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1. Conceição Evaristo: A escrita das vivências
Conceição Evaristo nasceu em 29 de dezembro de 1946, na capital mineira, Belo Horizonte. De família afrodescendente, de parentela humilde, sua mãe teve vários filhos, e desde muito jovem, Conceição ajudava a mãe e as tias em suas ocupações rotineiras, como a lavagem de roupas. Aos oito anos, teve seu primeiro emprego como empregada doméstica, e, ao longo do tempo, outros foram surgindo. No Brasil, a principal referência de trabalhadoras domésticas recai sobre as mulheres negras. Historicamente, é perceptível que o trabalho doméstico em nosso país é exercido, fundamentalmente, mulheres com mais melanina na pele. Assim, as experiências relatadas nas obras de Evaristo dificilmente seriam escritas por mulheres brancas que nunca vivenciaram, na pele, a junção das opressões de raça, classe, gênero e território. Outro aspecto de relevância em sua obra dialoga de perto com o Brasil atual, que retorna ao Mapa da Fome, segundo estatísticas das Nações Unidas. A escassez de comida e os perigos da vida, estampados com determinação nos contos de Evaristo, ficam patentes, esboçando um retrato realista do cotidiano de muitas brasileiras, de forma mais acentuada entre as mulheres pretas, que enfrentam o dilema das dificuldades para alimentar seus filhos.
Fonte: commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:ConceicaoEvaristo_(cropped).jpg
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Essa dura realidade não foi diferente para boa parte das mulheres da família de Conceição Evaristo. Ainda jovem, ela viveu um período ao lado da irmã mais velha de sua mãe, Maria Filomena, casada com Antônio João da Silva. Seu tio era pedreiro, e a tia, lavadeira de roupas, assim como sua mãe. Evaristo costuma dizer que não foi uma criança cercada de livros, mas era cercada de saberes e histórias que eram contadas por sua mãe e por tias. Além disso, “ouve histórias narradas pelos mais diversos habitantes da favela, que habitam os becos da sua memória-criança, quando vivia em Belo Horizonte” (Maringolo, 2017, p. 123). Aprovada para o magistério em 1973, muda-se para o Rio de Janeiro, cidade em que sua vida acadêmica ganha impulso. Defendeu sua tese de doutorado em 2011, na Universidade Federal Fluminense (UFF). (Brasil Escola, 2021).
Na construção de suas obras e na composição de suas personagens, Evaristo apoia-se predominantemente na memória do povo negro e a na diáspora africana. De acordo com Maringolo (2017), para a autora, a literatura afro-brasileira corresponde a um espaço quilombola por excelência, em que os sujeitos, criadores e narradores de seus discursos, libertam a palavra poética, instaurando um espaço de resistência.
Com a elaboração de suas personagens, Conceição Evaristo estabelece uma intersecção entre a vivência, a experiência das personagens e sua própria experiência de vida, isto é, os agora aspectos que marcaram e moldaram sua vida como mulher negra na sociedade. Essa criação estética corresponde ao que Evaristo convencionou chamar de escrevivência. Para Evaristo, tanto sua literatura como a de outros autores como ela, a literatura afro-brasileira concebe um corpus que expressa uma multiplicação de vozes sobre os fatos históricos, ressignificando o discurso oficial, tendo como arcabouço teórico a experiência desses sujeitos negros da sociedade. Maringolo (2017, p. 124) comenta que:
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a poética da escrevivência significa escrever sobre a vida, abarcando a experiência múltipla e diversa dos afrodescendentes; significa também utilizar retalhos de memórias para a construção das narrativas. Apoiada em sua vida, Conceição Evaristo confunde, inventa, cria e recria o material narrativo para a construção das narrativas.
De modo simples, a escrevivência pode ser entendida como contar uma estória a partir de um punto de vista individual, mas que ascende a uma coletividade. Trata-se de um conceito que pode ser concebido tanto como um processo de representação quanto como de autorrepresentação (Brasil Escola, 2021). Representação que remete ao povo negro, em especial às mulheres negras, e que, assim, é também parte da vida da própria escritora. Nesse sentido, escrever, publicar, corresponde a um ato político e de resistência que, especialmente no caso das mulheres negras, expõe, por meio da palavra, uma trajetória da comunidade ligada à diáspora africana, que a história, como ciência, não rara, costuma desprezar. De acordo com Evaristo (1996), a literatura afro-brasileira busca modos de enunciação positivos do sujeito negro, ou seja, tem efeitos de libertação e valorização dos atributos da negritude. Para Cuti (2010), a literatura negro-brasileira constitui um ato de resistência ao buscar seus próprios recursos formais e sugerir a necessidade de mudança estético-ideológica.
Em outras palavras, ao apropriar-se da criação estética sob uma perspectiva de experiência da pessoa negra, conferindo às personagens um espaço de protagonismo, tornar-se autor, escritor e narrador de suas experiências e de sua história, convergem a escrita em um ato político que vem de encontro ao que o projeto colonial predeterminou. Nesse sentido, a escrita constitui um ato de descolonização (Kilomba, 2019). Assim sendo, a utilização de nomes africanos nos contos de Conceição Evaristo, e de outros nomes que fazem referência à língua e à cultura Iorubá, servem para reafirmar a identidade negra e a herança africana em nossa cultura. É uma forma de reconhecer e valorizar nossa diversidade cultural, desconstruindo a ideia de uma influência cultural predominantemente eurocêntrica.
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Gomes (2021, p. 21) discorre sobre a importância do movimento negro brasileiro nesse processo como um ator político, visto que “ele organiza e sistematiza saberes específicos construídos pela população negra ao longo de sua experiência social, cultural, histórica, política e coletiva”. De fato, os saberes produzidos pela comunidade negra integram uma perspectiva humanizadora e emancipatória. Concordemente, ao pensar na formação do leitor literário na educação básica não podemos prescindir da literatura afro-brasileira visto que esta se mostra útil para entender, sob outro prisma, nossa realidade racial e social, valorizando a diversidade de nossa cultura e os saberes emancipatórios da comunidade negra. Concordamos com a afirmação de Ribeiro (2019, p. 64), ao afirmar que “se somos a maioria da população, nossas elaborações devem ser lidas, debatidas e citadas”.
Outrossim, torna-se pertinente destacar alguns títulos da produção literária de Conceição Evaristo, a saber, a obra Ponciá Vicêncio, romance publicado em 2003; Becos da memória (2006); Poemas da recordação e outros movimentos (2008); Insubmissas lágrimas de mulheres – contos (2011); Olhos D’água - contos (2014), obra que lhe granjeou o Prêmio Jabuti em 2015; Histórias de leves enganos e parecenças (2016), que reúne contos e novelas; Canção para ninar menino grande – romance (2018).
Toda essa diversidade, fruto de produção da escritora, confirma a observação de Bernd (2010) de que as vozes femininas têm contribuído sobremaneira para o amadurecimento da literatura afro-brasileira, por meio da apresentação de personagens negras em seu labor cotidiano, nos diálogos entre mãe e filha, que transmitem a herança dos substratos culturais africanos, pois, graças a essas trocas entre mães e filhas, essa cultura resistiu e embasa hoje a identidade negra, fundamento da literatura afro-brasileira. Conforme Bernd (2010, p. 3),
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oriundas de uma cultura de base oral, as comunidades negras no Brasil deixaram marca indelével em nosso cancioneiro e na MPB; a emergência de poemas e contos, cuja publicação vem se tornando contínua desde os anos 1970, é reveladora da migração da voz à letra – o que não representa de modo algum a negação do valor da oralidade (voz), mas desejo de (re)construção do identitário também no domínio da escrita (letra).
Por conseguinte, é importante destacar que, ao longo da história, diferentes povos classificaram a si mesmos e a outros a partir de uma concepção hierarquizante. Por isso, ao tentar compreender, problematizar e debater a cultura negra, não podemos ignorar a existência do racismo e da desigualdade entre negros e brancos na sociedade brasileira. Assim sendo, a escola deve atuar como um espaço em que o debate sobre as questões que afetam a população negra brasileira seja realizado, com o intuito de superar preconceitos e outras formas de agressão e violência, tendo em vista que, em uma sociedade racista, várias estratégias colaboram para a manutenção da discriminação do negro.
À vista disso, unimos nosso pensamento ao de Gomes (2003, p. 77) ao afirmar “que tratar, trabalhar, lidar, problematizar e discutir sobre educação e cultura negra no Brasil é assumir uma postura política”. As relações culturais e sociais entre negros e brancos em nosso país não podem ser pensadas como harmoniosas, democráticas e diluídas nas questões socioeconômicas. Por isso, como educadores, precisamos tornar a escola um espaço de representação da cultura afro-brasileira, o que inclui a literatura e o prestígio de autores e intelectuais negros, conferindo visibilidade às contribuições do continente africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural não só de nosso país, mas de toda a humanidade.
Na próxima seção, apresentamos um relato da experiência vivenciada com o grupo de estudantes participantes desta pesquisa, por ocasião da aplicação da sequência didática, o que incluiu a leitura e a realização de atividades a partir de quatro contos selecionados da obra Olhos d’água.