Pausado

Jane

Mulher, mãe, esportista e sua história
de desafios, viagens e sonoridade

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Meu nome é Jane Marisa Schultz Tamaki, tenho 52 anos.

Difícil falar da gente mesmo. A gente quase nunca fala da gente. Não é? Eu nasci em Concórdia, Santa Catarina. Meus pais eram casados até eu ter 9 anos. Aí meu pai e minha mãe se separaram. Meu pai tinha outra família, desde então já tinha outra mulher, mais uma outra irmã por parte de pai e eles viviam em outra cidade.

Mas, minha infância foi boa. Eu tive que aceitar a situação da separação, mas eu tinha o amor da minha mãe! O meu pai vinha de vez em quando, uma vez por semana, duas, eu sempre via ele. Tive sempre contato, não foi um pai ausente. Tem muita gente que o pai abandona, coisa assim, não foi meu caso.

Com a família do meu pai sempre me dei muito bem, com meus avós, sempre estiveram muito presentes na minha vida.

Depois, uma época da minha vida que marcou muito foi quando eu jogava vôlei. Foi uma época muito boa que eu pude descobrir, conhecer os lugares, amigas… Então viajei bastante, conheci muitas cidades de Santa Catarina por conta do voleibol. Eu jogava para o time da Sadia.

Essa fase foi dos meus 14 aos 16 anos, foram dois anos. Desde os 10 anos no colégio eu sempre jogava, praticava esportes. Então, desde muito pequena jogava handebol, basquete, vôlei, atletismo, as quatro modalidades que tinha naquela época no colégio.

Eu saía, tinha bastante amigas, tanto pelo vôlei como pelo colégio. Aí aos meus 16 anos fui morar com meu pai, foi uma grande mudança. Eu queria estudar, pois, naquela época o esporte não era valorizado e também não tinha apoio do meu pai.

Morei três anos com meu pai, sua esposa e minhas duas irmãs. Mas chegou um momento que decidi voltar para Concórdia e morar novamente com minha mãe.

Entrei na faculdade com 21 anos. Cursei Terapia Ocupacional por seis meses em Joinville. Nesse tempo conheci o Marcelo e depois de 4 anos nos casamos.

Meu pai que estava apoiando financeiramente meus estudos. E naquele ano que iniciei a faculdade meu pai se separou da segunda mulher e se casou com outra. E como ele precisava de alguém para ajudar no comércio que ele tinha me chamou de volta já que eu tinha experiência, ele disse: "A faculdade não vai te dar tanto como você vir trabalhar comigo no comércio." Aí eu parei a faculdade e fui morar com ele novamente. Estava melhor, mas eu comecei a namorar o Marcelo e foi ficando mais sério mesmo na distância.

Nesse tempo foi fortalecendo o nosso namoro. Como meu marido é boliviano, depois de uns três meses, eu acho, de namoro meu pai disse: "Bom, você vai para a Bolívia conhecer a família dele para ver se você gosta, ver como é, se é o que você quer.” E aí foi quando eu fui pela primeira vez, conheci a família, os amigos… amei tudo!

No fim do ano meu marido, quer dizer meu namorado naquela época, disse: "Ah, vamos para a Bolívia, eu vou ficar dois dois meses de férias para lá, e gostaria muito que você fosse junto”. Mas meu pai não deixou. Foi quando a gente teve um atrito, teve uma briga e decidi, mais uma vez, voltar a morar em Concórdia, na cidade da minha mãe. Mas, eu fui morar com meus avós, com os pais do meu pai. A minha avó estava bem doente e precisava da minha ajuda.

Continuamos nosso namoro à distância até o Marcelo se formar e depois a gente foi embora para a Bolívia. Nos casamos lá, voltei a estudar e me formei em fisioterapia.

Ser mãe fazia parte dos meus sonhos. E quando terminei a faculdade decidimos que já era hora de tentar engravidar… tentamos por uns 2 anos e sem resultado, busquei um médico especialista e começamos investigar e depois de um tempo partimos para inseminação artificial, tentamos duas vezes e sem resultados. E depois partimos para a inseminação in vitro. O médico colocou dois embriões e no início da gestação pensamos que viriam gêmeos, mas com o passar de umas semanas realizamos um ultrassom e só aparecia um feto, era a Isabella a caminho! Imagina, sete anos de casada e recém engravidei. A gente estava muito feliz, a família e os amigos, todos estávamos com muita expectativa para o nascimento dela. A Isa foi um bebe muito esperado por todos…

A gestação foi tudo tranquilo. Fizemos até o exame de translucência nucal com resultado dentro dos parâmetros. Eu tinha minha clínica de fisioterapia, trabalhei normal e também atendia pacientes a domicílio sem nenhum problema.

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Todos os meses fazia controle com o médico e realizada ultrassom também, por conta da inseminação in vitro. Eu pensei em ter parto normal e chegando nas 39 semanas e nada da Isa nascer. E aí o médico disse: “Ela já tá encaixada, mas não sei, vamos fazer um outro exame para ver como ela está”. Com 39 semanas a gente fez o ultrassom mais específico, aí o médico disse assim: "Eu acho que é melhor a gente fazer cesárea porque o último mês ela não aumentou de peso, está com pouco líquido e tem algo na circulação, na parte de oxigenação do sangue, tem alguma alteração, mas a gente não consegue ver o que que é. Mas no cérebro está chegando bem o oxigênio, acho melhor ela não fazer esforço para nascer”.

Então marcamos a cesárea, não podíamos esperar mais. Ela nasceu à noite, umas sete, sete e pouco, e chorou logo depois que nasceu. E aí quando veio para o quarto, ela não chorava e não pedia para mamar. Passou a noite toda ali comigo, deitadinha, quietinha…

Já no outro dia de manhã, eu olhando para ela passou na minha mente que “ se ela não fosse filha de japonês poderia ter síndrome de Down”. Foi um momento só meu, de olhar para ela…, mas eu não comentei com ninguém porque eu achava que era coisa da minha cabeça. Pensava: está tudo bem, é perfeita, né? Mas e porque ela não mama?

Meio-dia o médico veio fazer a visita. Ele chamou o meu marido para fora do quarto para conversar com ele. Aí quando voltaram, meu marido estava chorando e o médico disse assim: "Eu tenho uma má notícia para te dar: a gente examinou a Isabella e ela tem síndrome de Down".

Então, assim, quando ele deu essa notícia, só confirmou o que eu já tinha pensado. É isso. Então era mesmo, não é que eu estava imaginando, sonhando alguma coisa assim, mas não, eu senti isso antes de alguém me falar.

Mas, mesmo sendo fisioterapeuta, eu fiz o papel de mãe, porque eu não fiquei examinando se tinha a linha da palma da mão, como estava a orelha e outras características, porque eu olhava para ela, era minha filha, me entende?

O médico disse: “Precisamos realizar mais alguns exames, e também ver o cariótipo para confirmar que ela tem Síndrome de Down”. Aí veio aquele turbilhão de emoções, o porquê, digo, ah, por quê? e perguntava para Deus…. A gente se emociona, né?

Com o tempo a gente sabe que tem um porquê, né? Porque ela veio com síndrome de Down… Mas no momento eu lembro que no hospital mesmo, eu pensava: “Nossa, a gente fez tanto para engravidar, a gente esperou tanto, por que ela tinha que vir assim”. Mas não que agora eu vou abandonar ela, me entende? Mas, aquela pergunta era porque a gente queria um bebê normal… A gente vê que depois é normal, com algumas limitações mas normal… acho que a sociedade transmite isso, né? Mesmo sabendo que todos somos diferentes.

A gente começou a fazer um monte de exames, ao passar pelo cardiologista ele disse: "Ah, ela tem um sopro. Tem dois buraquinhos que não estão fechadosl". Ele medicou e disse que com o passar do tempo, um ano por aí, pode fechar e não teria nenhum problema.

O problema da Isabela era que ela não succionava, ela não tinha força. Então, ela teve que ir pra sala especial. Não ficou comigo no meu quarto para eu alimentar ela. Foi colocado uma sonda para ela poder se alimentar. Depois de três dias me deram de alta e a Isa continuou no hospital. Aí o que eu fazia? Eu tirava leite do meu peito e as enfermeiras davam para ela.

Eu não tinha muito leite, mas no primeiro mês a Isa só tomou leite materno, tive ajuda e o apoio de duas amigas que tinham filhos pequenos e estavam amamentando e doaram. Foi muito importante para o desenvolvimento da Isabella essas primeiras semanas se alimentando.

Depois que ela saiu do hospital, o pediatra disse: "Eu gostaria que você passasse por outra cardiologista para ela avaliar, ela é uma brasileira de São Paulo e eu confio muito nela. Passa com ela para fazer um checkup”. E marcamos a consulta.

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Depois de realizar um ecocardiograma, ela disse: "Olha, Jane, eu sei que vocês estavam achando que ela só tinha sopro, mas ela tem quatro malformações no coração. Ela nasceu com tetralogia de Fallot e é uma coisa muito grave. Então, vocês têm que pensar que vão precisar encarar uma cirurgia! Não sei se é logo ou daqui um tempinho. Mas, aqui na Bolívia a gente não tem especialista que faz esse tipo de cirurgia, então você tem que ir para o Chile ou para o Brasil.” Então a gente decidiu ir para o Brasil. A Isa tinha um mês de idade, imagina o primeiro mês como foi a correria!

Na parte do nascimento da Isabella eu tinha que defender minha tese, que eu tinha feito licenciatura em fisioterapia. Então assim, naquele mês em que ela nasceu, tinha que fazer passaporte, todos os exames, estudar para a tese. Eu lembro que eu defendi minha tese, dois dias depois a gente embarcou para o Brasil.

Ela passou por uma equipe que tinham recomendado, que atendia na Beneficência Portuguesa. Passamos pela consulta e confirmamos que ela precisava fazer cirurgia. Mas como ela é muito pequenininha e nasceu com 2,800Kg teremos que esperar um tempo, foi recomendado medicamentos e quando chegar com uns 6 ou 7 kg e estiver com um ano de idade, poderá ser operada.

Voltamos para a Bolívia. Eu deixei o meu trabalho, me dediquei completamente a ela. Com o problema cardíaco a Isa não podia chorar, não podia fazer esforço. Porque ao fazer o esforço poderia fechar a válvula pulmonar, que era atrofiada e o sangue não chegar no cérebro o suficiente, podendo desmaiar. Ou poderia afetar outra parte do cérebro no desenvolvimento dela. Enfim, era muita coisa...

Então, para nós a síndrome de Down não foi nada. Era o problema cardíaco dela a nossa maior preocupação. Começamos em seguida com as terapias, fono, terapia ocupacional, fisioterapia... Como eu levava uma vez por semana na fisio, os outros dias eu fazia em casa. A estimulação da Isa foi constante, era diária e o dia inteiro. É isso que eu falo, às vezes tem fisioterapeutas que não passam isso para os pais, algumas mães não sabem que todo tipo de terapia não é só uma hora, você tem que continuar, é contínuo, é todo dia e toda hora que precisa estimular.

Uns dias antes da Isabella completar um ano viajamos para o Brasil para controle com a cardio. Como ela já estava com bom peso, foi marcada a cirurgia. Foi realizada um dia após o aniversário dela, graças à Deus, ocorreu tudo bem na cirurgia

Então foi assim, o primeiro ano, a cirurgia passou, ela ficou uns 10 dias internada, se recuperou bem. Acho que com 18 a 20 dias a gente voltou pra Bolívia. Ela com um ano já completo, cirurgia feita e deslanchou, sabe? Ela começou a ter mais força para se sentar, com 1 ano e 10 meses ela já caminhava.

Eu sempre quis ter mais filhos, não só ela. Então muita gente perguntava: "Ah, mas você vai ter outro?" Eu dizia: "Por que não? Até para ajudar e estimular ela." A Isa tinha dois anos e três meses, quando me programei para fazer novamente inseminação in vitro e tentar mais uma vez realizar meu sonho de ser mãe novamente.

A gente fez um novo tratamento e eu engravidei de gêmeas. Eu disse para o médico: "Eu não vou fazer novamente esse tratamento e para garantir que de certo pedi para o doutor colocar três embriões. E foi isso, colocaram três embriões, ficaram dois e vieram Sofia e Olívia. Então, elas nasceram em setembro e a Isa completou 3 anos em outubro.

Nasceram, graças a Deus, tudo bem. Eu lembro que na gestação o médico me perguntou se eu queria fazer o teste de amniocentese. Não sabia o que responder e fui conversar e perguntar ao meu marido e sua resposta foi: “E se vier, a gente vai fazer alguma coisa? Não. Então, para quê?”.

Como eu não soube da síndrome de Down da Isa na gestação, às vezes eu me questiono, hoje em dia, quando já avisam a mãe que o bebê virá com síndrome de Down... Eu não sei como poderá ser a gestação… Eu não soube, eu aproveitei, nossa eu era tão feliz com a minha gestação. Nas duas, né? Eu acho que para mim foi melhor não saber antes.

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Uma coisa que eu esqueci de falar… Quando a Isa nasceu e a gente tava no hospital ainda e uma amiga disse assim: "Jane, o teu marido mandou um e-mail para os amigos dele". Aí isso também me emociona! Mandou um e-mail, porque não tinha WhatsApp naquela época e ficar ligando para todo mundo, também não dava, mas mandou para os amigos mais próximos contando do nascimento da Isa. Ele escreveu: "A Isabella chegou, mas a gente teve uma surpresa, ela nasceu com Síndrome de Down. É como se a gente tivesse recebido um balde de água fria." Essa foi a maneira dele se expressar. E continuou: “Mas, mesmo com essa surpresa, eu e minha esposa vamos correr atrás. A gente vai tentar dar o melhor possível para ela”.

Uma vez a Isa fazia parte de uma instituição lá na Bolívia e eles até escreveram a carta do meu marido em uma revista, contando a história, foi bem legal. Então é isso. Ele sempre apoiou, foi um pai muito presente dando sempre muito amor, eu só tenho que agradecer a ele, a família e os amigos.

Eu tive uma rede de apoio, principalmente essa minha amiga que deu leite para a Isa. Ela se chama Marilene, uma brasileira que mora na Bolívia ainda. Ela foi muito, muito importante para mim. Porque ela que correu atrás, de buscar outra mãe para ajudar a doar leite, ela tirava o leite dela e levava na minha casa porque eu não tinha o suficiente para dar. Então elas eram as mães de leite da Isa. Ela foi uma pessoa assim muito importante para mim. A nossa amizade não importa o tempo e a distância, sempre vamos estar conectadas…

O meu sogro também foi apoio. Me ajudou muito depois da cirurgia da Isa e no momento que voltei a atender pacientes a domicílio. Contratei uma babá e com ela ele ficava em casa cuidando dela. Então tinha ajuda da babá e do meu sogro.

Essas foram as ajudas que tive. Minha mãe morava aqui no Brasil. Claro que quando minhas filhas nasceram minha mãe foi me ajudar nas duas gestações. As gêmeas nasceram com 8 meses, no último mês antes delas nascerem, comecei a ter contrações e o médico pediu repouso absoluto. Eu tinha a Isa pequena, com dois anos, tinha marido, sogro e uma faxineira que vinha para ajudar. Aí eu disse: "Mãe, você precisa vir me ajudar, porque eu não posso levantar, somente para ir ao banheiro, não posso fazer nada". E a minha mãe largou tudo e foi. Ela ficou um mês antes para cuidar de mim, da Isa, e depois ajudar com as gêmeas também.

Depois que as gêmeas nasceram, no começo não foi fácil. Nas primeiras semanas eu nem dormia quase. Porque eu queria dar peito. Eu era aquela mãe teimosa, que queria dar só leite materno mas com duas foi impossível e tive que complementar. À noite eu acordava, uma tomava leite, aí a outra acordava, também tinha que dar leite, aí trocava uma e depois a outra… enfim, eu estava parecendo um zumbi…. Mas aí fui me adaptando com a rotina. Só depois que as gêmeas completaram uns três anos e já estávamos no Brasil que a rotina começou a ficar um pouco mais tranquila.

Depois de 9 meses do nascimento das gêmeas, viemos para o Brasil, para Campinas. Quando a gente chegou aqui, eu não tinha ninguém também. Minha mãe veio, ficou umas duas semanas para me adaptar, organizar, mas não tinha família, não tinha amigos, não tinha ninguém. Aí foi bem difícil, porque era só eu. Meu marido ia trabalhar o dia todo e eu ficava com as três. Foi uma época bem difícil para mim, lembro que eu me desesperava às vezes, sabe? Mas depois fui me adaptando…

Na Bolívia até voltei a jogar vôlei antes de eu ter as meninas, tinha um grupo de senhoras japonesas, mulheres casadas, onde eu cheguei a jogar. Como eu era casada com japonês, participei de uns campeonatos que faziam entre as colônias japonesas no interior e a de Santa Cruz de La Sierra, onde eu morava. Então eu fazia parte do time e era bem legal. Duas vezes por ano a gente se reunia em algum lugar para fazer campeonato e passar o dia. E nossa, eu adorava, né? O grupo treinava uma ou duas vezes na semana e eu tirava a noite para ir treinar.

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Voltei a jogar aqui quando a gente virou sócio do Clube Regatas. As meninas eram pequenas, acho que tinha, a Isa tinha uns 10 anos e as meninas tinham sete. Aí eu fiquei sabendo que tinha um grupo de senhoras que treinavam, mas não para competir. Aí comecei, voltei a jogar. Aí me despertou aquela coisa de competição, tem um time no clube Regatas que é Master e de competição que me convidaram para treinar. Fiquei super feliz mas em um dos treinos, eu fui defender, caí mal e deu uma luxação no meu ombro. Aí fiquei vários meses sem treinar e pensando: “Nossa, eu não posso ficar doente, o que vou fazer se tenho as meninas pequenas? Elas dependem de mim!” Então eu sempre me deixei de lado pensando nelas e não voltei mais a treinar.

Minha alimentação é boa, não é excelente. Tinha que evitar muitas coisas como doces, pães, bolo, massas… Mas eu tento ter um bom café da manhã, fruta, ovos, … De vez em quando saio um pouco da dieta, mas como muita verdura, legumes, carnes. Então, acho que tá bem. O que me falta mesmo é ter mais atividade física.

Faz uns 10 anos atrás por aí, eu tive síndrome do pânico e depressão, foi aí que precisei buscar ajuda médica. Lembro que a noite quando eu ia dormir começava a acelerar meu coração. Olhava a pressão estava boa, era só o coração a cem por minuto. Daí eu ia dormir pensando, será que eu vou acordar no outro dia? Então vivi aquele medo que parecia que me aconteceria alguma coisa e foi quando eu senti que precisava ir ao médico. Eu fui um dia de emergência, não tinha como meu marido me acompanhar, porque as meninas eram pequenas e não tinha quem ficasse com elas para ajudar. Não tinha um apoio. E aí ele me deixou no hospital sozinha, passei o dia inteiro fazendo exames e no final o médico disse que estava tudo bem e que eu precisava procurar um psiquiatra ou psicólogo.

Tive que fazer tratamento por dois anos e foi a melhor coisa. Aí me dei conta, que realmente, como a doutora disse, qualquer órgão do nosso corpo pode chegar um momento que começa a dar algum problema. Nesse caso foi o meu cérebro, acúmulo de muitas coisas durante muito tempo. Então tratei a depressão e a síndrome do pânico. Depois disso, nunca mais voltou.

Eu acho que o nascimento da Isa foi a melhor coisa da minha vida. Eu esperava muito! E o meu casamento também foi um acontecimento importante. Também na época que eu jogava vôlei. Eu acho que eu tenho um pouco de frustração de não ter continuado a carreira, porque eu gostava, adorava, amava jogar. Se fosse outra época… Eu acho que por isso que eu apoio tanto às minhas filhas! As gêmeas pelo esporte ganharam bolsa de estudo nos Estados Unidos, a Olivia joga futebol e a Sofia vôlei, mas a paixão dela é pintar e desenhar.

Lembro que a primeira escola da Isa foi bem difícil, eh, porque tinha o acompanhamento da fono, que era psicopedagoga, ela auxiliava nessa parte de materiais para ela, tinha reuniões no colégio… E eu lembro que uma vez a gente teve uma reunião e aí a professora dela disse assim: "Não, mas a Isa ainda não fala”. Ela já tinha quatro para cinco anos." A professora dizia que a Isa tinha que falar e dizia para que a gente estava mostrando letras e palavras para ela, se ela nem falar sabia? Ela pensava assim, que primeiro vem as palavras e depois vem a imagem. Desde que a Isa era pequenininha tinha uma estimuladora na Bolívia que era excelente. Ela tinha feito uma especialização na Argentina. A Isa era bebê, e ela já trabalhava com imagens, fotos da mãe, do pai e o nome, tudo com palavras, com letras. Estimulou muito a Isa. Como a coordenadora e a professora não ajudavam decidimos buscar outro colégio. A gente mudou ela para outro colégio que ficou até o sexto ano. Quando ela entrou no fundamental, fez um ano ainda lá, aí vi que não estava como eu queria. Iria ser muito gasto, as minhas três filhas estudavam lá. E decidimos mais uma vez mudar de colégio.

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Agora um momento que eu senti aquela dor no coração, que a gente tem que estar forte, foi quando a Isa fez 15 anos. A gente programou uma viagem para os Estados Unidos. Minhas duas cunhadas, irmãs do meu marido moram lá e a gente ia fazer a primeira viagem em família para lá no lugar de fazer festa. Mas para não deixar branco, aluguei uma chacrinha e aí comemoramos o aniversário das gêmeas que era no mês anterior e da Isa que era logo em seguida. Fizemos festa, chamamos as amigas das três e do colégio da Isa. Não dava para chamar toda a sala, porque a sala era 40 alunos, mas chamamos umas sete ou oito amigas. Chegou o dia da festa, a gente lá, começaram a chegar o pessoal e a Isa disse: “Mãe, cadê minhas amigas do colégio?” Eu respondi: “Ah, daqui a pouco elas chegam!” Estavam chegando todos os amigos com síndrome de Down e as outras meninas do colégio nenhuma apareceu. A Isa perguntou várias vezes porque as amigas do colégio não estavam chegando. Ela se considerava amiga e esperava que elas fossem mas nenhuma apareceu… Aquele dia foi muito dolorido, porque eu tinha que me manter forte e não demonstrar minha decepção e tristeza.

No ano que começou a pandemia a Isa foi para o Ensino Médio e tivemos que mudar de colégio, ficou dois anos num e depois eu coloquei no colégio estadual, pertinho de casa. Eu devia ter colocado desde o início, ali eles acolheram e ela se sentiu muito bem. E assim terminou concluiu o Ensino Médio.

Quando as pessoas me olham com a Isa, não me preocupo, sabe? Lembro uma vez quando a Isa tinha um ano e a gente estava num supermercado e uma mulher se aproximou e disse: "Nossa, eu só queria te falar que você é uma mãe também muito especial, sabe?” E daí eu comecei a pensar que eu tenho que ter orgulho da minha filha. Nunca deixei de falar para as pessoas que a Isabella tem Síndrome de Down Sabe, tenho orgulho de ser mãe, tenho orgulho dela, ver o potencial dela, tudo o que ela foi conquistando a cada dia, isso é muito gratificante.

Eu me sinto feliz e amada com a família que construí junto com meu marido. Claro que gostaria de ter todas minhas filhas junto comigo, mas como dizem: a gente cria os filhos pro mundo…

Meu maior medo, é tipo assim, a idade tá chegando, né? E se acontecesse alguma coisa? Eu acho que anos atrás eu tinha mais medo do que agora. Porque as meninas, as gêmeas já estão mais maduras e a Isa está mais independente. Mas eu sei que ela ainda depende de muita coisa de mim. E mas é isso, medo de faltar e a preocupação de qual é o futuro dela?

A gente pergunta e o dia que eu for, que o meu marido não tiver. Será que as irmãs vão cuidar, vão estar com ela? Isso é o que pesa, eu acho agora, né? Que às vezes até como meu sogro, ele tem 86 anos e ele se preocupa muito, né? Entendeu? Que que a gente vai fazer, né? Tipo, o que que a gente tem que programar, tem que imaginar um futuro que se algum dia faltar a isso, o que que vai fazer? Se as irmãs tiverem que ficar nos Estados Unidos morando, a Isa não tem como ir morar lá. Elas podem até tentar, mas não é uma obrigação delas também. Eu acho com as filhas, eu nunca disse: “Vocês têm que cuidar da tua irmã”. A Isa é a Isa, elas são elas, né? Se elas sentirem esse carinho, essa coisa, esse cuidado e quiserem dividir ou cuidar da Isa, se ela precisar, bem. E senão a gente tem que ver, o que que faz, como eu sei que tem muitos pais que só um único filho com síndrome de Down. E que tem isso também, né? Vai deixar com quem? Quem vai cuidar se os pais faltarem? Então, acho que esse é o meu maior medo.

Meu maior sonho é ver minhas filhas bem. Ver a Isa encaminhada, a gente está ainda nesse processo, de ver o que ela gosta, ela gosta muito de dançar, de teatro, das redes sociais e toda área artística. E também ver minhas outras filhas formadas e com um futuro próspero e felizes. E assim poderei estar mais tranquila junto com meu marido para aproveitar as oportunidades que a vida nos dará e também como eu amo viajar poder fazer muitas viagens em família e guardar estes lindos momentos para sempre.

Notas de rodapé