando nada".
No outro dia liguei para dizer que estava indo e aproveitei para perguntar como ela tinha passado. Animada, ela disse: "Ela teve alta, a melhora dela, a partir da sua visita foi surpreendente. Ela se alimentou, não precisou mais de soro, não teve mais febre, está atenta, espertinha, tomou banho, e continuou: "Porém a gente não pode te entregar porque o foi o orfanato que deu entrada aqui, por esse motivo somente um funcionário do orfanato que pode vir buscá-la na alta." Falei: "Não tem problema, passo lá, pego uma funcionária e vamos pro hospital". Fizemos isso então, depois desse episódio a Anne voltou para o orfanato. Mesmo assim, fui até o juiz e contei tudo. Nesse período ele tinha agilizado o processo e enfim nos informou que a guarda havia saído. Ela tinha nessa época, um ano e um mês.
Então festejamos, foi muita alegria. Passando um ano, mais ou menos, eu estava na médica da Jéssica, a Dra. Juliana, que agora era médica das duas, para consulta de rotina, Juliana falou assim: "Inês, a história de vocês é assunto lá no juizado, o pessoal está chamando você de Santa Inês, eu dei risada e falei: "Santa Inês! Olha é a primeira vez que eu tenho o título de Santa”. Ela: "Pois é, todos te conhecem lá por causa da adoção da Anne" e completou: "Que bom que vocês adotaram rápido". Respondi: "É, mas não adotamos ainda, temos somente a guarda, estou aguardando o juizado nos chamar". Ela disse: "Não, eu estava conversando ontem com a Teresa e ela me disse que vocês já fizeram a adoção, espera". Aí ligou para Teresa e ela falou: "Tem certeza que não saiu a adoção?" Falei: "Tenho absoluta certeza". Ela disse assim: "Amanhã você estará aqui para resolvermos essa questão".
Liguei para o Cláudio: "Amor, a gente vai ter que ir ao orfanato, eles tinham certeza de que a gente tinha já a adoção. Então entrou no sistema e me deu um número do processo e falou: "Inês, você vai na sala de processo, pede essa pasta e já desce para sala de audiência que meu marido estará aguardando vocês". Fizemos do jeito que ela explicou. Chegando lá, quando a gente vê o tamanho da sala e quantidade enorme de processos, lembro até hoje: rosas de um lado e azul do outro lado. O responsável foi tirando as rosas uma por uma, olhando os nomes e perguntou: “Como é o nome dela mesmo?” “Joseane Lima dos Santos”. E ele foi tirando, tirando, pensei, perderam a pasta dela, eis que a última pasta era a dela, pensei se fosse por ordem que estavam as pastas, a Anne seria adotada com uns 20 anos.
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Então com a pasta conosco, fomos até o juiz, ele começou a nos falar todos os prós e contras da adoção, educadamente falei: "Doutor, não precisa ficar falando, a gente já sabe." E ele repetia: "Tem certeza?” “Eu tenho". Ele puxava o papel para assinar e, “pensaram direitinho, com calma, ponderando tudo?” Eu: "Pensei, doutor, me dá esse papel aqui” e quando íamos assinar, ele puxava o papel novamente e nos indagava, dizendo: “olhem bem, depois não tem volta, não aceitamos devolução”. Eu: "Fica tranquilo doutor" e finalmente assinamos.
Percebemos que o juiz estava mais emocionado que a gente. Disse: “Meus parabéns, vocês são corajosos”. Eu falei: "Não é coragem não, doutor, já temos uma e, se a gente que já sabe, não fizer, quem que vai fazer?" Ele disse: "É, tem esse lado, mesmo, mas vocês já sabem que não é um bicho de sete de cabeça”. Brinquei: “Então, quem cria uma cria duas”. Na saída ele foi apresentado a gente para um monte de pessoas. Acho que é por isso que o pessoal do juizado já conhecia a gente, ele já tinha falado que tínhamos uma filha com Síndrome de Down e estávamos tentando adotar um bebê com síndrome de Down. Depois desse dia a Anne nunca mais saiu de casa, a casa é ainda mais feliz com ela.
Falando em Anne, hoje ela é muito esperta, muito. Você não pode fazer nada na frente dela que ela observe e daqui a pouco ela está fazendo igual. Ela ensinou a Jéssica muitas coisas. Às vezes a Tânia, quando alguém está fazendo algo errado perto dela, ela brinca e fala: “Ih bebeu foi?!” e a Anne ouviu uma vez ela falar isso. Quando ela percebe que faço algo errado ela logo fala: “ihh, mamãe bebeu?!” Então tem que tomar cuidado no que vai falar perto dela.
Falando dos dias atuais, minha rotina está bem complicada porque o meu marido faleceu em 2021, por conta de um câncer no peritônio, então sou eu e as duas meninas. O Cláudio, depois do diagnóstico, sabia que o tempo dele era breve, porque o câncer já estava com metástase na pleura, quando não têm metástase fica somente no peritônio, tem mais chance de cura. Faz-se uma cirurgia aberta e uma quimioterapia com ele aberto e aí você queima todos os tumores. Porém, como o dele já tinha dado metástase não tem cura, faz somente os cuidados paliativos.
O médico tinha calculado seis meses de vida para ele, mas ele nunca me falou. Somente depois que ele morreu, a minha irmã falou, que o meu cunhado tinha falado para ela, ele falou só para o meu cunhado e pediu para ele não falar para mais ninguém. O Cláudio era uma pessoa muito para cima, nesse processo, ele foi de uma resignação incrível, a gente sempre foi espírita, com isso ele fez muita cirurgia espiritual, o que o ajudou muito. O médico falava: "Cláudio, eu não sei o que você está fazendo, mas continua, porque eu nunca vi ninguém estar tão bem com o problema que você tem”. Ele não emagreceu, não caiu o cabelo, tinha disposição física, eu só achava estranho, pois quando tinha uma data comemorativa, ele falava: "Consegui participar dos 15 anos da Anne!" Eu: “Claro amor, é claro que você conseguiria!”
Depois teve o aniversário de 18 anos da Anne e a formatura dela. A Jéssica já tinha se formado, pois ela é 5 anos mais velha que a Anne, elas estudavam no Rio Branco. Então eles fazem aquela festa de nono ano, parecia que era uma formatura da Universidade. Como sabíamos que a chance das meninas terem outra formatura era remota por conta da deficiência intelectual, por mais que tiveram estímulos, não conseguiram se alfabetizar. Eu falei: "Olha, o limite delas é esse, então, não adianta querer que elas façam o Ensino Médio, depois uma Faculdade, somente para dizer que fizeram, por isso investimos nessas formaturas.
Então respeitando o limite de cada uma, depois do nono ano, tiramos da escola e fomos procurar algo para elas fazerem e preencher aquele tempo. Nessa pesquisa decidimos que elas iriam fazer o EJA, sala de jovens e adultos. Acertamos, foi a melhor coisa, porque quando elas entraram na sala E viram que a maioria tinha Síndrome de Down, ficaram muito felizes. Quanto a nós, ficamos mais felizes ainda. Foi muita sorte a nossa, na classe tinham somente quatro senhoras, o restante tinha Síndrome de Down, então ela me falou: "Mamãe, que legal aqui”. Percebi que elas estavam vibrantes e empolgadas. anteriormente, quando ainda estavam na escola regular, cursando o ensino fundamental II, a Jéssica sempre perguntava se poderia faltar, muitas vezes chorava, implorando para não ir para a escola. a atitude delas hoje em relação à escola é completamente diferente. Elas amaram o EJA desde o primeiro dia e para completar a nossa felicidade, a professora é maravilhosa.
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Ficamos muito felizes, pois elas tinham uma atividade prazerosa e não ficariam em casa somente no tablet ou celular. Minha rotina é assim, eu as levo para escolas no período matutino e elas ficam até dez horas da manhã, voltamos para casa, faço almoço, depois do almoço elas têm as atividades. Elas fazem aula de artes no atelier da Fundação Síndrome de Down. Fazem curso de teatro profissionalizante e natação. um detalhe que me preocupa é que o curso de teatro tem duração de três anos e meio e falta apenas um ano e meio de curso. Já estou imaginando o sofrimento delas quando chegar ao final deste curso, pois elas amam fazer teatro. O curso é muito bom e é o único teatro profissionalizante para pessoas com deficiência aqui em Campinas, os professores de teatro são maravilhosos. Eles tentaram fazem com que a Unicamp implementasse esse curso, mas não deu certo, diante disso, eles resolveram abrir uma turma de teatro profissionalizante para pessoas com deficiência. Deu tão certo que já estão na segunda turma, minhas filhas amam este curso!!!
Elas já fizeram quatro peças de teatro e é incrível como elas incorporam o personagem, enfim se encontraram no teatro. Já estou imaginando quando acabar esse curso, porque não é uma terapia que você pode levar a vida inteira, é um curso que tem começo e fim. Enfim, as meninas têm bastante compromissos.
Eu realizo muitos trabalhos no Centro Espírita, aliás trabalho em três centros diferentes, a maioria online para não ter que sair de casa e deixá-las sozinhas. Mas dois são presenciais, um deste, os encontros são aos sábados, então, eu as levo comigo. Na quinta à noite eu faço um trabalho voluntário no centro espírita que atende pessoas com depressão, fazemos “passes” com magnetismo e tem ajudado muita gente. Considerado esse trabalho lindo, é muito gratificante ver a evolução, comparar como chegam e como estão agora. E nesse vou sozinha, elas já ficam jantadinhas, deitadinhas para dormir. Falo: "Mamãe, vai lá, mas já volta". Geralmente quando volto, já estão dormindo. Então é uma rotina pesada, porque eu só não trabalho quinta-feira, nos outros dias da semana eu trabalho, inclusive sábado e domingo.
Sábado na evangelização infantil e domingo no tratamento espiritual dos animais, ambos são online. Sem contar o tempo dedicado para leitura dos livros de Chico Xavier, então não paro, porém sempre me organizo para encaixar nas atividades delas. Outra coisa importante é estudar o evangelho no lar, ou seja, eu leio e depois explico de uma forma que elas entendam, uso exemplos práticos, do cotidiano, sobre caridade, respeito, de acordo com o tema que estudamos. Às vezes a Anne fala: "Mamãe, aquilo lá ele fez errado, não é?" Eu: "Isso mesmo, não pode fazer isso não."
Então minha prioridade são minha família e meu trabalho e, quando sobra um tempo eu me arrumo, me cuido, tenho que me policiar, por exemplo, eu preciso fazer pilates, por conta de problemas sérios na coluna, como hérnia de disco e tudo mais. Penso: "Vou deixar as meninas na escola e aproveito o tempo e vou para o Pilates", porém lembro de tudo que preciso fazer, arrumar a casa, ir ao supermercado, tenho que fazer conta disso aqui, enfim, com isso vou deixando meu tempo para depois, então tenho que pôr na minha cabeça que preciso ter um horário para mim.
Uma atividade, que é rotina, dentro do meu horário é marcar com algumas amigas para almoçarmos, uma vez por mês. A gente cuidava de uma amiga nossa que tinha câncer, a Claudinha, teve o câncer quase junto com Cláudio, o dela foi no pulmão e, quando Cláudio faleceu em 2021, Claudinha continuou ainda conosco, ela faleceu no ano passado. Ela não tinha ninguém, o marido dela trabalhava era um pouco relapso. Então, montamos um quarteto de amigas, para revezar e apoiá-la nos tratamentos que realizou na Unicamp.
Quando a Claudinha faleceu, sentimos muita a falta dela e então resolvemos continuar nos reunindo para conversar e aliviar a saudades. Falamos: "Nossa, era tão legal aquele trabalho que a gente fazia com ela, ela nos unia”. Nesse revezamento, a gente passava na casa dela, às vezes para ir fazer o tratamento na Unicamp, outras para realizar algum exame ou marcação de consulta, era bom, porém quando a Claudinha partiu, ficou aquele buraco nas nossas vidas e por isso resolvemos manter nossos encontros, para de certa forma, preencher esse vazio e celebrar os momentos com a Claudinha, então virou os almoços de toda sexta-feira.
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Tudo isso me ajudou muito, olha que interessante, fiz o curso que chamava Aprendizes do Evangelho, no Centro espírita e, foi meu primeiro contato com essa transformação toda. Acredito que Deus estava me preparando para tudo que viria pela frente na minha vida, pois o problema de saúde do Cláudio, a morte dele foi tão tranquila para mim, que na época, fiquei até impressionada da forma que reagi. "Nossa, de onde eu tirei toda essa força, uma força assim sobrenatural".
Um dia o Cláudio me falou: "Amor, quando eu tiver muito ruim, te aviso para gente ir para o hospital, porém quero ficar aqui em casa, o máximo que eu puder junto de vocês, pois sei que quando eu for para hospital eu não volto mais". Então chamei a mãe dele, a Dona Vilma, para ir preparando-a para a partida do Cláudio, disse: “Ele tem mais ou menos 20 dias de vida, ele está bem diferente, emagreceu muito nos últimos dias, percebo que a doença avançou de forma acelerada no último mês.
Nesses dias ele perdeu o apetite, perdeu as forças, ficou com tremor no braço, tudo junto. Cláudio não aceitava ninguém para cuidar dele, era só eu, então eu o tirava da cama, levava ele para o banheiro, botava na cadeira de banho, pois ele não tinha mais força nenhuma nas pernas e assim, ele foi definhando. Um fato interessante e importante é que quando eu conversava com Deus, não conseguia pedir a cura, algo me dizia que não era para eu pedir a cura.
Então eu conversava com Ele: “Deus, dá muita força para mim e para o Cláudio para que enfrentemos tudo isso”, e isso era a única coisa que eu pedia para Deus.
Em um certo dia, o Cláudio me chama e fala: "Amor, eu preciso ir para o hospital, estou com muita dor, não dá mais para ficar aqui." Ele tomava um remédio fortíssimo, porém não adiantava mais. Lembro que eu acabava de dar esse remédio, ele já pediu outro, então eu ligava para o médico para saber se poderia mais um e ele me falava: "Não, não pode dar, porque ele vai ficar viciado".
Confesso que se soubesse que ele estava nos últimos dias, eu tinha dado mesmo assim para tentar dar mais conforto para ele. Então nos preparamos para ir embora para o hospital, nisso minha sogra falou: “Vou trazer as meninas para se despedirem dele”. Minha sogra também foi de uma força incrível. Elas estavam almoçando, subiram e o abraçaram. Ele falou um monte de coisas lindas para ela, sem chorar, ao ver aquela cena, não sei como ele conseguiu não desabar, agradeceu por ter sido pai delas, uma declaração de amor linda! Depois, as meninas desceram para acabarem de almoçar, minha sogra ficou um pouco com ele, não sei o que eles conversaram, deixei os dois sozinhos. Então ele me chamou e falou: "Amor, chama o pessoal para me colocar na maca para descer", então fomos de ambulância para o hospital. Nesse momento todo, de muita emoção, momento diferente, lembro que não tive esse momento de me despedir dele, porque quando eu percebi, já estávamos indo para o hospital.
Então pensei, quando chegarmos lá, vamos ter um tempo e aí sim, conversamos, entretanto ele chegou e já foi sedado, pois a dor era muito forte. Ele tinha poucos momentos de lucidez, acordava meio desorientado e falava com muita dificuldade: “O processo!”, eu pensava, que processo é esse? Até que entendi que ele queria fazer um testamento, ele estava preocupado de o juiz negar o que era de direito das meninas.
Porque tem juiz que põe em juízo e você não consegue mexer no direito da pessoa com deficiência. Essa era a preocupação dele, que a parte das meninas o juiz prendesse, então ele sussurrava sobre o processo. Quando entendi, falei: "Não, amor, está tudo certo, o testamento já foi feito." Na verdade, não tinha sido feito, mas falei para deixá-lo mais calmo, pois tudo que não queria era deixá-lo preocupado. Depois que eu falei, ele se acalmou e dormiu. Pensei emocionada: "Meu Deus, ele está desse jeito, sedado, mas está cuidando das filhas ainda".
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Então no hospital, as minhas amigas ligavam, mandavam mensagem, quando conseguia eu respondia e o curioso é que elas ligavam aflitas e eu as acalmavam. A Cris falou assim: "Inês, estou muito preocupada, você aí sozinha, minha amiga, não está precisando de ajuda?" Eu mandei um áudio para ela tão calmo, que era realmente como estava me sentindo naquele momento: "Cris, a gente vem nesse planeta e cada um tem um tempo para cumprir, o tempo do Cláudio acabou, a jornada dele foi essa, ninguém morre antes ou depois, morremos no dia certo. Entendo que chegou a hora dele voltar para o plano espiritual. A mim, resta agradecer a Deus por ele ter convivido conosco esse tempo todo, pelo marido maravilhoso que ele foi, pelo pai excelente que foi para minhas filhas, entregar nas mãos de Deus, quem sou eu para brigar com Deus? Ela emocionada, responde: "Nossa, minha amiga!” E continuo: "Estaria sendo egoísta se eu pedisse a Deus que Cláudio continuasse aqui com a gente do jeito que ele está, tenho um monte de defeito, mas egoísmo não é um deles." Está na hora do Cláudio voltar, veio essa doença, mas ele teve uma resignação imensa e, agora vou ficar brigando com Deus porque meu marido está partindo para o plano espiritual?! A vida aqui é muito rápida, a gente se apega demais aqui". Então ela disse: "Inês, posso te pedir uma coisa? Eu posso mandar esse áudio para todo mundo que está preocupado com você?" Eu: "Pode, Cris." Depois fiquei sabendo que até fizeram uma aula com meu áudio. Disseram que no Centro Espírita, todos ouviram esse áudio. Fiquei mais conhecida, tem pessoas que chegam e falam: “Ah, você é a esposa do Cláudio?! Nossa, eu ouvi seu áudio”.
Voltando, naquele quarto eu sentia uma energia tão boa, não parecia que eu estava no quarto de hospital, inclusive os enfermeiros quando entravam falavam: "Gente, esse quarto tem uma energia diferente, a gente não quer sair daqui, está todo mundo querendo vir para cá". Então entrou outro enfermeiro e falou: "Olha, o hospital tem um encaminhamento onde todo parente de um paciente em estado terminal, só que eles não usavam esse termo, tem direito a visita da psicóloga e concordei.
Vieram duas mocinhas para conversar comigo, pareciam estagiárias. Então perguntei se a enfermeira poderia ficar um pouco no quarto, não queria conversar na presença do Cláudio e fui para fora com elas. Fomos para outra sala, uma delas me perguntou: "Como é que você se sente? Você tem filho?" Eu: “Duas meninas”, ela: "Nossa, você tem duas filhas especiais?!" e olharam para mim com cara de piedade. Falei: "Não sou sozinha, não, tenho Deus em meu coração, Ele sempre está comigo, sempre me ajudando. E a morte é somente uma passagem para o outro lado”. Então ficamos mais um tempo e falei tudo que eu sabia e acreditava. Ela disse: "Nossa, a gente pode vir mais vezes conversar com você, quer ser nossa psicóloga?!" Respondi: Claro que pode”. E assim aconteceu, todos os dias elas iam falar conversar.
No mesmo dia em que mandei aquele áudio para minha amiga, fui até o lado do Cláudio e conversei com ele, lembro bem era quinta-feira e já estava noite: "Amor, eu sei que você está muito preocupado conosco, você viveu a vida inteira para sua família, mas não se prenda por nossa causa. Sei que sua família espiritual deve estar toda do teu lado, seu pai, seus avós que te amavam tanto, um monte de amigos nossos que já estão do outro lado, então se entrega, pode ir, seguem-nos a caminho do plano espiritual que a gente vai ficar bem, não fica preocupado. Você nos deixou muito bem amparado, pensou em tudo, não vou ter problema financeiro, poderei criar nossas filhas sem precisar arrumar um emprego e largá-las com babá. Você bem sabe o pavor que tenho de entregar minhas filhas para outro cuidar. Posso exercer minha profissão, que é ser mãe, tranquilamente, nos deixou os recursos necessários para isso, vai tranquilo!
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Essa conversa nossa aconteceu mais ou menos 11:30 da noite e, quando amanheceu o dia, acordei, fui ao banheiro, peguei na mão dele, estava quentinha, dei bom dia, passou um pouco tempo, olhei e vi que ele tinha partido. Estava somente esperando eu deixá-lo tranquilo. Então falei: “Você partiu, meu amor, você deve estar aqui ainda com sua família espiritual”. e repeti: “Vai em paz, a gente vai ficar bem”. Quero também te agradecer e falei um monte que venho naquele momento. Nesse momento, entrou o enfermeiro e disse: "Viemos fazer um exame". Respondi: "Não precisa mais”. Continuou: “Tem medicação agora das 6 horas da manhã." Falei bem calma: "Não precisa mais, o Cláudio não está mais aqui." Ele respondeu: "Como não está mais aqui?" Foi lá e me olhou: "Você está bem?" Eu falei: "Estou bem, sim". Como procedimento ele verificou se havia batimentos cardíacos e constatou que não, o cobriu com o lençol e saiu.
Curioso, a paz, o amparo espiritual que tive foi tão grande que até me assustava. Falava comigo mesma: "Gente, nossa, estou tão bem". Sabe, creio que o entendimento que o Espiritismo nos oferece, é um consolo tão grande, onde o lema do Espiritismo é: “O consolador prometido por Jesus”, quando entendemos que essa vida não é somente isso aqui, esse conhecimento proporciona essa paz. Quando era criança eu pensava assim: "Quando minha mãe morrer, acho que morro junta, pois imagina que em nenhum lugar do mundo eu encontraria minha mãe novamente e isso era muito desesperador para mim”. Eu falava: "Não vou nem pensar nisso que é para não atrair".
Passei pelo desencarne da minha mãe, do meu pai, em uma paz tão grande, porque eu já tinha esse entendimento. Meu pai, eu que segurei a onda, porque minha mãe tinha problema cardíaco. Então eu não me dei o direito de sofrer porque eu estava apoiando-a. E no desencarne da minha mãe, minha preocupação era com meus irmãos. Eles eram em sua maioria de religião católica e evangélica, eles acham que a vida era somente essa na Terra, morreu, acabou, então para eles era muito difícil aceitar. Então esses episódios me fortaleceram, quando chegou a vez do Cláudio, já estava mais ciente, porém, tinha mais emoções envolvidas, como por exemplo, as meninas, eu tinha que ser forte por elas. Me recordo que a parte mais difícil, foi voltar para casa sozinha e ter que dar a notícia para elas.
Lembro que a Salete, que é minha melhor amiga e tem uma menina com mielomeningocele e a gente se ajuda muito, me ligou: "Amiga, como estão as coisas por aí?" Eu: "O Cláudio partiu agora cedinho." Ela ficou muda no telefone, continuei: "Ele só voltou para casa aonde todos voltaremos um dia, fica tranquila, ele está melhor agora do que quando ainda estava aqui, não tem mais dores, não tem sofrimento. Emocionada falou: "Nossa, amiga, eu queria ter essa força que você tem, sabemos de tudo isso, mas na hora que acontece a gente desaba". Respondi: “Mas, nós que temos que dar o exemplo, pois estudamos para isso”.
Então continuei a conversa: "Amiga, a tarefa mais difícil é essa agora, voltar para casa e conversar com a Jéssica e com a Anne". Ela disse: "Pode deixar, vou fazer uma corrente de oração, botar todo mundo para vibrar, o pessoal do Centro, vou ligar para os diretores de lá, também vou informar nos grupos, estaremos com você em vibração.
O presidente da Tetrapac, o Marcelo, era muito amigo dele, soube do ocorrido e ficou comigo o tempo inteiro, juntamente com sua esposa e mais a secretária. Me recordo o quanto que o Marcelo chorou. Ele tinha um carinho e respeito enorme pelo Cláudio, pois foi ele quem o treinou, quando ainda novinho ingressou na empresa.
O Cláudio fez tudo por ele, tinha um respeito como se o Cláudio fosse um pai. Então fomos fazer toda aquela parte burocrática no cartório, fazer o atestado de óbito para liberar o corpo do hospital. Acho tão desagradável isso, pois você está assimilando o que aconteceu, porém tem que correr para cartório e o Marcelo foi importante, pois foi comigo e me ajudou. Porém quando voltamos para o hospital com o atestado de óbito em mãos para liberar o corpo, Marcelo desabou e ficou todo desorientado. Fiquei consolando ele e a esposa e brinquei: "Gente, vocês não acham que o papel está invertido aqui? Vocês que deveriam me consolar, não acham?” Então Marcelo pediu para o motorista me levar para casa.
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Quando cheguei no condomínio a Salete já me esperava e falou: "Amiga, tive uma ideia para você não dar essa notícia em casa e elas não associarem essa tristeza com a casa de vocês, vou tirá-las de lá. Vamos para área de festas do meu condomínio, fazemos um piquenique e então você da a notícia”. Fizemos isso, fomos para o condomínio da Salete, especificamente para área de lazer.
Minha irmã tinha vindo de Salvador. Então pedi para o motorista ir em casa para buscar uma roupa para o Cláudio, um terno, para ser cremado. Nisso a Fabi me avisa que a sacola com a roupa já estava com ela, então não precisei ir para casa. Entreguei a sacola para o rapaz, agradeci e ele falou: "Boa sorte com suas filhas". Quando cheguei, minhas filhas vieram correndo me receber, abraçaram cheias de carinho e alegria, fiz um sinal para minhas amigas e fui falar com elas. Sentamos em uma mesinha e elas perguntaram: "Cadê o papai?" respondi: "Então sabe vovó Palmira, vovô Albino e vovô Quico, que era o pai do Cláudio, onde que eles estão agora?" "Estão lá no céu." Elas falaram: "Então papai foi lá para o céu ficar perto do vovô Quico, da vovó Palmira, do vovô Albino." Elas me olharam: "Papai morreu?" Falei: "Não, só o corpo dele que morre, mas o espírito dele está livre lá no céu agora. Ele não tem mais doença, não tem mais dor, não tem sofrimento”. Ela: “O papai está melhor?”, Eu: “Sim, está curado, então temos que ficar felizes, não é? Porque se a gente ficar triste, o papai vai ficar triste. Lá em cima ele sente tudo que a gente sente. Uma delas falou: “Triste não, feliz”, continuei: “Isso mesmo, tem que ficar feliz pelo papai porque agora ele não tem mais doença”. Aí elas olharam para mim: “Então está bom, mamãe”, as duas me abraçaram e não choraram. Porém perguntei: "Vocês estão tristes?”. "Não, não, papai está bem". Pensei: "Gente, foi melhor que eu pensava". De fato, fiquei muito surpresa com a reação de ambas. "Será que depois elas vão desabar?", pensei. Fiquei preocupada e por isso bem atenta as reações das meninas, que depois da nossa conversa, voltaram brincar.
Nesse momento fui em direção a Salete que me perguntou: “Amiga, que horas você vai dar a notícia? Respondi: "Eu já falei. Ela abismada perguntou: Já falou?!", como que você falou?" Eu sussurrei no ouvido da Salete, explicando como foi a conversa e ela disse: “Nossa amiga, você foi intuída para fala tudo isso, não é possível. “Salete, era exatamente o que elas precisavam ouvir para saber que agora o pai delas estava bem”. "Porque se eu falasse com tristeza, chorando, elas iriam ver que eu estava sofrendo e provavelmente sofreriam também”. Então segurei minha emoção, porém falei para elas o que eu penso." Aí a Salete falou: "Nossa, que coisa boa".
Obviamente que de vez em quando perguntam: "Mamãe, o papai não vem para casa?" Eu: "Não, papai está no céu, lembram?" e todas as vezes que me perguntavam, eu repetia a mesma fala, ou seja, o papai está no céu, pois no início na cabeça delas ele iria para o céu, mas voltava quando ele podia. Então expliquei: "Não, o papai só volta na nossa cabecinha, quando a gente pensa nele, então quando sentimos saudades, ele sempre estará aqui perto da gente, porém não conseguimos vê-lo, mas conseguimos sentir, e lembrem-se ele está vendo a gente.
E foi assim, sempre que uma ou outra perguntavam do papai, com naturalidade e simplicidade eu explicava, tanto é que se alguém perguntar para elas, cadê o papai? Elas respondem na maior tranquilidade e sem sofrimento, está lá no céu. Elas tiraram de letra, apesar de ter sido um processo demorado, pois ainda tinham a esperança dele voltar. A Jéssica de vez quando chorava e falava: “Mamãe, quero dar um abraço no papai”. Eu falava: “A gente vai fazer uma oração, pedir ao papai do céu para quando o corpo da gente tiver dormindo, o nosso espírito ir lá no céu, para dar um abraço bem apertadinho no papai e, de manhã a gente volta, pode ser?” “Sim, pode”.
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Vamos oferecendo segurança, conhecimento e hoje estão super bem. Nunca mais eu as vi chorando por causa do pai.
Esse foi um fato muito marcante, porém o mais marcante foi o nascimento da Jéssica, por ser a realização de um sonho. Fico pensando, se não fosse mãe, com certeza seria a pessoa mais frustrada do mundo, pois profissionalmente nunca tive, nunca tive um sonho, uma ambição, sempre fui decidida que nasci para ser mãe. Por isso talvez que nunca pensei em algo relacionado ao trabalho como por exemplo, ser advogada, empresária, nada disso.
Aliás já fui até modelo, fiz propaganda para a televisão e nada disso me causou nenhum deslumbre. Agora a maternidade sim, no dia em que virei mãe, foi o dia mais feliz da minha vida. Quando olhei para a carinha da Jéssica, sabendo que ela saiu de dentro de mim, foi muita emoção. Foi um parto muito tranquilo, minha mãe até brincava que ela escorregou igual quiabo, pois foi muito rápido, apesar de ter sido parto normal. Nossa, é muita felicidade dar à luz e colocar um serzinho no mundo, sabendo que fez com todo o amor do mundo. Ela foi muito esperada por mim e pelo Cláudio, muito amada! Por esse motivo, foi o momento mais marcante da minha vida. Não consigo comparar com nada que aconteceu na minha vida.
Sabe, sou uma pessoa corajosa, então acho que tenho medo de uma coisa somente. De Deus me levar antes delas, fico pensando, quem vai cuidar delas com amor. Por exemplo, tem a irmã da Jéssica, a Marjorie, eu gosto muito dela, mas ela não tem instinto materno, ela que vai herdar as meninas, por lei é primeiro os irmãos, depois tias, enfim, estou falando porque já me informei sobre isso. Então é meu maior medo, penso que ela pode não cuidar das meninas, deixar se virar, e sei que as meninas têm suas particularidades, até acredito que posso estar errada, mas algumas coisas, acho que só eu consigo fazer. Sabe aquela sensação que somente eu sei cuidar das meninas? Isso acaba comigo. Por isso, sempre peço a Deus, li no Espiritismo que terá muito desencarne coletivo por causa da época que o planeta está vivendo, então peço a Deus para levar nós três juntas ou se não for possível, que elas encontrem alguém bem legal para cuidar delas.
O restante não tenho medo de nada. Eu confio muito em Deus, por isso peço sempre para ele para cuidar. Um dia estava refletindo sobre isso, então abri um texto de um livro de Chico Xavier que chama Missão dos Pais e, aquele texto me ajudou muito, em uma parte traz isso: "Antes de você se preocupar com seu filho, saiba que Deus já se preocupa, porque eles são seus filhos agora. Eles estão emprestados a você como seus filhos nessa vida. Mas antes de serem seus, são de Deus. Então Deus já se preocupa com eles antes de você". Pensei: "Nossa, isso traz uma paz tão grande”, sabemos, porém às vezes a gente duvida”.
Já pensando em sonhos, nunca almejei nada assim, eu queria isso ou aquilo. Vou falar uma coisa, mas acho que não chega a ser um sonho. É o seguinte, aprender a amar do jeito que Jesus nos ama. Eu sempre falo no Centro Espírito: "Se tivesse um superpoder, eu queria que fosse esse". Acho tão sublime o amor que Jesus tem por nós, é um amor sem te julgar, Ele te ama independentemente de como você é, ou seja, quer seja você uma pessoa ruim ou se faz maldade, Ele supera e ama todos, sabe que somos crianças espirituais, por isso ainda estamos aprendendo. Diferente de nós que olhamos as pessoas e já vem o julgamento, esse já fez maldade.
Me esforço para aprender esse amor que Jesus tem por nós, esse amor puro, incondicional. Se eu tivesse possibilidade de escolher um super poder, eu queria isso.