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Introdução
Frases como “Rosa é para meninas” ou “Homem de verdade não chora” são exemplos de estereótipos de gênero que, em determinado momento da vida, me causaram incômodo. Percebi que essas ideias são nocivas, pois limitam o desenvolvimento pessoal de homens e mulheres, afetando suas decisões, habilidades e escolhas profissionais.
Essa inquietação surgiu a partir de lembranças da infância, especialmente de leituras e contações de histórias clássicas que transmitiam discursos de gênero com forte carga moralista e patriarcal, além de repetir alguns estereótipos que podem reforçar preconceitos de gênero e raça, quando por exemplo, predomina a princesa recatada de cor branca, à espera de um príncipe que a salva de algum infortúnio e, logo em seguida, se casam e vivem felizes para sempre. Conhecer essas versões é relevante, no entanto também se vê necessário valorizar novas releituras que mostram outras formas de pensar e viver, sintonizadas ao tempo em que vivemos.
A escola, como espaço de formação social, deve ajudar a combater estereótipos e atitudes sexistas. Isso porque toda prática educativa tem um caráter político, e assumir um currículo que valorize a diversidade é parte desse compromisso. No entanto, em 20 anos como professora da Educação Básica, tenho notado a perda gradual da autonomia docente, tanto no ensino quanto na liberdade para discutir temas como classe, raça, gênero e sexualidade.
Diante disso, a pesquisa de mestrado, intitulada “Leitura literária e construção de identidades por crianças nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental” foi norteada por uma questão: a literatura na escola pode ajudar a criança a romper com visões estereotipadas de identidade e construir seu próprio modo de ser? A investigação teve como objetivo identificar e analisar como a literatura infantil pode influenciar as representações sociais e culturais de gênero em crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com foco na construção de identidades na infância. Entre os objetivos específicos, buscou-se entender o papel da literatura na formação da subjetividade e identidade de gênero; analisar temas e propostas presentes nas obras literárias trabalhadas; produzir um e-book com os roteiros de três oficinas literárias e narrativas escritas e orais de crianças participantes da pesquisa-ação do 4º ano do Ensino Fundamental.
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Inspirada na visão de Bakhtin (1997) sobre o caráter dialógico da linguagem, a pesquisa partiu do princípio de que a leitura literária ocorre em um processo de troca entre o texto e o leitor, possibilitando a construção coletiva de sentidos. Com isso, levantou-se a hipótese de que a literatura infantil pode ajudar a ressignificar visões estereotipadas de gênero, contribuindo para a formação da identidade das crianças.
O trabalho sustentou-se teoricamente nas ideias de Antonio Candido (2011), que defende a literatura como um direito essencial ao ser humano, capaz de humanizar por meio da reflexão e do estímulo ao pensamento crítico. Para o autor, a literatura ajuda a formar a personalidade ao permitir que o leitor vivencie, de forma simbólica, diferentes situações da vida.
O presente trabalho discutiu gênero como parte essencial da identidade das pessoas, considerando suas vivências e subjetividades, independentemente do sexo biológico. Nesse sentido, a construção da identidade de gênero é entendida a partir das relações e fatores sociais e históricos, conforme aponta Guacira Louro (2014).
Assim, as formas de ser homem ou mulher se manifestam de maneiras variadas. No entanto, ainda predomina uma visão binária e heteronormativa, que desconsidera essa diversidade e reforça práticas discriminatórias. Esse modelo é sustentado pelo patriarcado, um sistema que historicamente favorece a dominação masculina e impõe padrões de comportamento.
A maneira como vivenciamos nossa identidade de gênero é influenciada por normas sociais, símbolos e discursos que definem o que é considerado “normal”. Por isso, quem foge desses padrões muitas vezes é visto como “estranho” ou “errado”. Essa lógica reforça desigualdades, como discriminação, violência e diferenças salariais. Logo, fica evidente a necessidade de discutir e desconstruir estereótipos de gênero, além de refletir sobre a construção da identidade de cada pessoa, a começar no ambiente escolar.
A literatura é um direito essencial e tem papel importante na formação humana, pois ajuda a desenvolver o senso crítico e promove transformações sociais. Norteada por esse pressuposto, foi realizada uma pesquisa com crianças na faixa etária de 9, 10 anos de idade, do 4º ano dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental de uma escola conveniada à Rede Municipal de Goiânia, por meio de um projeto literário que visou analisar como os livros infantis não sexistas podem influenciar a construção de identidade de gênero. O corpus literário foi constituído por três obras de literatura infantil: A pior princesa do mundo, de Anna Kemp (2013), Escola de príncipes encantados, de Eliandro Rocha (2015), e Tal pai, tal filho?, de Georgina Martins (2015).
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Pensando no protagonismo da criança leitora, na construção de sua identidade e na ressignificação das relações de gêneros, o projeto incluiu:
- Leitura em voz alta de três obras literárias infantis, realizada pela professora pesquisadora. Deve-se pontuar que não havia exemplares para os estudantes e, após cada leitura literária foi disponibilizado o livro físico para que os participantes pudessem reler, apreciar, manusear a obra;
- Rodas de conversa, encontros dialogados (gravados em áudio) sobre questões suscitadas nas obras literárias, motivadas por perguntas pré-elaboradas pela professora pesquisadora;
- Registros no formato pergunta (pré-elaborados pela pesquisadora) e resposta (escrita pelos/as participantes da pesquisa) – problematização dos valores retomados e contestados nas obras, relacionando narrativa e vida real da criança;
- Produção de textos e ilustrações pelas crianças participantes da pesquisa.
O projeto “Leitura literária e construção de identidades por crianças nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental” foi apresentado à equipe gestora da escola, que reconheceu sua importância e autorizou sua realização no turno vespertino. A pesquisa se realizou durante as aulas de Língua Portuguesa, entre os dias 22 de novembro e 7 de dezembro de 2023, totalizando dezesseis horas-aula, distribuídas em diferentes dias.
O e-book intitulado “Era uma vez: identidades de gêneros sob olhares e narrativas infantis” é um Produto Educacional correlacionado à Dissertação “Leitura literária e construção de identidades por crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental”. Ele é composto por: três oficinas relacionadas às obras literárias abordadas durante a pesquisa de campo: A pior princesa do mundo, de Anna Kemp (2013), Escola de príncipes encantados, de Eliandro Rocha (2015), e Tal pai, tal filho?, de Georgina Martins (2015);
O produto educacional expresso nesta coletânea, é composta por:
- três oficinas literárias das obras A pior princesa do mundo, de Anna Kemp (2013), Escola de príncipes encantados, de Eliandro Rocha (2015), e Tal pai, tal filho?, de Georgina Martins (2015);
- uma amostragem de contos infantis escritos pelas crianças, após a leitura e conversa sobre o livro A pior princesa do mundo;
- uma lista de “Direitos de Liberdades Individuais” criados por estudantes participantes da pesquisa, a partir da leitura de Escola de príncipes encantados;
- falas e histórias contadas pelas próprias crianças durante as aulas sobre o livro Tal pai, tal filho?.
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O material foi criado com a intenção de compartilhar com outros/as professores/as o projeto literário proposto pela professora pesquisadora, servindo como inspiração e podendo ser adaptado conforme as necessidades de cada realidade escolar. Mais do que isso, o e-book mostra como as crianças compreendem e pensam sobre identidade e gênero, ajudando educadores/as a perceber o que foi aprendido, o que ainda precisa ser trabalhado e como melhorar as práticas pedagógicas para pluralidade e diversidade no contexto escolar. Nesse processo, valorizam-se não apenas os momentos de escuta e diálogo em torno das histórias lidas, mas também o que as crianças revelaram por meio da escrita – suas ideias, imaginários e formas de compreender o mundo. A pesquisa-ação possibilitou a confirmação da hipótese inicial de que a leitura literária subsidia a construção da identidade e das relações de gênero das crianças, ressignificando suas vivências e subjetividades. Isso ficou evidente nos contos infantis protagonizados por princesas mais autônomas e resilientes, nos “Direitos de Liberdades Individuais” criados pelas crianças participantes da pesquisa e nas falas fascinantes que elas apresentaram durante as aulas dialogadas.
O e-book foi financiado pela própria pesquisadora e está disponibilizado no repositório da UFG e no Portal Educapes. Dessa forma, busca-se ampliar seu alcance e fortalecer um ensino comprometido com o direito à leitura literária, incentivando as crianças a desenvolverem a escrita e a expressarem suas opiniões com liberdade.