Pausado

Adriana

Mulher, mãe, bióloga e sua história
de luta para ser mãe

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Meu nome é Adriana Brocchi de Moraes e Silva, tenho 52 anos. Sou casada há 30 anos com o Clayton. Temos uma filha, a Letícia, de 16 anos, e tenho dois enteados: Alis Rafael e Vinícius.

Adoro dançar, fazer artesanato (embora esteja difícil arrumar tempo). Gosto também de estudar sobre plantas medicinais e terapias naturais.

Nasci em Sorocaba, de onde saí para cursar Ciências Biológicas, em Campinas, na PUCCAMP. Aqui em Campinas me formei, casei e moro até hoje.

Minha infância e adolescência em Sorocaba foram muito tranquilas, sempre marcadas por muitas amizades, boas escolas, passeios e festas.

Minha família sempre foi muito unida e presente. Sou a caçula de três filhos, e meus pais sempre valorizaram muito a nossa educação. Também viajávamos bastante.

Quando criança adorava brincar de casinha e de boneca. Tinha sempre uma no colo, e a única certeza que carregava era a de que, quando eu crescesse, queria ser mãe! Sempre gostei muito de música e de dançar; fiz balé, jazz, sapateado e teatro.

Sempre fui muito enjoada e seletiva para me alimentar, mas, com o passar dos anos, isso foi mudando e hoje como de quase tudo!

Logo que me formei na faculdade, me casei e acabei indo trabalhar no comércio do meu marido, pois na época não encontrei nada na minha área.

Após dois anos de casados, resolvemos ter filhos, mas não sabia que essa espera duraria dez anos!!! Foram anos de espera, angústia, tristeza, frustração e muito estresse, até que resolvi fazer a fertilização “in vitro”. Todavia, na primeira tentativa nada aconteceu, apenas frustração novamente.

Na segunda tentativa, já nem acreditava que daria certo. Coloquei quatro embriões que estavam congelados e, enfim, no dia 26 de dezembro de 2007, veio a notícia: sim, eu estava grávida!!! Deu certo!! Dos quatro embriões, um permaneceu, e era uma menina: meu sonho estava sendo realizado!

Foi uma gravidez complicada: tive sangramento, infecção urinária e minha pressão começou a subir. Precisei fazer muito repouso. Na trigésima segunda semana de gestação, a pressão subiu muito; tive um grande sangramento nasal, fiquei internada por dois dias no hospital do convênio e, por fim, fui transferida para o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), pois estava com pré-eclâmpsia e corríamos risco de vida.

Lá fui muito bem atendida, nunca esquecerei dos profissionais que cuidaram de mim! Depois de cinco dias internada, durante um exame, não conseguiram escutar o coraçãozinho do bebê e, então, decidiram fazer a cesárea. Com 33 semanas de gestação, Letícia nasceu e com ela muitas surpresas!

No momento em que ela nasceu, chamaram meu esposo, Clayton. Enquanto a pesavam, já perceberam alguns sinais e o comunicaram de que tudo indicava que ela tinha síndrome de Down.

Logo uma psicóloga veio conversar com ele, com meus pais, com meu irmão e com minha cunhada, que estavam na espera. Foram muito acolhedores.

Deixaram que meu marido me contasse e, com um jeito todo especial, ele me deu a notícia. Na hora, pelo jeito dele, achei que diria que ela não tinha sobrevivido. Então, quando falou da síndrome de Down, respirei fundo e fiquei aliviada!

Mas, no segundo dia, depois de todos os exames, descobriram que ela tinha uma cardiopatia congênita e que precisaria fazer uma cirurgia em seu coração. Nesse momento, desabei, achando que nunca a levaria para casa.

Letícia nasceu com 39,5 cm, pesando 1.720 kg. Ficou na semi-UTI para ganhar peso e, depois de 35 dias, finalmente foi para casa! Que momento feliz! Letícia se alimentava por sonda, pois mamar a cansava muito. Era muito difícil ganhar peso.

Quando completou 5 meses de vida, foi internada para realizar a cirurgia, a qual foi um sucesso! Aos 6 meses começaram as terapias e, logo, a sonda foi retirada e ela começou a mamar. Foi uma alegria!

O Clayton e toda a família sempre estiveram muito presentes. Ela é muito querida! De lá para cá, nossa rotina se resume em terapias quase que diariamente.

No ano passado, com 15 anos, após uma avaliação neuropsicológica, foi diagnosticada com autismo também, o que nos ajudou a compreender melhor alguns comportamentos, mas, no geral, não modificou em nada para nós.

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O maior desafio acho que sempre foi a escola, pois nem sempre os professores estão preparados ou têm boa vontade. Essa questão sempre foi o meu maior motivo de estresse. Porém, às vezes, aparecem alguns anjos em nossas vidas, aos quais somos muito gratos. Hoje, ela está com 16 anos e cursa o 1º ano do Ensino Médio. Sabe ler e escrever, mas não fluentemente. Meu sonho é que as escolas sejam realmente inclusivas, com acompanhantes individuais em sala de aula, materiais adaptados e, sobretudo, que não neguem vagas.

Desejo também que todos tenham acesso a terapias de qualidade, sem precisar entrar com ações judiciais contra os planos de saúde, como aconteceu no nosso caso.

Letícia é muito comunicativa, adora conversar e abraçar as pessoas, embora apresente muita oscilação de humor. Onde chega, é muito bem recebida. Ela adora música e dança, faz Hip Hop e joga futebol de salão em um projeto do Guarani, o Stars 21, destinado a pessoas com síndrome de Down

Minha rotina é baseada nela. Pela manhã, enquanto está na escola, consigo cuidar da casa e fazer algo por mim. Vou buscá-la na hora do almoço e, à tarde, três vezes por semana, ela faz terapias. Enquanto isso, fico na sala de espera conversando com outras mães.

Faço aula de ritmos na mesma escola de dança em que ela faz Hip Hop. Adoramos quando há apresentações e participamos de tudo isso juntas! É muito prazeroso!

Temos uma chácara onde costumamos ir nos finais de semanas. Às vezes saímos para jantar, participamos de reuniões em família, vamos ao cinema, a shows e teatros.

Nosso tempo de lazer é sempre em família, e sou muito feliz e realizada por ter a Letícia como filha.

Entretanto, meu maior medo, sem dúvida, é partir cedo e deixar a Letícia. Como será seu futuro? Será que terão paciência com ela? Meu coração dói só de pensar!

Meu maior sonho, por muitos anos, era ser “Mãe”, e hoje sou muito realizada por isso. Hoje meu sonho é viver em um mundo em que não precise mais de escola e de terapias, assim possamos fazer e viver as coisas que mais gostamos e nunca temos tempo.

Notas de rodapé