Era uma vez... identidades de gêneros sob olhares e narrativas infantis

Considerações Finais

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Considerações Finais

A literatura colabora na formação da identidade humana, instigando reflexões, desafiando visões conservadoras e oferecendo novos sentidos à vida. Segundo Antonio Candido (2011), a literatura tem, um papel humanizador, pois expressa sentimentos, significados e visões de mundo, ajudando na organização dos pensamentos e na percepção de si e da sociedade.

A literatura infantil auxilia a criança em sua descoberta do mundo, oferecendo suporte imaginá-rio e emocional. Por meio de narrativas fantasiosas, os autores proporcionam experiências simbólicas que permitem à criança refletir sobre sua realidade, questionar e ressignificar ideias. Provoca, ainda, inquietações diante de preconceitos e desigualdades socioeconômicas, políticas e culturais, sendo, por isso, muitas vezes combatida por grupos dominantes. Ela se alinha à luta pelos direitos humanos ao denunciar opressões e violações de direitos.

Ainda na sociedade atual, existem muitas limitações impostas pelas normas de gênero. Um exemplo disso é como, ao entrar em uma loja de roupas infantis, as opções de cores e estilos são muito divididas entre o que é “para meninos” e o que é “para meninas”. O mesmo acontece com brinquedos, brincadeiras, profissões e até esportes, com expectativas rígidas sobre os papéis que cada um/a deve exercer na família e na sociedade.

Essas normas têm origem em uma visão patriarcal histórica e cultural, que perpetua desigualdades e discriminações. Moldadas por práticas heteronormativas, as pessoas acabam limitadas em sua liberdade e autenticidade, com suas identidades complexas sendo desconsideradas pelo modelo tradicional.

Ora, a identidade de gênero não pode ser discutida apenas sob o ponto de vista das diferenças anatômicas, como sugerem as visões naturalistas e binárias, mas ser entendida como uma construção social, determinada pelas influências culturais, práticas e interações, bem como pelas experiências de vida de cada indivíduo (Louro, 2014).

Qual o problema se uma menina se sente bem jogando futebol com roupas “masculinas”, ou se um menino gosta de dançar balé usando um figurino rosa? E por que é visto como algo estranho ou questionável se um menino expressa seus sentimentos de forma mais afetuosa, como chorando ou beijando um amigo no rosto? Se essas expressões de gênero proporcionam bem-estar e saúde mental, qual é o motivo de combatê-las?

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Essas questões desafiam as regras convencionais sobre como as pessoas “devem” se comportar, se vestir ou se expressar. Elas nos convidam a refletir sobre os danos que as expectativas sociais podem causar quando restringem a liberdade das pessoas de serem autênticas e de viverem de maneira plena.

Por essa razão, é importante levar esse tipo de debate para espaços sociais, principalmente para as escolas, onde as crianças e os adolescentes passam boa parte da vida e que é lugar propício à formação de princípios éticos e condutas referendadas na valorização da vida e da diversidade humana. Ampliar a forma como vemos as identidades, quebrando padrões e rejeitando rótulos, pode ajudar a entender melhor o/a outro/a e a si mesmo/a. Respeitar o lugar de fala com práticas democráticas inclusivas podem contribuir para uma educação mais humanizada. Isso se torna ainda mais necessário num momento em quegovernos reacionários atacam a autonomia docente e querem retirar temas como gênero do currículo escolar.

Nessa direção, o presente e-book chega como uma possibilidade de prática educativa aos/às professores/as da Educação Básica que pretendem promover o direito à leitura literária e formar novos/as leitores/as. As oficinas apresentadas não têm caráter prescritivo, sobretudo por terem como ponto de partida obras literárias, que em hipótese alguma devem ser instrumentalizadas, mas abordadas de modo a assegurar a pluralidade de sentidos que elas são capazes de mobilizar. Por outro lado, as sequências de atividades que configuraram as oficinas podem sinalizar para alternativas a quem deseja conhecer e explorar obras não sexistas, abrindo horizontes para novas buscas e pesquisas educacionais. Já, as produções infantis representam a forma como as crianças podem ressignificar as identidades de gêneros, a partir de leituras literárias e de discussões acerca das obras. Cada produção pode, portanto, ser compreendida como fonte de inspiração para educadores/as e estudantes que vislumbram a transformação social, a começar pelo respeito e acolhida aos mais diversificados gêneros.