Pausado

Gleise

Mulher, mãe, médica, consciente,
humana e sua história de afeto e sabedoria

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Meu nome é Gleise Ferreira Freitas Camilotti. Tenho 50 anos e sou uma mulher feita de muitos papéis: um pouco mãe, um pouco filha, um pouco irmã, um pouco esposa, um pouco profissional. Carrego vários mundos dentro de mim, e me entrego a cada um deles. E, entre todos, há também o meu próprio mundo — o da mulher que ama a vida, que tem um enorme carinho por si mesma e pelas escolhas que fez ao longo do caminho.

Nasci na capital de São Paulo, filha do meio entre duas irmãs, em uma família simples, trabalhadora e digna. Desde pequena, eu dizia à minha mãe que queria ser médica. Mas, socialmente falando, naquele contexto, isso parecia impossível. Estudei em escolas públicas, na periferia da cidade, onde sonhar com medicina era quase uma ousadia. Por isso, cada conquista nesse caminho representou uma superação.

Na adolescência, tive boas amizades. Ir ao cinema e dançar eram meus maiores prazeres. Estudei muito para entrar na faculdade. Fiz dois anos de cursinho, um período intenso, totalmente voltado à preparação. E consegui.

Hoje, sou casada e mãe de dois filhos: Miguel, de 18 anos, e Lara, de 15. Minha primeira gestação foi de gêmeos, mas perdi um dos bebês ainda na barriga. Miguel nasceu saudável. Tive mais duas gestações, que terminaram em aborto espontâneo. No terceiro, fiz uma avaliação genética e descobri uma alteração trissômica. Após o aconselhamento médico, fui orientada a evitar novas gestações sem um rastreio genético. As chances de ter um bebê com alguma trissomia eram consideradas altas.

Conversei muito com meu marido. Decidimos que, se fosse para vir outro filho, viria como fosse. Sem seleção de gametas. Aceitando o que a vida, ou Deus, colocasse no nosso caminho. E assim veio a Lara.

Quando engravidei da Lara, senti muito medo. Medo de outro aborto, medo da perda. Mas os exames do pré-natal não indicavam nenhuma alteração: translucência nucal normal, ecocardiograma dentro dos parâmetros, morfológico tranquilo. Com o tempo, fui me acalmando.

Lara nasceu de parto normal, com 3,490 kg, chorando, saudável. Naquele primeiro momento, nenhum médico me falou sobre qualquer suspeita. Ela foi ao berçário, depois veio para o quarto. Amamentei, ela dormiu no meu colo, e tudo parecia estar bem.

Hoje, olhando em retrospecto, vejo que passei por um breve período de negação. Na madrugada, depois de amamentá-la, fiquei observando seu rostinho — aquele momento em que a gente namora cada traço do bebê. Foi quando percebi algo. O nariz pequenininho, os olhos mais puxados. Peguei sua mão, vi a prega palmar única. Senti um estalo, como se uma venda caísse dos meus olhos.

Meu coração disparou. Um medo profundo me invadiu. Acordei o meu marido e perguntei: “Você já tinha percebido alguma coisa? Por que ninguém me falou nada?” Ele respondeu: “Calma, vamos esperar o pediatra. Se ninguém disse nada até agora, é porque está tudo bem.” Mas eu sabia que havia algo a ser enfrentado.

Na manhã seguinte, o pediatra veio. Era um senhor experiente e, com muita sensibilidade, nos disse que havia uma suspeita de trissomia do 21, mas que seria necessário confirmar com o exame genético. Fico grata por ter recebido essa notícia de forma respeitosa, algo que sei que muitas mães atípicas não tiveram.

Mesmo assim, a notícia me abalou profundamente. Eu estava exausta, em conflito, tomada por emoções que não conseguia organizar. Chorava sem controle, com uma angústia que não cabia em mim. Pedi para não ter alta naquele dia. Não me sentia pronta para ir para casa, mesmo tendo tido um parto normal. Lara teve um leve quadro de icterícia, o que permitiu que eu ficasse mais um dia.

Enquanto a maioria das mães não vê a hora de voltar para casa com seu bebê, eu desejava o contrário. Queria ficar ali, onde tudo ainda parecia protegido, onde a realidade ainda não tinha me engolido.

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No dia da alta, ao sair da maternidade, pedi ao meu marido que não me levasse direto para casa. Disse: “Vamos passar na igreja. Eu preciso entrar.” Fomos à Igreja de Nossa Senhora Desatadora dos Nós. O templo estava vazio. Me ajoelhei diante da imagem daquela mãe que, para mim, entendia de dores. Rezei com tudo o que havia em mim. “Eu só preciso que a Senhora desate o nó do meu coração. Só isso.”

Naquele momento, o que me doía não era o fato de minha filha ter T21. Era o medo do mundo. O medo de como as pessoas iriam olhar para ela. O receio das barreiras que viriam e de não conseguir protegê-la. Lara dormia tranquila no carrinho, com a roupinha branca que eu havia escolhido, um xale vermelho, linda. E eu, sentada em silêncio, tentava reconstruir uma nova versão de mim, que ainda não sabia muito bem como seria.

Após a alta, começou uma nova rotina — intensa, crua, real. Consultas, exames, triagens, laudos. Em pouco tempo, estávamos imersos no que muitas famílias atípicas conhecem bem: o universo dos profissionais da saúde, das filas, das avaliações, das esperas.

A consulta com o geneticista foi, para mim, um dos episódios mais traumáticos. Ele mal olhou para a Lara. A primeira coisa que me disse foi: “Por que você não tirou esse bebê? Eu te avisei dos riscos.” A consulta virou uma sessão de destruição. Durante mais de 40 minutos, ele descreveu, uma a uma, as limitações que, segundo ele, minha filha teria. Como se sua missão ali fosse me convencer de que aquele bebê não deveria estar nos meus braços. Só depois desse discurso é que ele colheu o exame de cariótipo. Saí daquela sala devastada. Mas segui. Porque é isso que mães atípicas fazem: seguem. Mesmo aos pedaços.

Vieram as terapias. Muitas. Um cronograma que invadiu completamente minha agenda. Fono, fisio, TO, psicomotricidade, avaliação oftalmológica, cardiológica, otorrinolaringológica, neurologista. O que normalmente já é exaustivo nos primeiros meses da maternidade, no nosso caso, foi multiplicado.

A vida mudou de ritmo. Mudou de lógica. Mudou de foco. Tudo passou a girar em torno do desenvolvimento da Lara. E, apesar de tudo, vieram as conquistas. Pequenas vitórias que, para qualquer outra criança, poderiam passar despercebidas. Para nós, eram comemorações guardadas com carinho na alma. Quando Lara sentou sozinha, quando começou a engatinhar, quando deu os primeiros passos, quando disse “mamãe”. Cada etapa era vivida como uma medalha de ouro.

Esses momentos me deram energia. Me reconstruíram. Me ensinaram a perceber o tempo de outra forma. A respeitar o tempo dela. A questionar o nosso tempo. Lara me transformou. Em silêncio, sem grandes discursos, ela foi reorganizando a mulher que eu era. Me fez mais forte, mais crítica, mais sensível e mais focada.

Mas isso teve um custo. Como ginecologista e obstetra, precisei recuar muito da minha atuação profissional, especialmente na obstetrícia. Tive que pausar uma parte de mim para me dedicar integralmente à maternidade. Não foi uma escolha simples. Foi uma necessidade.

A vida não me deu a opção de equilibrar tudo, me colocou diante da realidade: ou eu acompanhava de perto o desenvolvimento da minha filha, ou deixava lacunas que poderiam ser irreversíveis. Não foi uma renúncia idealizada. Foi uma decisão consciente, com todos os impactos que isso representa para qualquer mulher que ama o que faz, mas que também entende suas prioridades.

Miguel é três anos mais velho que a Lara. Desde o início, eles foram muito ligados. Quando ela nasceu, ele ainda era pequeno, então decidimos não explicar nada sobre a condição da irmã naquele momento. Preferimos deixar que a relação deles se construísse naturalmente, sem peso, sem rotulações antecipadas. E foi exatamente isso que aconteceu. Ele ia comigo nas terapias, participava de eventos com famílias atípicas, caminhadas inclusivas. Em um desses espaços, enquanto Lara fazia equoterapia, ele também começou a ter aulas de cavalo, não por indicação clínica, mas para que compartilhassem aquele momento. Minha preocupação era não deixar que ele se sentisse coadjuvante na história da irmã.

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Durante a primeira infância, tudo fluía. Eles brigavam, brincavam, viajavam juntos, iam para a mesma escola. A relação entre os dois era natural, sem questionamentos. E isso, para mim, era o melhor cenário possível. Mas eu sabia que, em algum momento, as perguntas viriam.

Um dia, estávamos em uma cidade do interior, e fomos a uma pastelaria bem tradicional da região. Estávamos eu, Lara, Miguel e minha sobrinha. Na rua, descendo em nossa direção, vinha um jovem adulto com T21. Ele carregava uma mochila nas costas, parecia à vontade, independente. Quando nos viu, especialmente a Lara, seus olhos brilharam. Acho que ele se reconheceu nela.

Aproveitei a chance. Chamei-o para conversar. “Vem aqui, conhece a Lara.” Falei com carinho e com a intenção de que o Miguel visse um adulto com T21. Que percebesse a autonomia, a vida possível. Ele contou onde trabalhava, que morava com a mãe, que gostava de rodeios. Quando perguntei seu nome, ele respondeu o seu nome , mas completou que a mãe o chamava de Menino de Ouro.” Essa frase ficou comigo.

Dois dias depois, estávamos no elevador, e Miguel me surpreendeu: “Mãe, a Lara é uma Menina de Ouro? Ela tem síndrome de Down?” Eu disse: “Sim, filho.” Ele: “Por que você nunca me falou?” Eu: “Porque você nunca me perguntou.” Aquela conversa foi simples, mas cheia de significado. Eu sabia que, quando ele estivesse pronto para entender, faria a pergunta. E quando ela veio, estava claro que era o momento certo.

Nunca escondemos nada. Apenas optamos por não carregar a infância dele com informações que, naquela fase, ainda não pesavam para ele. Ele convivia com a irmã, com sua forma de ser, de falar, de brincar. Para ele, isso bastava. E, honestamente, isso deveria bastar para qualquer pessoa. Depois dessa conversa, outros diálogos vieram, com idades e abordagens diferentes. À medida que Miguel foi crescendo, o mundo também foi impondo suas complexidades. Algumas situações o deixaram mais introspectivo, mais reflexivo. Às vezes, eu o via quieto, digerindo o que talvez não conseguisse colocar em palavras.

Hoje, aos 18 anos, ele compreende com mais profundidade o que significa ter uma irmã com T21. Já conversamos sobre futuro, responsabilidades, possibilidades. Faço questão de reforçar que não é papel dele “cuidar” da irmã — e que, se um dia isso vier a ser necessário, tomaremos as decisões juntos, no tempo certo.

Aprendi com a Lara a fazer planos de curto prazo. Isso me protege do sofrimento antecipado. E ensino isso também a ele. A vida com ela exige presença — no tempo real. Não adianta viver no “e se”.

Durante um tempo, acompanhei em meu consultório uma mulher adulta com T21. Ela vinha uma ou duas vezes por ano, sempre acompanhada da mãe. Tinha cerca de 40 anos, e a mãe, por volta de 70. Trabalhava com certa autonomia e demonstrava viver uma vida estável. Era uma paciente tranquila, e eu gostava de vê-la chegar, talvez porque, de alguma forma, ela me mostrava um futuro possível para a minha filha. Eu costumava pensar: “Se a Lara crescer assim, estarei em paz.” Mas, em uma das consultas, ela apareceu sem a mãe. Estava com uma conhecida. Estranhei. Perguntei, naturalmente: “Cadê sua mãe?” Ela respondeu com a maior simplicidade: “Ela morreu… mas ainda vem me visitar todos os dias antes de eu dormir.” Aquilo me desmontou. Aquela frase tocou um dos meus medos mais profundos. Senti uma contra-transferência tão intensa que precisei sair da sala. Chorei. Chorei muito. Não só por ela, mas também por mim.

O que me abalou não foi apenas o fato da mãe ter falecido, mas o peso simbólico da ausência. O que aquela mulher adulta disse, tocou um lugar que eu costumo guardar com muito cuidado: o medo de faltar para a minha filha. Voltei para casa ainda mexida. Durante o jantar, contei ao meu marido e ao Miguel o que tinha acontecido, como aquela frase me atravessou de um jeito inesperado. Contei sobre a consulta, a emoção, a dificuldade de lidar com aquele sentimento que, até então, eu vinha conseguindo manter sob controle.

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Miguel ouviu tudo em silêncio. Então ele se levantou, veio até mim, me abraçou forte e disse: “Mãe, você não precisa se preocupar. Se um dia você não estiver aqui, eu vou estar perto da Lara. Sempre.” Aquela foi uma das frases mais importantes que já ouvi. Não porque eu não esperasse isso dele, mas foi o fato dele dizer espontaneamente sem que eu precisasse pedir. Nunca impus essa responsabilidade. Mas naquele momento, ele me deu algo que nenhuma terapia ou conversa racional poderia oferecer: paz.

É difícil descrever o que essa frase significou. Não é que o medo tenha desaparecido, mas ele passou a ser compartilhado. E quando a dor é acolhida por alguém que a entende, ela muda de forma.

Quando me mudei para o interior, meus pais vieram também. Isso fez diferença. Eles me ajudaram como podiam: levavam e buscavam na escola, às vezes acompanhavam uma ou outra terapia, me permitiam alguns momentos de descanso. Era o tipo de apoio que muitos chamariam de “suficiente”. Mas a verdade é que não era. Eles já estavam mais velhos, tinham suas próprias questões de saúde e limitações. E, sinceramente, o que eu precisava era muito mais do que o que eles conseguiam oferecer. Não por falta de amor, mas por impossibilidade mesmo. E isso é algo que nem sempre temos coragem de dizer em voz alta: às vezes, a ajuda existe, mas está longe de ser o bastante.

A maternidade atípica exige uma rede de apoio real, constante e estruturada. E nem sempre ela está disponível. Muitas vezes, o que temos é o afeto. O carinho. A presença pontual. Mas não a sustentação de fato. E quando esse suporte falha ou não existe, sobra para a mãe. Aliás, quase sempre sobra para a mãe.

Ouvi inúmeras vezes que “Deus dá filhos especiais para mães especiais”. Ou que “se você teve a Lara é porque é forte o suficiente para isso”. Mas a realidade é muito diferente desse discurso fantasioso. Eu fui me tornando forte à medida que as situações exigiam. Me preparei no susto. Aprendi tentando. Errei bastante. E fui me blindando, na medida do possível, das inúmeras situações adversas que apareceram.

Mas, quando se trata de um filho, essa blindagem nunca é completa. Nunca é suficiente. Muitas noites, depois que tudo silenciava, eu chorava sozinha. Chorava pelo cansaço, pela frustração, pelo medo, pelo sentimento de impotência. Não havia como evitar. Algumas dores só se atravessam assim: sentindo.

O que mais me incomoda nesse discurso de “mãe guerreira” é que ele mascara uma realidade dura. Transforma a luta em destino. Dificuldade em romantismo. E invisibiliza a sobrecarga real que carregamos. Não somos especiais, somos mulheres que foram colocadas diante de desafios imensos, e que seguiram porque não havia outra escolha

A maior parte das pessoas acredita que não é preconceituosa. E, de fato, o preconceito explícito, aquele que vem carregado de insultos, xingamentos, exclusão direta, é cada vez menos tolerado socialmente. Mas existe um outro tipo, mais difícil de detectar e, por isso mesmo, mais perigoso: o preconceito silencioso. O que vem disfarçado de cuidado, de preocupação, de elogio.

Certa vez, estávamos em um restaurante, e a Lara ficou animada com a música ambiente. Começou a dançar, do jeitinho dela, no meio do salão. Não estava incomodando ninguém, não era nada escandaloso, só uma menina se expressando com alegria. Mas, logo, vieram os olhares. E uma mulher da mesa ao lado comentou, como se fosse um elogio: “Ela é tão educadinha… nem parece que tem Down.” Esse tipo de frase escancara uma lógica perversa. A pessoa acredita que está elogiando, quando, na verdade, está reforçando a ideia de que pessoas com T21 seriam, por definição, mal-educadas, descontroladas, ou inapropriadas. A “surpresa” dela com o comportamento da minha filha revela mais sobre sua ignorância do que sobre a Lara.

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Em outro momento, num grupo de WhatsApp, uma participante usou a expressão: “Ah, esses retardados… parecem um bando de imbecis que não entendem nada do que a gente fala.” Preferi não confrontar publicamente. Mandei uma mensagem no privado, com respeito, mas firmeza: “Acho importante a gente repensar esse tipo de linguagem. É um termo ofensivo, ultrapassado. A forma como a gente se refere aos outros importa.”

A resposta que recebi foi defensiva, quase agressiva: que eu precisava de análise, que nem tudo o que é dito diz respeito à minha filha, que eu estava sendo emocional demais. Mas a questão não é pessoal. É estrutural. Não é sobre a Lara. É sobre como uma sociedade escolhe normalizar ou combater expressões que carregam exclusão e preconceito. É sobre perceber que certas palavras, usadas de forma banal, perpetuam estigmas que afetam uma parcela inteira da população.

Também já ouvi de profissionais: “A Lara é muito esperta, mas ela tem Down, né? Então a gente não pode esperar muito.” Esse tipo de comentário vem travestido de realismo, mas esconde uma desistência precoce. Um limite que é colocado antes mesmo de a criança ter a chance de mostrar do que é capaz. É como se já houvesse um teto baixíssimo, e qualquer coisa que a criança faça além dele vire “milagre” ou “exceção”.

Esse é o capacitismo velado. A forma disfarçada de dizer que algumas vidas valem menos, que algumas inteligências não importam, que alguns potenciais não merecem investimento.

Combater esse tipo de preconceito exige presença, paciência e coragem. Porque ele está em toda parte — nos comentários bem-intencionados, nas instituições, nos discursos da mídia, nas piadas, nos diagnósticos mal explicados. É um trabalho de formiguinha. Mas é assim que se muda uma cultura: palavra por palavra, olhar por olhar, correção por correção.

Antes da Lara nascer, eu já era médica. Tinha uma carreira construída, formação sólida, experiência clínica. A medicina, para mim, sempre foi uma forma de cuidar, e eu acreditava que fazia isso bem. Até que me tornei mãe de uma criança com deficiência.

Foi então que percebi o quanto da medicina que eu praticava estava, mesmo sem intenção, atravessada por uma lógica capacitista. E mais: o quanto a linguagem médica, os protocolos e até os próprios diagnósticos carregam um peso de desumanização quando se trata de corpos e vidas que fogem do padrão.

A primeira ficha caiu na consulta com o geneticista.Quando ouvi o diagnóstico da minha filha ser anunciado como se fosse uma sentença, entendi, na pele, o impacto que as palavras de um profissional podem ter sobre uma família. Não era apenas o conteúdo — era o tom, o olhar, a ausência de escuta. A comunicação veio carregada de uma frieza técnica que, para mim, já não fazia mais sentido.

Depois, vieram as terapias, as avaliações, os pareceres. Fui observando como muitos profissionais falavam da minha filha como se ela fosse um conjunto de atrasos, defasagens, limitações. Raramente alguém me perguntava o que ela gostava de fazer, quem ela era fora das escalas de desenvolvimento. Era como se todo o valor da criança estivesse resumido ao que ela “ainda não dava conta”.

Comecei, então, a rever minha própria prática. Revi meus relatórios. Meus pedidos de exame. Minhas conversas com os pacientes e suas famílias. Quantas vezes eu mesma, sem perceber posso ter reproduzido discursos que excluíam.Quantas vezes deixei de ver a pessoa por trás do prontuário?

Ser mãe da Lara me tornou uma profissional muito melhor. Mais cuidadosa com as palavras. Mais sensível aos silêncios. Mais atenta ao contexto. Hoje, quando atendo uma criança com deficiência, ou qualquer criança, na verdade, meu olhar é outro. Não mais o do déficit, mas o da singularidade.

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Essa mudança não tem a ver com ser “mais humana”, como se isso fosse um dom. Tem a ver com experiência. Com escuta. Com a consciência de que a medicina precisa se reposicionar diante da diversidade humana, e parar de tratar o que é diferente como um problema a ser corrigido.

Nem tudo se explica em exames. Nem tudo se corrige com terapias. E nem todo atraso é um erro a ser consertado. Às vezes, é só um outro ritmo. Uma outra forma de estar no mundo. E cabe à medicina aprender a acompanhar, sem tentar forçar um molde.

Uma das experiências mais marcantes da maternidade atípica é aprender a conviver com a incerteza. Não aquela dúvida passageira do “será que vai dar certo?”, mas uma incerteza estrutural. A sensação de que não há um caminho previamente traçado, que o mapa que te deram não se aplica ao território que você precisa atravessar.

No início, isso me angustiava profundamente. Eu queria saber quando a Lara ia sentar, engatinhar, falar. Queria ter datas, prazos, metas. Queria garantir que tudo aconteceria dentro de algum parâmetro conhecido. Mas rapidamente percebi que esse desejo de controle mais me frustrava do que ajudava. As respostas, quando vinham, eram sempre imprecisas: “Vamos observar.” “Cada criança tem seu tempo.” “É difícil prever.”

No começo, essas frases me irritavam. Pareciam descaso. Mas, com o tempo, entendi: era a realidade falando comigo. O que eu precisava era aprender a habitar esse lugar de indefinição com mais presença, e menos ansiedade. Foi a Lara quem me ensinou isso.

A cada pequena conquista, ela me mostrava que o tempo pode ser outro, e ainda assim, legítimo. Que o futuro não precisa ser todo mapeado para ser bom. Que viver o agora com qualidade importa mais do que garantir o depois com certezas frágeis. Aprendi que a incerteza não é ausência de planejamento . É a possibilidade de acompanhar uma trajetória sem sufocá-la com expectativas.

Hoje, faço planos mais curtos. Celebro processos mais do que resultados. Tenho objetivos, sim — mas aprendi a flexibilizar, a escutar, a recuar quando necessário. E isso não foi uma perda. Foi um ganho.

A maternidade atípica me obrigou a rever o tempo. A desacelerar. A observar mais. A tolerar a espera. E, sobretudo, a reconhecer que muito do que eu chamava de “certeza” era apenas ilusão.

Habitar a incerteza é difícil. Mas, para mim, virou uma linguagem. E com o tempo, percebi que ela também pode ser um lugar de potência.

Ser mãe da Lara me transformou em muitos níveis. Me desorganizou para depois reorganizar. Me expôs a medos que eu nem sabia que tinha e me levou a lugares internos que eu evitava visitar. Mas, acima de tudo, me obrigou a parar de viver no modo automático.

Antes da maternidade atípica, eu seguia dentro de um roteiro. Aquilo que muitos chamam de “vida normal”: trabalhar, cuidar dos filhos, planejar férias, se preocupar com boletos. E, apesar de todas as dificuldades do cotidiano, eu tinha uma sensação de que as coisas caminhavam dentro de um certo previsível. A Lara veio romper com essa lógica. E, ao fazer isso, me apresentou a outra: A da revisão de valores.

Descobri que eu era mais forte do que imaginava — mas que isso não me tornava imune à exaustão. Aprendi que posso pedir ajuda. E, mais ainda, que posso não receber. Aprendi a não romantizar minha resistência e, principalmente, a não confundir silêncio com superação.

Também percebi que muitas pessoas ao meu redor simplesmente não sabem como lidar com a deficiência. Algumas se afastam. Outras fingem que está tudo normal. Há quem tente consolar com frases prontas. E há quem prefira o silêncio constrangido. No começo, isso doía. Hoje, entendo que cada um reage com o repertório que tem — mas isso não significa que eu precise aceitar tudo.

Com o tempo, fui delimitando meus espaços, meus vínculos, minhas trocas. Reduzi convivências vazias. Aproximei de quem olha com respeito. E passei a economizar energia. Porque a verdade é que não dá para educar o mundo o tempo todo. E tudo bem.

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Não sou uma heroína. Não sou uma “mãe especial”. Sou uma mulher comum enfrentando desafios que a sociedade ainda não sabe acolher.

E esse é o ponto: o problema não está na minha filha. Está na estrutura que não está pronta para ela, e que espera que nós, mães, façamos o impossível para que ela se encaixe. Mas minha luta não é por encaixe. É por reconhecimento. Por dignidade. Por espaço legítimo para a existência da Lara como ela é. Sem filtro, sem expectativa de correção, sem a obrigação de se tornar “quase normal”.

Essa é a mudança que eu quero ver. E que, aos poucos, tento provocar. O que eu desejo para a Lara é simples — e, ao mesmo tempo, imenso. Desejo que ela seja respeitada.

Que seja vista por inteiro, com suas potências, suas preferências, seus afetos. Que não precisem rotulá-la, explicá-la ou justificá-la. Que ela possa ocupar espaços sem ter que se adaptar o tempo todo, sem ter que provar valor a cada passo.

Desejo que ela encontre pessoas que a escutem. Que a considerem. Que a incluam não por caridade, mas por justiça. Que a tratem com dignidade, não com pena. Que a convidem para a vida — e não apenas a tolerem à margem dela.

Desejo que ela tenha liberdade de ser quem é. No tempo dela. No ritmo dela. Com as escolhas dela.

E desejo que o mundo que ela vai encontrar seja mais consciente, mais plural, mais justo. Um mundo que entenda que deficiência não é sinônimo de limitação, e que o verdadeiro obstáculo nunca esteve na condição da pessoa, mas na estrutura que se recusa a acolhê-la. Mas nem tudo são dores. E isso também é importante dizer.

A maternidade da Lara me levou a conhecer um mundo bonito, um mundo que eu talvez nunca tivesse acessado se a vida não tivesse me convidado a olhar mais fundo.

Conheci outras mães como eu: inteligentes, críticas, generosas, combativas. Mulheres que se levantam todos os dias, mesmo sem dormir direito. Que falam com firmeza mesmo quando a voz falha. Que constroem redes de afeto e luta onde antes só havia isolamento.

Conheci também profissionais éticos, humanos, que me ajudaram a desconstruir ideias ultrapassadas e abriram caminhos reais para o desenvolvimento da minha filha. Gente que acolhe sem julgar, que ensina sem impor.

E encontrei, no meio de tudo isso, muita gente boa. Gente que respeita. Que aprende. Que pergunta sem invadir. Que oferece ajuda sem invadir o lugar do outro. Que está disposta a fazer parte da mudança — mesmo que ainda esteja aprendendo a enxergá-la.

Então, apesar de todas as dificuldades, posso dizer com clareza: a Lara me deu acesso a um mundo mais verdadeiro. Um mundo onde as relações têm mais profundidade. Onde o tempo é mais sentido. Onde o amor não vem do ideal, mas do real.

E é nesse mundo, mais honesto, mais consciente, mais amoroso, que eu espero que a Lara cresça.

E, quem sabe, ajude também a construir.

Notas de rodapé