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Apresentação
Inspirada na visão de Bakhtin (1997) sobre o caráter dialógico da linguagem, a pesquisa partiu do princípio de que a leitura literária ocorre em um processo de troca entre o texto e o leitor, possibilitando a construção coletiva de sentidos. Com isso, levantou-se a hipótese de que a literatura infantil pode ajudar a ressignificar visões estereotipadas de gênero, contribuindo para a formação da identidade das crianças.
O trabalho sustentou-se teoricamente nas ideias de Antonio Candido (2011), que defende a literatura como um direito essencial ao ser humano, capaz de humanizar por meio da reflexão e do estímulo ao pensamento crítico. Para o autor, a literatura ajuda a formar a personalidade ao permitir que o leitor vivencie, de forma simbólica, diferentes situações da vida.
O presente trabalho discutiu gênero como parte essencial da identidade das pessoas, considerando suas vivências e subjetividades, independentemente do sexo biológico. Nesse sentido, a construção da identidade de gênero é entendida a partir das relações e fatores sociais e históricos, conforme aponta Guacira Louro (2014). Assim, as formas de ser homem ou mulher se manifestam de maneiras variadas. No entanto, ainda predomina uma visão binária e heteronormativa, que desconsidera essa diversidade e reforça práticas discriminatórias. Esse modelo é sustentado pelo patriarcado, um sistema que historicamente favorece a dominação masculina e impõe padrões de comportamento.
A maneira como vivenciamos nossa identidade de gênero é influenciada por normas sociais, símbolos e discursos que definem o que é considerado "normal". Por isso, quem foge desses padrões muitas vezes é visto como "estranho" ou "errado". Essa lógica reforça desigualdades, como discriminação, violência e diferenças salariais. Logo, fica evidente a necessidade de discutir e desconstruir estereótipos de gênero, além de refletir sobre a construção da identidade de cada pessoa, a começar no ambiente escolar.
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A literatura é um direito essencial e tem papel importante na formação humana, pois ajuda a desenvolver o senso crítico e promove transformações sociais. Norteada por esse pressuposto, foi realizada uma pesquisa com crianças na faixa etária de 9, 10 anos de idade, do 4º ano dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental de uma escola conveniada à Rede Municipal de Goiânia, por meio de um projeto literário que visou analisar como os livros infantis não sexistas podem influenciar a construção de identidade de gênero.
O corpus literário foi constituído por três obras de literatura infantil:
- A pior princesa do mundo, de Anna Kemp (2013);
- Escola de príncipes encantados, de Eliandro Rocha (2015);
- Tal pai, tal filho?, de Georgina Martins (2015).
Pensando no protagonismo da criança leitora, na construção de sua identidade e na ressignificação das relações de gêneros, o projeto incluiu:
a) Leitura em voz alta de três obras literárias infantis, realizada pela professora pesquisadora. Deve-se pontuar que não havia exemplares para os estudantes e, após cada leitura literária foi disponibilizado o livro físico para que os participantes pudessem reler, apreciar, manusear a obra;
b) Rodas de conversa, encontros dialogados (gravados em áudio) sobre questões suscitadas nas obras literárias, motivadas por perguntas pré-elaboradas pela professora pesquisadora;
c) Registros no formato pergunta (pré-elaborado pela pesquisadora) e resposta (escrita pelos/as participantes da pesquisa) - problematização dos valores retomados e contestados nas obras, relacionando narrativa e vida real da criança;
d) Produção de textos e ilustrações pelas crianças participantes da pesquisa.
O projeto foi apresentado à equipe gestora da escola, que reconheceu sua importância e autorizou sua realização no turno vespertino. As atividades aconteceram na sala de aula do 4º ano, durante as aulas de Língua Portuguesa, entre os dias 22 de novembro e 7 de dezembro de 2023, totalizando dezesseis horas-aula.
O e-book intitulado "Era uma vez: identidades de gêneros sob olhares e narrativas infantis" é uma extensão da dissertação. O produto educacional é composto por:
- Três oficinas literárias das obras citadas;
- Uma amostragem de contos infantis escritos pelas crianças;
- Uma lista de "Direitos de Liberdades Individuais" criados por estudantes;
- Falas e histórias contadas pelas próprias crianças.
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O material foi criado com a intenção de compartilhar com outros/as professores/as o projeto, servindo como inspiração e podendo ser adaptado. O e-book mostra como as crianças compreendem e pensam sobre identidade e gênero, ajudando educadores/as a melhorar as práticas pedagógicas para pluralidade e diversidade. Valorizou-se não apenas a escuta, mas também o que as crianças revelaram por meio da escrita.
A pesquisa-ação possibilitou a confirmação da hipótese inicial de que a leitura literária subsidia a construção da identidade e das relações de gênero das crianças. Isso ficou evidente nos contos infantis com princesas mais autônomas e resilientes, nos Direitos de Liberdades Individuais e nas falas das crianças. O e-book será disponibilizado no repositório da UFG e no Portal Educapes.