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Meu nome é Elisângela Muniz de Almeida Giusti. Tenho 41 anos.
Sou uma pessoa muito animada, feliz e adoro compartilhar as coisas boas da vida com as pessoas que convivo no meu dia a dia.
Eu nasci na cidade de Ivaté no estado do Paraná, minha família era bem humilde e tive uma infância um pouco difícil, mas graças a Deus o básico nunca nos faltava. Minha família trabalhava em lavouras e nós os filhos desde muito cedo tínhamos que ir para a lavoura também. Era um pouco difícil mas a gente sempre deu um jeito de ir pra escola.
Na minha adolescência eu era bem animada, gostava de festa e de fazer passeios. Nessa fase a gente já tinha se mudado para a cidade e eu muito nova não podia trabalhar sozinha, então eu ia com minha mãe fazer faxina em casas de família.
Minha qualidade de vida nessa época já era um pouco melhor. Já podíamos ter uma alimentação melhor, mas nunca fiz muita atividade física. E os momentos de lazer era nos finais de semana junto com a família.
Sonhava em vim embora para a cidade grande, ter um bom emprego, construir uma família e sonhava em ter uma família bem grande.
Fui de ter poucos relacionamentos. Com uns 20 anos de idade eu já pensava em me casar pra construir minha família. Pois o meu maior sonho era ser mãe. Mas enfim, demorou um pouco. Com 28 anos tive minha primeira gestação que infelizmente não foi adiante, perdi meu bebê com quatro meses.
Depois aos 29 fiquei grávida novamente e tive meu filho João, que hoje já tem 11 anos. Depois de 2 anos e 3 meses fiquei grávida novamente e nasceu o Bernardo, o nosso menino especial . Eles tem a diferença de idade de 3 anos, João sempre teve muito ciúmes, mas o Bernardo sempre foi muito tranquilo e assim vamos levando.
Sou casada com o pai dos meus filhos há 13 anos. Graças a Deus temos uma boa relação. Ele é um pai super presente na vida dos nossos filhos e está sempre do meu lado para o que der e vier. Meu marido e meus filhos têm uma ótima relação.
Minhas gestação foram bem tranquilas. Do João foi cesárea, mas foi tudo bem tranquilo e ocorreu tudo bem. O pós parto também foi muito tranquilo. A gravidez do Bernardo foi tranquila, só fiz pré natal de alto risco porque desenvolvi diabete gestacional. O parto foi um pouco mais complicado, porque foi parto normal e ele demorou um pouco mais para nascer. Comecei a ter contração na terça-feira à tarde e ele só nasceu na madrugada de sexta feira, mas apesar da demora ocorreu tudo bem.
Quando a pediatra passou no quarto, fazendo as visitas no dia seguinte, ela me pediu para levar o Bernardo no berçário. Aí quando voltou ela me disse: “Olha mãezinha, tudo indica que seu filho nasceu com uma síndrome”. E eu logo perguntei: “Mas é síndrome de Down?” E ela respondeu que sim, mas que eram apenas sinais e tinha que fazer um exame para confirmar.
Eu estava sozinha ali com ele. No primeiro momento eu senti um pouco de medo, fiquei assustada, mas aí parei e pensei: “Se Deus me presenteou com essa benção, não tenho porque temer a nada. Missão dada é missão cumprida, vou cuidar do meu filho e amá-lo mais do que tudo nessa vida ". A partir daquele momento eu já comecei a cuidar dele como se não tivesse nada. Veio um geneticista que colheu o exame e tivemos alta da maternidade.
Quando ele tinha 45 dias de vida passamos por um momento bem difícil. Ele teve bronquiolite, ficamos 12 dias internados, ele ficou até na UTI. Mas a gente ali sem arredar o pé e eu sentia que a cada dia que passava Deus me dava mais forças para encarar as realidades que estariam por vir.
Eu sou sozinha aqui, minha família é toda do Paraná. Mas tenho uma grande rede de apoio sim: a família do meu marido. Inclusive a mãe dele e uma das irmãs que está sempre do meu lado, me ajudando em tudo que preciso.
Minha vida social após os filhos é bem tranquila. Nunca deixei de ir aos lugares e nem de fazer as coisas, sabe? Eu sempre que posso saio com eles, os levo aos lugares comigo e é sempre tranquilo.
Minha rotina é bem agitada, cuido da casa, dos filhos e do marido. Levo o Bernardo para a sala de recursos, para a Fundação, cuido de tudo. Mas sempre com um enorme prazer! É um pouco cansativo, mas o amor faz valer a pena.
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O tempo que eu consigo me dedicar mais ao meu filho com t21 é no período da manhã, que só fica nós dois em casa. Mesmo com as atividades domésticas, sempre tem um tempinho para nós dois. Aí meio dia ele vai para escola e chega o irmão. No período da tarde é o tempo que tenho para me dedicar ao irmão.
E em meio a correria quase não sobra tempo para me dedicar a mim. São tantas coisas para fazer, quero deixar tudo pronto para eles, quando vejo o dia já foi e assim seguimos na rotina diária.
Já vivenciei uma cena de preconceito um dia que fomos na festa de aniversário de uma prima já adulta, mas os convidados foram com seus filhos. Eles estavam na piscina. Quando o meu filho chegou e entrou, eles ficaram fazendo cara de nojo. Ele se encolhia e dizia que estava com medo. Falavam para o meu filho: “Sai para lá”. Aquilo sangrou meu coração! Ele ama festa e piscina… Diante daquela situação as mães não faziam nada, nem sequer corrigiram as crianças. Eu com meu coração partido, peguei as coisas dele, tirei ele da piscina e fui embora. Coitadinho, ele ainda era bem pequeno, não entendeu nada do que estava acontecendo. Depois de sair de lá, chorei muito e depois de muito pensar no que tinha acontecido, tomei uma decisão. Prometi para mim mesma que nunca mais iria embora de lugar nenhum por causa de ninguém. Se alguém se sentir incomodado com nossa presença, que se retire! Cumpri minha promessa, nunca mais fui embora, nem deixei de ir em lugar nenhum com meu filho. Sempre carreguei ele como se fosse meu maior troféu!
Sempre quis mostrar ele pro mundo!
Eu acredito que a sociedade tenha preconceito com nós mãe sim, pois sempre acham que nossos filhos tem frescura, que a gente defende e passa a mão na cabeça. Mas só nós mães sabemos o que enfrentamos no dia a dia.
Minha formação é o segundo grau completo, infelizmente não tive oportunidade de fazer uma faculdade. No momento não trabalho fora de casa.
Hoje minha qualidade de vida é bem tranquila. Sempre que posso eu me cuido, não sou muito vaidosa, mas sempre que dá estou fazendo alguma coisinha para melhorar a aparência. Não faço atividade física, mas procuro cuidar da minha alimentação. Meu lazer é aos finais de semana, quando reunimos a família e sempre que dá saímos para fazer alguns passeios. Não tenho nenhuma doença e nenhum tipo de transtorno.
Eu classifico que os momentos bons em minha vida é quando podemos fazer passeios em família, estarmos juntos. E quando eu consigo algo de bom que desejo para os meus filhos e dá certo.
Eu acho que falta um pouco de empatia dos poderes públicos para nós mães atípicas. Acho que eles poderiam facilitar um pouco mais as coisas que são de direito dos nossos filhos. Porque muitas vezes seus direitos são negados e temos que correr atrás até na justiça pra conseguir
Eu me sinto muito feliz e sinto que, a cada dia que passa, me motivo mais para lutar pelos direitos do meu filho. Também me sinto muito amada, pois tenho uma família maravilhosa que está sempre do meu lado.
Meu maior medo é de que algo aconteça comigo e eu deixe meus filhos.
Hoje os meus sonhos são ver meus filhos crescer no caminho do bem ,ver eles crescido trilhando seus caminhos e que eu possa estar sempre bem para acompanhá-los de perto. Sonho com nossa família sempre unida, um apoiando o outro e que nunca nos falte a fé, o amor e a esperança de dias melhores.