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Relatos Orais por Crianças
1. Você já passou por situação semelhante ao do protagonista da história Tal pai, tal filho? ou conheceu pessoas que sofreram preconceito pelo modo de agir na sociedade?
Hipátia
— Eu já passei por isso, sim, porque no dia que eu, tipo assim, falei pro meu pai que eu queria ser policial, que eu achei interessante e tal, ele falou que eu não poderia ser policial, porque isso não é profissão de mulher e que eu deveria ser médica ou médica. Ele só falou que eu poderia ser médica, ele não colocou outras opções. E tipo assim, ele não me deu liberdade pra escolher o que eu ia ser. (Hipátia)
— E o que que você sentiu? (Pesquisadora)
— Eu senti, tipo assim, eu fui bloqueada de ser alguma coisa. Tipo assim, eu não podia fazer nada. Eu só tinha que ser médica. (Hipátia)
— E quando você ouve essa história, renova o seu desejo e as suas forças ou você ainda não consegue, de repente, dialogar com seu pai e tentar convencê-lo do contrário? (Pesquisadora)
— Eu tento convencê-lo do contrário. Eu sempre tento. Ele quase todo dia fala que eu tenho que ser médica. (Hipátia)
— E o que você achou dessa história? (Pesquisadora)
— Eu acho ela muito legal, muito realista, porque tem muitos pais, muitas pessoas que não deixam as pessoas serem o que quiser. (Hipátia)
Safo
— A minha mãe disse que ia me expulsar de casa se eu gostasse de mulher. (Safo)
— E o que você sentiu? (Pesquisadora)
— Tristeza. (Safo)
— Em algum momento você pensa que o seu gênero ainda não está definido? (Pesquisadora)
— Sim. (Safo)
— Você conversou com a sua mãe ou se calou perante isso? (Pesquisadora)
— Me calei. (Safo)
— O que esse livro traz pra você? E os outros? Quando eu fiz a leitura, teve alguns momentos em que você se emocionou ou se identificou com uma das três histórias? (Pesquisadora)
— Me identificar não, neh… Mas eu me emocionei um pouquinho. (Safo)
— Com qual você mais se emocionou? (Pesquisadora)
— Com o pai, praticamente, desculpando o filho. O filho, desculpando o pai, né? (Safo)
— E o pai aceitando o filho da forma como ele quer ser? (Pesquisadora)
— Sim. (Safo)
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Willian
— Eu nunca sofri uma situação dessa, mas eu conheço uma pessoa que sofreu. Ela me contou o seguinte pelo que eu me lembro. Era uma mulher, ela queria ser policial, só que o pai dela e a mãe dela não gostaram do que ela queria ser. Eles queriam que ela fosse outra coisa. Pelo que ela me contou, os pais dela gritaram com ela e bateram nela. (Willian)
— E o que você acha disso? (Pesquisadora)
— Porque todo mundo tem o direito do que quer ser. Ela pode escolher o que ela quiser ser. Se ela gostar de homem, gostar de mulher ou dos dois. Ou se ela quiser ser policial, médica, bombeira, dentista. Ela pode ser qualquer coisa que ela quiser da vida. (Willian)
— Você conhece alguém, por exemplo, uma menina que gosta de menino e um menino que gosta de menino, homem que gosta de homem e mulher que gosta de mulher? (Pesquisadora)
— Sim, a amiga do meu pai. Que gosta de mulher, que é lésbica. Gay, eu não conheço. (Willian)
— Você a conhece? (Pesquisadora)
— Conheço, conheço a engenheira. (Willian)
— Ela é legal? (Pesquisadora)
— É. (Willian)
— Ela é amigável? (Pesquisadora)
— Amigável. (Willian)
— Uma pessoa como as outras? (Pesquisadora)
— Como as outras, só que gosta de mulher. E não tem nenhum erro nisso, nenhum erro. (Willian)
2. Quais reflexões as leituras literárias trouxeram para suas vidas?
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Charles
— Eu acho que todos nós temos a liberdade de sermos o que somos, porque como aqui a maioria somos crianças ou pré-adolescentes, isso pode ser um problema, porque o adulto esquece que crianças também têm o direito de escolher seu gênero, de escolher o seu estilo de roupa que vai vestir, se vai usar maquiagem ou não, como cuidar do cabelo, se vai deixar curto, se vai deixar longo. Os meus pais, por exemplo, para eles o único direito que eu tenho é de respeitar eles. Tipo, eu não posso demorar um segundo, que eles querem que eu faça no mesmo segundo. Eles brigam, falam dos meus defeitos, falam dos defeitos de todo mundo, praticamente. Gente, isso é muito ruim, porque vendo pessoas como os meus pais falando mal de todo mundo, principalmente falando do jeito das pessoas… Se você tivesse uma família assim, você fosse homossexual, você nunca iria ser. Você teria medo de se assumir gay, lésbica, bi, trans. Isso seria um problema. Porque aí você não pode, porque isso significa que você não confia em seus próprios pais para decidir seu gênero. Por exemplo, eu ainda não decidi o meu gênero. Meus pais, eles claro que não sabem disso, porque senão eles vão me torturar o dia inteiro só pra ser um menino.
Safo
Tenho uma amigo trans. Ela deixa o cabelo curto e usa roupas de menino e eu não vejo nada de errado nela [...] Se eu não gosto de ser menino, você pode ser uma menina. Você também pode o contrário. Na minha opinião todo mundo pode ser o que quiser na vida.
Nicolas
Assim, tipo, (sic) eu tenho um amigo que tem cabelo grande, e eu não julgo ele, porque é o estilo dele, ele gosta. Meu primo também teve o cabelo grande. Eu mesmo já tive cabelo grande. Cada um tem seu estilo de viver, cada um tem seu estilo, cada um faz o que bem quiser, porque tem direito de fazer.
Hipátia
[...] eu gosto de roupa longa, de short... Eu não gosto muito de vestir coisas delicadas. Eu acho, muito desconfortável. Acho chato. Eu gosto de coisa mais solta, mais livre, mais radical. E eu concordo que qualquer pessoa pode ser o que ela quiser. Eu não acho chato, não acho feio, não acho nojentoSe ela estiver feliz, ela tá bem.