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Introdução
Este produto educacional integra a dissertação de mestrado Conceição Evaristo: a leitura de contos no processo de formação do leitor literário. Seu conteúdo apresenta como elemento principal as produções realizadas pelos alunos nas aulas em que realizamos a leitura dos contos escolhidos da obra Olhos d’água, da escritora mineira Conceição Evaristo. Essas leituras possibilitaram debates de temas importantes como o racismo, a violência contra a mulher, o trabalho infantil e dramas familiares. Além desses temas, a leitura dos contos proporcionou maior representatividade de nossa própria formação social, uma vez que os personagens são negros e vivenciam, nos enredos, conflitos que se manifestam de forma mais acentuada nesse grupo étnico. Foram selecionados quatro contos para leitura e estudo, a saber: “Olhos d’água”, “Maria”, “Ayolwua, a alegria de nosso povo” e “Lumbiá”.
Um dos contos que os alunos mais gostaram foi “Maria”. Nesse conto, há uma personagem que trabalha como empregada doméstica e que, em certo dia, está retornando do trabalho para casa. No dia anterior, aconteceu uma festa na casa da patroa e, por isso, Maria havia trabalhado muito. Ainda assim, estava contente, pois trazia para casa algumas sobras da festa, que incluía frutas e um osso de pernil.
“Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço” (Evaristo, 2020, p. 39).
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No percurso de volta para casa, Maria encontra seu ex-companheiro dentro do ônibus coletivo. Os dois têm uma conversa amigável; o homem pergunta sobre o filho e pede para que Maria lhe leve um abraço. Depois de se despedir de Maria, o homem saca uma arma, e seu outro parceiro anuncia um assalto. O comparsa veio do fundo do ônibus, recolhendo os pertences dos passageiros. A dupla desce do ônibus e vai embora. Contudo, os passageiros começam a acusar Maria de fazer parte da dupla de assaltantes e partem para a agressão física. Maria não resiste aos ferimentos, e, quando a polícia chega, seu corpo está estendido no chão.
A leitura desse conto surpreendeu muito os alunos por causa do impacto provocado por uma realidade que atinge muitas pessoas negras, vítimas de suspeitas e preconceitos de várias naturezas em nossa sociedade. Ver isso em uma obra literária permite uma reflexão crítica sobre essa realidade e colabora para uma autorreflexão sobre nossas atitudes e crenças. Isso nos habilita a tener uma noção mais concreta de algumas dificuldades que o negro brasileiro vivencia em seu cotidiano. Vale lembrar que o espaço da escola também pode abrigar situações de preconceito e racismo, daí a importância de abordar e refletir sobre essas temáticas no ambiente escolar.
Nesse sentido, acreditamos que a boa formação do leitor literário na educação básica deve se apoiar em uma formação antirracista que colabora para a formação humana, tornando o discente mais crítico e reflexivo, consciente de que nossa formação histórico-social advém de outros povos e culturas africanas. Esse é um passo importante para que, em alguns casos, os discentes se reconheçam como negros e estejam orgulhosos de sua ascendência afro-brasileira. Por isso, incentivar a leitura literária sem prescindir da literatura afro-brasileira torna-se fundamental, visto que, provavelmente, muitos só terão sua iniciação na leitura de obras literárias no espaço da escola.
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É a partir do hábito da leitura que as crianças desenvolvem e praticam a interpretação de texto, a escrita e a ampliação do vocabulário. A leitura literária forma a base do imaginário pessoal. Problemas referentes ao amor, à morte, ao ódio, à tristeza, ao casamento e às relações humanas são temas sempre presentes na literatura. Desse modo, as pessoas, em especial os mais jovens em idade escolar, podem extrair experiências, valores e formas de encarar as mais diversas situações. Tudo isso auxilia no crescimento moral, intelectual, emocional e social dos estudantes.
As produções dos estudantes participantes deste estudo constituem um esforço para implementação da Lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da cultura africana e afro-brasileira nas escolas do país. A escola tem o poder de transformar e agregar valores, abordando temas como a contribuição que os povos negros deram para o conhecimento científico e tecnológico e mostrando o continente africano sob outra perspectiva, como forma de desconstruir mitos e preconceitos a respeito das origens africanas.
Concordamos com Gill (2020) ao afirmar que os alunos não deveriam ser expostos aos textos literários para aprender literatura, mas para conhecer a literatura, vivenciar a leitura literária, construindo um repertório a partir do conhecimento de diversos gêneros, autores e estilos, para fruir do prazer estético do texto e, com isso, aprender a identificar suas preferências como leitores literários. Daí a nossa proposta de apresentar a literatura afro-brasileira como um estilo que não pode faltar à formação leitora dos jovens em idade escolar.
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O ensino da literatura não se justifica com uma finalidade pragmática, mas por contribuir com a formação do aluno como indivíduo social ou nas palavras de Candido (1999), por sua função humanizadora. Segundo o crítico, a literatura satisfaz a necessidade universal de fantasia, contribui para a formação da personalidade e faculta uma maior compreensão da realidade, pois o leitor incorpora à sua experiência humana aquilo que lhe é oferecido pela leitura literária. As produções escritas dos alunos apresentadas neste e-book evidenciam isso. A literatura provoca o leitor a pensar e a refletir sobre sua realidade.
Outrossim, a própria família pode desempenhar um papel-chave na formação do leitor literário. Se as primeiras experiências com a linguagem dão origem a esse processo, então os exemplos dos pais, dos irmãos mais velhos e de todos os que convivem com as crianças representam modelos a serem imitados. Ler para e junto com a criança na fase pré-escolar constitui uma base importante para as primeiras experiências com o universo da fabulação. Ao mesmo tempo, percebemos o espaço escolar como locus privilegiado para a formação de leitores, pois atua como um dos espaços de democratização do acesso ao livro, visto que a maioria das escolas conta com espaços destinados à biblioteca.
Por conseguinte, apresentamos este produto educacional em formato de e-book resultante da pesquisa de mestrado intitulada Conceição Evaristo: a leitura de contos no processo de formação do leitor literário, do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Educação Básica do CEPAE/UFG. Esse estudo, definido como uma pesquisa-ação, com base em Gil (2019), foi desenvolvido em uma escola da rede estadual de Goiás, com um grupo participante de 30 estudantes de uma turma do 1º ano do Ensino Médio. O aporte teórico reuniu vários autores que se dedicam à produção intelectual de crítica literária e à discussão da cultura afro-brasileira. Ao longo do estudo e da aplicação da sequência didática, os estudantes realizaram a leitura de quatro contos selecionados da obra de Evaristo: Olhos d’água, Maria, Lumbiá e Ayoluwa – a alegria de nosso povo. As leituras foram realizadas com mediação do professor pesquisador, o que suscitou alguns debates em torno dos temas explorados nas narrativas, em geral, relacionados aos dramas vivenciados pela população negra brasileira.
Na próxima seção, apresentamos alguns dados biográficos da escritora Conceição Evaristo e sua importância para a literatura brasileira no contexto atual. Posteriormente, discorreremos sobre a experiência vivenciada com os estudantes participantes da pesquisa e da aplicação da sequência didática.