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Considerações Finais
O compromisso com uma educação de qualidade não pode prescindir da importância dos aspectos que envolvem a formação do leitor literário na educação básica. Evidentemente, que não se deve esperar que apenas a escola protagonize esse desafio. Por exemplo, boa parte das crianças chega à escola conhecendo bem um aparelho celular, que, de certo modo, é a ferramenta que as inserem na cultura digital tão disseminada mundialmente, fonte importante de informações e entretenimento. De maneira análoga, não se deve preterir a leitura, a contação de estórias ou algum acesso a obras literárias na fase da pré-escola. Contudo, nem todas as crianças têm a oportunidade de manusear algum livro literário ou, quem sabe, ouvir algumas estórias de reis e rainhas antes de ingressar no ensino formal.
Então, o compromisso com a formação de leitores literários inicia-se em casa, mas é, certamente, na escola que esse gosto e as habilidades de seleção de boas obras, reconhecidas pelo valor estético da linguagem, ganham maior maturidade. Nesse processo, é fundamental a mediação do professor, que abre caminhos, descobertas, incentivos e espaços que conduzem a uma leitura autônoma, reflexiva, crítica, capaz de evidenciar aos jovens que a leitura literária pode ser tão especial, para não dizer essencial em nossas vidas e que ela constitui um direito. Nesse sentido, a contribuição que esperamos oferecer como forma de ampliar esse direito deu-se por meio do desenvolvimento de um trabalho que prestigiou uma escritora afro-brasileira, a partir de uma obra que dialoga com nossa diversidade cultural.
Prestigiar a alteridade afro-brasileira contraria o mito da democracia racial. De acordo com DaMatta (1984, p. 47), o que se pode indicar sobre o mito é precisamente “uma forma sutil de esconder uma sociedade que ainda não se sabe hierarquizada e dividida entre múltiplaspossibilidades de classificação”, ou seja, uma lógica que torna a injustiça e a discriminação como algo tolerável.
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Portanto, as respostas obtidas por meio dos questionários sobre os hábitos de leituras dos discentes, aplicados no início desse estudo; as leituras dos contos e atividades propostas, algumas delas presentes como escrevivências neste e-book; bem como as discussões e debates realizados em sala de aula permitem afirmar que a leitura de contos afro-brasileiros constitui um gênero que colabora com o processo de formação do leitor literário na educação básica, possibilitando a ampliação do conceito histórico e cultural de nossa formação e ressignificando a importância da herança cultural africana em nossa história. Além disso, a literatura afro-brasileira oportuniza o debate crítico de temas que desafiam a sociedade brasileira, incluindo os estereótipos que recaem sobre mulheres e homens negros em forma de racismo, discriminação e violência. A desigualdade econômica, percebida nas dificuldades de moradias dignas enfrentadas pela população negra, bem como a falta de representatividade em posições de destaque nas empresas e na produção de conhecimento intelectual, evidencia um cenário permanente de exclusão, mesmo em um país em que mais da metade da população é negra.
Esse contexto de desigualdades solicita ações afirmativas que resistam à sua naturalização. A leitura de contos afro-brasileiros, como os percebidos na obra de Conceição Evaristo, oferece histórias que refletem a vida de boa parte da população negra no Brasil. É uma literatura engajada, fortalecedora da autoestima negra, que rompe com o silenciamento e o apagamento das vozes negras, tanto no campo artístico autoral quanto na representação das personagens e das narrativas construídas a partir da perspectiva de suas experiências, seus saberes, sua ancestralidade, suas vivências e escrevivências.