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2. A hora da leitura
Foram escolhidos quatro contos para leitura em sala de aula. O primeiro tem o título que dá nome ao livro de Conceição Evaristo, Olhos d’água. Nesse conto, temos uma narradora-personagem que se sente angustiada com uma inquietante pergunta: “Qual seria a cor dos olhos de minha mãe?”. No fundo, a resposta a essa pergunta encontra-se sufocada em experiências que, arriscamos dizer, estão recalcadas em sua memória. A pergunta insistente faz emergir memórias de infância, que carregam consigo experiências de amor, mas, sobretudo, de dor.
Primeiro, aparece a brincadeira de pentear uma boneca negra e bela, papel desempenhado pela mãe, que fica rodeada pelas filhas. Tal brincadeira resulta na descoberta de uma verruga que é confundida com um carrapato! A tentativa de arrancar o bicho da cabeleira provoca uma situação de muito riso entre o grupo das sete irmãs, em redor da mãe.
Há também a lembrança das crianças que andavam nuas até bem grandinhas, sendo que às meninas eram providenciadas roupas adequadas antes dos meninos, tão logo os seios começavam a brotar. A pobreza da família não se limitava à vestimenta, mas alcançava quase tudo na rotina familiar da casa, cujo contexto nos permite inferir que era mantida pela mãe, que não contava com ajuda de mais ninguém, inclusive, sem auxílio do pai das meninas. Este não é sequer mencionado na narrativa.
Comida na mesa? Em suas lembranças, a protagonista lembra que da panela não subia cheiro algum. “Era como se cozinhasse, ali, apenas nosso desesperado desejo de alimento”. No final da tarde, as nuvens do céu eram objetos das brincadeiras, vistas como animais ou até algodão doce, que eram distribuídos em pedacinhos pela mãe nas bocas das meninas. E, nos dias de fortes chuvas, preces eram dirigidas à Santa Bárbara, a Yansã, que controla os ventos, haja vista o temor do barraco da família desabar.
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Decidida a reencontrar a mãe e contemplar a cor de seus olhos, a personagem narradora volta à sua terra natal. O encontro com a mãe é marcado por lágrimas e forte emoção. “Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água” (Evaristo, 2020, p. 18).
Os estudantes acompanharam em silêncio a leitura do conto, que foi realizada por mim. Foi um momento que envolvia expectativa, pois inaugurava, de modo prático, o início dos trabalhos com foco na leitura. A leitura do conto exerceu um certo espanto, pois os temas envoltos na narrativa apresentam vínculos com a realidade que muitos estudantes da escola pública vivenciam, em especial os relativos às dificuldades financeiras. Alguns comentários que se seguiram foram:
Caio: o conto é um pouco triste, mas, ao mesmo tempo, é alegre. Fala da convivência entre mãe e filha de uma forma muito bonita.
“É uma família só de mulheres pobres, uma família grande”, disse uma aluna. A fome foi um aspecto mencionado como um problema muito atual em nosso país. Lembraram que, durante a pandemia, muitas famílias enfrentaram situações difíceis, e que algumas pessoas disputaram, inclusive, ossos de animais descartados por grandes supermercados. As marcas da pandemia ainda estavam muito vivas nas memórias dos discentes; alguns enfrentaram dificuldades financeiras e perdas de entes queridos na família.
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O acesso à moradia digna foi apontado como um problema social persistente na sociedade brasileira. Comentamos sobre favelas que são conhecidas no cenário nacional e que, além de construções precárias, escondem uma realidade social de pessoas que se tornam “invisíveis”, pois algumas sequer possuem registro de nascimento. A pandemia acabou dando visibilidade para essas pessoas que, em alguns casos, não conseguiram obter auxílio de programas do Governo Federal devido, entre outras coisas, à falta de documentação.
O debate evoluiu para questões religiosas a partir da pergunta que lancei a eles sobre as personagens: como elas lidavam com os perigos de tempestades e chuvas, que ainda hoje afligem moradores que habitam comunidades caracterizadas como favelas?
“Ela fazia orações à Santa Bárbara”, disse um aluno. Comentei que, nas religiões de matrizes africanas, Santa Bárbara corresponde à orixá Iansã, controladora de eventos climáticos, como tempestades, ventos e raios. Esse momento do debate foi valioso no sentido de desmistificar um pouco as religiões africanas, os nomes atribuídos às suas divindades e discutir o preconceito religioso que envolve essas religiões. Além disso, apresentei ao grupo uma proposta de atividade em que eles teriam a oportunidade de produzir suas próprias escrevivências. As produções ofereciam a liberdade para escrever crônicas, relatos pessoais e pintura. Na sequência, é possível conferir algumas dessas produções.
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É curioso como a aluna, com muita espontaneidade, valoriza aspectos físicos de uma mulher negra em seu trabalho. O cabelo, o tom de pele retinto, os lábios expressivos, todos esses elementos reunidos na identidade física da personagem mãe, que ganhou jovialidade por meio da visão da aluna, mas que, cuidadosamente, expressou os olhos com a cor de olhos d’água.
| CONCEIÇÃO EVARISTO: A LEITURA DE CONTOS NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO |
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Colégio Estadual Marsomilto Alves Oliveira Pesquisador: Inimar Santos Junior Aluna: Martha Silva Produção Textual 20/10/2022 |
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Os olhos não veem, mas o coração sente Qual é a cor dos olhos do meu pai? Por que ele se esconde dos meus olhos? São tantas perguntas a serem respondidas, mas eu só queria saber o que ele esconde por trás de seus olhos. Sempre que me encontro dispersa, imagino como seria encará-lo, sem receios, sem medo e com reciprocidade, ou seja, uma troca de sentimentos, como amor e afeto. Olhei em seus olhos, até hoje, por apenas duas vezes, e só consigo lembrar de um olhar não verdadeiro; um olhar que não me trouxe segurança, conforto ou qualquer outra coisa que ele pudesse me fazer sentir. Meu pai não é um homem ruim, ele só não é um bom pai para mim. O que eu gostaria era poder olhar em seus olhos e sentir aconchego, amor e verdade, da mesma forma que outros filhos dele sentem. O Dia dos Pais representa um desafio, pois passei a entender o quão importante seria olhar em seus olhos. Nas apresentações escolares, eu procurava, com olhos tristes, os seus, mas encontrava apenas os olhos castanhos de minha mãe. Seus olhos, cheios de sentimento, me confortavam naqueles momentos, manifestando seu amor e o seu melhor para mim. |
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| CONCEIÇÃO EVARISTO: A LEITURA DE CONTOS NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO |
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Colégio Estadual Marsomilto Alves Oliveira Pesquisador: Inimar Santos Junior Aluna: Jade Abreu Produção Textual 23/10/2022 |
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Através dos meus olhos Essa história teve início há muitos anos, quando minha mãe estava com 17 anos, por sinal, a mesma idade que eu tenho agora. Naquela época, minha mãe morava com minha avó-bisa. Visto que ela era a neta mais velha, sempre foi muito paparicada. Aconteceu, nesse tempo, que ela veio a conhecer um rapaz, jogador de futebol. Ele ficou encantado por ela, coisa que não era muito difícil, visto que minha mãe demonstrava muita maturidade. No começo, ela nem se interessou por ele, mas, aos poucos, ele conseguiu conquistá-la e ganhar seu coração. Então, começaram a namorar, e ela logo ficou grávida. Eles ficaram muito felizes e decidiram morar juntos. No entanto, depois de algum tempo, ele começou a mudar. Passou a sair de casa e a beber. Passaram-se alguns meses, e chegou o momento de escolher o nome do bebê, o qual já sabiam que era uma menina! Sim, e essa é também a minha história! Um livro com muitos nomes sugeridos para bebês foi trazido por um amigo de minha mãe. Ela, por fim, optou por um nome lindo que estava no livro: Lorena. Porém, depois de transcorrido certo tempo e encerradas algumas euforias, as coisas começaram a dar errado na convivência entre meus pais, e, por isso, eles se separaram. Então, minha mãe me deixou morando com a minha avó, a mãe dela, da mesma forma como um dia minha avó a deixou com a avó-bisa. Mas minha mãe não me deu para ela, e, todo final de semana, vinha me visitar. Meus pais também tentaram uma reconciliação, mas não deu certo. Meu pai não era uma pessoa presente, talvez porque ele mesmo não tenha experimentado uma presença assim e nem tenha tido exemplos de bons casamentos para se inspirar. Afinal, não conseguiu ter um bom casamento com minha mãe. Ela o amava, mas seu amor-próprio sempre foi maior, e ela percebeu que eles não teriam um futuro bom juntos. Ela diz que ele foi o amor da vida dela, mas não o amor para a vida dela. Com o fim da união, meus pais assumiram novas relações afetivas. Meu pai se casou, mas não temos muito contato porque moramos em cidades diferentes. Minha mãe se casou com meu padrasto quando eu estava com oito anos. Minha mãe diz que ele é o amor para a vida dela, pois está sempre presente. Meu pai continua ausente em minha vida. Porém, nunca senti falta de um pai, porque meu padrasto sempre fez o papel de pai, e sempre vai ser meu pai. |
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O crítico literário Antonio Candido (1999) atribui à literatura uma função humanizadora, colaborativa com a formação do indivíduo, possibilitando que o leitor incorpore à sua experiência mais profunda aquilo que o escritor lhe oferece como visão da realidade. As produções das alunas Martha e Jade apresentam elementos comuns de um mesmo drama que afeta a muitos jovens, a saber, lidar com a separação dos pais. As produções escritas das duas discentes demonstram que a leitura do conto Olhos d’água fez emergir um momento de reflexão sobre suas próprias experiências vividas, e suas escrevivências evidenciam rastros de uma cultura machista que prevalece em diferentes níveis na sociedade, estampadas em seus textos no que se refere à responsabilidade para com a criação dos filhos. Com a dissolução da união parental, há um exacerbado afastamento da figura paterna da convivência com os filhos, que ficam, sobretudo, aos cuidados da mãe.
Evidentemente, a literatura não se aplica como instrumento para solucionar questões dessa natureza, bem como muitos outros dilemas que a sociedade humana enfrenta. Mas é inegável o valor da literatura no processo de compreender melhor o mundo e nossa realidade. Por exemplo, as leituras literárias realizadas neste estudo possibilitaram a estudantes como Martha a pensar criticamente sobre suas circunstâncias, seus sentimentos e, porventura, aceitar uma realidade que não pode mudar sozinha. Barthes (1995, p. 262) destaca a relevante singularidade da literatura ao dizer que “só se deve ensinar literatura”, visto que, por seu intermédio, é possível abordar todos os saberes. A partir da fruição literária, no exercício de leitura ficcional do conto, a discente se dispôs a confrontar sua própria memória de dor: “qual é a cor dos olhos de meu pai? Por que ele se esconde dos meus olhos?”
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Por sua vez, o relato da estudante Jade apresenta um ciclo que se renova. A mãe foi deixada para ser criada pela avó e então, na vida adulta, deixa igualmente sua filha com a mãe. Há uma certa tolerância, senão uma naturalização com o gesto de atribuir a prole aos cuidados da avó. Ao mesmo tempo, o papel do padrasto ganha o prestígio que costuma ser dado à figura do pai. Com isso, naturaliza-se o afastamento do pai que, em princípio, deveria manter sua presença, prestando apoio financeiro e emocional para o pleno desenvolvimento da criança. É certo que, social e culturalmente, o padrasto exerce um papel similar ao do pai. O que intencionamos destacar é que se trata de uma realidade complexa, que não é indolor para a criança ou adolescente, conforme percebemos em suas escrevivências. São pessoas e situações cuja escrita, assim como ocorre com a literatura afro-brasileira, constitui um ato de resistência diante da opressão imposta pela realidade.
Na aula seguinte, o conto escolhido para leitura trouxe um nome popular: Maria. A atmosfera que envolve o conto é mais densa e tensa. A personagem tipifica um perfil ainda muito comum entre as mulheres negras no Brasil, cujo exercício profissional acontece como trabalhadoras domésticas.
No enredo, Maria está em seu percurso de volta para casa após um dia exaustivo de trabalho, pois, na casa da patroa, havia acontecido uma festa no dia anterior. A patroa, generosamente, lhe ofereceu algumas sobras de alimentos que ficaram da festa. Maria recebeu uma gorjeta, algumas frutas que haviam enfeitado a mesa e um osso de pernil. Alegre, perguntava a si mesma se as crianças iriam gostar de melão, uma vez que os meninos nunca tinham experimentado a fruta.
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Ao entrar no ônibus, Maria encontra seu ex-companheiro. Como era difícil continuar a vida sem ele. Por um momento, o casal compartilha lembranças do passado, sim, do filho que tiveram juntos. “E o menino, Maria? Como vai o menino?”. No fundo, Maria sabia o que o homem dizia. Ela, mesmo sem ouvir direito, compreendeu que ele enviava um abraço ao menino. Em seguida, o homem levanta rápido e seu comparsa, no fundo do ônibus, anuncia um assalto. Maria teme por sua vida, lembra dos filhos que estão em casa à sua espera. “Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos?”. Os assaltantes desceram rápido do ônibus, mas um dos passageiros grita que: “aquela puta safada lá da frente conhecia os assaltantes” (Evaristo, 2020, p. 41). Os passageiros passam a hostilizar Maria. O motorista tenta convencer a todos de que ela era uma mulher trabalhadeira, que todos os dias apanhava o coletivo para ir ao trabalho. Ainda assim, os passageiros enfurecidos não poupam Maria.
“Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos! A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão” (Evaristo, 2020, p. 42). Quando a polícia chega, seu corpo já está todo dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto poder dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço.
Antes de iniciar a leitura do conto, disse aos alunos que o título da estória era de um nome próprio feminino muito comum em nosso país. A turma não teve dificuldade em adivinhar que o nome era Maria. Iniciei a leitura e, ao mesmo tempo, consegui perceber como a narrativa, a tensão e o suspense do enredo envolviam os estudantes. Pareciam dominados por uma certa ansiedade que torcia para um final feliz da protagonista, Maria. Sabemos, no entanto, que não é bem isso que acontece. Apesar de a narrativa gerar uma expectativa de que talvez ocorra um escape, o final trágico da personagem prevalece.
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Ao concluir a leitura do conto, ofereci aos estudantes a oportunidade de comentar sobre o que quisessem. Estavam um pouco mudos diante do aspecto de realidade que a narrativa apresenta. Uma discente, Nara, disse em tom de brincadeira: “Não gostei! Não teve final feliz! E as crianças, e o melão... elas nunca tinham comido melão, oras!”. Outros manifestaram essa mesma opinião e lamentaram o fim trágico da personagem Maria. Em seguida, a questão racial vem à tona a partir do comentário de Laiz, ao afirmar que “se fosse uma mulher branca talvez não tivesse acontecido assim. As pessoas se precipitaram, acreditaram que ela tinha culpa, que estava com os ladrões, por isso agrediram ela”.
Com foco nas mulheres negras, discutimos brevemente algumas questões sobre racismo, preconceito racial, violência e a participação no mercado de trabalho. Orientamos um pouco a conversa segundo Ribeiro (2019, p. 22), que pergunta: “o que, de fato, cada um de nós tem feito e pode fazer pela luta antirracista? [...] sobre a mulher negra incide a opressão de classe, de gênero e de raça, tornando o processo ainda mais complexo”. Outro fator considerado na aula foi a objetificação do corpo negro. De um lado, no que diz respeito aos homens, o estereótipo de virilidade e força. De outro lado, em relação às mulheres negras, forte discriminação, sexualização, alta participação no serviço doméstico sem garantias trabalhistas. Lembrei aos alunos que, na própria família de Conceição Evaristo, prevalecia uma tradição de trabalho doméstico entre as mulheres. Encerramos a discussão com um clipe da música de Milton Nascimento que homenageia a mulher brasileira: Maria, Maria.
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Merece destaque entre as produções dos alunos sobre esse conto, a pintura do aluno Caio e uma produção de texto da aluna Cláudia Souza.
A pintura em tela do aluno Caio apresenta um retrato autêntico da personagem Maria. O discente, que se dedica à pintura como hobby, se sentiu bem à vontade para expressar, por meio de sua arte, a forma como percebeu o universo da personagem. O forte impacto da imagem corrobora com a narrativa dramática do conto, marcada por um episódio de violência que acomete de forma trágica a personagem: Maria, mulher negra brasileira. Maria, Marias. Cuti (2010, p. 13) observa que “certa mordaça em torno da questão racial brasileira vem sendo rasgada por seguidas gerações, mas sua fibra é forte [...] A literatura, pois, precisa de forte antídoto contra o racismo nela entranhado”. A leitura do conto Maria ofereceu a oportunidade para um franco debate sobre questões raciais, e o trabalho em tela do aluno Caio aponta para uma leitura crítica do enredo, visto que esboça uma denúncia de violência contra uma mulher negra e pobre, o que provoca uma reflexão em torno da problemática racial em nosso país, que se desdobra sob várias formas de agressão contra a população negra brasileira.
O aspecto simbólico em torno do nome Maria, sinônimo de mulher forte e guerreira na voz do cantor Milton Nascimento, ampliou a perspectiva em torno da personagem e, com isso, alguns produziram textos para homenagear alguma mulher, dentre tantas Marias, que também lhe servem de referência, modelo de confiança. É o caso da produção textual da estudante Cláudia Souza, que destacamos a seguir.
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| CONCEIÇÃO EVARISTO: A LEITURA DE CONTOS NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO |
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Colégio Estadual Marsomilto Alves Oliveira Pesquisador: Inimar Santos Junior Aluna: Cláudia Souza Produção Textual 20/10/2022 |
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A minha Maria A minha Maria tem os olhos castanhos, os cabelos encaracolados e um sorriso deslumbrante, contagiante! É uma ajudadora em tudo o que é preciso, mas também dá conselhos e broncas quando necessário. Se nos desentendemos, como ocorre ocasionalmente, e ficamos sem conversar, eu me sinto muito mal. Temos uma personalidade parecida, e isso gera alguns conflitos. Ainda assim, não ficamos muito tempo sem nos falar, pois não há nada que mude a relação que tenho com minha Maria. Na verdade, eu a amo mais que tudo e, apesar das pequenas desavenças, meu mundo não existe sem ela. Minha Maria me ensinou tudo, menos a viver sem ela. A minha Maria é a minha mãe. |
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O que é importante destacar em relação à produção textual da discente é sua interação com o texto literário e a disposição para reconstruir a narrativa sob uma perspectiva mais afetuosa, buscando esses espaços a partir de leituras anteriores, como o conto Olhos d’água, e do embalo da música de Milton Nascimento, vista como um louvor em homenagem à mulher brasileira. Por isso, a forma tão especial como ela fala sobre sua mãe no texto, referindo-se a ela como sendo “minha Maria”. Esta não oferece apenas o tão esperado zelo e amor, mas também se indigna e dá broncas quando necessário. Apesar de relativamente curta, a produção de Cláudia evidencia marcas de interatividade com a linguagem estética literária, manifestadas em sua recepção do texto e em sua atividade discente com a escrita. Essa reação sensível ao conto aponta para a relevância que a literatura afro-brasileira assume no processo de formação do leitor literário na educação básica, pois “pela leitura sensível da literatura, o sujeito-leitor se constrói”.
Um dos acontecimentos mais marcantes do ano de 2022 foi a eleição para presidente do Brasil, que aconteceu em dois turnos. A polarização política experimentada pelo país ao longo do ano foi marcada por notícias falsas nas redes sociais; dúvidas e ameaças sobre o sistema eleitoral, com acusações sem provas sobre a confiabilidade e credibilidade das urnas eletrônicas; e investidas que buscaram fragilizar instituições democráticas, inclusive a Suprema Corte, ou que foram vistas como ameaça contra a estabilidade do Estado democrático nacional. Aos brasileiros e brasileiras restava apegar-se à esperança de ao menos sair de uma rota que parecia aumentar o fosso da desigualdade, da pobreza, da fome e do descaso com o meio ambiente. Por isso, escolhemos a leitura do conto Ayoluwa – a alegria de nosso povo, que destaca a renovação da esperança de uma comunidade. A leitura do conto aconteceu no início da semana que sucedeu o resultado do segundo turno das eleições presidenciais.
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O conto Ayoluwa é o último da coletânea Olhos d’água. É uma narrativa que se acomoda em pelo menos dois grandes eixos, a saber: a consciência histórica da degradação dos modos de sociabilidade negra, em resultado da marginalização econômica e cultural dos afrodescendentes brasileiros; e a projeção de uma utopia de renascimento do povo negro e a revitalização de sua cultura. De acordo com Jesus e Junior (2021, p. 114), “trata-se, pois, de um objeto estético e, ao mesmo tempo, político, que assume na luta, também literária e política, por um lugar na cultura e na sociedade brasileiras”.
O conto mobiliza um procedimento de memória e resistência que irá predominar ao longo da narrativa, em que nomes africanos têm o seu significado reforçado com a tradução em português. É o que acontece já a partir do próprio título, que apresenta um nome próprio em iorubá, Ayoluwa, cuja tradução equivale à alegria de nossas pessoas. Esse procedimento é usado pela narradora ao nomear as demais personagens: Bamidele, a esperança; Moyo, o que trazia boa saúde; Sele, a mulher forte como elefante, e outros.
Trata-se de uma narrativa estruturada em uma concepção binária, dividida em um antes e um depois do nascimento da menina Ayoluwa. Os eventos anteriores correspondem a um período de desalento que abateu a comunidade, resultando em morte para muitos de seus habitantes. “Todos estavam enfraquecidos e esquecidos da força que traziam no significado de seus próprios nomes [...] E até eles, os moços, começaram a se encafuar dentro deles mesmos, a se tornarem infelizes” (Evaristo, 2020, p. 112). A vida no povoado abrigava um estado de desesperançar, cuja marca era representada pela infertilidade e pela falta de nascimentos na comunidade. Nesse sentido, a perspectiva de chegada de uma nova vida, noticiada pela gravidez da jovem Bamidele, a esperança, assinala uma atitude de resistência coletiva, pois o enfrentamento dos infortúnios do mundo exige um grau de alegria e esperança, potências que viabilizam a sobrevivência e a superação de problemas. A descrição da narrativa que sucede o anúncio de Bamidele lembra o conceito de Paz (1982) sobre o poema, isto é, algo que vai além da linguagem, que tem o poder de nos tocar e emocionar. Encontramos tudo no conto Ayoluwa: desalento, sofrimento, morte, vida, alegria, esperança e poesia.
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A discussão pós-leitura ofereceu a oportunidade de discutir com os estudantes vários assuntos relacionados ao contexto do enredo e ao momento sociopolítico do país. Destaquei os nomes das personagens e sua importância na construção do enredo; o foco narrativo; e realizamos uma analogia referente ao antes e depois do nascimento de Ayoluwa com o antes e depois do período crítico da pandemia. Alguns comentaram sobre o elevado número de mortes, perdas na família, e, finalmente, o alívio de retornar para a escola.
Sobre as personagens do conto, a aluna Bia observou que achou interessante “mostrar os nomes e os significados para, então, ir construindo a estória”. Outros comentários pertinentes realizados pelos discentes estão destacados a seguir:
Caio: “o conto parece ter duas partes. O nascimento da criança trouxe de volta a esperança para os habitantes daquele lugar”.
Lúcia: “os habitantes daquele lugar, os velhos e os mais jovens, pareciam sofrer de depressão”. Essa discente fez um comparativo da narrativa com o novo quadro político que se desenhava no país com o resultado das eleições, que para ela representava um esperançar. Um pequeno texto foi produzido por ela, no qual fez questão de detalhar um pouco mais sobre suas esperanças.
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Colégio Estadual Marsomilto Alves Oliveira Pesquisador: Inimar Santos Junior Aluna: Lúçia Vieira Produção Textual 03/11/2022 |
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O esperançar de cada manhã A esperança vive em nós! Li em um dicionário que a esperança é um “sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja; confiança em coisas boas”. Eu tenho minhas esperanças para o mundo em que vivemos e espero um dia poder ver tudo realizado. Quase todos depositam suas esperanças em algo: mudar sua situação de vida, ver o mundo melhorar; a esperança de ver a pobreza e a fome acabarem; a esperança de que o preconceito seja completamente extinto, eliminado, e que as pessoas se sintam realmente livres para bem-viver suas vidas. Algumas de minhas boas esperanças incluem poder viver um amor sem medo algum de ser agredida; entrar nas lojas e não ser julgada pela minha cor; a esperança de ter boa saúde e viver muitos anos. Afinal, o esperançar é o que nos motiva a levantar a cada manhã com a expectativa de que algo melhor possa acontecer. Quanto a você, diga-me: quais são as suas esperanças? |
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Ayoluwa foi um conto de fácil aceitação; os alunos apreciaram a construção do enredo e acharam muito interessante o uso de nomes próprios e outros termos de origem africana, bem como sua tradução. Essa perspectiva autoral da narrativa lança luz sobre nossas raízes africanas e modos afro-brasileiros de dizer. Nesse sentido, a narradora “assume a função de porta-voz da história de sua comunidade/seu povo – o que implica o pertencimento a uma identidade” (Jesus; Junior, 2021, p. 117). Alguns alunos perguntaram se seus próprios nomes não teriam um significado especial; também ficaram satisfeitos com o final feliz do enredo e com a conversa que tivemos sobre ter esperança, apesar de enfrentar dificuldades.
Os estudantes participantes desse estudo são adolescentes com realidades diversas, por exemplo, no aspecto econômico, na vida familiar e nas responsabilidades individuais. Mas se aproximam muito em relação aos dilemas pessoais, aos sonhos e mesmo aos conflitos que eventualmente vivenciam em família. O conto Ayoluwa foi útil para pensar todas essas questões com uma postura de esperançar dias melhores.
O conto escolhido para a última etapa da sequência didática coincidiu com a aproximação do fim do ano letivo, já anunciando um período de recesso escolar e festas natalinas. Lumbiá é o que podemos chamar de um conto de Natal. E, como a época natalina bem se destaca, há espaço para um misto de sentimentos e acontecimentos marcados não só por alegrias, mas também por algumas tristezas. E é exatamente isso que o protagonista que dá nome ao conto irá performar no enredo.
Lumbiá é um moleque esperto, um típico garoto pobre de periferia, que logo cedo na vida, aprende que trabalhar e brincar são quase sempre faces de uma mesma moeda. Sim, Lumbiá é o que ironicamente poderíamos chamar de pequeno empreendedor, ou melhor, pequeno trabalhador que auxilia a mãe com a venda de guloseimas pelas ruas. No entanto, sua mercadoria favorita para venda são as rosas, oferecidas aos clientes sempre com muito estilo e elegância. Lumbiá gostava de observar os casais e suas trocas de carinho; escolhia sempre o melhor momento para apresentar aos enamorados as flores.
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Em certas ocasiões, Lumbiá simulava um choro para comover seus potenciais clientes. O choro que começava de forma dissimulada, por vezes, se convertia em uma experiência concreta de tristeza que se arraigava àquela vida difícil, marcada por mágoas. Lumbiá era uma criança deixada solta, desassistida, mas valiosa pelo lucro que produzia. O garoto tinha um fascínio pelo advento do Natal e pela imagem mais representativa desse período: o presépio com a imagem de Deus-menino.
No conto, acontece a divulgação de uma notícia que desperta o interesse de Lumbiá. A loja Casarão Iluminado havia armado o mais bonito presépio, mas as crianças só podiam visitar a loja para ver o presépio acompanhadas por um responsável. Lumbiá já havia visitado todos os presépios da região em que costumava trabalhar, mas precisava por tudo contemplar a imagem do Deus-menino exposta pelo Casarão Iluminado. Entretanto, já na véspera de Natal, Lumbiá ainda não conseguira ver o tão desejado presépio. Assim sendo, decide entrar de forma sorrateira, invisível aos olhos do segurança da loja. Fica tão deslumbrado com a imagem natalina que decide apanhá-la e levá-la consigo, e assim foge correndo em direção à rua. Mas o segurança percebe e tenta impedir. A cena final do conto descreve a fuga de Lumbiá em direção à rua sendo perseguido pelo segurança da loja. Então, “o sinal! O carro! Lumbiá! Pivete! Criança! Erê, Jesus Menino. Amassados, massacrados, quebrados! Deus-menino, Lumbiá morreu!” (Evaristo, 2020, p. 86).
Lumbiá é mais um conto da coletânea que emociona, envolve e cativa o leitor por meio de uma personagem que percebemos excluída e vivenciando uma rotina paradoxal em relação à sua faixa etária. Ao longo da leitura em voz alta que realizei, os alunos emitiram brados com risadas, palavras e reações que indicavam aprovação do jeito malandro de Lumbiá. Mas ficaram desapontados com seu final trágico. Esse foi um dos contos de maior participação dos estudantes em oferecer comentários. Tive a impressão de que estavam mais à vontade e seguros para participar; notaram que suas observações eram importantes para enriquecer a aula e que as perguntas que eu eventualmente fazia não eram aguardadas por uma “resposta correta”.
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A euforia manifestada pelos discentes com o personagem Lumbiá, no início, foi se transformando, ao longo da leitura do conto, em um sentimento de apreensão, talvez temendo um final infeliz para Lumbiá. E o desfecho do conto confirmou isso. O desfecho trágico fez eclodir alguns comentários dos estudantes logo após a leitura:
Lara – “poderia ter tido outro desfecho; ficaram algumas lacunas sobre o que aconteceu às outras crianças”.
Joana – participou dizendo que “o final é triste; a estória retrata a realidade de muitas crianças que trabalham manobradas pela família”.
Camila – “as pessoas sempre morrem, o final é triste. Retrata a realidade social”.
Os comentários dos discentes também focaram em outros temas. Por exemplo, Aline perguntou: “será que a mãe dele trabalhava? Os pais eram muito ausentes de sua vida”. Uma outra aluna acrescentou, dizendo que “Lumbiá esperou tanto para ver a imagem, o presépio... Se a mãe tivesse ido com ele, talvez não acontecesse o acidente”. O personagem Lumbiá foi visto como livre de preconceitos por alguns alunos. “Ele gostava de observar os casais semelhantes... ele não tinha nenhum tipo de preconceito”, foi um comentário que se repetiu.
Portanto, o conto Lumbiá obteve uma recepção animadora por parte dos alunos, em especial na introdução. Por outro lado, os discentes lamentaram a má sorte e o trágico fim do personagem ao final do enredo. Esse contentamento descontente lembra o que Barthes (1987, p.21) pondera sobre prazer e fruição do texto. “Texto de prazer: aquele que contenta, enche, dá euforia [...] está ligado a uma prática confortável de leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado)”. Trata-se de uma experiência que advém da fruição literária que conduz a uma realidade que não podemos ignorar: as desigualdades que marcam nossa sociedade e afetam adultos e crianças. Essa é a realidade que Conceição Evaristo faz emergir em suas narrativas.
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Depreendemos, a partir dos comentários dos estudantes, que Lumbiá se mostrou um personagem bastante verossímil. Isso porque personaliza um perfil social muito parecido com a realidade que lidam em seu cotidiano, o que envolve, inclusive, a necessidade de ingressar de forma precoce no mercado de trabalho e colaborar com as despesas da família.
Finalizando o estudo desse conto, sugeri uma atividade aos alunos: produzir um texto sobre sua celebração favorita ou escrever uma releitura do conto Lumbiá. Em uma dessas releituras, Lumbiá enfrenta as mesmas dificuldades para ver a imagem do Deus-menino, mas acontece um “milagre de Natal” e ele sobrevive ao atropelamento. Outros textos apresentaram relatos de celebrações preferidas pelos discentes. Natal e Réveillon apareceram com maior expressão. Essas comemorações ganharam uma perspectiva positiva nos relatos, destacando a união das famílias e o clima de otimismo e alegria que costuma marcar essas datas. Um dos discentes, Davi, escreveu que “essas datas são muito importantes para mim, pois além das comidas gostosas a família toda se reúne”.
A seguir, apresentamos na íntegra uma das produções de texto sobre o conto Lumbiá. O que vale a pena destacar a respeito dessas produções é a abertura e disposição que os discentes demonstraram para revisitar suas memórias afetivas, refletir sobre o sentido que diversas festividades assumem em nossa vida, as influências que essas celebrações recebem de outras culturas e a importância que ganham na construção de nossa identidade como pessoa, bem como na coletividade. Da mesma forma que absorvemos e construímos conceitos considerados positivos no âmago da interação social, é necessária ação e determinação para a desconstrução daqueles que oprimem, excluem e inferiorizam, sejam pessoas ou culturas historicamente discriminadas.
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| CONCEIÇÃO EVARISTO: A LEITURA DE CONTOS NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO |
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Colégio Estadual Marsomilto Alves Oliveira Pesquisador: Inimar Santos Junior Aluna: Marina Mendes Produção Textual 20/10/2022 |
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O Natal Natal não é somente uma data comemorativa, mas representa o nascimento de Jesus Cristo, apesar de muitas pessoas se importarem apenas com as festas e acabarem se esquecendo do verdadeiro significado dessa celebração. Na maioria das vezes, essa é a ocasião em que as famílias se reúnem para comemorar juntos o Natal, momento que acompanha troca de presentes e reflexão sobre os valores cristãos. Presentear nessa época é praticamente um costume mundial, o que beneficia muito as vendas no comércio, constituindo um dos períodos mais lucrativos do ano para a maioria dos lojistas. Percebo o Natal como uma véspera de ser feliz, de mostrar gratidão pelo que sou, pelas boas notas e pelos passeios na escola, bem como pelos momentos de diversão com amigos e familiares. Vejo o Natal como uma oportunidade de ser grata por tudo que acontece de bom em casa e em outros lugares em que estou. |
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| CONCEIÇÃO EVARISTO: A LEITURA DE CONTOS NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO |
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Colégio Estadual Marsomilto Alves Oliveira Pesquisador: Inimar Santos Junior Aluna: Natália Pires Produção Textual 20/10/2022 |
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Celebração de Ano Novo O que há de mais importante no Ano Novo? Penso que é importante ser grato pelo que temos e buscar maneiras de ajudar o próximo. Também gosto de passar tempo com meus entes queridos, refletindo sobre o ano que vai terminando e estabelecendo metas para o novo ano que se aproxima. No Ano Novo, podemos fazer resoluções com o objetivo de melhorar a nós mesmos e nossas vidas. Devemos ser positivos e pensar nas coisas boas que podem acontecer no ano seguinte. O melhor disso tudo é saber que as pessoas que eu amo estarão comigo, e poderemos fazer desse ano o melhor de todos, com nossas esperanças. Não são todos que pensam assim, até porque muitos perderam a fé em um novo começo. Talvez não consigamos passar o Ano Novo com quem gostariam; tenham perdido pessoas da família ou moram distantes. Felizmente, o Ano Novo ainda é importante e especial para mim. |
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As produções textuais das alunas Mariana e Natália, apesar de breves e com um conteúdo temático simples, apontam para o fato de que, na leitura literária, é possível oferecer ao leitor em formação a chance de experimentar, na sua fruição, algo semelhante à experiência de criação literária. As escrevivências do grupo de estudantes participantes deste estudo corroboram essa afirmação, visto que suas experiências de leitura literária interagiram com o processo de sua escrita textual, demonstrando, inclusive, um diálogo com suas próprias memórias, bem como uma atitude reflexiva sobre temas de relevância que permeiam a obra Olhos d ’água, de Conceição Evaristo. Com isso, não relutamos em confirmar que, de fato, a leitura de contos afro-brasileiros colabora com o processo de formação do leitor literário na educação básica e que, além disso, constitui leituras que participam de ações afirmativas educativas para uma formação humana antirracista, consciente e crítica, capaz de reconhecer que há humanidade na diversidade e que os saberes são igualmente plurais. Ao perguntar a um grupo de alunos de Educação Infantil o que significava escrevivência, Vitor, um aluno de seis anos, respondeu: “É escrever de nós”. Em outras palavras, a literatura afro-brasileira é fruição, mas também escrevivência.