EDUCAÇÃO AMBIENTAL VISTA DO ESPAÇO • ISBN:
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Parte VIII – Penso, logo existo

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Os dias terráqueos se passavam dentro das expectativas para a missão. Rita, a cada dia, se sentia mais segura em seu ofício de professora.

Meu sinistro amigo Anagonno entrava e saía da minha mente de acordo com a sua conveniência. Às vezes, eu o comparava com um daqueles alunos dispersos do "fundão".

De todas as estranhezas que tenho presenciado entre os humanos, a que mais me deixa confuso é a relação peculiar que mantêm com o tempo — uma verdadeira obsessão. Estão sempre obcecados pelo futuro e usam o passado, quase sempre, para nutrir sentimentos de arrependimento: seja por algo que não saiu como planejado, seja por alguma ação que acreditam ter sido executada de maneira impensada.

O presente deles se assemelha a uma frágil ponte pênsil sobre um precipício: um lugar a ser temido enquanto caminham, às cegas, rumo a um futuro desconhecido.

No meu mundo, só existe o presente — um eterno presente que vivemos intensamente. Sabemos que o futuro é apenas um embrião que logo dará origem a um novo presente, para ser vivido em toda a sua plenitude.

Por ainda não fazer parte de nossas consciências, preferimos manter o futuro protegido em alguma parte do presente.

Algo semelhante acontece com o nosso passado: por reunir todos os presentes já vividos, não o deixamos para trás — implantamo-lo sempre à frente de nossas ações. Todas as vezes que pensamos, fazemos ou dizemos algo, olhamos para ele. É como um olho que olha retrospectivamente para a frente.

— Belíssimas reflexões, Sr. Koz! — cumprimentou-me Anagonno.

— Estranho... não percebi você entrando em minha mente — disse a ele.

— Talvez eu tenha entrado pela porta dos fundos. Kkk.

— Você tem um senso de humor peculiar, Sr. Anagonno.

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— Pois é... às vezes, não consigo me controlar. Mas deixemos meu humor de lado. Quero que saiba que, no meu mundo subaquático, nos relacionamos com o tempo exatamente como vocês, em seu mundo, amigo Koz.

— Interessante. Um dia desses, gostaria de conhecer o seu mundo, Sr. Anagonno.

— Também tenho curiosidade sobre o seu, Sr. Koz. Espere aí... e se o seu mundo não existir?

— Como assim?! — perguntei, confuso.

— Isso mesmo! E se você for apenas uma projeção da mente de Rita? Uma mera criação de seu psiquismo, involuntariamente desenvolvida para atenuar algum trauma sofrido? Neste caso, Sr. Koz, você, seu mundo e sua missão... talvez nem mesmo existam!

— Me desculpe a franqueza, Sr. Anagonno, mas penso que seu senso de humor está começando a interferir em nossa relação. Não acha?

— Queira me desculpar, mas ele me ajuda a suportar as trivialidades do universo humano.

— Nesse caso, Sr. Anagonno, me vejo obrigado a devolver a pergunta que me fez: e se o seu mundo subaquático for apenas uma criação da mente estressada de Rita? Talvez você seja uma versão nordestina do Aquaman — provoquei, com ironia.

— Parabéns, Koz! Percebo que começou a desenvolver seu próprio senso de humor. Pois fique sabendo que o meu mundo é mais real do que imagina.

— E o que acha de me provar se você de fato existe ou se é apenas uma projeção mental de Rita? — desafiei-o.

— Tudo bem. Mas me dê um tempo... deixe-me pensar em uma maneira prática de provar a minha existência. Já sei! Está vendo o gato da Rita, o “Leozinho”?

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— Sim. O que tem ele?

— Todos sabem que gatos não gostam de água, não é mesmo? Então, entrarei na mente do bichano e farei com que ele entre no vaso sanitário e se divirta como uma criança em uma festa de aniversário. O que acha, Sr. Koz?

— Julgando pelo comportamento usual desse gato, sou obrigado a aceitar o seu desafio.

Imediatamente, o gato saiu de cima de sua almofada, atravessou a sala e entrou no lavabo. Percebendo que a tampa do vaso estava aberta, lançou-se dentro dele, realizando sucessivas cambalhotas e espalhando água por todo o recinto. Impressionante! O gato mergulhava a cabeça no fundo do vaso como se quisesse descer pela tubulação.

— Olhe só como ele está feliz! Esse gato até me faz recordar da minha infância. E agora, Sr. Koz, satisfeito? Ou quer que eu faça o gato morrer engasgado, engolindo a própria cauda? Agora é a sua vez de provar que existe — provocou-me Anagonno.

— Eu poderia pedir a Rita que levitasse. Para uma humana como ela, tal façanha só pode ser alcançada quando se atinge estados de consciência alterados ou mesmo um nível muito elevado de desenvolvimento espiritual, a ponto de transcender as restrições de seu corpo físico. Contudo, amigo anfíbio, nesta missão, infelizmente, não estou autorizado a interferir nas ações dos humanos.

— Eu sabia! Você não existe concretamente. É só uma ilusão mental de Rita ou, quem sabe, uma crise da própria consciência em relação à sua ciência ambiental ineficaz.

— Já sei como provar a minha existência sem interferir nas decisões de Rita!

— Ótimo! Vá em frente — disse Anagonno, incrédulo.

— O plano é o seguinte: você vai fazer com que o gato dê boas e altas miadas dentro do vaso. Assim que Rita ouvir e for ao encontro do animal para retirá-lo de lá, eu farei uma tradução, em tempo real, para o meu idioma. Tudo o que ela disser ao gato você ouvirá — na voz dela — só que na língua falada em meu mundo. Dessa maneira, conseguirei provar a você a minha existência sem alterar o estado de consciência da professora. O que acha da minha ideia?

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— Fechado — concordou Anagonno.

Instantaneamente, o gato começou a esgoelar miados de dentro do vaso. Rita, então, saltou da cama e correu ao encontro do bichano esbravejando:

— Satisfeito, Sr. Anagonno?

— Confesso que estava esperando uma performance tipo “de outro mundo”, entende? Mas você acabou me convencendo de sua existência.

— Parceiros novamente?

— Sim.